Segunda-feira, 12 de Dezembro de 2016

 

Um futuro que não seja velho 

 «A precariedade não é liberdade, muito menos oportunidade. A precariedade é uma praga que se alastrou a todos os setores, do espetáculo à Função Pública, dos supermercados aos gabinetes de advogados. A precariedade é um futuro velho, de praças de jorna e engajadores, com trabalhadores recrutados ao dia no Arsenal do Alfeite. São contratos diários ou semanais, mal pagos, renovados durante décadas nos call centers das grandes empresas. São anos de trabalho gratuito em estágios que nunca bastam para um emprego. A precariedade é o contrário do progresso, é a negação dos direitos conquistados pela dignidade do trabalho.»- Mariana Mortágua
 

Luta nos aplicativos: a greve da Foodora na Itália     (-http://passapalavra.info, 12/12/2016)

A imagem da “economia compartilhada” (ou 'colaborativa') começou a ruir quando os trabalhadores reagiram à redução do pagamento das entregas. (- Por Struggles In Italy)

1. Economia compartilhada?

Os jornais noticiam todos os dias o quanto nosso mundo está mudando por causa das tecnologias digitais. É comum lermos sobre a automatização total, a digitalização da vida e o fim do trabalho. Todos esses temas estão entrelaçados na economia compartilhada: aplicativos (aplicações informáticas, apps) que conectam a oferta e a procura para compartilhar alguma coisa. A Foodora não é um desses, já que nada é compartilhado. Foodora é parte da “gig-economy” (economia dos 'biscates'), como o Uber, MechanicalTurk ou Task Rabbit.

A Foodora dá aos restaurantes a possibilidade de terem novos clientes provendo uma frota flexível de entregadores. Um aplicativo monitora as compras e as atribui a entregadores com base num algoritmo que calcula velocidade e distâncias. Os restaurantes conseguem novos pedidos sem precisarem empregar mais ninguém, pagando só 30% a cada entrega completa, o que significa que eles não têm nenhum gasto adicional. Os clientes recebem, em casa, a comida que escolherem de uma vasta variedade de restaurantes pagando 2,90 euros por delivery. Jovens ciclistas, que a empresa chama de “riders” (mesmo em italiano) tentam ganhar algum dinheiro pedalando pela cidade em seu tempo livre. A Foodora, outrora uma startup criada em Berlim, cresceu como um negócio internacional, operando em 10 países e 36 cidades. Faz dois anos que ela chegou na Itália, primeiro em Turim e Milão (na região do Norte) e em breve vai se expandir para Roma, com projeção do volume de vendas subindo numa taxa de 75% por mês.

Atualmente os entregadores, cerca de 300 em Turim e 600 em Milão, não são empregados diretamente pela empresa. Ao invés disso, eles são contratados por uma estrutura conhecida como “co.co.co” (“contrato por colaboração continuada em um projeto”). Tais contratos fazem com que, na prática, os entregadores sejam considerados trabalhadores autônomos colaborando com a empresa, o que permite que ela evite as leis (código) do trabalho que se aplicam a trabalhadores diretos.

2. Foodora na Itália

Ainda que tenha sido vendida por uma cifra de dezenas de milhões de euros, a Foodora tem o típico apelo de um startup: pessoas jovens e internacionalmente amigáveis trabalhando em um escritório de espaço aberto em Berlim e jovens estudantes entregando comida de bicicleta como um bico fácil.

 Os administradores, todos com menos de 30 anos, se encontram de vez em quando em um espaço de trabalho compartilhado no centro da cidade, são despojados e usam palavras em inglês. A frota de entregadores também é jovem, educada, e recebe 5 euros por hora.

Essa imagem começou a ruir em agosto, quando os entregadores da Deliveroo [aplicativo de delivery] em Londres entraram em greve e, um mês depois, seus colegas em Paris também protestaram. Em linhas gerais, o motivo era que a empresa, depois de ter atraído um certo número de “trabalhadores”, mudou a forma de pagamento fixo e passou a pagar só a cada delivery.

Desde que a empresa abriu na Itália, os trabalhadores vieram se encontrando e conversando entre si informalmente, sobretudo nos momentos de espera entre as entregas. Eles organizaram assembleias informais, fazendo até algumas reuniões com a administração para discutir problemas. Quando uma mudança de contrato semelhante à de Paris e Londres ocorreu na Foodora em Turim, o movimento veio à tona.

foodora4Entre os trabalhadores de serviços de delivery, os problemas mais comuns talvez sejam o tempo ruim e os deslocamentos por longas distâncias (de 60 a 80 km a cada turno, no caso do Foodora). Também não é novidade o enorme tempo de espera até que a comida fique pronta e a próxima entrega.

