Educação, numérico desgoverno neoliberal e competição -vs- cooperação

Governar para números ou governar para pessoas?

        O filósofo Slavoj Zizek citou T. S. Elliot num comício da Syriza para dizer que “há momentos em que a única escolha é entre a heresia e a descrença”. E clarificou a ideia afirmando que “só uma nova heresia, representada hoje pela Syriza, pode salvar o que vale a pena salvar do legado europeu: democracia, confiança nas pessoas, igualdade e solidariedade”.

     O estado em que a política educativa dos dois últimos governos colocou escolas e professores faz-me suspirar por um “momento Syriza” na Educação. Por uma nova heresia, que coloque cooperação onde hoje está competição. Porque a cooperação aproxima-nos e sedimenta-nos enquanto grupo e a competição, ampliando as diferenças, afasta-nos, isolados por egoísmos. Porque a cooperação serve as pessoas e harmoniza-as, tal como a competição, hoje sacralizada na nossa cultura, serve os números e os conflitos.

     Informação constante de um novo portal do Ministério da Educação e Ciência veio dizer-nos que há 24 escolas onde são dadas todos os anos notas internas significativamente mais favoráveis do que as conseguidas nos exames nacionais. Daí a mais um lance na competição público versus privado foi um passo, sem espaço para assumir que se comparam coisas diferentes: num caso o conhecimento científico demonstrado num só teste; no outro caso o percurso de um ano de desempenho num ambiente pluridisciplinar e multifactorial, sendo que alguns desses factores de classificação são bem relevantes para a formação integral do aluno e para a sua maturidade cívica.

     Os exames nacionais e os testes estandardizados internacionais têm vindo a assumir uma dominância evidente na concepção das políticas para a Educação definidas pelos dois últimos governos. E essa dominância tem a sua génese na nossa intestina tendência para importar modismos alheios. Com efeito, quando a Escola se manifestou em crise um pouco por todo o mundo ocidental e alguns teóricos começaram a clamar contra determinados métodos pedagógicos e o que consideravam autonomia excessiva dos professores, primeiro, e emergiram as primeiras tendências para encarar a Educação como serviço passível de ser submetido a regras de mercado (com o concomitante discurso da liberdade de escolha por parte das famílias), depois, logo surgiram as pressões para introduzir nos sistemas de ensino instrumentos que tudo medissem, particularmente resultados.

     Recorde-se, a propósito, duas referências incontornáveis, que continuam a produzir efeitos retardados entre nós e que nos levam aos ventos que sopraram de Inglaterra em 1976 e dos EUA em 1983. Refiro-me à iniciativa reformista de James Callagahan sobre Educação, que ficaria conhecida por “The Great Debate”, em que o primeiro-ministro de então do Reino Unido lamenta a falta de rentabilidade dos professores e das escolas, pede maior controlo da qualidade dos docentes e clama pela reorientação precoce da educação para os aspectos vocacionais, qual discurso profético que seria retomado pelo nosso ministro da Educação, 43 anos mais tarde. E refiro-me ao relatório A Nation at Risk: The Imperative for Educational Reform, produzido a pedido de Ronald Reagan, cuja violência classificativa do trabalho dos professores e da escola americana está bem traduzida nesta frase, que o integra, a qual, fora ela do conhecimento do nosso primeiro-ministro e certamente teria substituído, 32 anos volvidos, a metáfora da salsicha educativa: “Se um poder estrangeiro tivesse tentado impor à América a mediocridade do desempenho educacional que hoje existe, deveríamos ter encarado esse acto como um acto de guerra.

     Não é, portanto, de modo solitário no contexto internacional que a novilíngua classificativa portuguesa em matéria de Educação se tem desenvolvido centrada em metas, testes e exames, apesar de todos sabermos que nenhum sistema sério de prestação de contas em Educação se esgota no despejo sistemático sobre a sociedade dos resultados de testes, mesmo que estandardizados, e de exames nacionais. Tanto pior quando esses resultados de alunos são o critério primeiro para avaliar escolas e professores. Mais: mostra-nos a história recente que os governos que assim procederam acabaram, por via das ideologias neoliberais que adoptaram, a utilizar os resultados como estratégia para induzir medidas de privatização e promoção de lógicas de educação como serviço sujeito a regras de mercado.

