De JPP: a Europa q. nos EnVERGONHA. a 29 de Junho de 2015 às 15:41

A Europa que nos envergonha
(José Pacheco Pereira, in Público, 27/06/2015)

Esta não é a Europa dos fundadores, é a Europa dos partidos mais conservadores, com os socialistas à arreata. Não terá um bom fim e, nessa altura, muita gente lembrará a Grécia.

Bater nos gregos tornou-se uma espécie de desporto nacional. Tem várias versões, uma é bater no Syriza, outra é bater nos gregos propriamente ditos e na Grécia como país. As duas coisas estão relacionadas, bate-se na Grécia porque o Syriza resultou num incómodo e, mesmo que o Syriza morda o pó das suas propostas, – que é o objectivo disto tudo, – o mal-estar que existe na Europa é uma pedra no orgulhoso caminho imperial do Partido Popular Europeu, partido de Merkel, Passos e Rajoy e nos socialistas colaboracionistas que são quase todos que os acolitam. É isto a que hoje se chama “Europa”.

Se não fosse sinal de coisas mais profundas, e péssimas, seria um pouco ridículo que nós portugueses nos arrogássemos agora o direito moral de bater nos gregos. Somos mesmo um belo exemplo! Ah! Fizemos o “trabalho de casa” e isso dá-nos a autoridade moral, “sacrificamo-nos” para ter agora esta gloriosa “recuperação” e os gregos não, Passos Coelho dixit. Para além de estar certamente a falar para a Nova Democracia e para o Pasok e não para o Syriza, o balanço do “ajustamento” grego foi devastador para a economia e para a sociedade. Porquê? Nem uma palavra. Ninguém fala da “herança” do Syriza, recebida em princípios de 2015, das mãos de dois partidos da aliança dos “ajustadores”, a Nova Democracia irmã da CDU, do PP espanhol e do PSD e do CDS português, que governou a Grécia com a eficácia que conhecemos e pelo PASOK, irmão do PS, que a co-governou. Eram esses que a “Europa” queria que ganhassem as eleições.

Só que os gregos “não fizeram o trabalho de casa”… e por isso tem que ser punidos. Caia o Syriza na lama, e venha um qualquer outro governo dos amigos e ver-se-á como muita coisa que é negada ao Syriza será dada de bandeja ao senhor Samaras e os seus aliados. O problema não é o pagamento aos credores, não é a “violação das regras europeias” (quais?), não é uma esforçada dedicação pela “recuperação” da Grécia, é apenas e só político: não há alternativa, não pode haver alternativa, ninguém permitirá nesta “Europa” nenhuma alternativa que confronte o poder dos partidos do PPE e seus gnomos de serviço socialista, porque isso fragiliza aquilo que para eles é a Europa.

A ideia de que a Grécia não é um Estado ou que é um “país falhado” é um absurdo. A julgar por esses critérios muitos países da Europa não são Estados, a começar pelo “estado espanhol” aqui ao lado e a acabar nalgumas construções de engenharia política ficcional que a Europa ajudou a criar nos Balcãs, seja o Kosovo, seja mesmo a bizarra FYROM. É evidente que a Grécia não é a Alemanha, mas Portugal também não é. A Grécia não é a França, mas vá-se à Córsega perguntar pela França, ou mesmo às zonas dialectais do alemão na Alsácia. Ou então a esses territórios muito especiais da União Europeia, sim da União Europeia, que são por exemplo a Reunião e Guadalupe, “departamentos franceses do ultramar”.

A Grécia é a Grécia, muito mais parecida com Portugal naquilo é negativo que os que hoje lhe deitam pedras escondem, e bastante menos parecida com Portugal, numa consciência nacional da soberania, que perdemos de todo. No dia da vitória do Syriza, o que mais me alegrou, sim alegrou, como penso aconteceu a muita gente, à esquerda e à direita, não foi que muitos gregos tenham votado num “partido radical” ou num programa radical, ou o destino do Syriza, mas sim o facto de que votaram pela dignidade do seu pais, num desafio a esta “Europa” que agora os quer punir pelo arrojo e insolência. Escrevi na altura e reafirmo que mais importante do que a motivação de acabar com a austeridade, foi o sentimento de que a Grécia não podia ser governada por uma espécie de tecnocratas a actuar como “cobradores de fraque” em nome da Alemanha. Por isso, mais grave do que o esmagamento do Syriza, que a actual “Europa” pode fazer como se vê, é o sinal muito preocupante para todos os que querem viver num país livre e independente em que o voto para o parlamento ainda significa alguma coisa. Nisso, os gregos deram uma lição aos nossos colaboracionistas ...


De lição aos nossos colaboracionistas... a 29 de Junho de 2015 às 15:44
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lição aos nossos colaboracionistas de serviço, que andam de bandeirinha na lapela.