A natureza digital da relação de trabalho implica, porém, em aspectos completamente novos. O tempo de trabalho é 24h em 7 dias, quer dizer, não há divisão entre trabalho e tempo de folga. Teoricamente, os entregadores podem decidir quando estão disponíveis, entretanto eles não sabem quando vão de fato trabalhar, uma vez que a gestão decide aceitar, modificar ou até deletar expedientes a qualquer momento, inclusive durante a próprio expediente. Conforme um algoritmo determina, em tempo real, os ritmos de trabalho (de acordo com o volume de pedidos e a posição dos entregadores), há horas de rush absoluto e horas de completo marasmo. Sem falar que tanto a bicicleta quanto o telefone são providos pelo próprios entregadores, sendo responsabilidade deles os custos de manutenção e conserto. Em algumas entrevistas, os trabalhadores mencionaram problemas de privacidade, uma vez que a geolocalização contínua vai contra a lei de privacidade, especialmente quando feita por um app das lojas da Apple ou da Google Play.  Tudo isso por 500 euros mensais, trabalhando 25 horas a cada semana.

3. Novas condições e primeiras greves

Os entregadores reivindicaram melhores condições de trabalho. Em maio de 2016, escreveram uma carta assinada por 85 dos 100 trabalhadores, mas os pedidos foram respondidos com um misto de procrastinação e justificativas, por exemplo, de que a diretoria da empresa estaria fora no momento. Enfim, em junho ocorreu uma reunião, mas os administradores disseram que o contrato não poderia ser modificado. O que transformou a insatisfação em protesto foi que o contrato poderia, sim, ser modificado, e a empresa o modificou.

Em setembro, a Foodora lançou um novo contrato, que iria ser aplicado aos novos entregadores e, a partir de novembro, para todos. Esse novo contrato acabava com o pagamento fixo, substituindo-o por um variável: 2,70 euros por entrega. Como se fossem operários de fábrica, os entregadores não podem influenciar sobre o número de entregas a cada expediente, mas ainda é esse número que determina seu pagamento. Para receberem 500 euros, eles teriam que fazer uma entrega a cada meia hora a qualquer hora, independentemente do dia, tempo ou época do ano.

foodora7O diretor administrativo, Gianluca Cocco, se recusou a discutir os novos termos com o SI Cobas, sindicato de base que os trabalhadores escolheram para representá-los, sob a alegação de que trabalhadores autônomos não têm o direito de se sindicalizar. A administração concordou apenas com encontros pessoais com trabalhadores individuais e muitos foram removidos dos grupos usados para se comunicarem ou ficaram marcados.

As conexões informais entre os trabalhadores serviram de base para a greve: no dia 8 de outubro, aconteceu em Turim a primeira greve de trabalhadores empregados por aplicativos da Itália. Cerca de 50 entregadores paralisaram o serviço durante todo sábado, pedalando pela cidade para distribuir panfletos nos restaurantes ligados à Foodora. Basicamente, eram três reivindicações:

Abolição do contrato de “colaboração temporária” descrito acima, bem como do pagamento por entrega, e introdução de contrato flexível de meio-período (mínimo de 20 horas). Esse tipo de contrato garante falta por doença, seguro e férias;

Salário básico (7,50 euros por hora) com bônus variável (1 euro por entrega).;

— Garantia de nenhuma retaliação ou punições disciplinares aos trabalhadores em luta.

Entre as demais reivindicações, estava um canal formal de comunicação com o empregador (ao invés de um grupo no WhatsApp e um aplicativo), assistência da empresa com os custos da bicicleta e do celular, e um seguro específico que cobrisse não só acidentes, mas também dias de reposição e doenças.