    É tempo, pois, de procedermos a uma reflexão despida de preconceitos ideológicos sobre o seu contributo técnico para a decantada “accountability” educacional. Porque muito do que deve contar em Educação não pode ser medido e é de comparação difícil. Porque, no dizer de Licínio Lima, “enquanto orientação política, a educação contábil evidencia uma alta capacidade de discriminação da educação que conta e da educação que não conta, ou conta menos”.

-- (em comentários: críticas à Prova de Avaliação e ao desAcordo Ortográfico,...) 



Publicado por Xa2 às 07:36 de 28.01.15 | link do post | comentar |

3 comentários:
De Avaliação professores e desAcordo Ortogr a 2 de Fevereiro de 2015 às 15:50
Acerca da competência dos professores

( http://destrezadasduvidas.blogspot.pt/2015/02/acerca-da-competencia-dos-professores.html#comment-form , 1/2/2015)
...
... ...
... E, finalmente, temos de ter em conta a lei dos números grandes:
quando submetemos tanta gente a exames, é natural que as caudas da distribuição sejam preenchidas, isto é, está dentro da distribuição normal que haja pessoas que dêem 20 erros numa frase e outras com ortografia perfeita.
Acho muito mais interessante saber se essas observações na cauda má da distribuição foram bem medidas para saber se não são fruto de erro e as pessoas têm realmente deficiências de ortografia.

Concluindo, a discussão acerca da avaliação dos professores tem sido muito decepcionante porque, mais uma vez, se insiste em faltar ao respeito às pessoas, causa-se stress na sociedade, e entra-se num ciclo vicioso que, em vez de avançar o país, o mantém num estado de permanente crise. Os nossos governantes dizem coisas irrelevantes, que não resolvem a questão principal, e que é: tendo nós um excesso de professores no sistema, temos de encontrar uma boa forma de seleccionar os melhores para continuarem no sistema. Seria bom para Nuno Crato investir nas suas qualificações leves ("soft skills") e dizer às pessoas que:

É normal que haja pessoas com muitos erros, nós não sabemos as causas dos mesmos, e não podemos concluir grande coisa sem investigar melhor os resultados.
É pena que todos os professores não possam ser contratados, mas o governo está a trabalhar para dinamizar a economia para que essas pessoas possam encontrar empregos noutras áreas.
... ...
---------------
------M.Silva:
... A formulação da famosa pergunta dos jogadores da selecção, a que mais respostas erradas teve, e o facto de se dizer no enunciado que se evacuavam pessoas não parece abonarem em favor da competência de quem fez a prova.
Como se sabe, evacuam-se os locais, não as pessoas.
------Rita Carreira:
Pode fazer sentido exigir o novo AO, mas também faz sentido perguntar quem tem mais probabilidade de dar erros de acordo com o novo AO e eu penso que, quem faz a correcção dos exames, tem uma probabilidade maior do que os professores mais jovens que estão a ser submetidos ao exame.

Eu não tenho problema com o método em si de se usar um exame para avaliar professores. Eu tenho problema em se usar resultados pontuais do exame para condenar uma classe inteira de pessoas. Está estatisticamente incorrecto e é intelectualmente desonesto.

-----C.Duarte:
(des Acordo Ortográfico na CPLP:)

Já que estamos com minudências, o AO não está em vigor e o Estado pode correr e saltar que não está.
Pela própria definição e características do Acordo, a sua vigência (ou força de lei) apenas se manifesta quando o mesmo for ratificado pela maioria dos signatários.
Ora isso não aconteceu, com os países africanos (com Angola à cabeça) (nem Brasil) a deixar bem claro que nunca o irá fazer.

