Empresas-app exploram precariedade em economia desregulada

 

Um futuro que não seja velho 

 «A precariedade não é liberdade, muito menos oportunidade. A precariedade é uma praga que se alastrou a todos os setores, do espetáculo à Função Pública, dos supermercados aos gabinetes de advogados. A precariedade é um futuro velho, de praças de jorna e engajadores, com trabalhadores recrutados ao dia no Arsenal do Alfeite. São contratos diários ou semanais, mal pagos, renovados durante décadas nos call centers das grandes empresas. São anos de trabalho gratuito em estágios que nunca bastam para um emprego. A precariedade é o contrário do progresso, é a negação dos direitos conquistados pela dignidade do trabalho.»- Mariana Mortágua
 

Luta nos aplicativos: a greve da Foodora na Itália     (-http://passapalavra.info, 12/12/2016)

A imagem da “economia compartilhada” (ou 'colaborativa') começou a ruir quando os trabalhadores reagiram à redução do pagamento das entregas. (- Por Struggles In Italy)

1. Economia compartilhada?

Os jornais noticiam todos os dias o quanto nosso mundo está mudando por causa das tecnologias digitais. É comum lermos sobre a automatização total, a digitalização da vida e o fim do trabalho. Todos esses temas estão entrelaçados na economia compartilhada: aplicativos (aplicações informáticas, apps) que conectam a oferta e a procura para compartilhar alguma coisa. A Foodora não é um desses, já que nada é compartilhado. Foodora é parte da “gig-economy” (economia dos 'biscates'), como o Uber, MechanicalTurk ou Task Rabbit.

A Foodora dá aos restaurantes a possibilidade de terem novos clientes provendo uma frota flexível de entregadores. Um aplicativo monitora as compras e as atribui a entregadores com base num algoritmo que calcula velocidade e distâncias. Os restaurantes conseguem novos pedidos sem precisarem empregar mais ninguém, pagando só 30% a cada entrega completa, o que significa que eles não têm nenhum gasto adicional. Os clientes recebem, em casa, a comida que escolherem de uma vasta variedade de restaurantes pagando 2,90 euros por delivery. Jovens ciclistas, que a empresa chama de “riders” (mesmo em italiano) tentam ganhar algum dinheiro pedalando pela cidade em seu tempo livre. A Foodora, outrora uma startup criada em Berlim, cresceu como um negócio internacional, operando em 10 países e 36 cidades. Faz dois anos que ela chegou na Itália, primeiro em Turim e Milão (na região do Norte) e em breve vai se expandir para Roma, com projeção do volume de vendas subindo numa taxa de 75% por mês.

Atualmente os entregadores, cerca de 300 em Turim e 600 em Milão, não são empregados diretamente pela empresa. Ao invés disso, eles são contratados por uma estrutura conhecida como “co.co.co” (“contrato por colaboração continuada em um projeto”). Tais contratos fazem com que, na prática, os entregadores sejam considerados trabalhadores autônomos colaborando com a empresa, o que permite que ela evite as leis (código) do trabalho que se aplicam a trabalhadores diretos.

2. Foodora na Itália

Ainda que tenha sido vendida por uma cifra de dezenas de milhões de euros, a Foodora tem o típico apelo de um startup: pessoas jovens e internacionalmente amigáveis trabalhando em um escritório de espaço aberto em Berlim e jovens estudantes entregando comida de bicicleta como um bico fácil.

 Os administradores, todos com menos de 30 anos, se encontram de vez em quando em um espaço de trabalho compartilhado no centro da cidade, são despojados e usam palavras em inglês. A frota de entregadores também é jovem, educada, e recebe 5 euros por hora.

Essa imagem começou a ruir em agosto, quando os entregadores da Deliveroo [aplicativo de delivery] em Londres entraram em greve e, um mês depois, seus colegas em Paris também protestaram. Em linhas gerais, o motivo era que a empresa, depois de ter atraído um certo número de “trabalhadores”, mudou a forma de pagamento fixo e passou a pagar só a cada delivery.

Desde que a empresa abriu na Itália, os trabalhadores vieram se encontrando e conversando entre si informalmente, sobretudo nos momentos de espera entre as entregas. Eles organizaram assembleias informais, fazendo até algumas reuniões com a administração para discutir problemas. Quando uma mudança de contrato semelhante à de Paris e Londres ocorreu na Foodora em Turim, o movimento veio à tona.

foodora4Entre os trabalhadores de serviços de delivery, os problemas mais comuns talvez sejam o tempo ruim e os deslocamentos por longas distâncias (de 60 a 80 km a cada turno, no caso do Foodora). Também não é novidade o enorme tempo de espera até que a comida fique pronta e a próxima entrega.

A natureza digital da relação de trabalho implica, porém, em aspectos completamente novos. O tempo de trabalho é 24h em 7 dias, quer dizer, não há divisão entre trabalho e tempo de folga. Teoricamente, os entregadores podem decidir quando estão disponíveis, entretanto eles não sabem quando vão de fato trabalhar, uma vez que a gestão decide aceitar, modificar ou até deletar expedientes a qualquer momento, inclusive durante a próprio expediente. Conforme um algoritmo determina, em tempo real, os ritmos de trabalho (de acordo com o volume de pedidos e a posição dos entregadores), há horas de rush absoluto e horas de completo marasmo. Sem falar que tanto a bicicleta quanto o telefone são providos pelo próprios entregadores, sendo responsabilidade deles os custos de manutenção e conserto. Em algumas entrevistas, os trabalhadores mencionaram problemas de privacidade, uma vez que a geolocalização contínua vai contra a lei de privacidade, especialmente quando feita por um app das lojas da Apple ou da Google Play.  Tudo isso por 500 euros mensais, trabalhando 25 horas a cada semana.

