De Neoliberais, Nacionalismo, ... Na-(so)Zi a 4 de Junho de 2014 às 10:27

Romper o "duplo vínculo" da opção entre austeritarismo e nacionalismo

(-por Miguel Serras Pereira, Vias de facto, 3/6/2014)

Um comentador anónimo acusa-me de ao criticar o nacionalismo de Jorge Bateira (http://www.ionline.pt/iopiniao/tiro-no-coracao-federalismo/pag/-1) adoptar uma posição que, no imediato, não se distingue daqueles que chama os "neoliberais" no que se refere à questão europeia.
Dada a importância da questão — apesar da fraqueza dos argumentos do referido comentador — e a extensão da resposta, opto por dar-lhe aqui a forma de post.
Anónimo,
-- os "neoliberais", como você lhes chama, são em boa medida responsáveis pelo surto nacionalista,
e pretendem agora combatê-lo reforçando os mecanismos de cooptação nas cúpulas e outros métodos antidemocráticos.
É essa a lógica do austeritarismo, que, desde o início da crise (e já antes disso) tenho, como outros denunciado.
Mas responder-lhe com o nacionalismo é juntar à peste a fome e a guerra.
É o que, apesar de tudo, um "keynesiano de esquerda" como Vicenç Navarro — para recorrer ao título que lhe dava aclamando-o um neo-"patriota de esquerda" como João Rodrigues, que hoje cerra fileiras ao lado de Jorge Bateira — compreendeu bem nesta breve análise que tem pontos de convergência importantes com a que o colectivo do Passa Palavra acaba também de publicar conforme refiro alhures.

Vicenç Navarro: "O caso da França é claro. A Frente Nacional, dirigida por Le Pen, foi a que utilizou, durante a campanha das eleições para o Parlamento Europeu,
um discurso mobilizador da classe trabalhadora, apresentando-se, a si mesma, sem nenhuma inibição, como o melhor instrumento para defender os interesses da classe trabalhadora, na luta de classes,
frente à oligarquia nacional que atraiçoara a pátria, vendendo-se à Troika.
É o nacional-socialismo (-->NaZi), que, historicamente, teve uma base operária e que, agora, a recupera, com a cumplicidade da esquerda tradicional (muito especialmente a social-democracia),
ao impor políticas que prejudicam os interesses das classes trabalhadoras, para aumentar os lucros do capital.
Neste discurso, a luta de classes e a identidade nacional são idênticas, utilizando a bandeira e a defesa da identidade e da pátria como princípios mobilizadores.
Foi uma mistura ideológica imbatível. Era lógico e predizível que o fascismo ocupasse o vazio criado pelo socialismo e comunismo.
No domingo passado, Le Pen conseguiu o apoio de 30% dos jovens e 43% dos trabalhadores franceses".

Colectivo do Passa Palavra: "A crítica da austeridade só é completa se criticar com igual veemência o nacionalismo que a agrava e procura replicá-la num grau imensamente superior.
Sem esta dupla crítica, a esquerda radical corre o risco de ficar cada vez aprisionada numa teia que tem escapado das suas reflexões.
Repetimos: mais de 20 anos após o colapso da URSS, eis que em Portugal os herdeiros do estalinismo têm mais peso e influência eleitoral e social do que o conjunto das outras correntes à esquerda.
A restante esquerda vai continuar a deixar passar em branco este fenómeno ou irá finalmente reflectir nas suas implicações?"

Em suma, e como escreve Yves Pagès num balanço excelentemente apresentado pelo Jorge Valadas:
"nunca é tarde para levantar cabeça e não ceder à resignação comum, induzida por este «duplo vínculo» mortífero:
ou o pragmatismo económico ou o perigo populista;
para encontrar a força colectiva de neutralizar a alternativa VICIADA que pretendem agora IMPOR-nos:
apertar o cinto com o FMI ou cair sob a bota das centúrias fascista".

----- Niet disse...
A.Esquerre e L Boltanski publicaram um texto surpreendente no Libération sobre
o perigo da deriva neo-fascista criada pela vitória eleitoral do Front National na disputa em França das Eleições Europeias.
A análise- que invoca em termos dilacerantes a necessidade de uma Ontologia da Actualidade-
foca a gravidade da conquista pelo FN de Marinne Le Pen de duas posições estratégicas-
o Ultraconservadorismo e a Xenofobia- que serviram de terreno incendiário nuclear para a ascensão da direita radical neo-nazi nos anos 30.
In " Front National: de quel peuple parle-t-on? ",Libé.29/05


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