Não à ditadura (financeira/...), nem ao pensamento único: Democracia, Solidariedade e Alternativa(s) !
   Do ponto de vista do interesse nacional, o que se passa na Europa (não, não é a Grécia, é toda a Europa) é preocupante. Se tudo isto acarretar mais dificuldades para as empresas e para as famílias portuguesas, espero que aqueles que trataram a “questão grega” com leviandade e falta de sentido de Estado reconheçam que isso foi de uma irresponsabilidade imperdoável.
     Do ponto de vista do projecto de construção europeia, a incerteza é grande – e, para um convicto europeísta, preocupante. Ninguém sabe o que um terremoto pode fazer exactamente, mas, do que sabemos e do que não sabemos hoje, alguns pontos merecem-me, desde já, uma reflexão pessoal.      *** : 
     A ruptura das negociações neste sábado é um fracasso de todos os intervenientes.
    É, em primeiro lugar, um fracasso da Europa como entidade política democrática. A maioria das lideranças europeias, alinhadas no Partido Popular Europeu (a direita europeia onde cabem o PSD e o CDS) estão antes de mais nada interessadas em demonstrar que um governo de uma família política mais à esquerda do que o “arco da governação” europeu terá de ser, eles não querem que deixe de ser, um governo fracassado.
   Tal como em Portugal, há quem entenda que a democracia tem donos e só admite à governação os que pertencem a um certo subconjunto dos partidos, mesmo que todos sejam votados pelo povo. Tal como acho isso inadmissível em Portugal, acho isso inadmissível na Europa. As minhas simpatias políticas não vão, à partida, para o Syriza, tal como não vão, em Portugal, para, digamos, o Bloco de Esquerda – mas, indiscutivelmente, se o Bloco de Esquerda ganhasse as eleições em Portugal eu teria de estar contra qualquer tentativa europeia de boicotar um governo do meu país.   Tenho de pensar o mesmo em relação à Grécia. Acresce que a Europa, tão tesa com a Grécia, contemporiza muito facilmente com o regime pré-fascista da Hungria (a ponto de o Sr. Juncker, naquela triste ocasião da cimeira de Riga em que distribuiu palmadas e outras palhaçadas pelos líderes europeus, ter chamado ao PM húngaro, em tom de brincadeira, “o ditador” – como se isso fosse coisa com que se brincasse). E essa bonomia com os fascistas aconselharia, apenas por decência, menos rigidez com outras orientações. 
     Esta ruptura também será, se se confirmar, um fracasso da Europa como corpo institucional, porque abre a porta a um recuo inédito na construção europeia: se a Grécia sair do Euro, é um passo atrás que destrói a imagem do “avanço permanente” (mesmo que por pequenos passos).  E, no que toca a recuos, nada como o primeiro – para abrir a possibilidade da série.   Quem pense que tudo isto só afecta o Euro, desengane-se: esta é uma crise profunda de todo o projecto de construção europeia, amolgado pelos egoísmos vesgos e pela falta de estatura histórica dos líderes europeus que calharam em (má) sorte a este nosso tempo.
      Esta ruptura sinaliza a fraqueza institucional da Europa também por causa do papel que deixaram o FMI desempenhar: o papel de polícia mau, a fazer propostas e exigências negociais incompreensíveis, talvez para cobrir alguns governos europeus que queiram atirar a pedra e esconder a mão.   Sobre o que parece ser a irracionalidade do comportamento do FMI, basta ouvir o que diz Manuela Ferreira Leite, insuspeita de esquerdismo, mas sem qualquer necessidade de esconder o que pensa por conveniência.  Como resume Nicolau Santos no Expresso (Economia, 27/06/15):   “o que leva o Fundo a recusar que o Governo grego opte por um corte significativo nas despesas com a Defesa, sabendo-se precisamente que a Grécia canaliza para esta área o terceiro maior orçamento dos países da UE?   Ou a recusar que Atenas aplique uma taxa extraordinária às empresas com mais de meio milhão de lucros anuais?   Ou a recusar um importante aumento de impostos sobre quem mais pode, ao contrário do que aceitou em Portugal?   Ou a recusar que o Governo helénico taxe o jogo online?!»   Tudo boas perguntas, mas a pergunta mais perturbadora ainda é:   e os países do Euro, Estados Membros da União Europeia, admitem isto?
     Mas esta ruptura é também um fracasso do governo grego.
     (Ao dizer isto, estou a assumir que o governo de Tsipras estava de boa-fé a tentar chegar a acordo na Europa – e estou a afastar o cenário segundo o qual tudo isto teria um estratagema para justificar a ruptura.)