3. Novas condições e primeiras greves

Os entregadores reivindicaram melhores condições de trabalho. Em maio de 2016, escreveram uma carta assinada por 85 dos 100 trabalhadores, mas os pedidos foram respondidos com um misto de procrastinação e justificativas, por exemplo, de que a diretoria da empresa estaria fora no momento. Enfim, em junho ocorreu uma reunião, mas os administradores disseram que o contrato não poderia ser modificado. O que transformou a insatisfação em protesto foi que o contrato poderia, sim, ser modificado, e a empresa o modificou.

Em setembro, a Foodora lançou um novo contrato, que iria ser aplicado aos novos entregadores e, a partir de novembro, para todos. Esse novo contrato acabava com o pagamento fixo, substituindo-o por um variável: 2,70 euros por entrega. Como se fossem operários de fábrica, os entregadores não podem influenciar sobre o número de entregas a cada expediente, mas ainda é esse número que determina seu pagamento. Para receberem 500 euros, eles teriam que fazer uma entrega a cada meia hora a qualquer hora, independentemente do dia, tempo ou época do ano.

foodora7O diretor administrativo, Gianluca Cocco, se recusou a discutir os novos termos com o SI Cobas, sindicato de base que os trabalhadores escolheram para representá-los, sob a alegação de que trabalhadores autônomos não têm o direito de se sindicalizar. A administração concordou apenas com encontros pessoais com trabalhadores individuais e muitos foram removidos dos grupos usados para se comunicarem ou ficaram marcados.

As conexões informais entre os trabalhadores serviram de base para a greve: no dia 8 de outubro, aconteceu em Turim a primeira greve de trabalhadores empregados por aplicativos da Itália. Cerca de 50 entregadores paralisaram o serviço durante todo sábado, pedalando pela cidade para distribuir panfletos nos restaurantes ligados à Foodora. Basicamente, eram três reivindicações:

Abolição do contrato de “colaboração temporária” descrito acima, bem como do pagamento por entrega, e introdução de contrato flexível de meio-período (mínimo de 20 horas). Esse tipo de contrato garante falta por doença, seguro e férias;

Salário básico (7,50 euros por hora) com bônus variável (1 euro por entrega).;

— Garantia de nenhuma retaliação ou punições disciplinares aos trabalhadores em luta.

Entre as demais reivindicações, estava um canal formal de comunicação com o empregador (ao invés de um grupo no WhatsApp e um aplicativo), assistência da empresa com os custos da bicicleta e do celular, e um seguro específico que cobrisse não só acidentes, mas também dias de reposição e doenças.

4. Evolução da luta

O ato foi tão bem sucedido que durou o dia inteiro, ganhou adesão de moradores e foi imediatamente noticiado pelos jornais, principalmente por causa das novidades tecnológicas envolvidas. Houve um ataque simbólico à imagem da marca: seu logo foi modificado (de uma mão carregando uma bandeja para uma mão carregando uma bola de ferro presa a uma corrente) e, nas redes sociais, suas páginas receberam uma “avalanche de merda”, insultos e mensagens de solidariedade à luta que a empresa teve que deletar. A superexposição da marca da Foodora fez com que essas plataformas se tornassem um ótimo espaço para mostrar solidariedade digital. E tudo isso esteve ligado a assembleias locais e ações de rua: ir a cada restaurante para panfletar e explicar a situação. Conforme a mensagem se espalhou, foi lançada uma proposta de boicote, à qual os restaurantes começaram a aderir. Enfim, marcou-se um encontro com o diretor administrativo para discutir as reivindicações no dia 10 de outubro. Ao final dessa reunião, a gestão, tanto italiana quanto alemã, prometeu lançar um documento respondendo a cada um dos pontos. É importante mencionar que, durante a reunião, compareceram algumas pessoas do escritório compartilhado, usado pela Foodora, para mostrar solidariedade e dissociar o espaço da imagem da empresa.

foodora8Enquanto a gestão estava decidindo como responderia, mandaram uma resposta indireta por meio de demissões “bem esquisitas”. Depois de irem a uma assembleia dos entregadores para se solidarizarem e entenderem o que estava acontecendo, dois publicitários foram excluídos do aplicativo. Seus contratos ainda não haviam acabado, mas eles realmente foram demitidos e não receberam nenhuma garantia. A resposta efetiva aos grevistas chegou só na madrugada do dia 14 (à despeito do prazo do dia 13): em vez de pagarem 2,70 euros por delivery, pagariam 3,70. Na manhã seguinte, os entregadores foram ao escritório em Turim, mas não encontraram ninguém. Nenhum membro da administração apareceu ou atendeu o telefone. Dois fiscais trabalhistas foram enviados diretamente pelo Ministério do Trabalho para examinar a legalidade da situação, e o próprio ministro expressou solidariedade aos entregadores. Infelizmente, cada vez mais entregadores eram bloqueados do aplicativo depois de terem passado o dia distribuindo panfletos sobre o movimento. Um grupo foi ao quartel-general da empresa em Milão duas vezes: na primeira, inesperadamente encontraram a sede fechada; na segunda, forçaram os gestores a se trancarem no escritório por três horas. As duas ocasiões foram usadas para encontrar colegas na cidade, organizando eventos de divulgação para a semana seguinte e espalhando a greve.

