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De Jorna. e precários sub-óptimos.!!. a 16 de Janeiro de 2017 às 19:06
O dia seguinte, sub-óptimo

(16/01/2017 por P.S. Luz)
Voltei do 4º Congresso dos Jornalistas Portugueses (...) já não sou uma privilegiada-dos quadros-de uma empresa de comunicação social, mas – sabe-se lá porquê – continuo a ser jornalista. Ainda me entusiasmo com as histórias dos outros, ainda insisto, ainda resisto.
E por isso lá fui três dias para Lisboa, à guarida da Sandra. Levava na mala uma comunicação escrita a 10 mãos, algures entre Leiria e Coimbra, para ler na sexta-feira de manhã, num painel que poderia servir para nomear todo o Congresso:
O Estado do Jornalismo.
Pelo teor do escrito, também poderia caber naquele outro painel que se chamava”As condições de trabalho dos jornalistas”, já que fala sobretudo do fim das Redacções fora de Lisboa, do abandono do país por parte dos Media, da solidão dos jornalistas-freelancers-precários.
(...) Não me serve de consolo perceber que a maioria dos jornalistas em Portugal está no mesmo barco ou num parecido, eu que vivo num cantinho-sagrado, mas daqueles onde não chega a Casa da Imprensa, cujo presidente aproveitou a sessão de abertura para dizer que “há jornalistas a receber o rendimento social de inserção”.
Sabia que não corríamos o risco de transformar aquilo apenas num muro de lamentações, pois que a direcção do Sindicato já planeava moções e propostas que obrigassem o poder político a olhar de frente para o(s) problema(s). E por isso nunca me incomodaram as palmas aos depoimentos, pois que se tornaram numa arma. Prefiro sempre palmas a apupos, se é que me entendem. Ouvi as comunicações tocantes do João Torgal (um das centenas de trabalhadores da RTP conhecidos como CPS’s – contrato de prestação de serviços) da Catarina Gomes, do José Pedro Castanheira, do jovem Ruben Martins – que me emocionou pela solidariedade com as centenas de estagiários maltratados e explorados por toda a parte.
Num tempo em que já não nos encontramos uns com os outros, como era desejável, foi muito bom sentir os abraços e os olhares de tantos camaradas, perceber que ainda somos de carne e osso, mesmo quando nos querem fazer crer o contrário.

No sábado havia um painel supostamente dedicado à imprensa regional. Entristeci-me com o facto de haver apenas duas comunicações, embora isso não me surpreendesse de todo: vinha de um roteiro pelo país em que o SJ promoveu encontros com jornalistas, já com o objectivo de recolher contributos para este congresso. E tinha na memória o exemplo de Coimbra, quando as direcções dos dois diários nos impediram de entrar nas Redacções e conversar com os jornalistas.
Por contraponto, lembrava-me de Famalicão. Mas sei bem como é este silêncio ensurdecedor, num país onde há tanto por fazer no jornalismo de proximidade. Foi importante ouvir Michael Rezendes, o luso-descendente cuja reportagem venceu o prémio Pulitzer e deu origem ao filme “o caso Spotlight“, para perceber como é que o Boston Globe (um jornal regional…) está tão perto e tão longe de nós. Na sala havia, afinal, muitos jornalistas que trabalham na imprensa regional, onde não há conselhos de Redacção, delegados sindicais, tão-pouco sindicalizados, não raras vezes.
Espero que o próximo Congresso – que há-de acontecer no Porto, daqui a dois anos – consiga finalmente acabar com a expressão “jornalismo regional”, num tempo em que é mais fácil ler o que acontece no fim do mundo do que no fim da rua…

(...) assisti pela net à transmissão do último painel – com os patrões.
Levei logo com Gonçalo Reis, da RTP, que “não pode contratar gente para os quadros e tem de estar em jogo porque o mundo mudou.
As várias administrações foram suprindo as necessidades com prestadores de serviços. (…) [Mas] não aceito que haja discriminação negativa. É uma solução sub-óptima“. Foi esse o murro no estômago na notícia daquele painel. O senhor ainda disse que também lhe faz confusão “que se fale nos precários, mas não se fala nas perdas de emprego. O que realmente é dramático é o desemprego, é o desemprego nos jornalistas”. Vale a pena lembrar este administrador que sair do espeto e meter-se na sertã nunca foi boa opção. E que o desemprego é, tantas vezes, o primeiro degrau para a precariedade. E é para quem quer ... (...)


De Afirmar o jornalismo: Resolução da 4ºC.J a 16 de Janeiro de 2017 às 19:24
Aprovada na sessão de encerramento do congresso por unanimidade e aclamação.

1. O 4.º Congresso dos Jornalistas Portugueses concluiu que as condições em que se exerce hoje o jornalismo, pilar da democracia, comprometem o direito constitucional à informação, indispensável para o exercício pleno da cidadania.

2. As condições de trabalho – dimensão reduzida das redações com os despedimentos, precariedade, baixos salários e falta de tempo – estão a ter efeitos na qualidade do jornalismo e condicionam a independência dos jornalistas.

3. A profunda mudança no enquadramento do setor está a afetar a credibilidade do jornalismo. O contributo dos jornalistas é determinante para ultrapassar as ameaças e desafios que se colocam à viabilidade da informação de qualidade.

4. A legislação laboral tem de ser cumprida em Portugal no setor do jornalismo, sendo urgente uma ação rápida e eficaz da Autoridade para as Condições de Trabalho para acabar com os falsos estágios, os falsos recibos verdes e os falsos contratos de prestação de serviço.

5. A autorregulação tem de ser reforçada e a regulação tem de ser eficaz.

6. Os jornalistas têm de ter maior peso e presença nas entidades reguladoras. É necessário iniciar um processo de revisão legislativa que torne essas entidades mais eficazes e mais participadas pelos jornalistas.

7. Os princípios éticos e deontológicos têm de ser reforçados, têm de abranger todos os jornalistas e têm de ser aplicados com eficácia.

8. Os conselhos de redação têm de ter um papel ativo, o que exige a proteção legal dos jornalistas que neles participam. Os pareceres dos conselhos de redação têm de ser vinculativos, nomeadamente para os cargos de direção e chefias.

9. É crucial que os jornalistas reforcem as estruturas próprias da classe, desde logo o Sindicato dos Jornalistas e a sua presença nas redações com uma agenda própria, para a defesa dos direitos dos jornalistas e a afirmação do jornalismo.

10. É fundamental avaliar, melhorar e fortalecer a relação do setor com as instituições de ensino superior e outras entidades formativas devidamente credenciadas.

11. É urgente promover a literacia mediática, com iniciativas no domínio da educação pré-universitária e junto da população em geral.

12. Os jornalistas, reunidos no 4.º Congresso dos Jornalistas Portugueses, assumem o compromisso de cumprir os deveres e as responsabilidades decorrentes dos princípios ético-deontológicos do jornalismo e das melhores práticas do exercício e regulação da profissão.

Lisboa, 15 de Janeiro de 2017
http://www.jornalistas.congressodosjornalistas.com/resolucao-final-do-4-o-congresso-dos-jornalistas-portugueses/


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