Mudança de Bento neoliberal para radical de esquerda ?!!

Mudança de Bento?     (-por J.R.Almeida, Ladrões de B.)

Há uns meses, João Rodrigues chamava aqui a atenção para os sinais contraditórios sobre o ajustamento que Vítor Bento vinha mostrando. Ele que fora um acérrimo defensor da austeridade e um dos seus teórico-filósofos, com Jorge Braga de Macedo, António Borges, Vítor Gaspar, andava a mudar de pensamento. Pois, muito recentemente Vítor Bento publicou um ensaio, que poderia muito bem ser rubricado por qualquer membro radical do Syriza.O ensaio é exaustivo e numericamente fundamentado sobre os efeitos do ajustamento feito através da austeridade na zona euro: como, para um grupo de paises - os Deficitários - aumentou o desemprego e aprofundou a recessão, enquanto que para outro grupo - os Excedentários - produziu os efeitos simétricos. E que portanto – ao arrepio da narrativa alemã que contagiou organismos internacionais e mesmo o Governo português – a “culpa” não estava nos países “Deficitários”, mas precisamente nos “Excedentários”. Uma ideia nunca frisada por Bento enquanto defendeu, de 2010 a 2014, a inevitabilidade da austeridade.
      2010. Bento defende a urgência de uma desvalorização dos salários. Em Novembro desse ano e na sequência do seu livro “Nó cego”, defende no site das SEDES que os países do sul tinham de "convergir para o rigor alemão". Era necessário “uma enorme austeridade – porque, estando nós há 10 anos a viver cerca de 10% acima das nossas possibilidades, não poderemos deixar de, em primeiro lugar, ajustar o nosso nível de vida às nossas possibilidades”. (Leia-se igualmente a resposta aos leitores, onde Bento conclui: "Austeridade. Eu percebo a angústia, mas sem dinheiro não há outro remédio".)
      2011. Vítor Bento aparece nas sessões do movimento “Mais Sociedade” criado pelo PSD para alimentar a sua campanha eleitoral. E poucos dias depois defende a ideia de “desvalorização fiscal”, como forma de aumentar a competitividade da nossa economia. (“A ideia é uma boa ideia”). Em Outubro de 2011, já com Passos Coelho no Governo, Bento defende toda a necessidade de um ajustamento pela austeridade. "Já chegámos ao fim da linha porque não temos financiamento", por isso "não há limites para os sacrifícios", afirmou. Em Dezembro desse ano, em entrevista ao Público, Bento defende o ajustamento feito com a troika.
      2012. A 31 de Janeiro, Vítor Bento defende a ideia benigna da austeridade: Deve-se transformar a austeridade de «uma ideia de privação para uma ideia de sobriedade». Em Fevereiro, defende que Portugal não podia ser daquelas pessoas que constroem uma casa no leito de um rio e que culpa a cheia por ter lhe levado a casa. A austeridade era inevitável: “Ou sim, sou sim”, disse. (veja-se minuto 8 e 10. Em Setembro diz: “Dizem que há alternativas à austeridade, mas eu não vi – confesso que não conheço”.Na 2ª versão da desvalorização fiscal, Bento concorda com o FMI, mesmo quando a medida escassos resultados tem. Novembro: estando o equilíbrio externo restaurado, agora era necessário reduzir os custos salariais.
     2013. Janeiro, um novo livro e já com a crise do Estado Social a pairar, a mesma abordagem: «Isto foi uma etapa, mas ainda há muita volta para correr, há muita montanha para subir». Novembro: já com todos os desvios face ao plano inicial que o ajustamento vai causando: “não é devido à austeridade que a economia não cresce (como não cresceu quando não havia austeridade), mas é falta de condições de crescimento que acentua a austeridade”. 
     2014. 1 de Abril: face a um consenso de que a dívida pública não é pagável, Bento defende que nada deve ser dito porque só vai elevar as taxas dos mercados (minuto 8) e que o ajustamento terá de ser feito quer se queira quer não (minuto 11).
      Passados cinco anos, mais de 1,2 milhões de desempregados, pobreza a subir e emigração a levar-nos mão de obra formada para os países Excedentários, Vítor Gaspar fugiu para o FMI, António Borges chegou a defender a nacionalização das PPP e agora Vítor Bento culpa os países do norte. Irá Braga de Macedo abraçar Varoufakis ditante da sede do Governo grego?



Publicado por Xa2 às 07:48 de 09.02.15 | link do post | comentar |

4 comentários:
De Rombo na fé dominante e do desgoverno a 10 de Fevereiro de 2015 às 15:15
Um rombo no porta-aviões ?


«(...) quase surpreende que Vítor Bento, num longo e estruturado ensaio publicado no Observador, venha dar um tiro no porta-aviões da doutrina da austeridade expansionista e, na mesma leva, na narrativa oficial do Governo do "temos de empobrecer" e "andámos a viver acima das nossas possibilidades". (...)