     O governo grego recebeu um mandato para encontrar uma alternativa à austeridade. Tinha, portanto, de tentar encontrar esse espaço na Europa.  O método que costuma funcionar para encontrar espaço na Europa consiste em tentar encontrar aliados, construir alianças, mobilizar solidariedades.  Ora, o actual governo da Grécia apareceu, desde o início, demasiado compenetrado da sua singularidade, demasiado ufano do seu isolamento.  Até o brilhante ministro das finanças, Varoufakis, pareceu demasiadas vezes ofuscado com o brilho da sua estrela.  Não é nunca bom método na Europa.  Alguns representantes da social-democracia europeia tentaram estender a mão à Grécia (enquanto outros, em boa verdade, têm uma acção política que nos envergonha).  [«Há "socialistas" europeus a fazerem figuras tristes, isso é verdade. Mas não todos. E os únicos sinais de aproximação à Grécia têm vindo de socialistas europeus. Que, infelizmente, têm pouca força: os europeus votaram na direita na europeias e agora é isto.»].     Até o presidente da Comissão chegou a dar sinais de alguma contemporização.  Mas o brilho retórico do académico Varoufakis não chegou para construir uma coligação capaz de criar um espaço de acordo alternativo.  Parece, no plano da retórica, ter caído na armadilha de governos provocadores, como o português, que destratou o governo grego com o “conto de crianças”, tendo Passos chegado ao ponto de nem cumprimentar Tsipras na estreia deste no Conselho Europeu.
      Na verdade, não creio que as propostas que o governo grego tem apresentado aos seus congéneres europeus sejam propostas radicais. Radicais têm sido, por exemplo, as destemperadas reacções do FMI.   Mas, quanto à pura política, o governo grego escolheu caminhos preocupantes.   Desde o princípio, desde a formação do governo:  o actual governo da Grécia não é exactamente um governo de esquerda, mas sim uma coligação entre uma frente de partidos usualmente designados como extrema-esquerda (o Syriza) e um partido marcadamente de direita, populista e nacionalista, anti-imigração, anti-semita, contra a separação entre o Estado e a Igreja, contra o casamento entre pessoas do mesmo sexo.  Tsipras podia ter feito outra opção: por exemplo, o partido O Rio (potami), centrista moderado, pró-europeu e anti-austeridade, era considerado um candidato óbvio a parceiro do Syriza para completar a maioria. Mas não foi essa a escolha e a escolha efectivamente feita nunca foi um bom sinal.
     Agora, esta ideia do referendo tem contornos estranhos.
Não estou, em princípio, contra a convocação de um referendo. Concordo que uma maioria de representantes possa entender que as consequências de uma decisão são suficientemente estruturantes da vida colectiva para deverem ser decididas por voto directo.   Aliás, já anteriormente o governo PASOK de Georgios Papandreou quis (em 2012) fazer um referendo ao plano de resgate proposto pelos parceiros europeus, embora dele tenha desistido pressionado pela Alemanha (e até por alguns aliados) e tendo obtido o apoio da direita parlamentar ao plano de resgate. (Já agora, alguém se lembra de qual foi a posição de Tsipras sobre o referendo que Papandreou propôs?)
Mas este referendo é bizarro.   Com os dados que temos neste momento, pode crer-se que o referendo não foi convocado a tempo para ser uma peça da negociação, porque vai acontecer depois do fim do programa de assistência e, portanto, vai plebiscitar qualquer coisa depois do facto consumado. Vão votar uma proposta dos credores que nessa altura já não estará em cima da mesa? Curiosamente, o governo grego parece ter o apoio dos fascistas (Aurora Dourada) para o referendo.    Será que, nestas condições, o referendo tem alguma potencialidade para abrir para uma solução?  Ou o referendo é apenas a entrada para um beco sem saída?  Sim, eu também concordo com o primado da política (em vez da ditadura dos mercados, da alta finança), mas isso exige que os actos políticos tenham algum sentido – e não estou certo do que quererá o governo grego fazer com o resultado do referendo.  O referendo não faz grande sentido se for apenas o fim da linha, faria mais sentido se fosse claro quanto a uma opção de futuro.
     Agora, pesadas todas as responsabilidades, desenganem-se aqueles que pensam que isto é um fracasso da Grécia. Isto é, acima de tudo, um fracasso da Europa – e, claro, nessa medida, também um fracasso da Grécia.
     Não são as pequenas circunstâncias políticas que interessam neste caso. Não é o destino deste ou daquele político ou partido que importa agora. O que importa é saber se a Europa vai ser capaz de reganhar o seu estatuto como espaço democrático de dimensão continental a trabalhar para a prosperidade partilhada dos povos participantes.   Se não for capaz de retomar essa ambição de longo prazo e dar-lhe concretização, a Europa como construção política original só pode definhar – em primeiro lugar, porque os povos desacreditarão.   Como, aliás, já começam a desacreditar.
Como se vê, não são optimistas estas reflexões.  Mas o pessimismo não ilumina o caminho.  E o que precisamos é de um caminho, um caminho que recusa o pensamento único. Recusar a tese de que quem está na Europa tem de seguir a “austeridade expansionista”. Recusar, concomitantemente, a tese de que, para fazer uma política alternativa é preciso sair da Europa (ou sair do Euro).   Essas duas teses têm algo em comum:  aceitam que na Europa só é possível o pensamento único.  E isso é inaceitável para um democrata:  em democracia tem sempre de haver escolha. E é nessa escolha – que tem de ser realistas, mas tem de ser escolha – que se joga a democracia política, mas também económica e social. Há que trabalhar para não nos vergarmos à ditadura do pensamento único.
   (Como não podia deixar de ser, continuo basicamente na mesma linha que estava há três meses, quando disse ao Público o que pensava sobre isto.)