4. Evolução da luta

O ato foi tão bem sucedido que durou o dia inteiro, ganhou adesão de moradores e foi imediatamente noticiado pelos jornais, principalmente por causa das novidades tecnológicas envolvidas. Houve um ataque simbólico à imagem da marca: seu logo foi modificado (de uma mão carregando uma bandeja para uma mão carregando uma bola de ferro presa a uma corrente) e, nas redes sociais, suas páginas receberam uma “avalanche de merda”, insultos e mensagens de solidariedade à luta que a empresa teve que deletar. A superexposição da marca da Foodora fez com que essas plataformas se tornassem um ótimo espaço para mostrar solidariedade digital. E tudo isso esteve ligado a assembleias locais e ações de rua: ir a cada restaurante para panfletar e explicar a situação. Conforme a mensagem se espalhou, foi lançada uma proposta de boicote, à qual os restaurantes começaram a aderir. Enfim, marcou-se um encontro com o diretor administrativo para discutir as reivindicações no dia 10 de outubro. Ao final dessa reunião, a gestão, tanto italiana quanto alemã, prometeu lançar um documento respondendo a cada um dos pontos. É importante mencionar que, durante a reunião, compareceram algumas pessoas do escritório compartilhado, usado pela Foodora, para mostrar solidariedade e dissociar o espaço da imagem da empresa.

foodora8Enquanto a gestão estava decidindo como responderia, mandaram uma resposta indireta por meio de demissões “bem esquisitas”. Depois de irem a uma assembleia dos entregadores para se solidarizarem e entenderem o que estava acontecendo, dois publicitários foram excluídos do aplicativo. Seus contratos ainda não haviam acabado, mas eles realmente foram demitidos e não receberam nenhuma garantia. A resposta efetiva aos grevistas chegou só na madrugada do dia 14 (à despeito do prazo do dia 13): em vez de pagarem 2,70 euros por delivery, pagariam 3,70. Na manhã seguinte, os entregadores foram ao escritório em Turim, mas não encontraram ninguém. Nenhum membro da administração apareceu ou atendeu o telefone. Dois fiscais trabalhistas foram enviados diretamente pelo Ministério do Trabalho para examinar a legalidade da situação, e o próprio ministro expressou solidariedade aos entregadores. Infelizmente, cada vez mais entregadores eram bloqueados do aplicativo depois de terem passado o dia distribuindo panfletos sobre o movimento. Um grupo foi ao quartel-general da empresa em Milão duas vezes: na primeira, inesperadamente encontraram a sede fechada; na segunda, forçaram os gestores a se trancarem no escritório por três horas. As duas ocasiões foram usadas para encontrar colegas na cidade, organizando eventos de divulgação para a semana seguinte e espalhando a greve.

Sob pressão dos trabalhadores, a empresa decidiu responder ao menos a algumas das reivindicações. Lançaram uma declaração dizendo que três lojas de bicicletas foram autorizadas a dar 50% de desconto. Mas, de acordo com os entregadores, ninguém nunca recebeu desconto nenhum. A verdadeira reação da empresa, porém, foi contratar uma quantidade massiva de novos entregadores prometendo a eles ao menos duas entregas por hora; promessa que foi descumprida tanto pelo menor número de entregas quanto pela menor quantidade de horas semanais, e a culpa recaiu sobre os grevistas.

Duas semanas desde a primeira paralisação, não apenas os trabalhadores, mas também os restaurantes que os apoiaram, foram banidos do aplicativo. Desde o início, os grevistas usaram diferentes métodos para descentralizar sua luta: mudança frequente do porta-voz com a gestão, uso de nomes falsos ou vozes distorcidas. Cada vez que a Foodora identificava alguém como suposto líder, a pessoa era completamente excluída de qualquer canal de comunicação, ainda que não oficialmente demitida. Em entrevistas, trabalhadores que estavam dispostos a aceitar o novo contrato contaram que sofreram o mesmo tipo de sanção, só porque participaram de assembleias. A forma como a gestão ficou sabendo que tinham participado é motivo de especulações.

foodora5Enquanto isso, os fiscais trabalhistas seguiam as investigações e os trabalhadores foram recebidos tanto pela prefeitura de Turim quanto pelo Ministério do Trabalho. Uma vez que ambos os momentos se mostraram infrutíferos (a Foodora não compareceu à reunião com a Prefeitura), os grevistas continuaram organizando uma série de encontros públicos. O papel dos centros sociais e squats [ocupações] não pode ser subestimado: as notícias e cobertura midiática, tanto quanto a solidariedade e o apoio prático, vieram imediatamente dos movimentos de base locais. Em Milão, ocorreram assembleias abertas no centro social COX, e em Turim houve assembleias organizadas pela militância da universidade local e do centro social Cavallerizza, bem como um jantar solidário no Asilo, squat anarquista.

