Futuro do sindicalismo e opinião sobre a greve

SINDICATOS  EUROPEUS  DEBATEM  FUTURO !

     Toda a gente reconhece que o diálogo social na União Europeia nunca esteve tão mal como neste tempo da Comissão Barroso que chega ao fim! Recentemente a Confederação Europeia de Sindicatos  (CES) realizou uma conferência social em Bruxelas para debater os temas sociais e o futuro do diálogo social na Europa.
     Segundo alguns sindicalistas é tempo de esperança com a nova Comissão presidida por Jean-Claude Juncker. Outros dizem que esperam para ver o que se passa nos próximos seis meses! Pois, na minha opinião, bem podemos esperar mas não sentados porque as coisas não vão melhorar! Na referida conferência constatava-se o que todos sabemos, nomeadamente que nunca as posições entre patrões e sindicatos foram tão distantes e que aqueles usam cada vez mais a tática da hipocrisia, negociando claramente com a intenção de nada assinarem no domínio laboral!
      Ora, será que os sindicalistas de topo da CES acreditam que o diálogo social vai melhorar simplesmente porque nos vamos comportar bem? Depois do comportamento vergonhoso da Comissão para com Portugal e a Grécia, onde foram aplicadas políticas económicas extremamente duras que colocaram em causa não apenas o diálogo mas o próprio modelo social europeu, não podemos esperar senão mais do mesmo, em menor ou maior quantidade! O debate na CES pode chegar a um relativo consenso quanto ao diagnóstico mas não é fácil encontrar uma estratégia comum de sindicatos europeus! Mas, sem esse esforço a CES continuará a ser principalmente um aparelho burocrático qua promove algumas manifestações caras, uns documentos de boas intenções e muitos salamaqueques para com a Comissão.
      Os sinos estão a tocar mas os dirigentes da CES fazem que não ouvem e assim não poderão ver o fogo a alastrar. O fogo da descredibilização sindical, do afastamento dos trabalhadores das suas organizações da pouca eficácia das respetivas lutas. A estratégia da CES, tal como foi abordado nessa conferencia, deve passar pelo reconhecimento na ação e de direito da greve internacional, pelo reforço da solidariedade setorial e interempresas e por ações sustentadas que «mordam» interesses económicos fundamentais. O poder económico tomou conta em definitivo da Comissão e esse poder só conhece uma linguagem que é a da força! Aliás, sempre foi assim, embora durante algum tempo a relação de forças não lhes fosse (tão) favorável!       

     AS GREVES EM PORTUGAL ou o que parece nem sempre é!

 É frequente ouvirmos dizer que em Portugal se fazem muitas greves, nomeadamente por pessoas que nunca fizeram qualquer greve e nem sentiram qualquer efeito das mesmas! Ouvem-se desabafos e lamentações logo que ocorre uma greve, em particular nos transportes e na saúde! Ora, o problema está mesmo aqui!
     Portugal é dos países europeus onde ocorrem menos greves e conflitos sociais. Todavia, o maior número de greves ocorre no setor público e de transportes afetando a comodidade e os serviços às populações com destaque para os setores referidos. Segundo dados do Ministério da Economia em 2012 realizaram-se 127 greves ás quais aderiram 92.324 trabalhadores tendo como consequência a perda de 112.984 dias de trabalho. Nestes dados não estão contabilizadas as greves da Função Pública.
      Das 127 greves apuradas, 50 ocorreram nas indústrias transformadoras e 62 nos transportes e armazenagem. Os distritos de Lisboa, Porto e Setúbal foram as regiões onde mais trabalhadores aderiram às greves o que é natural, dado que também ai trabalha a maioria dos portugueses! As reivindicações salariais e por condições de trabalho estiveram nos primeiros lugares.
Em termos de resultados alcançados e do total das reivindicações efetuadas apenas 4,6% tiveram aceitação total e 8,6%, foram parcialmente aceites, sendo que 86,7% foram recusadas. Estes dados mostram que, apesar de 2012 ter sido um ano terrível da crise no quadro da intervenção da Troika, Portugal teve um baixo nível de conflitualidade social no setor privado.
     Assim a perceção que alguns setores da população têm de que somos um país em constantes greves não corresponde á realidade! Essa perceção tem por base o impacto que greves dos transportes e da Função Pública têm nessa mesma população e na comunicação social. Uma das razões para tão baixo nível de conflitualidade num ano chave de desvalorização e intensificação da exploração laboral tem a ver com os níveis históricos de desemprego no país, quase nos 19%.      
“Greve ?  Eu não,  sou dos que trabalha”     (-por Diogo Barros, 21/10/2014)