Publicado por Xa2 às 20:30 de 28.06.15 | link do post | comentar |

16 comentários:
De JPP: a Europa q. nos EnVERGONHA. a 29 de Junho de 2015 às 15:41

A Europa que nos envergonha
(José Pacheco Pereira, in Público, 27/06/2015)

Esta não é a Europa dos fundadores, é a Europa dos partidos mais conservadores, com os socialistas à arreata. Não terá um bom fim e, nessa altura, muita gente lembrará a Grécia.

Bater nos gregos tornou-se uma espécie de desporto nacional. Tem várias versões, uma é bater no Syriza, outra é bater nos gregos propriamente ditos e na Grécia como país. As duas coisas estão relacionadas, bate-se na Grécia porque o Syriza resultou num incómodo e, mesmo que o Syriza morda o pó das suas propostas, – que é o objectivo disto tudo, – o mal-estar que existe na Europa é uma pedra no orgulhoso caminho imperial do Partido Popular Europeu, partido de Merkel, Passos e Rajoy e nos socialistas colaboracionistas que são quase todos que os acolitam. É isto a que hoje se chama “Europa”.

Se não fosse sinal de coisas mais profundas, e péssimas, seria um pouco ridículo que nós portugueses nos arrogássemos agora o direito moral de bater nos gregos. Somos mesmo um belo exemplo! Ah! Fizemos o “trabalho de casa” e isso dá-nos a autoridade moral, “sacrificamo-nos” para ter agora esta gloriosa “recuperação” e os gregos não, Passos Coelho dixit. Para além de estar certamente a falar para a Nova Democracia e para o Pasok e não para o Syriza, o balanço do “ajustamento” grego foi devastador para a economia e para a sociedade. Porquê? Nem uma palavra. Ninguém fala da “herança” do Syriza, recebida em princípios de 2015, das mãos de dois partidos da aliança dos “ajustadores”, a Nova Democracia irmã da CDU, do PP espanhol e do PSD e do CDS português, que governou a Grécia com a eficácia que conhecemos e pelo PASOK, irmão do PS, que a co-governou. Eram esses que a “Europa” queria que ganhassem as eleições.