Sob pressão dos trabalhadores, a empresa decidiu responder ao menos a algumas das reivindicações. Lançaram uma declaração dizendo que três lojas de bicicletas foram autorizadas a dar 50% de desconto. Mas, de acordo com os entregadores, ninguém nunca recebeu desconto nenhum. A verdadeira reação da empresa, porém, foi contratar uma quantidade massiva de novos entregadores prometendo a eles ao menos duas entregas por hora; promessa que foi descumprida tanto pelo menor número de entregas quanto pela menor quantidade de horas semanais, e a culpa recaiu sobre os grevistas.

Duas semanas desde a primeira paralisação, não apenas os trabalhadores, mas também os restaurantes que os apoiaram, foram banidos do aplicativo. Desde o início, os grevistas usaram diferentes métodos para descentralizar sua luta: mudança frequente do porta-voz com a gestão, uso de nomes falsos ou vozes distorcidas. Cada vez que a Foodora identificava alguém como suposto líder, a pessoa era completamente excluída de qualquer canal de comunicação, ainda que não oficialmente demitida. Em entrevistas, trabalhadores que estavam dispostos a aceitar o novo contrato contaram que sofreram o mesmo tipo de sanção, só porque participaram de assembleias. A forma como a gestão ficou sabendo que tinham participado é motivo de especulações.

foodora5Enquanto isso, os fiscais trabalhistas seguiam as investigações e os trabalhadores foram recebidos tanto pela prefeitura de Turim quanto pelo Ministério do Trabalho. Uma vez que ambos os momentos se mostraram infrutíferos (a Foodora não compareceu à reunião com a Prefeitura), os grevistas continuaram organizando uma série de encontros públicos. O papel dos centros sociais e squats [ocupações] não pode ser subestimado: as notícias e cobertura midiática, tanto quanto a solidariedade e o apoio prático, vieram imediatamente dos movimentos de base locais. Em Milão, ocorreram assembleias abertas no centro social COX, e em Turim houve assembleias organizadas pela militância da universidade local e do centro social Cavallerizza, bem como um jantar solidário no Asilo, squat anarquista.

5. Flexibilização e o mercado de trabalho italiano

É preciso refletir mais sobre o quadro geral. O fato é que a Foodora foi capaz de oferecer salários tão baixos (comparados à França, por exemplo, onde os entregadores recebem 7,20 euros por hora + 2 por delivery) graças à Lei do Trabalho e às reformas anteriores que desregularam o mercado de trabalho italiano e tiraram todas as proteções dos trabalhadores. Quando o mercado desregulado se encontra com a forma de emprego hiper-fragmentada da Foodora, chega-se a uma mistura terrível. Fora isso, a Foodora foi acusada de tirar proveito da alta taxa de desemprego entre os jovens na Itália (entre 40% em 2015, de acordo com o ISTAT [Instituto Nacional para Estatísticas]): o que a companhia chama de “bico” é, para os entregadores, uma das únicas formas de ter uma renda.

Por sorte, as lutas dos entregadores e de tantos outros mantiveram nossos olhos abertos e nossas esperanças vivas.

Mais informações e declarações (em italiano) sobre os entregadores em greve podem ser lidas em sua página no Facebook: Deliverance Project. Sinta-se livre para enviar mensagens de solidariedade a eles, ou diretamente na página da empresa.



Publicado por Xa2 às 07:45 de 12.12.16 | link do post | comentar |

8 comentários:
De Economia da 'partilha'...pástico.. a 9 de Janeiro de 2017 às 11:45
Vamos todos morar para o sótão!

(-6/1/2017 por Pedro Guimarães, Aventar)

Em 2017, VAMOS TODOS MORAR PARA O SÓTÃO!
(e alugar as nossas casas a turistas).

Não, a sério.
Em 2017 desejo que a chamada “economia de partilha” vá para o raio que a parta.
Que se proíba pura e simplesmente o Alojamento Local em espaços licenciados para habitação (aka fuck the neighbours licenciamento zero).
E já agora, que apareça aí algum político com cojones que diga aos fundos imobiliários que quem manda aqui somos nós.

Quanto à UBER que se proíba também, mas só depois de correrem com todos os taxistas corruptos – ANTRAL incluída.
Até lá, fazem falta. Mas não por muito tempo; esperemos, pois não faz sentido um sistema que funciona para os utilizadores mas continua a ser precário para condutores – e 25% evasivo face ao fisco.

E quando estiver tudo limpinho no sector dos transportes e da habitação, que se promova uma reflexão em torno do que é isto de viver numa sociedade de embalagens plásticas.
E chegado esse momento, que decidamos então em dar o primeiro passo e ser o primeiro país do mundo a proibir toda e qualquer embalagem não biodegradável em circulação comercial.

E que todos os que exercem a violência e a intolerância, todos os que poluem os nossos rios e florestas, todos os que ignoram os ensinamentos da ecologia,
todos os que levam o cão a fazer cócó e não apanharam o presente mais do que 3 vezes na vida, quero que todos, mas mesmo todos, sem excepção,
sejam obrigados a passar um ano a fazer voluntariado no IPO.

Era só isso.

----: sociedade : alojamento local, antral, arquitectura e urbanismo, economia de partilha, uber


De Desindustrializ. e econ. de 'biscates'.. a 13 de Dezembro de 2016 às 16:32
Desindustrialização e «gig economy» não explicam a fraqueza da classe trabalhadora nos EUA

(6/12/2016, http://passapalavra.info/2016/12/110082

Enquanto alguns trabalhadores perderam poder ao longo dos anos, muitos mais adquiriram novas fontes de poder em potencial. Por Kim Moody, comentado por Lucas Carlini

Nota : Neste texto, Lucas Carlini apresenta uma versão comentada e traduzida ao português do artigo de Kim Moody, U.S. Labor: What’s New, What’s Not, originalmente publicado em Against The Current.