 direito_greve_sindicalismo

 («Ah, os "bons velhos tempos"... antes de os sindicatos "estragarem" tudo»).    Ao ler tantos e tantos comentários negativos relativamente a quem faz greve, compreendo que trabalhar com um mínimo de direitos e condições em Portugal é, não só uma realidade que cada vez menos pessoas têm acesso, como uma verdadeira prova de valentia e coragem psicológica. Estas pessoas, além do serviço diário que naturalmente já fazem, são alvo quase que diariamente de uma lavagem cerebral atroz de que aquilo que têm são ‘regalias’ e que ‘há quem esteja disposto a trabalhar ainda por menos’. Eu não consigo imaginar a culpa e a pressão que muitas dessas pessoas devem sentir e acho isso abominável. Uma sociedade de lobos ávidos de sangue.

     Ao defender o direito à greve de tanta gente trabalhadora que fala mal da mesma, sinto-me completamente num filme. Num filme cheio de pessoas, infelizmente miseráveis, a defender com unhas e dentes o direito à sua própria miserabilidade. É triste.

    Os meus parabéns a todos os trabalhadores com direitos por aí fora. Que não se sintam mal nesta sociedade que cada vez mais lhes aponta o dedo e que façam, mesmo, o oposto:   lutem por manter o que têm e, mesmo, por ganharem mais!  E obrigado por existirem e serem realmente, o motor do país.



Publicado por Xa2 às 07:40 de 23.10.14 | link do post | comentar |

3 comentários:
De Anti-Sindical, neoLiberal e anti-PESSOAs a 19 de Fevereiro de 2015 às 15:01
A GESTÃO ATUAL É ANTI-SINDICAL?

A gestão atual é, mesmo nas suas formas mais benignas, anti sindical!
A maioria dos gestores gere as pessoas como recursos ou mão -de -obra, enfim, como fatores de produção!
É assim que ensinam na maioria das escolas e é esta a filosofia dos gestores na sua generalidade.
Em geral quando os acionistas querem uma redução de custos ou aumento dos dividendos pedem aos gestores que tomem medidas de gestão.
Os gestores, quase sempre, lançam mão dos despedimentos, ou seja, em dispensar ou substituir pessoal. Claro que os sindicatos opõem-se a estes objetivos!

Nos dias de hoje algumas formas de gestão são altamente predadoras e conduzem, para além dos despedimentos, ao stresse e «bournout» dos trabalhadores. São utilizados conceitos como «qualidade», «performance», «gestão por objetivos», «avaliação por mérito» «competitividade» e muitos outros! Utilizam-se critérios de recrutamento e de avaliação como «resistência á pressão e ao stresse»! O trabalhador é convidado a ser um soldado de uma guerra sem limites ou deve dar a vida pela empresa se for necessário! O horário de trabalho é relativizado, a família a gravidez e as crianças são considerados empecilhos neste combate glorificado pela gestão. Gestão que se tornou assim numa ideologia ao serviço da máxima rentabilidade, do aumento dos lucros da competitividade sem limites e sem humanidade!