Sendo, como é, um perene conselheiro de Estado, e até há pouco tempo (...) um dos mais consensuais economistas da direita portuguesa, é um rombo importante na doutrina dominante.

Porque, agora, já se pode dizer que, como já aqui assinalámos em Setembro de 2014, a Alemanha tem de perceber de uma vez por todas que se quer que os demais Estados-membros lhe subsidiem uma moeda com câmbio mais baixo, o que a mantém competitiva, e lhe dêem livre acesso a um mercado de 500 milhões de habitantes, tem de partilhar esses ganhos.

Não é uma questão de pedir ao contribuinte alemão o que é dele, é pedir-lhe que devolva o que não lhe pertence, que é o que o "dispor de um excesso de competitividade que é subsidiado pelos sacrifícios dos Deficitários, obrigados a um ajustamento unilateral" de Vítor Bento quer dizer em português corrente.

E qual será o montante desse subsídio? Vítor Bento não arrisca um valor, remetendo para um paralelo com o movimento recente do franco suíço, mas recorrendo aos cálculos de Dominick Salvatore, da Fordham University, podemos estimar que um "euro alemão" valeria pelo menos mais 40% no mercado cambial. Um subsídio e tanto.

O rei vai nu e há que sublinhar que "aqui reside a grande falha da argumentação moral que tem subjazido à condução do processo, pois que não são os Excedentários que têm estado a sustentar o bem estar dos Deficitários, mas o contrário.".

Numa altura em que a Grécia afronta os dogmas europeus o Governo português teima em negar a evidência e manter o rumo. A Grécia lutará pelos interesses dos Gregos mas não conte com o apoio do Governo de Portugal, por muito que os interesses do povo português sejam semelhantes: menos austeridade, para garantir a sustentabilidade da Economia e das contas públicas.

Estamos num momento da história em que essa teimosia se traduz em mais pobres, mais desempregados, menos protecção social. Não é culpa da Chanceler Merkel que está a lutar pelos interesses do seu país:
aquilo do "Deutschland, Deutschland über alles" (Alemanha acima de tudo e todos) é mesmo para levar a sério. Infelizmente para nós, para Passos Coelho ("o alemão") também.»

(Marco Capitão Ferreira; "Já se pode dizer?". Na íntegra: aqui) http://terradosespantos.blogspot.pt/ 10/2/2015


De Economicistas e comentadeiros a 10 de Fevereiro de 2015 às 10:10
----- Luís Lavoura disse...
Esqueceu-se de mencionar a expulsão de Bento do Novo Banco. Possivelmente o governo deu-se conta a tempo de que estava a braços com um heterodoxo...

-----
Como as coisas estão a mudar é importante adequar o discurso, o objectivo é estarmos sempre no topo da onda. Estes ilustres deste nosso país só dizem banalidades, são de uma superficialidade constrangedora.

----- Miguel Carvalho disse...
O Braga de Macedo também já mudou de discurso há algum tempo. Veja-se isto:

Braga de Macedo "Quanto ao aspeto orçamental, o primeiro problema não é esse. Isto é muito importante de se perceber. O primeiro problema de Portugal, que levou Portugal a pedir ajuda externa, foi o défice externo [privado]."
http://www.dinheirovivo.pt/economia/macro/interior.aspx?content_id=3923508&page=-1

-----
É uma tristeza muito grande vermos estes grandes génios da economia( uns auto-intitulados outros assim chamados por outros grandes crâneos ...),a dar o dito por não dito, a dizer o contrário do que já haviam dito, enfim, a tentarem passar de falcões a pombas.
Que grandes crâneos e génios economistas estes que afinal não conseguem ver um palmo á frente do nariz.
E por causa disso, muita gente farta-se de sofrer quando era escusado.
Afinal de contas isto é tudo uma questão politica e nada mais.
Basta que os políticos se preocupem com as pessoas para que nada disto aconteça.
Espero que Vitor Bento reze 30.000 pais nossos e avés marias como castigo por todo o mal que causou ao influenciar dente como o tal Gaspar e o tal B.Macedo ( grandes crâneos desta praça, claro...).


De Ricos, Austeridade e merd.. a 9 de Fevereiro de 2015 às 12:00

----- 2000 famílias possuem 80% da riqueza da Grécia

Ouvir ao minuto 12, no canal 1 alemão, dito por Michalis Pantelouris, jornalista greco-germânico. Uma apropriação de riqueza desta grandeza não terá acontecido por via legal. Mas pode resolver-se legalmente, basta o estado querer.


----- Aperta-se o cerco à austeridade

Renzi rejeita lições orçamentais de Angela Merkel. O demónio Varoufakis não dá sossego à IURD liberal.


------Sobre armadilhas petrolíferas que se calhar vão dar merda

Angola quer renegociar. Alguém chame o FMI antes que o preço dos preservativos volte a subir na Venezuela. Alguém disse Goldman Sachs?