Introdução

O autor [Kim Moody] começa constatando de que há algo de diferente com a classe trabalhadora nos EUA atualmente. Uma diferença óbvia apontada pela The Economist é que os trabalhadores produzem menos coisas materiais e mais coisas imaterais. A pergunta que o guiará ao longo do seu artigo é a seguinte: «O que está realmente mudando na produção capitalista dos Estados Unidos?»

O primeiro movimento do seu texto é definir, de acordo com Marx, quem é o proletariado. Ele limpa o terreno afirmando que o proletariado não é definido de acordo com a mercadoria que produz, afinal para o capital é indiferente a natureza particular de cada esfera de produção. O proletariado define-se, portanto, em sua relação com o capital. Dessa maneira, ele elenca três condições básicas para definir classe trabalhadora: ter que vender sua força de trabalho por um certo período de tempo para viver; a exploração dessa força de trabalho gerar mais-valia; e a natureza do processo de trabalho ser puramente despótica.

Pelo menos 2/3 da força de trabalho nos EUA se encaixam nessas condições, segundo o autor. Os trabalhadores que não produzem mais-valia diretamente, mas que seu trabalho é submetido ao capital e devem trabalhar mais horas do que o necessário à sua reprodução, são igualmente explorados e também fazem parte da classe trabalhadora. Portanto, como classe, o proletariado compõe aproximadamente 3/4 da sociedade estadunidense.

Definido o que e quem é o proletariado, ele traz à tona um debate atual que seria o quanto cada tipo de emprego está ou não mais precarizado. Ele afirma que se deter a esse ponto específico é deixar passar uma mudança muito importante em toda classe trabalhadora dos EUA: a queda no padrão de vida experienciada pela maior parte de nossa classe por lá. Ele aponta que o salário real da classe trabalhadora nos EUA continua abaixo dos níveis de 1972 e que 30% da força de trabalho depende de assistência social pública para viver (todos os dados sem fonte a partir daqui são do US Bureau of Labor Statistics – BLS, do departamento de trabalho dos EUA). Ele aponta ainda que a projeção desse instituto para 2014-2024 é que a maior parte dos trabalhadores ganharão menos de $2.699,00 por mês e que 1/3 disso ganhará menos de $1.799,00.

Outra tentativa de interpretar a nova realidade da classe trabalhadora se baseia na hipótese de que cada vez mais os trabalhadores produzem serviços e não mercadorias palpáveis e que o trabalho é cada vez mais instável e a rotatividade, cada vez maior. Há cada vez mais trabalhadores autônomos, que vivem de «bicos», há o precariado. Em resumo, os empregos não seriam mais como na era keynesiana-fordista: estáveis, jornada integral e bem pagos. O autor pondera de que essa é uma visão que não corresponde nem à época fordista-keynesiana, pois em todas economias industriais há uma certa rotatividade e instabilidade nas diferentes relações de trabalho.

Nos próximos pontos, o autor irá se deter em cada umas dessas explicações pós-fordistas/pós-keynesianas e mostrar o porquê delas não se sustentarem.

1. “The Gigariat” (os trabalhadores que vivem de “bicos”) — “Gig” é uma expressão utilizada pelos músicos, os quais realizam diversos shows em vários lugares diferentes para sobreviver. Nesse caso, se refere aos trabalhadores que não têm emprego fixo e têm que realizar diversos “bicos” para ganhar a vida.

A “gig economy” teria surgido após a grande recessão de 2008. Com a queda da economia, os desempregados passaram a ganhar a vida trabalhando em 2 ou mais empregos, algumas vezes por meio de aplicativos de internet como Uber. Apesar do Uber negar que é um empregador, ele e outras grandes plataformas online nada mais são do que aplicativos que realizam o elo entre o empregador e 'gigster' (biscat...


De Desindustrializ., 'biscates' e aplicat. a 13 de Dezembro de 2016 às 16:36

1- ...
...Ou seja, os gigster, na maioria das vezes, não são trabalhadores autônomos.

Para analisar a expressividade desse setor, o autor irá analisar a categoria de pessoas que trabalham em múltiplos empregos. Surpreendentemente, apesar de haver milhões deles, esse número não varia muito desde da década de 90: 1994 – 7.260.000 / 2007 – 7.655.000 / 2010 – 6.878.000 / 2015 – 7.262.000. Aliás, a porcentagem da força de trabalho nessas condições em relação ao conjunto da força de trabalho empregada caiu de 6% em 1990 para 4,9% em 2010-2015, mantendo o mesmo índice da década de 70, que também era de 4,9%.

Além disso, dentre aqueles que detêm múltiplos empregos, 55%-58% possuem um emprego fixo cuja jornada é integral e, eventualmente, realizam algum bico. Nos outros 45%-42% de fato há verdadeiros gigsters, como os músicos, mas os números dessa parcela vêm caindo desde 1990.

Os trabalhadores autônomos também são contabilizados como gigsters. Dentre eles, há os trabalhadores não registrados, que equivalem a 2/3 dos autônomos. No entanto, apesar de terem crescido nos anos 80, desde 1990 eles vêm caindo e atualmente compõem a mesma proporção de 1967 em relação a força de trabalho total nos EUA. Os outros 1/3 dos autônomos se referem mais a pequenos burgueses, como donos de pequenas lojas.

Outro erro dessa análise é a caracterização de trabalhadores sazonais, trabalhadores da construção civil e alguns caminhoneiros como autônomos, por serem «contratantes independentes»; isto é, trabalham para si próprio e para outrém (semelhante à Pejotização). Na verdade, isso é apenas uma manobra legal para os patrões não pagarem os direitos, as taxas e os benefícios aos seus trabalhadores.