Só que os gregos “não fizeram o trabalho de casa”… e por isso tem que ser punidos. Caia o Syriza na lama, e venha um qualquer outro governo dos amigos e ver-se-á como muita coisa que é negada ao Syriza será dada de bandeja ao senhor Samaras e os seus aliados. O problema não é o pagamento aos credores, não é a “violação das regras europeias” (quais?), não é uma esforçada dedicação pela “recuperação” da Grécia, é apenas e só político: não há alternativa, não pode haver alternativa, ninguém permitirá nesta “Europa” nenhuma alternativa que confronte o poder dos partidos do PPE e seus gnomos de serviço socialista, porque isso fragiliza aquilo que para eles é a Europa.

A ideia de que a Grécia não é um Estado ou que é um “país falhado” é um absurdo. A julgar por esses critérios muitos países da Europa não são Estados, a começar pelo “estado espanhol” aqui ao lado e a acabar nalgumas construções de engenharia política ficcional que a Europa ajudou a criar nos Balcãs, seja o Kosovo, seja mesmo a bizarra FYROM. É evidente que a Grécia não é a Alemanha, mas Portugal também não é. A Grécia não é a França, mas vá-se à Córsega perguntar pela França, ou mesmo às zonas dialectais do alemão na Alsácia. Ou então a esses territórios muito especiais da União Europeia, sim da União Europeia, que são por exemplo a Reunião e Guadalupe, “departamentos franceses do ultramar”.

A Grécia é a Grécia, muito mais parecida com Portugal naquilo é negativo que os que hoje lhe deitam pedras escondem, e bastante menos parecida com Portugal, numa consciência nacional da soberania, que perdemos de todo. No dia da vitória do Syriza, o que mais me alegrou, sim alegrou, como penso aconteceu a muita gente, à esquerda e à direita, não foi que muitos gregos tenham votado num “partido radical” ou num programa radical, ou o destino do Syriza, mas sim o facto de que votaram pela dignidade do seu pais, num desafio a esta “Europa” que agora os quer punir pelo arrojo e insolência. Escrevi na altura e reafirmo que mais importante do que a motivação de acabar com a austeridade, foi o sentimento de que a Grécia não podia ser governada por uma espécie de tecnocratas a actuar como “cobradores de fraque” em nome da Alemanha. Por isso, mais grave do que o esmagamento do Syriza, que a actual “Europa” pode fazer como se vê, é o sinal muito preocupante para todos os que querem viver num país livre e independente em que o voto para o parlamento ainda significa alguma coisa. Nisso, os gregos deram uma lição aos nossos colaboracionistas ...


De lição aos nossos colaboracionistas... a 29 de Junho de 2015 às 15:44
...
lição aos nossos colaboracionistas de serviço, que andam de bandeirinha na lapela.

Voltemos ao não-pais. A Grécia é um país muito mais consistente na sua história recente do que muitos países europeus, principalmente do Centro e Leste da Europa. Tem dois factores fortíssimos de identidade nacional, a religião ortodoxa e a recusa do “turco”. E foi “feita” por eles. Vão perguntar ao fantasma de Hitler o que ele disse da Grécia quando a invadiu e não disse de nenhum outro país e vão perguntar aos ingleses que apoiaram os resistentes gregos, duros, ferozes e muitos deles, como em Creta, “bandidos da montanha”. Sem Estado.

Esta identidade nacional dá para o mal e para o bem, como de costume, mas existe. Muitas aventuras militares e políticas resultaram dessa forte identidade e da relação mítica e simbólica com o passado, como seja a invasão da Anatólia numa Turquia em crise pós-otomana para reconstituir a Grande Grécia clássica e bizantina, ou as reivindicações sobre o Epiro albanês, ou mesmo a pressão contra a existência da Macedónia como estado. A aventura de Venizelos e a Megali Idea foi uma das grandes tragédias do século XX, apoiada irresponsavelmente pelos ingleses, mas mostram como é ligeiro apresentar a Grécia como um “não país”, quando nesses anos as poucas cidades “civilizadas” nessa parte do mundo não eram Atenas, mas Salónica e Esmirna. Esmirna, incendida pelos turcos e Salónica purgada dos seus judeus por Hitler.

