De Troika/CE salva Bancos e mata Cidadãos a 12 de Maio de 2014 às 15:24
A tróica em Portugal e Grécia para salvar os bancos alemães e franceses

Philippe Legrain, foi conselheiro económico independente de Durão Barroso, presidente da Comissão Europeia, entre Fev. 2011 e Fev.2014, o que lhe permitiu acompanhar por dentro o essencial da gestão da crise do euro. A sua opinião, muito CRÍTICA, do que foi feito pelos LÍDERES do euro, está expressa no livro que acabou de publicar “European Spring: Why our Economies and Politics are in a mess”.
Isabel Arriaga e Cunha entrevistou-o, em Bruxelas e saiu hoje no Público.

Philippe Legrain explica que em Portugal não havia uma crise soberana pois a dívida do Estado português antes da crise era, em termos percentuais idêntica à da Alemanha (68% do PIB).
Havia sim uma dívida muito grande (200% do PIB) mas privada e uma dívida que directamente ou indirectamente atingia os bancos alemães e franceses e portanto quem necessitava de um resgate eram os bancos
mas isso, como se sabe, é uma coisa perigosíssima que põe em causa os fundamentos da sociedade e até da própria civilização porque atinge o bolso dos multimilionários, molesta os grandes accionistas dos bancos,
gente que necessita de ganhar muitos milhões todos os anos e atinge os seus gestores, pessoas respeitabilíssimas de ordenados sempre acima dos 100 mil euros/mês.

De modo que sob a batuta de Merkel (dos bancos alemães) e com a cumplicidade do Presidente da Comissão Europeia, Durão Barroso, transformou-se a crise bancária em crise soberana, salvam-se os bancos alemães e franceses, os portugueses e os gregos, com o dinheiro do contribuinte português e grego.
Desemprego, miséria, ruina da economia. Paciência. Saída limpa.

Extratos da entrevista a Philippe Legrain:
--A tese do seu livro é que a gestão da crise da dívida, ou crise do euro, foi totalmente inepta, errada e irresponsável, e que todas as consequências económicas e sociais poderiam ter sido evitadas. Porque é que as coisas se passaram assim? O que é que aconteceu?
Uma grande parte da explicação é que o sector bancário dominou os governos de todos os países e as instituições da zona euro. Foi por isso que, quando a crise financeira rebentou, foram todos a correr salvar os bancos, com consequências muito severas para as finanças públicas e sem resolver os problemas do sector bancário.
-- Como assim?
… As pessoas elogiam muito o sucesso do programa português, mas basta olhar para as previsões iniciais para a dívida pública e ver a situação da dívida agora para se perceber que não é, de modo algum, um programa bem sucedido.
Portugal está mais endividado que antes por causa do programa, e a dívida privada não caiu.
Portugal está mesmo em pior estado do que estava no início do programa.
--Quando diz que os Governos e instituições estavam dominados pelos bancos quer dizer o quê?
Quero dizer que os Governos puseram os interesses dos bancos à frente dos interesses dos cidadãos. Por várias razões. …
Muitos políticos seniores ou trabalharam para bancos antes, ou esperam trabalhar para bancos depois. Há uma relação quase CORRUPTA entre bancos e políticos. …
--Também diz no seu livro que quando foi conselheiro de Durão Barroso, o avisou claramente logo no início sobre o que deveria ser feito, ou seja, limpar os balanços dos bancos e reestruturar a dívida grega.
O que é que aconteceu? Ele não percebeu o que estava em causa, ou percebeu mas não quis enfrentar a Alemanha e a França?
… Infelizmente, apesar de termos tido muitas e boas conversas em privado, os meus conselhos não foram seguidos.
--Porquê? Será que a Comissão não percebeu? A Comissão tem a reputação de não ter nem o conhecimento nem a experiência para lidar com uma crise destas. Foi esse o problema?
… Ou seja, a Comissão poderia ter desempenhado um papel muito mais construtivo enquanto alternativa à linha única alemã.
E, por fim, é que, embora seja politicamente fraca, a Comissão tem um grande poder institucional. … Houve orientação política, só que vinha da Alemanha. … a Alemanha tentou redesenhar a Europa no seu próprio interesse.
É por isso que temos uma Alemanha quase-hegemónica, o que é muito destrutivo. …
--Então para si, a crise do euro foi antes de mais uma crise bancária mal gerida....
Foi. É antes de mais uma crise bancária.
...


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