Dessa forma, nos parece que os entusiastas da gig economy olharam para as tendências dos empregos por poucos anos desde a grande depressão de 2008 e a generalizaram para o futuro. O que eles viram foi apenas uma característica natural da variação cíclica dos trabalhadores em múltiplos empregos acompanhada de um marginal aumento da procura de empregos via internet. No entanto, a procura de empregos via internet não nos diz nada sobre a estabilidade desse emprego. Esse poder continua nas mãos do capital, o qual é o verdadeiro regulador do mercado de trabalho e dos empregos e que é o atual empregador de cada vez mais trabalhadores.

Se não há evidências suficientes para apontar um florescimento do gigariat, o que resta para os jovens trabalhadores – num mercado de trabalho com altos níveis de desemprego e empregos com baixos salários (precários ou não) – é um futuro sombrio.

2. Ou “Precariat”? (o “precariado”)
Diferente do gigariat, esse neologismo (precariado) tem um apelo maior à realidade. Um resultado da flexibilização da força de trabalho exigida pela reestruturação produtiva seria o aumento dos empregos precários: trabalhos temporários, com contratos curtos, trabalhos via telefone (call center e outros), jornada de meio período e como contratantes independentes.

Dentre os trabalhadores meio-período, há aquelas categorias cujo regime de trabalho sempre foi meio-período, em torno de 25h-30h por semana e, portanto, não se configuram como um fenômeno novo nem devem ser incluídos no precariado. Dentre esses trabalhadores, houve o crescimento de 7 milhões em 1990 para 20 milhões em 2015, o que é totalmente explicado pelo crescimento dos empregos no comércio, na saúde, administração, esgoto/limpeza urbana, lazer e turismo.

Os trabalhadores em situação precária nos EUA cresceram de 18,7 milhões em 1995 para 21,7 milhões em 2005, o que é um crescimento expressivo do trabalho precário para uma década. Porém, em comparação à força de trabalho total, foi apenas de 15,2% em 1995 para 15,5% em 2005. Não há dados específicos desse setor antes de 1995, mas pode-se inferir por outros dados que esse setor cresceu a partir da década de 80/90 com o início da reestruturação produtiva. Por exemplo, o número de trabalhadores como contratantes independentes subiu 1,6 milhões de 1980 a 1995.
Ainda assim, apesar dos trabalhadores temporários atingirem os nunca antes vistos 2% do total da força de trabalho não agrícola em 2015, os contratantes independentes caíram de 7,4% em 2006 para 6,3% em 2015. Ou seja, ...
...


De Desindustrializ., 'biscates' e 'app's.. a 13 de Dezembro de 2016 às 16:43
2- ...
...Ou seja, parece que houve um aumento real dos empregos precários, mas não o suficiente para alterar a proporção desses empregos no conjunto da força de trabalho. É difícil negar a conclusão de que o precariado não cresceu tanto desde 1990 quanto algumas contas exageradas apontam. Parece-nos, ao contrário, que a grande maioria dos trabalhadores, em torno de 85%, ainda possui relações de trabalho «tradicionais», a despeito de tanto eles quanto os precários sofrerem atualmente com redução salarial e piores condições de trabalho.

Esses apontamentos se confirmam quando olhamos para a estabilidade no emprego dos EUA de 1979 a 2006. Entre os trabalhadores com 25-34 anos de idade, o número de anos no mesmo emprego caiu de 3,8 anos para 3,5 anos. Entre os de 35-44 anos de idade, caiu de 7,1 para 6,6 anos. Entre os de 45-54 anos de idade caiu de 11,3 para 10,3. Ainda, o BLS aponta que juntando trabalhadores de todos os ramos, idades e salários, a média de estabilidade subiu de 3,5 em 1983 para 4,6 anos em 2014.

Um número de quase 20 milhões de trabalhadores em empregos precários não é pouco e nem há que se negligenciar a influência de tantos precarizados nas condições de trabalho dos outros trabalhadores. É verdade, cada vez mais se tornam raros os empregos que oferecem um plano de carreira e benefícios; os salários continuam baixos ao longo do tempo. No entanto, a maioria dos trabalhadores detém seus empregos por uma certa quantidade de anos. Aliás, quanto mais tempo uma pessoa é assalariada, mais chance tem de durar seu emprego. Portanto, a ideia de que os trabalhadores mudam de emprego toda hora, o que inviabilizaria sua organização no local de trabalho, é errada.

3. Um proletariado em mudança

Uma importante mudança na composição da classe trabalhadora empregada é a proporção de trabalhadores negros e latinos, a qual subiu de 15-16%, considerando trabalhadores da indústria, transportes, logística e serviços em 1981, para algo em torno de 40% em 2010. A imigração cumpriu um importante papel nesse sentido. Junto com os negros e as mulheres, a força de trabalho imigrante irá ocupar a grande parte dos trabalhadores pior remunerados. Alguns deles também irão se juntar ao movimento sindical. Entre 2011-2014, 200.000 latinos se sindicalizaram e 96.000 asiáticos de 2013-2014.

Contudo, o que é mais comentado é o declínio do emprego industrial de 27% trabalhadores diretos em 1980 para 11% em 2010. Essa mudança frequentemente leva a especulações sobre a diminuição da importância e da força da classe trabalhadora nos EUA. Apesar da força de trabalho direto da indústria nos EUA vir declinando há muito tempo, essa drástica queda de 5 milhões de trabalhadores nesse setor desde 1980 exige uma explicação.