Nós, por outro lado e como de costume, estamos a armarmo-nos em progressistas legais e temos um Estado que se obriga (e obriga outros) a cumprir algo que, legalmente, não existe.
Repito, o acordo LEGALMENTE não está em vigor.

Quanto à prova, não tenho nenhum problema com uma prova de acesso por parte do ME. O ME é um empregador e tem todo o direito de criar um método para seriar e seleccionar candidatos.
Sendo, no entanto, um ramo do Estado, seria preferível que o tal método fosse escolhido com a concordância dos parceiros (...).

Outra hipótese, e por muito que custe aos anti-corporativistas, é criar a tal Ordem dos Professores e limitar o acesso ao ensino público a membros da mesma.
Resultou com outras profissões e depois não podem acusar o ME de ser ele que não deixa...



De Inépcia na Prova de Avaliação de Profess a 2 de Fevereiro de 2015 às 15:56
Do pior do Crato
(Min. Educação e do desacordo Ortográfico)


«Dezenas de analfabetos que gostam de se dar ares fizeram um escândalo com o aparente excesso de erros de ortografia, pontuação e sintaxe dos 2490 professores que se apresentaram à “Prova de Avaliação de Conhecimentos e Capacidades” (PACC). Deus lhes dê juízo.

Para começar, não há em Portugal uma ortografia estabelecida pelo uso ou pela autoridade.
Antes do acordo com o Brasil – um inqualificável gesto de servilismo e de ganância –, já era tudo uma confusão.
Hoje, mesmo nos jornais, muita gente se sente obrigada a declarar que espécie de ortografia escolheu.
Pior ainda, as regras de pontuação e de sintaxe variam de tal maneira que se tornaram largamente arbitrárias.
Já para não falar na redundância e na impropriedade da língua pública que por aí se usa, nas legendas da televisão, que transformaram o português numa caricatura de si próprio;
ou na importação sistemática de anglicismos, derivados do “baixo” inglês da economia e de Bruxelas.

De qualquer maneira, a pergunta da PACC em que os professores mais falharam acabou por ser a seguinte:
“O seleccionador nacional convocou 17 jogadores para o próximo jogo de futebol (para que seria?). Destes 17 jogadores, 6 ficarão no banco como suplentes.
Supondo que o seleccionador pode escolher os seis suplentes sem qualquer critério que restrinja a sua escolha, poderemos afirmar que o número de grupos diferentes de jogadores suplentes (é inferior, superior ou igual) ao número de grupos diferentes de jogadores efectivos.”
Excepto se a palavra “grupo” designar um conceito matemático universalmente conhecido, a pergunta não faz sentido.
Grupos de quê? De jogadores de ataque, de médios, de defesas? Grupos dos que jogam no estrangeiro e dos que, por acaso, jogam aqui? Não se sabe e não existe maneira de descobrir ou de responder.
O dr. Crato perdeu a cabeça. Na terceira pergunta em que os professores mais falharam, o dr. Crato agarrou nas considerações tristemente acéfalas de um cavalheiro americano sobre “impressão e fabrico” de livros.
Esse cavalheiro pensa que há “livros em que a beleza é um desiderato” (ou seja, a beleza do objecto) e outros “em que o encanto não é factor de importância material” (em inglês, “material” não significa o que o autor da PACC manifestamente julga). E o homenzinho acrescenta pressurosamente:
“Quando tentamos uma classificação, a distinção parece assentar entre uma obra útil e uma obra de arte literária”.
A obra de arte pede beleza ao tipógrafo (ao tipógrafo?), a obra útil só pede “legibilidade e comodidade de consulta”.
Perante este extraordinário cretinismo, a PACC exige que os professores digam se o “excerto” “ilustra” os dois termos de uma comparação, o primeiro, o segundo ou nenhum deles.
Uma pessoa pasma como indivíduos com tão pouca educação e tão pouca inteligência se atrevem a “avaliar” alguém.»

(-por Vasco Pulido Valente, Público,
http://portugaldospequeninos.blogs.sapo.pt/do-pior-do-crato-3694879 )


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