-------- Evidências

“Se não mudarmos a Europa, a extrema-direita irá fazê-lo”. – Tsipras


De Causas: estagnaç, corrupç, burla neolibe a 9 de Fevereiro de 2015 às 12:12
Passos Coelho sabe que, pelo mesmo Capital, pagamos aos nossos Credores o Dobro da Grécia, revelou-nos o Sr. Tsipras

-Fevereiro 5, 2015

O Governo do Sr. Tsipras já teve involuntariamente embora algo de bom para nós: por causa dele, o Sr. Primeiro Ministro revelou ontem, no telejornal da hora do jantar, saber que a Grécia paga à União Europeia menos juros do que Portugal, tendo prazos de pagamentos mais longos. Isto é: o Dr. Passos Coelho revelou que já sabia que a Grécia tinha obtido da Srª Merkel melhores condições do que as obtidas pelo seu governo. Revelou por cima da burra, de passagem entre dois contos de fadas, e por isso dispensou-nos por isso de prática aquela sua qualidade que ele próprio não se cansa de gabar: falar verdade; por isso, dispensou-se de nos informar que afinal já sabia que a sua política de adular os nossos credores tinha tido por resultado… que os nossos queridos credores já (n)o(s) tinham começado a tratar pior do que aos gregos … antes mesmo da vitória eleitoral do Syriza.

É gigantesca a diferença entre o que nós e os gregos pagamos aos nossos credores : a Grécia paga em juros da dívida pública cerca de 2,5% do seu PIB e o Portugal do Dr. Passos Coelho paga 5% do PIB, por uma dívida proporcional e absolutamente menor. Se deflacionarmos a diferença pela quebra dos PIBs provocada pelas políticas de austeridade, a vantagem helénica sobre nós diminui, mas continua abissal. Era a tal vantagem que o Dr. Passos Coelho a semana passada asseverou ser irrealizável pelos gregos e que eles afinal já obtiveram – era o «conto de fadas», que o Dr. Coelho atribuiu aos gregos e que eles, aliás, já reivindicaram, tendo explicado ao nosso primeiro ministro nada terem contra as histórias de fadas: elas dão esperança.

Atenção, prezado leitor: O Economista Português não está a jogar a feijões: a vontade do Dr. Coelho ser bem visto pela Chancelarina Merkel custa ao leitor 2,5% dos seus rendimentos –pois, se o Dr. Coelho tivesse defendido avisadamente os nossos interesses, pagaríamos proporcionalmente o mesmo dos gregos. A grande diferença é o gregos quererem pagar ainda menos e o Dr. Passos Coelho querer pagar o dobro dos gregos, ou ainda mais. Tudo para o nosso bem. Tudo devido à interpretação pedestre de frases do tipo «as pessoas de bem pagam as suas dívidas».

Se o leitor quiser hoje divertir-se (riso amargo) , leia as falanges de porta-vozes governamentais (ou escute-os nas televisões) a balbulciarem com ar douto que as contas acima são falaciosas, nós é que estamos bem, coitados dos gregos. Acredite se quiser. O Estado português é tão rico que paga aos seus funcionários na Suiça abaixo do mínimo de sobrevivência naquele país.

Ah! E que diz a isto a oposição dinástica? Está tão caladinha porquê?

*
Estimativas do serviço da dívida grega em

http://economico.sapo.pt/noticias/para-o-syriza-o-teste-nao-e-a-divida_211343.html
-----------

O Perigo para a Eurozona: Merkel, Hollande em Moscovo
Fevereiro 6, 2015


Religiões na EuropaUm eixo ortodoxo em formação?

A Chancelarina Merkel e o Presidente Hollande estão hoje em Moscovo para tentarem métodos pacíficos de acordo com a Rússia sobre a Ucrânia. Invertem assim num relâmpago meses de demonização de Putin. Porquê? Por causa do Syriza. Vejamos. Os ucranianos pró-russos desencadearam um ofensiva militar. Esta ofensiva foi contigua à vitória do Syriza nas eleições gregas. Washington respondeu com a ameaça de dar armas letais ao governo de Kiev. Berlim recusou, pelo menos por hora, o que diz bem a gravidade e a acuidade que a Alemanha atribui ao problema. Ou seja: a Rússia aumenta a pressão sobre o eixo franco-alemão no eixo leste europeu-ortodoxo. Isto é: Moscovo ameaça apoiar a Grécia se ela abandonar/tiver que abandonar a Eurozona. A visita de Merkekelhollande a Moscovo significa que os nossos credores querem impedir a Rússia de apresentar uma proposta à Grécia. Presumivelmente por não estarem com vontade de cobrir o apoio russo a Tsipras. Cobertura que por certo sairia em conta, dada a debilidade petrolífera das finanças russas. Dito de outro modo: a campanha de inverno do general Merkelhollande é o primeir


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