No movimento dos trabalhadores é comum pôr a culpa no comércio, na circulação de mercadorias. Claro, indústrias como a têxtil, vestuários, aço etc. viveram grandes perdas devido à importação. Porém, isso corresponde apenas a 20% daqueles 5 milhões. Outro grande culpado seriam as empresas estrangeiras, o que também não se sustenta, pois o conteúdo nacional da indústria dos EUA mantém-se entre 85-95%, enquanto a média mundial é 72%. Países centrais como EUA e Japão tendem a ter significativas cadeias de produção internas e depender menos de importação.

As explicações via comércio não se sustentam, pois a produção industrial dos EUA, ao invés de cair, aumentou 181% de 1982-2007. Numa média anual de 5%, um pouco abaixo dos 6% dos anos 60 (momento de ascenso da luta dos trabalhadores nos EUA). O mistério por trás dessa perda de empregos massiva está na destruição de capital de um lado e, no outro, no aumento da tecnologia incorporada na indústria nos últimos 30 anos.

A destruição massiva de empregos não ocorreu de maneira linear, seguindo o aumento da importação de mercadorias dos EUA. Mas sim nos períodos de crise, nos quais o capital se destrói para continuar acumulando: 1980-82 – 2,5 milhões de empregos a menos na indústria; 1990-92 – 725 mil; 2000-03 – 678 mil; 2008 – 2 milhões. Nos períodos entre as crises, a produção cresceu a 6% ao ano, mas os empregos mantiveram-se baixos, devido ao ganho de quase 3% em produtividade ao ano com aplicação de novas tecnologias e métodos típicos da reestruturação produtiva, os quais ...


De Desindustrializ. , trabalhadores e ... a 13 de Dezembro de 2016 às 17:11
3- ...
... Nos períodos entre as crises, a produção cresceu a 6% ao ano, mas os empregos mantiveram-se baixos, devido ao ganho de quase 3% em produtividade ao ano com aplicação de novas tecnologias e métodos típicos da reestruturação produtiva, os quais aumentaram a padronização, controle e qualidade da produção, além da intensificação do trabalho.

A intensificação do trabalho nos EUA pode ser medida pela redução do tempo de intervalo de 13% da jornada nos anos 80 para 8% nos 2000. Intensificação do trabalho e aumento do investimento estão por trás desse fenômeno. Enquanto o capital fixo dobrou de 1979-2004, o emprego industrial reduziu mais de 40%.

Olhando para a economia como um todo, com a diminuição dos investimentos em capital variável e o aumento em capital constante, a relação capital constante/capital variável manteve-se estável nos anos 70, aumentou nos 80 e mais ainda nos 90, crescendo em quase 70% até a recessão em 2008. O aumento dos empregos nos «serviços», por outro lado, é explicado por ter menos horas de trabalho na indústria. Assim, há um grande aumento do trabalho mercantilizado na reprodução social.

Com a entrada das mulheres massivamente no mercado de trabalho nos anos 50 e o crescimento de mulheres com filhos de 1979-2012, o capital adentrou e reorganizou a mercantilização de diversos aspectos da reprodução social tipicamente feitos em casa, como alimentação, cuidado com os mais velhos, cuidado com a saúde etc.. . Essa tendência criou cerca de 8 milhões de novos empregos nos serviços de 1990-2010. Milhões e mais milhões de empregos foram criados para manter o aumento da composição orgânica do capital e limpar os efeitos colaterais de sua acumulação. A maioria desses empregos são mal remunerados e ocupados por mulheres, negros e imigrantes.

4. Just in time

Uma das características do capitalismo é que sua estrutura de produção e distribuição muda ao longo do tempo, devido à competição intercapitalista. Dessa maneira, na época da reestruturação produtiva (“lean production” – produção automatizada), no final dos anos 80 e início dos 90, os capitalistas do «cinturão da ferrugem» (“Rust Belt” – área industrializada nos EUA entre Chicago e Nova Iorque) tentaram escapar das concentrações urbanas que fomentaram o sindicalismo e aumentaram os custos da força de trabalho.

A realocação de áreas urbanas para área semi-rurais e a descentralização da produção por meio da subcontratação, terceirização e mudança de plantas industriais para outros países varreu não somente a indústria, mas também os serviços e a logística. Para os trabalhadores e sindicatos, isso significou desmembramento e fragmentação. Para uma grande parcela da esquerda essa ainda é a narrativa dominante. No entanto, a mesma competição que trouxe essa fragmentação gerou duas principais contra-tendências.

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Sob a pressão da competitividade interna e externa, a realocação geográfica e a descentralização da indústria suscitou a reorganização das redes de suprimento ao longo das cadeias de produção just-in-time, com um reduzido número de fornecedores e um sistema de fornecimento de matéria-primas altamente tecnológico e interligado. Tudo isso organizado ao redor de grandes «bolsões» de logística que empregam dezenas de milhares de trabalhadores em áreas geográficas relativamente restritas.

85% dos aproximadamente 3,5 milhões de trabalhadores de logística nos EUA moram em grandes áreas metropolitanas – inadvertidamente recriando grandes concentrações de trabalhadores em diversas dessas áreas que deveriam estar «esvaziadas» de trabalhadores industriais. Há em torno de 60 desses aglomerados nos EUA, mas a maioria deles em Chicago, Los Angeles e Nova Iorque-Nova Jersei, cada um com pelo menos 100 mil trabalhadores desse setor, além de outros centros de distribuição, como a FedEx, que exemplificam essa tendência. Além disso, há o surgimento de diversos grandes depósitos de mercadorias nessas regiões e, como se não bastasse, boa parte desses trabalhadores cumprem tarefas finais da produção, inclusive na importação.

