Massacre chinês abre portas ao capitalismo selvagem

O que não se contou de Tiananmen   e da R.P. China    (-por R.Varela, 4/6/2014, 5Dias)

   Tiananmen foi o canto do cisne de um movimento de trabalhadores e estudantes – ao todo pensa-se que 100 milhões em mais de 300 cidades – que nas ruas da China, durante três anos, colocaram nas ruas a questão do poder e se enfrentaram com a burocracia do PC da China.

A propaganda ocidental conseguiu, com algum sucesso, resumir Tiananmen a um protesto numa Praça de Pequim, levado a cabo por estudantes, que reivindicavam a abertura ao Ocidente e foram brutalmente reprimidos pelo PC da China. Como sempre, uma mentira tem de ter parte de verdade para ser engolida pelas pessoas.

    Tiananmen é o momento mais dramático de uma situação pré-revolucionária que se abriu na China em 1986 e se encerrou em 1989 com a dramática repressão sobre estudantes e trabalhadores levada a cabo por um sector do Partido Comunista da China.

    As reformas de Deng Xiaoping, no início dos anos 80 – conhecidas como as quatro modernizações (agricultura, indústria, investigação cientifica, exército) –, geraram uma oposição entre os trabalhadores, estudantes e intelectuais.   O «socialismo de mercado» (e«um país 2 sistemas económicos») criava profundas divisões entre as zonas especiais e a China costeira e o mundo rural:   um trabalhador chinês do campo podia ir trabalhar numa fábrica da costa com um passaporte especial, mas não podia aí residir ou levar a família ou colocar os filhos na escola, o que ainda hoje se passa na China.   A mercadoria «trabalhador» estava a construir a China que deu o salário da globalização e permitiu aos países imperialistas (importadores e  investidores na "deslocalização industrial» para a China) acumular capital de uma forma espantosa durante os anos 80 e 90 do século XX.   Era o maior exército industrial de reserva do Mundo.   A inflação e a crescente «desigualdade social», nas palavras do historiador Massimo Salvadori, e a justa luta pela liberdade, contra a ditadura imposta pela burocracia do Partido Comunista, levaram um sector da população a enfrentar-se com o Governo e abriu-se uma crise dentro do PC da China, que em 1986 levou à substituição de Hu Yaobang no cargo de secretário-geral do partido. Esta substituição gera manifestações gigantescas em toda a China.   Crises sucedem-se nesses três anos sem que o Governo consiga controlar a situação.   Ao lado, a URSS desmoronava-se (com Gorbatchov), confirmando o prognóstico de Trotsky nos anos 30: ou havia uma revolução contra a burocracia ou uma restauração bárbara do capitalismo.

      Em Abril de 1989, a morte de Hu Yaobang é o rastilho. Para lhe prestar homenagem, os estudantes escolhem a Praça de Tiananmen, e a 17 de Abril começa a ocupação da Praça.  Começam por ser 20 mil estudantes, rapidamente passam a 100 mil estudantes e trabalhadores. Em 22 de Abril, dia do funeral, e apesar de proibida a manifestação, mais de 200 mil pessoas estão na Praça.  Denunciando a corrupção do PC, exigem igualdade, boas condições de vida, liberdade.   Quando há muita gente na rua, dizia Che Guevara, algo de bom se passa.

     O movimento permaneceu e em 17 de Maio, quando da visita a Pequim do líder soviético Mikhail Gorbachev, uma multidão sai às ruas, respondendo aos apelos dos estudantes. No dia 18, cerca de 1000 estudantes entram em greve de fome e o Governo decreta o estado de sítio.   Em 24 de Maio os estudantes criam um quartel-general de defesa da Praça Tiananmen.   Há uma luta entre os estudantes que querem permanecer na Praça e os que acham que se deve começar a dialogar com o Governo.   No dia 28 de Maio, há em todo o Mundo manifestações a favor da luta de Tiananmen. A revolta conta nas suas fileiras com trabalhadores, sindicalistas, intelectuais, jornalistas. O Governo decide mandar o Exército reprimir. E o Exército de Pequim recusa-se a fazê-lo…

       O massacre ignorado

Com urgência, o Governo manda vir para Pequim tropas do Exército de Libertação Popular de outros locais. A história dos exércitos rurais usados para derrotar as revoluções das cidades repete-se desde a Comuna de Paris.   Mas a população à entrada de Pequim, aos milhares, faz barricadas e impede a entrada do Exército em Pequim.   A 2 de Junho, o povo obriga os soldados a recuar. Mas a 3, à noite, os tanques avançam. Há inúmeros mortos, ninguém sabe bem quantos, de trabalhadores esmagados pelos tanques ou mortos a tiro nas avenidas que dão acesso a Tiananmen.   O maior massacre, conhecido entre os trabalhadores por Massacre de Pequim, ocorre longe de Tiananmen, e das câmaras de televisão, como lembram George Black e Robin Munro no livro Black Hands of Beijing: Lives of Defiance in China’s Democracy Movement: «O alvo principal não eram os estudantes, mas os trabalhadores dos subúrbios de Pequim que se revoltaram contra as duríssimas condições de trabalho e de vida impostas pela abertura ao mercado dos anos 70.» Brendan O’Neill confirma, num artigo escrito para o The First Post, que a maioria das vítimas foram «trabalhadores dos subúrbios de Pequim».

   Na madrugada de 3 de Junho e no dia 4, o Exército avança e começa a disparar, fazendo, pensa-se, mais de 1500 vítimas, a maioria não estudantes, e entre eles vários elementos do PC da China que se opunham às reforma de Deng e que saíram às ruas para defender os estudantes e a revolução.