Voltemos ao não-pais. A Grécia é um país muito mais consistente na sua história recente do que muitos países europeus, principalmente do Centro e Leste da Europa. Tem dois factores fortíssimos de identidade nacional, a religião ortodoxa e a recusa do “turco”. E foi “feita” por eles. Vão perguntar ao fantasma de Hitler o que ele disse da Grécia quando a invadiu e não disse de nenhum outro país e vão perguntar aos ingleses que apoiaram os resistentes gregos, duros, ferozes e muitos deles, como em Creta, “bandidos da montanha”. Sem Estado.

Esta identidade nacional dá para o mal e para o bem, como de costume, mas existe. Muitas aventuras militares e políticas resultaram dessa forte identidade e da relação mítica e simbólica com o passado, como seja a invasão da Anatólia numa Turquia em crise pós-otomana para reconstituir a Grande Grécia clássica e bizantina, ou as reivindicações sobre o Epiro albanês, ou mesmo a pressão contra a existência da Macedónia como estado. A aventura de Venizelos e a Megali Idea foi uma das grandes tragédias do século XX, apoiada irresponsavelmente pelos ingleses, mas mostram como é ligeiro apresentar a Grécia como um “não país”, quando nesses anos as poucas cidades “civilizadas” nessa parte do mundo não eram Atenas, mas Salónica e Esmirna. Esmirna, incendida pelos turcos e Salónica purgada dos seus judeus por Hitler.

O argumento “geográfico” das ilhas para afirmar que a Grécia “não é um estado” então é particularmente absurdo. A Grécia tem centenas de ilhas e a Indonésia milhares. Então a Indonésia também não é um país? É-o certamente menos do que a Grécia, visto que a diversidade rácica, linguística e religiosa da Indonésia é muito maior e mais complicada do que as ilhas gregas cujo cimento, até mesmo a Rodes, que fica bem em frente da costa turca, é de novo, a religião e a história.

Os gregos, povo de comerciantes e marinheiros, são um alvo fácil, como os camponeses do Sul de Itália e os alentejanos, para os do Norte industrial e “trabalhador”. É um estereótipo conhecido: ladrões, vigaristas e, acima, de tudo preguiçosos. Por isso “enganaram a Europa” e querem viver á nossa custa. A Grécia enganou a Europa? Sim with a little help from my friends. A Europa ajudou activamente a Grécia a falsificar os números, a Alemanha em particular, enquanto isso lhe interessou. E nós? Só para não ir aos inevitáveis exemplos socráticos, vamos para este governo e bem perto de nós. Com que então a TAP foi comprada por um português? O brasileiro-americano o que é, o consultor para a aviação? De onde veio o dinheiro, a pergunta que se faz sempre aos remediados, que já são vigiados por 1000 euros, e ninguém faz aos ricos e poderosos? Para que é esta cosmética? Para enganar a União Europeia dando a entender que a TAP foi comprada por um cidadão da União. O truque é tão evidente, que muito provavelmente, como aconteceu com os gregos, a União Europeia já assinou de cruz pelas aparências porque lhe convém. Atirem pois mais uma pedra aos gregos.

Os gregos não querem pagar impostos? Não, não querem, mas nós portugueses também não queremos. Há uma diferença, é que em Portugal se aceitou nos últimos anos, um poder fiscal muito para além do que é aceitável numa democracia. Será que é isso a que se chama “fazer o trabalho de casa”, ter um Estado? Já agora, as estatísticas da economia informal na Europa são muito interessantes. Sabem que Estados tem uma economia informal muito superior à grega? A Noruega, a Suíça, o Luxemburgo, a Dinamarca, a Finlândia e… a Alemanha.

A questão mais importante e que merece ser analisada e discutida mais a fundo, não é a Grécia e muito menos o destino do Syriza. É a mudança de carácter da União Europeia, da “Europa”, nestes anos de crise. A hegemonia alemã é um facto, mas a principal mudança foi a substituição de um projecto europeu de paz e solidariedade, por um projecto de poder. A substância desse poder é a hegemonia política do Partido Popular Europeu que, apoiado pelo papel do governo alemão, mas indo para além dele, transformou o “não há alternativa” na legitimação de todos os governos conservadores, muitos dos quais viraram francamente à direita nestes anos. Esses governos recebem todas as complacê


De Europa da direita e soc-dem. à trela. a 29 de Junho de 2015 às 15:47

A Europa que nos envergonha

(José Pacheco Pereira, in Público, 27/06/2015)
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...Esses governos recebem todas as complacências (como Portugal a quem se fechou os olhos nos falhanços na aplicação do memorando) e todos os apoios.