A grande maioria desses trabalhadores encaixa-se ...
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De Desindustrializ. ... economia e política a 13 de Dezembro de 2016 às 17:22
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...A grande maioria desses trabalhadores encaixa-se na definição de Marx – presente no Grundisse e no segundo volume do Capital – de trabalhadores dos transportes produtores de mais-valia que fazem parte do processo de produção. Com a descentralização geográfica da produção, veio a produção just in time e os sistemas de integração guiada que aniquilam o espaço pelo tempo e diminuem a distância entre as concentrações de trabalhadores. Como consequência, há também aumento da vulnerabilidade às ações organizadas de trabalhadores nessas áreas que interligam as cadeias de fornecimento, os «nós» de logística e os locais de produção.

5. Consolidação Industrial

Outra consequência da competição interna e a nível global foi o maior movimento de fusões e incorporações na história do capitalismo estadunidense. Em 1980, foram 1.560 fusões e aquisições no valor de U$32,9 bilhões; crescendo para 4.239, que valeram U$205,6 bilhões em 1990; e alcançando 11.169 no valor de 3,4 trilhões em 2000.

A partir de 2000, as aquisições estabilizaram em torno de 7.000 por ano até a grande recessão, e depois voltaram a crescer. Diferente das fusões dos anos 60 e 70 (na qual as grandes empresas se apoderaram de negócios em ramos diferentes), essas ondas de fusões recentes ocorreram ao longo das cadeias de produção. Ou seja, as empresas estão voltando aos seus nichos de ação originais e buscando aumento dos lucros via ganho da fatia do mercado e devorando os competidores.

Esse cenário, associado ao aumento da composição orgânica do capital, significou a concentração e a centralização de capital em indústria após indústria, resultando não no «monopólio», mas sim num ainda mais intensa competição de empresas enormes. Alguns exemplos são: em 2009, as 10 maiores indústrias de auto-peças controlavam 1/3 do mercado de equipamentos nos EUA; as 4 maiores indústrias de alimentação controlavam de 75%-81% da produção de comida nos EUA; UPS e FedEx empregam 40% dos trabalhadores que entregam mercadorias; 5 empresas de frete ferroviário empregam 80% dos trabalhadores nesse setor.

Atualmente, 4 companhias de telecomunicação controlam 90% do mercado com fio e sem fio. Desde 2000 o número de grandes empresas de linhas aéreas caiu de 10 para 4. Essa concentração também se aplica aos hospitais e comércio, com Amazon e Walmart. Podemos continuar dando exemplos, porém o que importa é que o capital consolidou a tendência de cada vez mais trabalhadores serem empregados por empresas cada vez maiores ao longo das cadeias de produção.

Ao mesmo tempo, mais e mais trabalhadores estão empregados em locais de trabalho que possuem mais capital e mais trabalhadores. A grande maioria dos trabalhadores nos EUA, em torno de 80%, sempre trabalhou em locais de trabalho relativamente pequenos, com menos de 500 trabalhadores e essa proporção não mudou muito. Por outro lado, enquanto o número de trabalhadores fabris por estabelecimento diminuiu, o número de trabalhadores que trabalham em instalações industriais com mais de 500 ou 1000 trabalhadores aumentou. De 1986 a 2009 há 8,2 milhões de trabalhadores a mais em locais de trabalho com mais de 500 empregados, enquanto 5,7 milhões a mais trabalham em locais com mais de 200 trabalhadores. Um dos grandes ganhos foi na área da saúde, na qual 4,4 milhões de trabalhadores a mais estão empregados em instalações com mais de 1.000 trabalhadores, hospitais pesando muito nessa conta. Por fim, cada vez mais trabalhadores nos serviços trabalham em grandes concentrações, como hospitais, hotéis, call centers e grandes centros de distribuição que, juntamente com os «bolsões de logística», são parte das fábricas atuais.

6. Tomando as rédeas

Com a virada para o século 21, ...
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De Desindustriali., rel.produção, +valias.. a 13 de Dezembro de 2016 às 17:31
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6. Tomando as rédeas

Com a virada para o século 21, essas tendências analisadas – reestruturação produtiva (lean production), aumento da intensidade do capital no trabalho, a «revolução da logística» e a consolidação industrial – convergiram para alterar o terreno do conflito entre as classes, assim como a estrutura da indústria e da classe trabalhadora.

O espectro da «desindustrialização» ainda assombra grandes partes do país e continua a imbuir o proletariado industrial com um sentimento de perda de poder. Enquanto não deveria haver nenhuma «re-industrialização», nenhuma usina de aço imponente ou fábricas de automóveis nos centros das grandes cidades, a produção de bens e serviços foi reestruturada, concentrada e interligada de diversas formas que podem ser uma vantagem à organização e ação da classe trabalhadora.

Atualmente, tanto a produção de bens quanto de serviços se aproximam das linhas de produção que fizeram o sindicalismo industrial possível nos anos 30 nos EUA. Além disso, o aumento do capital constante permite maiores ganhos aos trabalhadores. Finalmente, os sistemas de logística just-in-time que entrelaçam a produção da maioria de bens e serviços torna todo sistema mais vulnerável à ação dos trabalhadores. [1]

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A grande concentração de trabalhadores nos bolsões de logística nas áreas metropolitanas providencia um alvo de organização numa escala que pode reverter o declínio do sindicalismo. Enquanto alguns trabalhadores perderam poder ao longo dos anos, muitos mais adquiriram novas fontes de poder em potencial.