Naturalmente que esta gestão é inimiga da família , das pessoas e dos sindicatos! Estes são outro obstáculo à manipulação dos cérebros dos trabalhadores e impedem a entrega absoluta á causa de desumanização da empresa. Mais do que nunca a sociedade, as empresas e os trabalhadores precisam de um sindicalismo renovado, capaz de organizar todos os trabalhadores para além dos partidos, não corporativo e defensor intransigente dos direitos de todos os trabalhadores!

Urge desenvolver uma outra filosofia de gestão que considere o trabalhador e o coletivo de trabalhadores como essenciais ao futuro da empresa!Esta também pertence aos trabalhadores!A gestão não deve considerar o poder sindical como um poder concorrente!


(-por A.Brandão Guedes, 6/2/2015 , http://bestrabalho.blogspot.pt/


De sobre a greve a 24 de Outubro de 2014 às 16:19
alguns comentários a : http://aventar.eu/2014/10/21/sobre-greve-apenas-isto/#more-1221613

----mfc says:21/10/2014

A sua má fé é evidente.
Os transportes públicos apenas são deficitários numa visão de merceeiro e de técnicos da folha de Excel tão em voga.
Atente nas externalidades dos transportes públicos:
menor importação de combustíveis, menor desgaste de estradas, maior segurança rodoviária, os benefícios sociais que promovem.

“No meio do caminho havia uma pedra…” e o Sr. está sempre a topar nela.
Viva o Estado Social.

----joao lopes says:21/10/2014

a greve “acabou” no sector privado pelo medo, apenas pelo medo de perder o 485 euros de salario por mês.e 12 horas diarias.e horarios descontrolados(ora entra à meia-noite,ora entra ao meio-dia)…e isto é nojento.

----António Duarte says:21/10/2014

Defender o carácter excepcional da greve passa por dar, por outras formas, voz e poder negocial aos trabalhadores na tomada das decisões que lhes dizem respeito.

Quando se ignoram as manifestações, quando se despreza o contributo que os trabalhadores podem dar à gestão das empresas em que trabalham e que nalguns aspectos conhecem melhor que ninguém, quando se repisa o discurso antidemocrático da falta-de-alternativa como verdade do regime, está-se a fechar as portas ao diálogo e ao consenso e a tornar inevitáveis as greves e outras formas de luta mais radicais.

Acrescente-se que não é por causa das greves que as empresas públicas de transporte estão na situação que todos sabemos, mas sim por um conjunto de razões onde avultam, para além das referidas no comentário anterior, o subfinanciamento e o endividamento crónicos do sector.

----Nightwish says:21/10/2014

A não ser em último recurso? O António já analisou bem as gigantescas perdas obtidas pelos trabalhadores em face ao ganho obtido pelo 1% que pouco ou nada acrescenta à economia, muito pelo contrário?
E já olhou também para a destruição dos serviços públicos em todo o mundo?
Para a privatização dos comboios no reino unido, para a privatização das escolas na suécia, para o grupo GPS, para o fecho dos balcões dos CTT, para o aumento dos lucros da EDP (este ano lá ganharam mais um aumento no orçamento), para a destruição de todo o sector ferroviário em Portugal, etc, etc, etc, etc e ainda acha que não estamos em altura de greves?
Que mais é preciso? Que o desemprego, ou a falta de transportes, ou de tribunais, ou de hospitais atinja também o António e a sua família?

Estamos todos a ser roubados, à grande, para que muito poucas pessoas que não precisam tenham cada vez mais.
Se o António não faz parte da solução tenho muita pena.

---- ferpin:
... acho um piadão que haja quem consiga criticar os trabalhadores por irem para a greve, em situações em que lhe querem tirar qualquer coisa ( já não há greves para conquistar algo, as últimas são sempre para defender algo que a entidade patronal quer tirar), com administrações avessas ao diálogo, que desprezam os trabalhadores e querem impor a sua vontade, normalmente alegando as dificuldades das empresas como pretexto, mas trocando as viaturas topo de gama e não abdicando de nenhuma mordomia.