5. Flexibilização e o mercado de trabalho italiano

É preciso refletir mais sobre o quadro geral. O fato é que a Foodora foi capaz de oferecer salários tão baixos (comparados à França, por exemplo, onde os entregadores recebem 7,20 euros por hora + 2 por delivery) graças à Lei do Trabalho e às reformas anteriores que desregularam o mercado de trabalho italiano e tiraram todas as proteções dos trabalhadores. Quando o mercado desregulado se encontra com a forma de emprego hiper-fragmentada da Foodora, chega-se a uma mistura terrível. Fora isso, a Foodora foi acusada de tirar proveito da alta taxa de desemprego entre os jovens na Itália (entre 40% em 2015, de acordo com o ISTAT [Instituto Nacional para Estatísticas]): o que a companhia chama de “bico” é, para os entregadores, uma das únicas formas de ter uma renda.

Por sorte, as lutas dos entregadores e de tantos outros mantiveram nossos olhos abertos e nossas esperanças vivas.

Mais informações e declarações (em italiano) sobre os entregadores em greve podem ser lidas em sua página no Facebook: Deliverance Project. Sinta-se livre para enviar mensagens de solidariedade a eles, ou diretamente na página da empresa.



Publicado por Xa2 às 07:45 | link do post | comentar

8 comentários:
De Desindustrializ. , trabalhadores e ... a 13 de Dezembro de 2016 às 17:11
3- ...
... Nos períodos entre as crises, a produção cresceu a 6% ao ano, mas os empregos mantiveram-se baixos, devido ao ganho de quase 3% em produtividade ao ano com aplicação de novas tecnologias e métodos típicos da reestruturação produtiva, os quais aumentaram a padronização, controle e qualidade da produção, além da intensificação do trabalho.

A intensificação do trabalho nos EUA pode ser medida pela redução do tempo de intervalo de 13% da jornada nos anos 80 para 8% nos 2000. Intensificação do trabalho e aumento do investimento estão por trás desse fenômeno. Enquanto o capital fixo dobrou de 1979-2004, o emprego industrial reduziu mais de 40%.

Olhando para a economia como um todo, com a diminuição dos investimentos em capital variável e o aumento em capital constante, a relação capital constante/capital variável manteve-se estável nos anos 70, aumentou nos 80 e mais ainda nos 90, crescendo em quase 70% até a recessão em 2008. O aumento dos empregos nos «serviços», por outro lado, é explicado por ter menos horas de trabalho na indústria. Assim, há um grande aumento do trabalho mercantilizado na reprodução social.

Com a entrada das mulheres massivamente no mercado de trabalho nos anos 50 e o crescimento de mulheres com filhos de 1979-2012, o capital adentrou e reorganizou a mercantilização de diversos aspectos da reprodução social tipicamente feitos em casa, como alimentação, cuidado com os mais velhos, cuidado com a saúde etc.. . Essa tendência criou cerca de 8 milhões de novos empregos nos serviços de 1990-2010. Milhões e mais milhões de empregos foram criados para manter o aumento da composição orgânica do capital e limpar os efeitos colaterais de sua acumulação. A maioria desses empregos são mal remunerados e ocupados por mulheres, negros e imigrantes.

4. Just in time

Uma das características do capitalismo é que sua estrutura de produção e distribuição muda ao longo do tempo, devido à competição intercapitalista. Dessa maneira, na época da reestruturação produtiva (“lean production” – produção automatizada), no final dos anos 80 e início dos 90, os capitalistas do «cinturão da ferrugem» (“Rust Belt” – área industrializada nos EUA entre Chicago e Nova Iorque) tentaram escapar das concentrações urbanas que fomentaram o sindicalismo e aumentaram os custos da força de trabalho.

A realocação de áreas urbanas para área semi-rurais e a descentralização da produção por meio da subcontratação, terceirização e mudança de plantas industriais para outros países varreu não somente a indústria, mas também os serviços e a logística. Para os trabalhadores e sindicatos, isso significou desmembramento e fragmentação. Para uma grande parcela da esquerda essa ainda é a narrativa dominante. No entanto, a mesma competição que trouxe essa fragmentação gerou duas principais contra-tendências.

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Sob a pressão da competitividade interna e externa, a realocação geográfica e a descentralização da indústria suscitou a reorganização das redes de suprimento ao longo das cadeias de produção just-in-time, com um reduzido número de fornecedores e um sistema de fornecimento de matéria-primas altamente tecnológico e interligado. Tudo isso organizado ao redor de grandes «bolsões» de logística que empregam dezenas de milhares de trabalhadores em áreas geográficas relativamente restritas.