O argumento “geográfico” das ilhas para afirmar que a Grécia “não é um estado” então é particularmente absurdo. A Grécia tem centenas de ilhas e a Indonésia milhares. Então a Indonésia também não é um país? É-o certamente menos do que a Grécia, visto que a diversidade rácica, linguística e religiosa da Indonésia é muito maior e mais complicada do que as ilhas gregas cujo cimento, até mesmo a Rodes, que fica bem em frente da costa turca, é de novo, a religião e a história.

Os gregos, povo de comerciantes e marinheiros, são um alvo fácil, como os camponeses do Sul de Itália e os alentejanos, para os do Norte industrial e “trabalhador”. É um estereótipo conhecido: ladrões, vigaristas e, acima, de tudo preguiçosos. Por isso “enganaram a Europa” e querem viver á nossa custa. A Grécia enganou a Europa? Sim with a little help from my friends. A Europa ajudou activamente a Grécia a falsificar os números, a Alemanha em particular, enquanto isso lhe interessou. E nós? Só para não ir aos inevitáveis exemplos socráticos, vamos para este governo e bem perto de nós. Com que então a TAP foi comprada por um português? O brasileiro-americano o que é, o consultor para a aviação? De onde veio o dinheiro, a pergunta que se faz sempre aos remediados, que já são vigiados por 1000 euros, e ninguém faz aos ricos e poderosos? Para que é esta cosmética? Para enganar a União Europeia dando a entender que a TAP foi comprada por um cidadão da União. O truque é tão evidente, que muito provavelmente, como aconteceu com os gregos, a União Europeia já assinou de cruz pelas aparências porque lhe convém. Atirem pois mais uma pedra aos gregos.

Os gregos não querem pagar impostos? Não, não querem, mas nós portugueses também não queremos. Há uma diferença, é que em Portugal se aceitou nos últimos anos, um poder fiscal muito para além do que é aceitável numa democracia. Será que é isso a que se chama “fazer o trabalho de casa”, ter um Estado? Já agora, as estatísticas da economia informal na Europa são muito interessantes. Sabem que Estados tem uma economia informal muito superior à grega? A Noruega, a Suíça, o Luxemburgo, a Dinamarca, a Finlândia e… a Alemanha.

A questão mais importante e que merece ser analisada e discutida mais a fundo, não é a Grécia e muito menos o destino do Syriza. É a mudança de carácter da União Europeia, da “Europa”, nestes anos de crise. A hegemonia alemã é um facto, mas a principal mudança foi a substituição de um projecto europeu de paz e solidariedade, por um projecto de poder. A substância desse poder é a hegemonia política do Partido Popular Europeu que, apoiado pelo papel do governo alemão, mas indo para além dele, transformou o “não há alternativa” na legitimação de todos os governos conservadores, muitos dos quais viraram francamente à direita nestes anos. Esses governos recebem todas as complacê


De Europa da direita e soc-dem. à trela. a 29 de Junho de 2015 às 15:47

A Europa que nos envergonha

(José Pacheco Pereira, in Público, 27/06/2015)
...
...
...Esses governos recebem todas as complacências (como Portugal a quem se fechou os olhos nos falhanços na aplicação do memorando) e todos os apoios.

A “Europa” é hoje a principal aliada eleitoral e de governo de partidos como o PSD em Portugal e o PP em Espanha,
interferindo qualitativamente nas eleições nacionais e transformando o reforço do poder comunitário num instrumento de poder “europeu”.
Hoje qualquer passo que reforce a “Europa” reforça o PPE e o “não há alternativa”.
Esta não é a Europa dos fundadores, é a Europa dos partidos mais conservadores, com os socialistas à arreata.
Não terá um bom fim e, nessa altura, muita gente lembrará a Grécia.