Veja-se as viaturas que usa o “conselho de administração” da “empresa” PORTUGAL, que são quase todas posteriores a 2011, data desde a qual se diz aos empregados que é preciso troikar, pois a empresa está quase na falência.

Se eu fosse governo e quisesse cortar na despesa e nos benefícios do povão, começava por não trocar os pópós do governo, nem que tivesse que aparecer em mercedes de 2002 ou 2003 que deve haver por lá muitos encostados. Assim se calhar o povão acreditava que a coisa está mal.

E evitava, como por exemplo o crato, andar a dar voltas ao mundo em passeio, enquanto no MEC tudo falha.
-------



De Desgoverno de Má fé, pensões cortadas, a 27 de Outubro de 2014 às 16:20
Boa-fé e gente de má-fé


(José Pacheco Pereira, no Público de 25/10/2014, via Entre as brumas...):

«Se há causa a que eu adiro sem reservas é a dos trabalhadores com reformas antecipadas do Metro de Lisboa, que viram as suas reformas cortadas unilateralmente do complemento de reforma que a empresa lhes atribuiu para os incentivar a reformar-se. Não se espantem, parece uma causa laboral como as outras, mas é mais do que as outras. É diferente. (...) É uma causa cívica em que está em jogo um princípio moral que deveria ser a base da nossa sociedade democrática: a boa-fé.




Um dos piores dos meus anátemas contra este Governo é exactamente a destruição dessa boa-fé, como se fosse o acto mais normal do mundo, como quem respira, sem pensar duas vezes, até sem atenção, nem sequer preocupação pelos efeitos não apenas nas vítimas dos seus actos, mas no tecido social e nos laços que unem as pessoas numa sociedade civilizada e numa democracia em que todos somos proprietários e penhores do mesmo poder. Este à-vontade e esta indiferença pelo que é e significa a boa-fé vai ficar como uma mancha para o presente e para o futuro no tónus moral destes tempos. (...)




No dia 1 de Janeiro deste ano, o Governo violou o contrato que tinha feito. O corte unilateral dos complementos de reforma pelo Governo significou reduções de 40 a 60% nas reformas dos trabalhadores. Imaginem acordar no dia seguinte a ganhar menos de metade do que ganhavam no dia anterior e serem já velhos para arranjarem um novo emprego, terem encargos comportáveis quando se tinha uma outra reforma, ou seja, não era “viver acima das suas posses”, e ficarem agora sujeitos a dívidas e penhoras e acima de tudo, mesmo com a reforma por completo, vivia-se no remedeio. Não estamos a falar de gente rica, mas de trabalhadores, daqueles que se espera num país civilizado que engrossem a classe média, educando os seus filhos para viverem melhor do que os pais, acederem a consumos com que os seus avós nunca sonharam. É assim que se cresce, melhora, se avança. É isto que é o melhorismo social, a melhor garantia de um crescimento económico. (...)




Mas o problema que está presente neste caso é um problema de boa-fé, e do papel da boa-fé numa sociedade democrática e que pretende regular-se por regras de conduta civilizadas. Nem sequer pretendo discutir o que isso significa, “civilizadas”, porque toda a gente sabe o que é. E sabe também o que significa a boa-fé: significa que, se quando o governador do Banco de Portugal, seguido pelo Governo, defendeu que devia ser possível antecipar reformas com pagamento dos salários integrais, para afastar das empresas os trabalhadores com mais anos de casa e “que passam a vida nos médicos”, devia colocar-se um cartaz pestífero a dizer: não aceitem o engodo, não acreditem neles, querem enganar-vos e, depois de se reformarem, cortam-vos o que vos prometerem no passado para vos empurrar para a reforma. Como fizeram com os trabalhadores do Metro. Eles são gente de má-fé.»
.


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