De Rankings ... falaciosos a 14 de Dezembro de 2015 às 15:00
A olhar para os rankings

15/10/2012 por A.F. Nabais

Sempre que são publicados os rankings, voltam os mesmos erros de análise, o que quer dizer que o sol continuará a ser tapado com uma peneira.

Dos insurgentes e comentadores similares não se pode esperar mais do que um simplismo algo hermético, porque, para gente desta, resolver os problemas de Educação em Portugal resume-se a olhar para quem fica no topo dos rankings.

Os responsáveis pelos colégios, para explicar os bons resultados, portam-se, obviamente, como directores de empresas que têm um produto para vender (e, com isto, não pretendo pôr em causa a qualidade dos profissionais que aí trabalham, incluindo os próprios dirigentes). João Trigo, director do Colégio do Rosário, explica que os bons resultados se devem a “uma aposta na formação global dos alunos”, o que é tão vago que pode ser aplicado a muitas outras escolas cuja colocação no ranking seja inferior. O mesmo director atribui a fama de elitista ao facto de “os pais dos (…) alunos terem de ter dinheiro para pagar as propinas”, necessárias para a sobrevivência da instituição.

Não me interessa culpar ou ilibar seja quem for da acusação de elitismo. Falta, no entanto, reafirmar que, graças a um estatuto socioeconómico e/ou sociocultural elevados, há alunos que, ao entrar na escola (em qualquer escola), já partem com avanço relativamente a outros oriundos de classes desfavorecidas. Os primeiros foram expostos, desde pequenos, a actividades e bens culturais e perceberam que os pais valorizavam a Educação e a Escola. Os outros, por razões culturais ou económicas, podem não ter recebido os mesmos estímulos, o que os prejudicará, quase inevitavelmente, no que respeita a coisas simples como, por exemplo, a capacidade de concentração ou de aquisição de conhecimentos.

Nada disto significa que uma boa escola ou um bom professor não façam a diferença na vida de qualquer aluno. A verdade, no entanto, é que directores e professores não são santos milagreiros, embora, na realidade, possa ser considerado um milagre o momento em que um aluno com dificuldades consegue superar-se, mesmo que isso não se traduza numa boa classificação. Para aqueles que só conseguem pensar com base em números, grelhas e classificações, eu explico: pode ter tanto ou mais mérito um professor que ajuda um aluno carenciado a atingir os dez valores do que aquele cujos alunos de elite alcançam vinte num exame.

Todos os que trabalham nas escolas públicas e privadas sabem disto, mas, mesmo entre os responsáveis pelas primeiras, há quem justifique os bons resultados e as boas classificações nos rankings com os mesmos argumentos dos directores dos colégios. Ora, se é verdade que é difícil alcançar bons resultados sem uma boa organização e sem bons profissionais, é muito mais difícil isso acontecer sem bons alunos. Diria, ainda, que os bons alunos conseguem, até, sobreviver a maus professores, o que deriva, também e não só, da capacidade económica de os pais pagarem explicações.

Não condeno que as escolas sintam orgulho nos resultados dos seus alunos e, portanto, no próprio trabalho da instituição, mas seria importante que, por outro lado, soubessem assumir que esses resultados dependem de vários factores externos à própria instituição. Se conseguissem fazê-lo estariam a prestar um serviço importante à Educação, algo mais importante do que suscitar afagos públicos ao próprio ego.

A propósito de olhares sobre os rankings, leia-se a notícia sobre os fracos resultados no exame de Português do 9º ano, na freguesia de Rabo de Peixe. Em primeiro lugar, o título, absolutamente enganador, releva da primeira informação dada pela Presidente da Junta: “Pronúncia determina más notas a Português em Rabo de Peixe”. Se estivéssemos distraídos, poderíamos pensar que o exame era oral ou que não existe, em Portugal, uma grande variedade de “pronúncias”. Logo a seguir, ficamos a saber que as crianças “escrevem como falam”, como se esse problema não afectasse alunos em todo o país.

A verdade só começa a surgir, quando ficamos a saber que existem problemas de assiduidade e que há “crianças filhas de famílias com situações problemáticas”, questões muitas vezes relacionadas. Ao ler o resto da notícia, ficamos a perceber que a maioria dos alunos sofre de carências várias,


Comentar:
De
 
Nome

Url

Email

Guardar Dados?

Ainda não tem um Blog no SAPO? Crie já um. É grátis.

Comentário

Máximo de 4300 caracteres