Gatunagem legal: multinacionais, globalização, "offshores" e fuga a impostos

Luxembourg Leaks: uma história de gatunagem legal

(O esquema de evasão fiscal resumido em 3:10 minutos de boa animação)

     A organização não-governamental Transparência Internacional revelou na passada Quarta-feira um relatório sobre a transparência na actividade das 124 maiores multinacionais do planeta. A avaliação foi feita com base em 3 critérios: transparência financeira, transparência organizacional e políticas anti-corrupção. E se os resultados como um todo não surpreendem, não deixa de ser surpreendente, verificar que petrolíferas como a americana Exxon Mobil ou a sua parceira estatal russa Rosneft, ou bancos predadores como a JPMorgan Chase estão melhor colocados neste ranking do que a Apple, a Google, a Canon ou a Walt Disney. A Walt Disney? Porra! Nem as crianças estão a salvo destes gangsters financeiros…

     Por falar em transparência financeira, o Consórcio Internacional de Jornalistas de Investigação (ICIJ) tornou ontem pública uma investigação internacional de larga escala na qual estiveram envolvidos 80 jornalistas de 26 países e que durou cerca de 6 meses. Baptizada como “Luxembourg Leaks”, esta investigação aponta o Luxemburgo como centro de um esquema de evasão fiscal, ironicamente legal, onde 343 multinacionais firmaram acordos fiscais secretos com o governo do então primeiro-ministro e actual presidente da Comissão Europeia Jean-Claude Juncker, que equivalem a perdas na ordem dos milhares de milhões de euros de receitas fiscais para os Estados nos quais estas empresas estão sediadas. De notar que a legislação luxemburguesa que permite estes esquemas foi assinada precisamente por Juncker, esse hipócrita que sempre defendeu que o seu país não era um paraíso fiscal ("offshore") e que na sua tomada de posse à frente da Comissão Europeia teve a distinta lata de apelar à transparência financeira no seio da união.

Indignada com esta revelação, PricewaterhouseCoopers (PwC) – sim essa mesma que na semana passada contratou o director e o director adjunto da supervisão do Banco de Portugal depois de conseguir, sem concurso, alguns contratos no âmbito da supervisão precisamente com o Banco de Portugal – acusou o ICIJ de ter baseado a sua investigação em informação roubada e antiga e apela à acção das autoridades. Ou não tivesse sido a própria PwC a mediar estes esquemas de evasão fiscal. Fugir aos impostos? Tudo bem? Investigar e descobrir que milhões de contribuintes estão a ser lesados em valores obscenos é que não. Institucionalize-se a gatunagem !

    Não era suposto que as instituições europeias (C.E., P.E., BCE) fossem notificadas sobre estes acordos? E os governos dos estados lesados, sempre tão próximos destes “mecenas”, assobiaram para o lado enquanto as populações que os elegeram eram pura e simplesmente roubadas?    E esse grande vulto da política internacional, recentemente comparado por Cavaco Silva a Jacques Delors, onde estava ele enquanto tudo isto acontecia?   Bruxelas é já ali ao lado, como é que Durão não deu por ela?   Serão todos estes intervenientes cúmplices nestes esquemas? Claro que não, isso é teoria da conspiração.   A culpa é dos europeus que andam a viver acima das suas possibilidades.   Austeridade para cima deles !



Publicado por Xa2 às 13:26 de 07.11.14 | link do post | comentar |

3 comentários:
De Presid. Comissão E. ex-PM offshore a 10 de Novembro de 2014 às 12:03
Juncker é que era ...

Perante o incompreensível entusiasmo em relação a Jean-Claude Juncker entre os eternos euro-iludidos, não deixámos aqui de assinalar que o Presidente da Comissão Europeia tinha sido apoiante da AUSTERIDADE em vigor e governante de um pequeno inferno fiscal (para os contribuintes dos países com multinacionais e ricos fujões, para estes é os 'OFFSHORE' são paraísos).
Isto está agora ainda mais à vista, graças ao bom jornalismo de investigação ( http://www.theguardian.com/business/2014/nov/06/luxembourg-jean-claude-juncker-pressure-tax-deals ):
centenas de multinacionais beneficiadas e muitos interesses públicos nacionais prejudicados em muitos milhares de milhões de euros por toda uma teia de acordos secretos activamente tecida pelas autoridades luxemburguesas ao longo dos anos.
Não sendo o Luxemburgo caso único de certeza, lembrem-se, apesar disso, por onde andou o Espírito Santo e as razões dessas andanças luxemburguesas.
Isto está tudo de alguma forma ligado e é por isso que se fala de sistema em economia política, sendo preciso muito treino numa certa economia, daquela que não tem política (supostamente), nem história, nem sociedade, nem nada, para deixar de ver.

A verdade é que as chamadas térmitas fiscais foram sendo criadas por todo o lado nas últimas décadas: desde a abolição dos controlos de capitais até aos grandes interesses que comandam reformas fiscais cada vez mais amigas de um certo capital (descidas sucessivas no IRC, com os resultados conhecidos...), passando pelos infernos fiscais europeus que alastram, graças a diabruras políticas várias. É todo um contexto institucional progressivamente coerente e também gerado por uma europeização que foi a expressão concreta que a globalização neoliberal assumiu no continente. A opacidade e a injustiça estão inscritas num sistema multi-escalar em que o dinheiro manda com freios e contra-pesos assim cada vez mais carcomidos, que as térmitas são selectivas em termos de classe: as coisas são como são feitas e desfeitas, os tais sistemas. É tudo muito claro para quem tenha vontade de olhar para os sórdidos mecanismos reais para lá das fantasias de mercado.

