De Eurocracia, fantoches e burlões. a 2 de Junho de 2015 às 18:04
Previsões à distância de um mês: da Europa vem aí mais do MESMO


No final deste mês, a 25 e 26 de Junho, vai ter lugar em Bruxelas uma CIMEIRA histórica da UE. Mais uma.

Depois de uma pausa de dois anos e meio (ver isto e isto), os principais dirigentes europeus vão novamente reconhecer que a União Económica e Monetária (UEM) apresenta insuficiências graves que têm de ser reparadas. Anunciarão, assim, o compromisso de aprofundar a integração europeia, dando passos decisivos na direcção de uma maior união política.

Os representantes dos partidos socialistas europeus irão congratular-se com estas decisões, vendo nelas avanços há muito esperados (há mais de 20 anos…) no sentido de uma Europa mais social e mais democrática, onde o rigor orçamental surja a par com o crescimento económico na lista de prioridades.

Os federalistas e europeístas mais crédulos irão rejubilar, acreditando que estamos a caminho da desejada democracia de escala continental.

Os comentadores de serviço interpretarão estas decisões como uma cedência por parte da Alemanha e dos sectores mais conservadores, tendo em vista conter os danos da crise grega e contrariar a tendência para o crescimento do eurocepticismo na UE.

E, no entanto, quando olharmos com atenção para as decisões que serão tomadas, a cimeira vai produzir mais do mesmo:

• Será posta de lado qualquer alteração aos Tratados que definem a arquitectura da UEM, cujas deficiências todos começaram por reconhecer.

• Será prometido um maior esforço de coordenação das políticas fiscais dos Estados Membros, não questionando porém a possibilidade de cada país fixar o seu nível de impostos sobre as empresas (mantendo assim a tendência para a concorrência fiscal, entre países, que delapida os recursos públicos, aumenta as desigualdades e põe em causa a viabilidade do Estado Social).

• Será defendida a necessidade de criar mecanismos que ajudem a lidar com a ocorrência de choques assimétricos nas economias de cada Estado Membro (um problema cada vez mais premente, desde que os países que integram o euro perderam os instrumentos monetário, cambial e alfandegário para esse efeito), mas será posto de lado qualquer aumento substancial do orçamento comunitário (quando muito, haverá uma promessa indefinida de um reforço futuro).

• Talvez seja até anunciado o aprofundamento da união bancária, através da futura mutualização das garantias de depósitos (que será apresentado como o exemplo máximo de solidariedade entre Estados Membros), mas manter-se-á o princípio de que cada país é responsável pelos custos de eventuais falências bancárias (apesar da regulação e supervisão do sistema financeiro estarem cada vez mais centralizadas em instituições europeias).

• Tudo isto, é claro, ficará sujeito a um princípio básico: só terão acesso a estes "avanços" os Estados Membros que implementem as "reformas estruturais" que as instituições europeias "recomendam" (ou seja, impõem), apesar de não terem qualquer legitimidade democrática para o fazer (e também isto não será alterado na cimeira de final de Junho).

Traduzindo: a lógica da UEM continuará a ser a mesma: para que uma economia estruturalmente fraca sobreviva dentro do euro continuará a ter de privatizar tudo o que for vendável, liberalizar o mercado de trabalho e delapidar o Estado Social; e sempre que houver uma crise que afecta apenas algumas economias (normalmente as mais fracas), a desvalorização de salários continuará a ser a resposta esperada, resultando em períodos longos de desemprego elevado e de aprofundamento das assimetrias de desenvolvimento no seio da UE.

Apesar disto tudo, a comunicação social vai falar de um salto qualitativo na integração europeia, dando voz à satisfação dos dirigentes dos partidos do governo (que apresentarão estes resultados como a prova de que os sacrifícios valem a pena), dos dirigentes do PS (que se vêem actualmente aflitos para explicar que não gostam da austeridade, mas que jamais porão em causa a UEM) e, ainda, dos europeístas mais pueris, para quem qualquer desculpa serve para continuarem a fantasiar com uma UE democrática e progressista.

(por Ricardo Paes Mamede, 2.6.2015 , http://ladroesdebicicletas.blogspot.pt/2015/06/previsoes-distancia-de-um-mes-da-europa.html )


De Cimeira UE, Económica e Monetária a 2 de Junho de 2015 às 18:14
------ BCE (e UEM) inimigo do Estado Social
(e dos trabalhadores e cidadãos contribuintes) https://rcag1991.wordpress.com/2015/05/31/bce-inimigo-do-estado-social/

---------Nightwish disse...
Tal qual, já vimos este filme.

-------Daniel Carrapa disse...
É exactamente isso.

Entretanto quem verdadeiramente dita as regras desta Europa segue em frente sem sequer tirar o pé do acelerador.
Dragui, à frente do "apolítico" BCE, dita os termos:

https://rcag1991.wordpress.com/2015/05/31/bce-inimigo-do-estado-social/

Ao mesmo tempo que insufla as reservas bancárias com mais de um milhão de milhões de euros em quantitative easing,
já abre a porta para o seu falhanço
'justificado' pela "rigidez no mercado de trabalho" que importa combater com a aceleração de "reformas estruturais".

É a Europa a prosseguir a passos largos para a sua DESTRUIÇÃO.

------João disse...
Concordo consigo, na generalidade da previsão que faz. Mas em face disso, pergunto-lhe:
E nós, Ricardo, nós os cidadãos mais e menos comuns, que adivinhamos a previsível opera buffa, o que é que vamos fazer?

Qual o nosso grau de envolvimento pessoal e colectivo em vista da promoção do desejável "falhanço" dessas previsões?
A que mudanças aspiramos de facto?
Em que rupturas mobilizadoras estamos dispostos a envolver-nos?
Será que conseguimos marchar lado a lado com uma operária fabril (ou operadora de contact center ou caixa de supermercado, ...),
sem curso de economia e que usa roupas de uma loja de chineses, mas que
apesar disso tem aspirações, vontade e direitos?

É que sem esse compromisso, tudo o mais de nós, por muito importante que seja, nunca passará a fronteira de uma certa inutilidade barroca.
------

Daniel, deixe-me ser repetitivo e dirigir-lhe também as perguntas que dirigi ao autor do artigo:
e nós?
Até onde é que a nossa consciência (já) nos dita que vamos?
É que é também sobre o nosso IMOBILISMO ( e egoísmo) que a BARBÁRIE (desengane-se quem pensa que o termo é exagerado), avança.


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