85% dos aproximadamente 3,5 milhões de trabalhadores de logística nos EUA moram em grandes áreas metropolitanas – inadvertidamente recriando grandes concentrações de trabalhadores em diversas dessas áreas que deveriam estar «esvaziadas» de trabalhadores industriais. Há em torno de 60 desses aglomerados nos EUA, mas a maioria deles em Chicago, Los Angeles e Nova Iorque-Nova Jersei, cada um com pelo menos 100 mil trabalhadores desse setor, além de outros centros de distribuição, como a FedEx, que exemplificam essa tendência. Além disso, há o surgimento de diversos grandes depósitos de mercadorias nessas regiões e, como se não bastasse, boa parte desses trabalhadores cumprem tarefas finais da produção, inclusive na importação.

A grande maioria desses trabalhadores encaixa-se ...
...


De Desindustrializ. ... economia e política a 13 de Dezembro de 2016 às 17:22
4- ...
...A grande maioria desses trabalhadores encaixa-se na definição de Marx – presente no Grundisse e no segundo volume do Capital – de trabalhadores dos transportes produtores de mais-valia que fazem parte do processo de produção. Com a descentralização geográfica da produção, veio a produção just in time e os sistemas de integração guiada que aniquilam o espaço pelo tempo e diminuem a distância entre as concentrações de trabalhadores. Como consequência, há também aumento da vulnerabilidade às ações organizadas de trabalhadores nessas áreas que interligam as cadeias de fornecimento, os «nós» de logística e os locais de produção.

5. Consolidação Industrial

Outra consequência da competição interna e a nível global foi o maior movimento de fusões e incorporações na história do capitalismo estadunidense. Em 1980, foram 1.560 fusões e aquisições no valor de U$32,9 bilhões; crescendo para 4.239, que valeram U$205,6 bilhões em 1990; e alcançando 11.169 no valor de 3,4 trilhões em 2000.

A partir de 2000, as aquisições estabilizaram em torno de 7.000 por ano até a grande recessão, e depois voltaram a crescer. Diferente das fusões dos anos 60 e 70 (na qual as grandes empresas se apoderaram de negócios em ramos diferentes), essas ondas de fusões recentes ocorreram ao longo das cadeias de produção. Ou seja, as empresas estão voltando aos seus nichos de ação originais e buscando aumento dos lucros via ganho da fatia do mercado e devorando os competidores.

Esse cenário, associado ao aumento da composição orgânica do capital, significou a concentração e a centralização de capital em indústria após indústria, resultando não no «monopólio», mas sim num ainda mais intensa competição de empresas enormes. Alguns exemplos são: em 2009, as 10 maiores indústrias de auto-peças controlavam 1/3 do mercado de equipamentos nos EUA; as 4 maiores indústrias de alimentação controlavam de 75%-81% da produção de comida nos EUA; UPS e FedEx empregam 40% dos trabalhadores que entregam mercadorias; 5 empresas de frete ferroviário empregam 80% dos trabalhadores nesse setor.

Atualmente, 4 companhias de telecomunicação controlam 90% do mercado com fio e sem fio. Desde 2000 o número de grandes empresas de linhas aéreas caiu de 10 para 4. Essa concentração também se aplica aos hospitais e comércio, com Amazon e Walmart. Podemos continuar dando exemplos, porém o que importa é que o capital consolidou a tendência de cada vez mais trabalhadores serem empregados por empresas cada vez maiores ao longo das cadeias de produção.

Ao mesmo tempo, mais e mais trabalhadores estão empregados em locais de trabalho que possuem mais capital e mais trabalhadores. A grande maioria dos trabalhadores nos EUA, em torno de 80%, sempre trabalhou em locais de trabalho relativamente pequenos, com menos de 500 trabalhadores e essa proporção não mudou muito. Por outro lado, enquanto o número de trabalhadores fabris por estabelecimento diminuiu, o número de trabalhadores que trabalham em instalações industriais com mais de 500 ou 1000 trabalhadores aumentou. De 1986 a 2009 há 8,2 milhões de trabalhadores a mais em locais de trabalho com mais de 500 empregados, enquanto 5,7 milhões a mais trabalham em locais com mais de 200 trabalhadores. Um dos grandes ganhos foi na área da saúde, na qual 4,4 milhões de trabalhadores a mais estão empregados em instalações com mais de 1.000 trabalhadores, hospitais pesando muito nessa conta. Por fim, cada vez mais trabalhadores nos serviços trabalham em grandes concentrações, como hospitais, hotéis, call centers e grandes centros de distribuição que, juntamente com os «bolsões de logística», são parte das fábricas atuais.