De Objectiva/ Gregos ou Escravos iludidos a 29 de Junho de 2015 às 17:09

Objetivamente, a Grécia

(27 Junho 2015 às 14:37 por Penélope ,Aspirina B)

No clímax de tensão a que chegaram as negociações, Tsipras tomou a única decisão possível – convocou um REFERENDO à proposta dos credores.
-- Se, neste referendo, o NÃO vencer, o país sairá provavelmente do euro (sairá?)
e Tsipras manterá a liderança, agora reforçada, tendo, sem dúvida, muito que fazer para merecer uma menção de destaque na História.
-- Se o SIM à proposta vencer, Tsipras, que anunciou ir fazer campanha pelo Não, terá de se demitir, pois não terá condições para executar as medidas que rejeitou.
Neste caso, haverá novas eleições e a direita ganhará, voltando-se ao «business as usual» dos últimos cinco anos, isto é, a SANGRIA, desta feita expressamente consentida.
Resolve-se alguma coisa na Grécia?
Não, apenas se vai pagando aos credores.
Com os seus empréstimos. Isto é um negócio.

Mas os gregos devem saber em que estado se encontram.
Possivelmente será, para a sua maioria, tão mau continuar com a austeridade imposta
como mandar os credores «dar uma volta ao bilhar grande» e divertirem-se com (enquanto negam) o que ganharam durante anos
com os empréstimos à Grécia e com as grandes obras, e seja o que Zeus quiser.
Possivelmente Zeus e Tsipras serão, em 5 de julho, a mesma pessoa.

Foi preciso a Grécia chegar até aqui, ou seja, a uma situação tal que o único crédito a dar pelos eleitores aos políticos foi a eleição de um partido radical de esquerda,
para pôr finalmente às claras o espírito europeu nesta crise – na Europa, em especial na zona euro pós-2010, com mais ou menos salamaleques, existem os credores e existem os devedores.
Para além disso, mais nada.

Se a receita aplicada pelos credores (e a Grécia aplicou-a, ao contrário do que diz a direita desde fevereiro) provoca pobreza, DESTRÓI a economia, afunda o PIB, mata a democracia, torna os países ESCRAVOS de uma dívida crescente e impagável e,
a prazo, transforma a união europeia numa FARSA, se é que não dita o seu óbito, que importa?
É assim.
O povo deve pagar os desmandos da BANCA e as decisões preconceituosas de quem manda.

Entretranto, não há ferramentas soberanas.
Com a moeda única, todos os países se submeteram a Berlim.
Como conviver bem nesta União?

A hipótese mais óbvia é aliar-se a Angela Merkel, OBEDECER cegamente às suas ordens,
aceitar que as mesmas defendem em primeiro lugar os INTERESSES dos alemães que a elegeram,
FINGIR que tudo vai bem por cá e
esperar a PROTEÇÃO eterna das instituições, controladas pela Alemanha, incluindo em caso de nova crise.
É o que faz Portugal, com o DESgoverno de Passos e Portas.
Com a agravante de os executantes terem verdadeiro prazer no CHICOTE.
Objetivamente, estamos condenados a MENDIGAR as boas graças do patrão.

Objetivamente também, esta forma de a «Europa» lidar com os efeitos de uma grave crise financeira internacional foi uma estreia, atendendo à existência da união monetária.
O clube não estava preparado para o que sucedeu.
Não havendo mecanismos de combate e de estabilização,
e havendo grandes discrepâncias entre os países,
o país mais rico foi quem ditou as regras.
E, evidentemente, nesse processo defendeu os seus interesses.

Pode objetivamente dizer-se que correu bem? Sim, até agora, para o comandante.
Para a soldadesca, não, não pode objetivamente dizer-se que correu bem.
Para os lambe-botas há a ilusão de que sim.

Para onde se caminha não se sabe ou não interessa.
Mas o facto de haver alguém que questiona e desafia só pode merecer aplauso.
Quando já não há nada a perder.

--------- Penélope
É mais correto falar em emprestar do que em pagar. Tudo é para ser reembolsado e com juros. As exigências de quem empresta têm sido tão razoáveis que os gregos continuam sem dinheiro para honrar as dívidas e sem economia. Nada melhorou na situação grega, apesar das medidas de austeridade. Há quem pense que por causa delas. Sair do euro? Possivelmente é melhor. O problema, para a Europa, é se a mudança traz bons resultados para os gregos. Evidentemente que irão tudo fazer para que não.
---- ...


De os Gregos e os Colaboracionistas Troikas a 29 de Junho de 2015 às 17:29
Foi fácil sermos todos Charlie...