A “Europa” é hoje a principal aliada eleitoral e de governo de partidos como o PSD em Portugal e o PP em Espanha,
interferindo qualitativamente nas eleições nacionais e transformando o reforço do poder comunitário num instrumento de poder “europeu”.
Hoje qualquer passo que reforce a “Europa” reforça o PPE e o “não há alternativa”.
Esta não é a Europa dos fundadores, é a Europa dos partidos mais conservadores, com os socialistas à arreata.
Não terá um bom fim e, nessa altura, muita gente lembrará a Grécia.


De Objectiva/ Gregos ou Escravos iludidos a 29 de Junho de 2015 às 17:09

Objetivamente, a Grécia

(27 Junho 2015 às 14:37 por Penélope ,Aspirina B)

No clímax de tensão a que chegaram as negociações, Tsipras tomou a única decisão possível – convocou um REFERENDO à proposta dos credores.
-- Se, neste referendo, o NÃO vencer, o país sairá provavelmente do euro (sairá?)
e Tsipras manterá a liderança, agora reforçada, tendo, sem dúvida, muito que fazer para merecer uma menção de destaque na História.
-- Se o SIM à proposta vencer, Tsipras, que anunciou ir fazer campanha pelo Não, terá de se demitir, pois não terá condições para executar as medidas que rejeitou.
Neste caso, haverá novas eleições e a direita ganhará, voltando-se ao «business as usual» dos últimos cinco anos, isto é, a SANGRIA, desta feita expressamente consentida.
Resolve-se alguma coisa na Grécia?
Não, apenas se vai pagando aos credores.
Com os seus empréstimos. Isto é um negócio.

Mas os gregos devem saber em que estado se encontram.
Possivelmente será, para a sua maioria, tão mau continuar com a austeridade imposta
como mandar os credores «dar uma volta ao bilhar grande» e divertirem-se com (enquanto negam) o que ganharam durante anos
com os empréstimos à Grécia e com as grandes obras, e seja o que Zeus quiser.
Possivelmente Zeus e Tsipras serão, em 5 de julho, a mesma pessoa.

Foi preciso a Grécia chegar até aqui, ou seja, a uma situação tal que o único crédito a dar pelos eleitores aos políticos foi a eleição de um partido radical de esquerda,
para pôr finalmente às claras o espírito europeu nesta crise – na Europa, em especial na zona euro pós-2010, com mais ou menos salamaleques, existem os credores e existem os devedores.
Para além disso, mais nada.

Se a receita aplicada pelos credores (e a Grécia aplicou-a, ao contrário do que diz a direita desde fevereiro) provoca pobreza, DESTRÓI a economia, afunda o PIB, mata a democracia, torna os países ESCRAVOS de uma dívida crescente e impagável e,
a prazo, transforma a união europeia numa FARSA, se é que não dita o seu óbito, que importa?
É assim.
O povo deve pagar os desmandos da BANCA e as decisões preconceituosas de quem manda.

Entretranto, não há ferramentas soberanas.
Com a moeda única, todos os países se submeteram a Berlim.
Como conviver bem nesta União?

A hipótese mais óbvia é aliar-se a Angela Merkel, OBEDECER cegamente às suas ordens,
aceitar que as mesmas defendem em primeiro lugar os INTERESSES dos alemães que a elegeram,
FINGIR que tudo vai bem por cá e
esperar a PROTEÇÃO eterna das instituições, controladas pela Alemanha, incluindo em caso de nova crise.
É o que faz Portugal, com o DESgoverno de Passos e Portas.
Com a agravante de os executantes terem verdadeiro prazer no CHICOTE.
Objetivamente, estamos condenados a MENDIGAR as boas graças do patrão.

Objetivamente também, esta forma de a «Europa» lidar com os efeitos de uma grave crise financeira internacional foi uma estreia, atendendo à existência da união monetária.
O clube não estava preparado para o que sucedeu.
Não havendo mecanismos de combate e de estabilização,
e havendo grandes discrepâncias entre os países,
o país mais rico foi quem ditou as regras.
E, evidentemente, nesse processo defendeu os seus interesses.

Pode objetivamente dizer-se que correu bem? Sim, até agora, para o comandante.
Para a soldadesca, não, não pode objetivamente dizer-se que correu bem.
Para os lambe-botas há a ilusão de que sim.

Para onde se caminha não se sabe ou não interessa.
Mas o facto de haver alguém que questiona e desafia só pode merecer aplauso.
Quando já não há nada a perder.

--------- Penélope
É mais correto falar em emprestar do que em pagar. Tudo é para ser reembolsado e com juros. As exigências de quem empresta têm sido tão razoáveis que os gregos continuam sem dinheiro para honrar as dívidas e sem economia. Nada melhorou na situação grega, apesar das medidas de austeridade. Há quem pense que por causa delas. Sair do euro? Possivelmente é melhor. O problema, para a Europa, é se a mudança traz bons resultados para os gregos. Evidentemente que irão tudo fazer para que não.
---- ...


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