    O movimento terá tido manifestações, greves e impacto político em cerca de 300 cidades da China e envolvido 100 milhões de chineses.

A política é confundida pelo som das palavras. Tiananmen em chinês quer dizer a Porta da Paz Celestial. Em Tiananmen o PC da China dizia estar a lutar contra uma clique de «contra-revolucionários». Os trabalhadores e estudantes eram descritos como querendo uma liberalização económica e democrática.   Mas a derrota de Tiananmen abriu a China ao capitalismo mais selvagem de sempre, pela mão dos «ortodoxos» do PC da China. Tiananmen foi, hoje podemos com certeza dizê-lo, o ponto alto da contra-revolução que restaurou o capitalismo na China dirigida pela burocracia do PCC, auxiliada por um Exército que se chamava de «libertação».  Derrotados foram os trabalhadores que quando saem à rua, quer o digam ou não, colocam sempre esta questão chave:  «de quem é o poder».

    O Ocidente «chocado» agradeceu à China por ter criado as condições que abriram portas a que hoje um chinês monte um computador a troco de uma tigela de arroz.   Esse é o significado histórico de Tiananmen.  A condenação formal não passou de uma vénia que o Ocidente foi obrigado a fazer, já que às suas portas, na Europa, tinha uma revolução ainda mais poderosa em curso, com o desmoronamento da URSS.

    Também à China se colocava a velha questão de Trotsky: ou a revolução ou a restauração bárbara e impiedosa do capitalismo. Sem se enfrentarem com os burocratas que crescem na sua própria classe, os trabalhadores estão condenados a derrotas, à paz dos cemitérios.

         O homem do tanque

Na madrugada de 4 de Junho, um homem desconhecido, na Avenida da Paz Eterna, perto de Tiananmen, pequenino e magro, segurando sacos de plástico nas mãos, pára em frente a uma coluna de tanques. O da frente tenta evitá-lo. Ele não sai da frente. Consegue subir e falar com o condutor do tanque. Conta-se que lhe terá dito: «Não matem mais o meu povo.» Foi depois levado: ninguém sabe ao certo se por militares, se por amigos. E ninguém até hoje sabe do seu paradeiro.  -  Publicado originalmente em Revista Rubra nº 6 

Protesto e massacre de há 25 anos  (via Der Terrorist)   

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Ainda há heróis    (-por P.Correia, 04.06.14, delito de opinião)

      . No coração da remota China muçulmana, a população turcófona continua a ser remetida para guetos nos subúrbios: os melhores empregos e as melhores habitações cabem à etnia han, dominante no conjunto do país. Só existe igualdade na lei, não existe na prática: os uígures são tratados como cidadãos de segunda na sua própria terra.

     Que crime cometeram?  Procurarem manter a identidade cultural, falando a sua língua e professando a sua religião no Estado mais populoso do mundo, onde a norma é esmagar toda a diferença.      Acontece hoje no Xinjiang, acontece há meio século no Tibete, aconteceu em 1989 na própria sede suprema do Império do Meio.    Sei bem do que falo. Há um quarto de século, vivi em Macau um dos períodos mais tristes de que me lembro, quando vi esmagar a Primavera com que milhões de chineses haviam sonhado – a Primavera política, após quatro décadas de regime ditatorial, afogada em sangue naquela trágica madrugada em Tiananmen, a Praça da Paz Celestial, que nunca fez tão pouco jus ao seu nome poético.    Após mês e meio de protestos pacíficos, iniciados em Abril, com a morte súbita do ex-secretário-geral do Partido Comunista Chinês, o reformista Hu Yaobang, destituído dessas funções em 1987.

    Recordo as expressões festivas nos rostos de muitos chineses semanas antes, dias antes, quando toda a esperança parecia possível.

Recordo as figuras dos principais dirigentes estudantis, imagens que galvanizaram toda uma geração – jovens como Wang Dan, Chai Ling e Wuer Kaixi, que viriam a ser perseguidos e forçados ao exílio (os que não foram fuzilados ou encerrados em "campos de reeducação").

   Recordo a euforia popular que rodeou a chegada à capital chinesa em meados de Maio, para uma visita oficial, de Mikhail Gorbatchov, o homem que se preparava para derrubar a cortina de ferro e servia de inspiração ao ansiado derrube da cortina de bambu.

   Recordo também a mobilização de uma vasta força repressiva, composta por 300 mil soldados mandatados para estancar a revolta. Recordo a proclamação da lei marcial por Deng Xiaoping (que só viria a ser levantada em Janeiro de 1990) e o afastamento do líder do partido, Zhao Ziyang, acusado de ser excessivamente brando pelos falcões da ditadura e condenado a partir daí à morte civil e à reclusão doméstica com carácter vitalício.

   Recordo o silêncio de chumbo nos dias subsequentes ao massacre.

  Recordo sobretudo o impressionante instantâneo daquele homem sem rosto nem nome, de braços nus, enfrentando uma sinistra fileira de tanques, imortalizado pelo clique da máquina fotográfica de Stuart Franklin. Símbolo máximo da dignidade humana perante a força bruta - há 25 anos em Pequim, hoje no Xinjiang que teima em ser diferente.

   Quando ouço dizer à minha volta que já não existem heróis, lembro-me sempre daquele homem sem medo. Que outro nome haveremos de dar-lhe senão esse – o de herói?



Publicado por Xa2 às 07:49 de 04.06.14 | link do post | comentar |

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