(Crónica de Diana Andringa, 23/6/2015, na Antena 1: http://entreasbrumasdamemoria.blogspot.pt/ )

Foi há mais de 20 anos. Visitando, em trabalho, o Yad Vashem, detive-me frente a fotografias da Revolta do ghetto de Varsóvia. Curioso, o historiador israelita que nos acompanhava perguntou:
“Interessa-se especialmente pelo ghetto de Varsóvia?” “É-me mais compreensível”, respondi,
“nunca percebi como é que, confrontados com uma política de extermínio, não pegaram mais vezes em armas contra os nazis?”
“É o debate entre Massada e Yavné”, respondeu ele, e falou-me do suicídio em massa dos habitantes de Massada, recusando a captura pelo invasor, e do rabi Ben Zakkai, que, contemporizando, conseguiu criar uma escola da Torah em Yavné. “Se não fosse Yavné, quem recordaria hoje a história de Massada?”, perguntou, no final.
Respondi com outra pergunta: “E se não fosse Massada, que história teria Yavné para contar?”

Recordei naturalmente esta conversa ao ver, há dias, O último dos injustos, de Claude Lanzman, mas ocorre-me também muitas vezes ao ouvir os noticiários sobre as negociações entre Atenas e Bruxelas. Não por pensar que o governo do Syriza aposte no suicídio – antes pelo contrário! – mas por me parecer que a maioria dos comentadores e até dos noticiaristas gostaria que, em Atenas, pensassem mais em Yavné.
Ou, se preferirem, que fossem mais “pragmáticos” e cedessem depressa e sem ruído, que isso de irredutíveis gauleses só fica bem em banda desenhada - mesmo assim, talvez demasiado subversiva para bons alunos.
Ao Mourinho ainda se admite que diga que a escola deve ajudar a analisar, a pensar e a discordar, porque está a falar de futebol.
Mas aos gregos? Discordar? Que é isso de discordar?
Como é que Tsipras e Varoufakis se atrevem a discordar dos conselhos da troika, só porque estes já reduziram à miséria milhares e milhares de pessoas na Grécia?
Mas não foram sobretudo os pobres, esses exigentes que querem ter emprego e ser pagos por trabalharem?
Os reformados, que se atrevem a ter reformas superiores às portuguesas?
Os jovens, forçados à emigração? E então?
Não aconteceu o mesmo em Portugal, não empobrecemos também, não ficámos desempregados, não emigrámos, e não mostram as sondagens que há ainda muitos portugueses a preferir a política do bom aluno de quem, a pretexto de os ajudar, os explora?

Foi fácil sermos todos Charlie, sobretudo a quem não fazia cartoons, mas parece ser bem mais difícil sermos todos gregos – quando
eles travam, sozinhos, uma luta que também devia ser nossa.
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Nem vencedor, nem vencidos?

«Ninguém tem interesse que a Grécia saia do euro, apesar do discurso pindérico de musculação de ginásio de Passos Coelho sobre os seus "cofres cheios".
Se a Grécia caísse, Portugal seria o elo mais fraco. O acordo que se firmará não acaba com os problemas do euro. (...)

Se a troika cedesse, a polarização política sacudiria o Sul e o Norte da Europa (mais à esquerda ou mais à direita, consoante os casos).
É por isso que se busca a paz podre.
Aquela em que, na fotografia, não há vencedores nem vencidos.
Mas, como nuvem ameaçadora, fica a hipótese do fim da moeda única e a destruição do que resta do conceito de solidariedade europeia, de paz e prosperidade,
que sempre foi apontada como bandeira de uma Europa unida.

Todos sabem que a Grécia nunca conseguirá pagar a dívida.
E que este euro não é um fato que sirva a tantas economias e culturas diferentes.
Todos fingirão não ter perdido.
Mas os espinhos deste jogo de tronos ficarão aí, disfarçados no meio das rosas dos discursos oficiais.»

Fernando Sobral


De Bomba da UE neoliberal. a 29 de Junho de 2015 às 17:52
----«Não subestimem o que pode fazer um povo quando se sente humilhado»

«A tensão subiu na cimeira do Conselho Europeu, quando o seu presidente, Donald Tusk, voltou a dizer que “o jogo acabou”, a propósito das negociações com a Grécia.
Alexis Tsipras respondeu dizendo que
“a Grécia tem 1.5 milhões de desempregados, 3 milhões de pobres e milhares de famílias sem rendimentos que vivem da ajuda dos avós.
Isto não é um jogo.”