Essas são as condições objetivas e não garantias de sucesso. Há, no entanto, sinais de que a passividade e a resignação, que perduraram por tanto tempo, estão passando sobretudo aos jovens. De caminhoneiros a professores existem rebeliões vindas de baixo para cima em diversos sindicatos que rejeitaram as normas do sindicalismo burocrático-empresarial. Até trabalhadores que outrora pensavam ter pouco poder social se embrenharam na ação e estão conseguindo se organizar em hotéis, serviços de construção, hospitais e algumas redes de fast food.

A resistência e organização em algumas das principais categorias da classe trabalhadora produziu um novo ativismo em grupos de direitos humanos dos imigrantes, nos crescentes trabalhadores das cidades grandes, o movimento Black Lives Matter, a luta pelo salário mínimo de $15 por hora, greves à revelia do sindicato em alguns fornecedores de mercadorias e Walmarts, até na candidatura à presidência de Bernie Sanders, na qual um setor do movimento dos trabalhadores se engajou.

Além disso, em 2014, 56% da «geração y» se caracterizaram como classe trabalhadora ao invés de classe média, seguidos por 50% da «geração x» e 44% dos «baby-boombers». Mais surpreendente são as grandes porcentagens nas recentes pesquisas que mostram adultos com uma imagem positiva do socialismo ou que votariam num socialista. O renascimento do movimento dos trabalhadores pela base junto com as novas formas rudimentares de consciência de classe e uma abertura política podem se espalhar numa organização permanente dos trabalhadores, se, e aqui temos um grande «se», os sindicatos assumirem essa tarefa e adotarem esse ativismo ou se os trabalhadores nessas novas áreas-chave assumirem esse trabalho eles mesmos.

Nota
[1] Um exemplo dado numa entrevista do autor ao Labor Notes (organização sindical dos EUA), cita-se o caso duma empresa de auto-peças nos EUA, de apenas 60 funcionários, na qual todos trabalhadores eram terceirizados e que ela sozinha fornecia quase todo material necessário à produção da Ford em Ohio. Um dia de greve desses trabalhadores e, no outro, a Ford não teria material suficiente para produzir. Os trabalhadores, só de ameaçarem uma greve, conseguiram ser todos admitidos como trabalhadores diretos da empresa, ter os acordos cumpridos e reconhecimento legal do sindicato que eles fundaram.

As fotografias são de Tomasz Lazar.

---------- HumanaEsfera:

Texto muito bom sobre as mudanças das relações de produção ...
...– A logística e a fábrica sem muros (Brian Ashton, 2006)
http://humanaesfera.blogspot.com.br/2013/03/a-logistica-e-fabrica-mundial.html
-- ... setor de serviços ...
-- ...


De Empresas-apps tecnologias a 13 de Dezembro de 2016 às 15:32

http://passapalavra.info/2016/12/110141
--Referências

Em inglês:
“Delivery workers strike in latest flare up of gig economy conflict”, por Manifesto Global.
Em italiano:
“Foodora, l’algoritmo della precarietà”, em sbilanciamoci.info;
“Bloccare l’accesso all’app dei lavoratori di Foodora è la nuova frontiera del licenziamento”, em Lastampa.it;
Vários artigos em Infoaut;
“Il prezzo delle consegne a domicilio lo pagano i fattorini”, em internazionale.it;
“FOODORA ET LABORA: l’altra faccia dei pasti a domicilio”, em clashcityworkers.org;
“FOODORA: la dirigenza fugge, eppur qualcosa si muove…”, em clashcityworkers.org.
Vídeos e entrevistas:
“Riders di Foodora in lotta, aggiornamenti”, em radioblackout.org;
“L’altra faccia della ‘sharing economy'”, em radioblackout.org;
“Foodora, un giorno tra i «forzati» delle consegne a domicilio”, em video.corriere.it;
“Foodora, parlano i lavoratori in stato d’agitazione”, em tv.ilfattoquotidiano.it.


--Sobre a tradução
Originalmente publicado pela página Struggles in Italy, este artigo foi traduzido ao português pelo Passa Palavra. Nas próximas semanas, o site publicará outras notícias e reflexões sobre lutas de trabalhadores em empresas de aplicativo, inclusive no Brasil.
--------- Lucas:
Hoje 12/12/2016, o Financial Times publicou uma reportagem em vídeo a respeito deste tema, aparentemente motivado pelas lutas dos trabalhadores do setor, onde a crítica é feita pela esquerda do grande capital: são um modelo de negócio semi-feudal com estratégias de mercado pouco éticas, um tipo de dumping do setor de serviços.

https://www.ft.com/content/b91da443-1045-3029-b62c-42e8d92ca29a?ft_site=next
-----Urubulino:
Como meu pai sempre me dizia… “Não há nada tão bom que não possa ficar ruim e não há nada tão ruim que não possa ficar pior…”
Estão a pleno vapor as pesquisas para o desenvolvimento de UBERs auto guiados e drones para todo tipo de entrega, até de pizza!
(Além disso, a “educação” digital cresce a passos largos. As próprias relações humanas estão cada vez mais “digitais”…)
A “uberização” do trabalhador, a que tudo indica, será passageira… pois em um futuro não muito distante sequer haverá trabalhadores nos UBERs (ou nos serviços de entregas de mercadorias…) e, consequentemente, será um golpe contra a organização das lutas trabalhistas. Muito provavelmente o UBER e afins, irão acelerar o processo de automação justamente em virtude das mobilizações dos trabalhadores…
Se antes o capital, diante das inovações tecnológicas, criava novas formas de reaproveitamento da mão de obra, por pior que fosse este reaproveitamento, o presente parece mostrar que estas formas logo se esgotarão (se já não se esgotaram…)
Talvez não só o Mediterrâneo fique abarrotado de corpos… como também os demais oceanos…


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