(-por João Rodrigues, 7/11/2014, http://ladroesdebicicletas.blogspot.pt/
)
--------- Sobre o tema, a posição do PCP, pela boca do seu eurodeputado João Ferreira.

http://pcp.pt/sobre-responsabilidades-envolvimento-do-presidente-da-comissao-europeia-em-processos-de-evasao


De Izanagi a 8 de Novembro de 2014 às 01:16
assobiaram para o lado enquanto as populações que os elegeram eram pura e simplesmente roubadas?

A mer** é que é essa mesma populção que os reelege. Isto só pode significar que estão satisfeitos por serem roubados. Do que é que alguns (poucos9 se queixam? Dos que roubam ou daqueles que elegem para serem roubados?
Começa a não haver paciência para tanta estupidez.
Isto já não vai com palavras


De DesGoverno, Taxas, Ricos, ... a 12 de Novembro de 2014 às 11:07
----- Taxas, taxinhas, impostos, ...
À atenção de Pires de Lima

Durante a rábula juliomatosiana de sexta feira, Pires de Lima garantia que o governo resistiu à aplicação de taxas e taxinhas.
Uma leitura do OE 2015 desmente o ministro das cervejas. Além de não resistir a novas taxas e taxinhas, o governo agravou algymas das já existentes. Talvez não seja uma lista exaustiva, mas para amostra não é má, pois não?

Aumento da taxa sobre os resgates dos PPR;

Criação da Fiscalidade Verde, um novo imposto com muitas potencialidades para assaltar os nossos bolsos;
Agravamento de 3% do imposto sobre o álcool e bebidas alcoólicas;
Alargamento dos produtos sobre que incide o Imposto sobre tabaco;

Criação do novo imposto sobre a generalidade das transações financeiras que tenham lugar em mercado secundário;
Aumento do imposto de Contribuição Extraordinária sobre o sector Bancário;
Criação do imposto de carbono sobre o consumo de combustíveis;
Criação da Taxa sobre os sacos de plástico;
Agravamento das taxas do Imposto Sobre os Veículos;
Aumento do IMI;
Aumento do IUC.
... ... ...
Convém ainda lembrar que todas estas taxas e taxinhas vão ao bolso dos portugueses, enquanto as que foram introduzidas em Lisboa, por António Costa, afectam essencialmente os turistas. Mas, sobre isso, escreverei mais tarde.
e ...
várias cidades (e aeroportos) europeus e ... cobram taxas (de entrada, estadia e/ou de saída) aos estrangeiros. ex: Bruxelas 5€, Copenhaga 4€, Catalunha 6€, ... Roma, Veneza, Mauricias, ...

------
A Min.Finanças disse ontem que havia poucos ricos em Portugal, por isso TINHA de ser a CLASSE MÉDIA a PAGAR a crise.

A lata desta mulher é infinita e dava para abastecer os sucateiros todos do país.
Se ela acha que há poucos ricos em Portugal, aconselho-a a ler isto: http://cronicasdorochedo.blogspot.pt/2014/10/quem-quer-ser-milionario.html
DE esclarece que, para além dos 10777 milionários criados este ano ( pessoas com uma riqueza superior a 1 milhão de dólares), Portugal criou mais 10395 em 2013. Quer isto dizer que, em apenas dois anos, este governo criou 30% do total de milionários portugueses. E pensar que há por aí uns energúmenos a dizer que este governo lançou o país na pobreza!
...


Comentar post

DESTAQUE DO MÊS
14_04_botão_CUS
MARCADORES

todas as tags

CONTACTO

Email - Blogue LUMINÁRIA

ARQUIVO

Novembro 2019

Junho 2017

Março 2017

Fevereiro 2017

Janeiro 2017

Dezembro 2016

Novembro 2016

Outubro 2016

Setembro 2016

Agosto 2016

Julho 2016

Junho 2016

Maio 2016

Abril 2016

Março 2016

Fevereiro 2016

Janeiro 2016

Dezembro 2015

Novembro 2015

Outubro 2015

Setembro 2015

Agosto 2015

Julho 2015

Junho 2015

Maio 2015

Abril 2015

Março 2015

Fevereiro 2015

Janeiro 2015

Dezembro 2014

Novembro 2014

Outubro 2014

Setembro 2014

Agosto 2014

Julho 2014

Junho 2014

Maio 2014

Abril 2014

Março 2014

Fevereiro 2014

Janeiro 2014

Dezembro 2013

Novembro 2013

Outubro 2013

Setembro 2013

Agosto 2013

Julho 2013

Junho 2013

Maio 2013

Abril 2013

Março 2013

Fevereiro 2013

Janeiro 2013

Dezembro 2012

Novembro 2012

Outubro 2012

Setembro 2012

Agosto 2012

Julho 2012

Junho 2012

Maio 2012

Abril 2012

Março 2012

Fevereiro 2012

Janeiro 2012

Dezembro 2011

Novembro 2011

Outubro 2011

Setembro 2011

Agosto 2011

Julho 2011

Junho 2011

Maio 2011

Abril 2011

Março 2011

Fevereiro 2011

Janeiro 2011

Dezembro 2010

Novembro 2010

Outubro 2010

Setembro 2010

Agosto 2010

Julho 2010

Junho 2010

Maio 2010

Abril 2010

Março 2010

Fevereiro 2010

Janeiro 2010

Dezembro 2009

Novembro 2009

Outubro 2009

Setembro 2009

Agosto 2009

Julho 2009

Junho 2009

Maio 2009

Online
RSS
blogs SAPO