“Nem você, sr. Tusk, nem ninguém deve subestimar o que um povo pode fazer quando se sente humilhado”,
prosseguiu Tsipras, explicando que a Grécia apresentou propostas com medidas difíceis para um país em crise.»
- http://www.infogrecia.net/2015/06/tsipras-nao-subestimem-o-que-pode-fazer-um-povo-quando-se-sente-humilhado/

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A Grécia de joelhos e o mundo de pantanas (M.S.Tavares, 27/6/2015, Expresso)
... ... ...
ou a Grécia é abandonada à sua sorte ou a dívida é largamente perdoada,
ficando a cargo dos contribuintes europeus a factura a pagar por terem safo a banca alemã, francesa e também portuguesa dos empréstimos concedidos alegremente aos gregos. Para submarinos, aeroportos, Jogos Olímpicos e outros luxos que tais.

O grande erro do Syriza foi pensar que iria encontrar apoio entre semelhantes.
-Renzi hesitou mas nunca se conseguiu definir;
-Rajoy vendeu qualquer veleidade de independência por um acordo feito debaixo da mesa que lhe permitiu receber toneladas de dinheiro sem a humilhação de ser oficialmente resgatado;
- Hollande foi o que se esperava e que ele próprio tinha anunciado: um “monsieur tout le monde” sem sombra de substância ou de relevância;
-e, de Portugal, a Grécia recebeu a mais feroz e invejosa oposição do Governo e do Presidente, acima de tudo desejosos de que não se fizesse prova de que a Europa poderia aceitar uma alternativa às políticas impostas pela troika — de que um foi entusiástico mandatário e o outro fiel avalista.
E assim a Grécia sucumbiu ao pior da Europa:
os holandeses, os finlandeses, os polacos, os neofascistas da Hungria e os alemães da estirpe do sr. Schäuble. E a libelinha emproada da Lagarde.

Mas mais depressa a Grécia acabará com a Europa do que a Europa acabará com a Grécia.
A Grécia não é Portugal, como gosta de dizer o Governo, mas os gregos também não são os portugueses:
em 150 anos, travaram cinco guerras e venceram-nas todas; correram com os turcos, resistiram aos nazis, e derrotaram, com a ajuda de Churchill, a tentativa de os transformarem em mais um satélite da URSS de Estaline.
Um simples olhar ao mapa e à História poderia ter ensinado aos merceeiros europeus a importância geoestratégica decisiva que tanto a Grécia como a Turquia têm para a Europa e para o Ocidente.
Mas a Europa preferiu bater com a porta na cara dos turcos e ameaçar os gregos com a expulsão se eles não se renderem e ajoelharem perante os visionários que agora mandam na UE.
Ironicamente, à 25ª hora, só Angela Merkel percebeu o que está realmente em jogo.»

-----Presos no monstro. (Carvalho da Silva)

«A União Europeia (UE),
devidamente assessorada por essa máquina trituradora da independência de países e da dignidade dos povos que é o FMI,
está transformada num monstro capaz de danos irreparáveis.
A UE está a aprisionar grande parte dos povos que a constituem,
tortura os mais débeis e começa até a assustar não só o comum dos cidadãos, mas também as elites empenhadas na busca de soluções que evitem o desastre.»

----Quem tem medo do euro mau?

«A questão, como tenho insistido, é mesmo a de saber de que é que têm medo e de que é que temos medo?
Se há coisa que a Grécia revela espectacularmente, qualquer que seja o desenlace das chamadas negociações, é a verdadeira natureza da UE, em geral, e da Zona Euro, em particular, e o que estão condenados a fazer todos os que aceitam os seus termos:
respectivamente, o mais poderoso mecanismo imperialista de conformação com o neoliberalismo e a austeridade permanente, dos superávites orçamentais aos cortes,
com atrofiamento das forças produtivas, em especial das nações periféricas, e retrocesso nas relações sociais que aí estruturam a provisão de bens e de serviços.
O europeísmo, ou seja, a crença de que a escala da UE é o espaço privilegiado de acção política destrói as esquerdas europeias.»
-------



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