6. Tomando as rédeas

Com a virada para o século 21, ...
...


De Desindustriali., rel.produção, +valias.. a 13 de Dezembro de 2016 às 17:31
....
6. Tomando as rédeas

Com a virada para o século 21, essas tendências analisadas – reestruturação produtiva (lean production), aumento da intensidade do capital no trabalho, a «revolução da logística» e a consolidação industrial – convergiram para alterar o terreno do conflito entre as classes, assim como a estrutura da indústria e da classe trabalhadora.

O espectro da «desindustrialização» ainda assombra grandes partes do país e continua a imbuir o proletariado industrial com um sentimento de perda de poder. Enquanto não deveria haver nenhuma «re-industrialização», nenhuma usina de aço imponente ou fábricas de automóveis nos centros das grandes cidades, a produção de bens e serviços foi reestruturada, concentrada e interligada de diversas formas que podem ser uma vantagem à organização e ação da classe trabalhadora.

Atualmente, tanto a produção de bens quanto de serviços se aproximam das linhas de produção que fizeram o sindicalismo industrial possível nos anos 30 nos EUA. Além disso, o aumento do capital constante permite maiores ganhos aos trabalhadores. Finalmente, os sistemas de logística just-in-time que entrelaçam a produção da maioria de bens e serviços torna todo sistema mais vulnerável à ação dos trabalhadores. [1]

028-tomasz-lazar-theredlist

A grande concentração de trabalhadores nos bolsões de logística nas áreas metropolitanas providencia um alvo de organização numa escala que pode reverter o declínio do sindicalismo. Enquanto alguns trabalhadores perderam poder ao longo dos anos, muitos mais adquiriram novas fontes de poder em potencial.

Essas são as condições objetivas e não garantias de sucesso. Há, no entanto, sinais de que a passividade e a resignação, que perduraram por tanto tempo, estão passando sobretudo aos jovens. De caminhoneiros a professores existem rebeliões vindas de baixo para cima em diversos sindicatos que rejeitaram as normas do sindicalismo burocrático-empresarial. Até trabalhadores que outrora pensavam ter pouco poder social se embrenharam na ação e estão conseguindo se organizar em hotéis, serviços de construção, hospitais e algumas redes de fast food.

A resistência e organização em algumas das principais categorias da classe trabalhadora produziu um novo ativismo em grupos de direitos humanos dos imigrantes, nos crescentes trabalhadores das cidades grandes, o movimento Black Lives Matter, a luta pelo salário mínimo de $15 por hora, greves à revelia do sindicato em alguns fornecedores de mercadorias e Walmarts, até na candidatura à presidência de Bernie Sanders, na qual um setor do movimento dos trabalhadores se engajou.

Além disso, em 2014, 56% da «geração y» se caracterizaram como classe trabalhadora ao invés de classe média, seguidos por 50% da «geração x» e 44% dos «baby-boombers». Mais surpreendente são as grandes porcentagens nas recentes pesquisas que mostram adultos com uma imagem positiva do socialismo ou que votariam num socialista. O renascimento do movimento dos trabalhadores pela base junto com as novas formas rudimentares de consciência de classe e uma abertura política podem se espalhar numa organização permanente dos trabalhadores, se, e aqui temos um grande «se», os sindicatos assumirem essa tarefa e adotarem esse ativismo ou se os trabalhadores nessas novas áreas-chave assumirem esse trabalho eles mesmos.

Nota
[1] Um exemplo dado numa entrevista do autor ao Labor Notes (organização sindical dos EUA), cita-se o caso duma empresa de auto-peças nos EUA, de apenas 60 funcionários, na qual todos trabalhadores eram terceirizados e que ela sozinha fornecia quase todo material necessário à produção da Ford em Ohio. Um dia de greve desses trabalhadores e, no outro, a Ford não teria material suficiente para produzir. Os trabalhadores, só de ameaçarem uma greve, conseguiram ser todos admitidos como trabalhadores diretos da empresa, ter os acordos cumpridos e reconhecimento legal do sindicato que eles fundaram.

As fotografias são de Tomasz Lazar.

---------- HumanaEsfera:

Texto muito bom sobre as mudanças das relações de produção ...
...– A logística e a fábrica sem muros (Brian Ashton, 2006)
http://humanaesfera.blogspot.com.br/2013/03/a-logistica-e-fabrica-mundial.html
-- ... setor de serviços ...
-- ...


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