Não à ditadura (financeira/...), nem ao pensamento único: Democracia, Solidariedade e Alternativa(s) !
   Do ponto de vista do interesse nacional, o que se passa na Europa (não, não é a Grécia, é toda a Europa) é preocupante. Se tudo isto acarretar mais dificuldades para as empresas e para as famílias portuguesas, espero que aqueles que trataram a “questão grega” com leviandade e falta de sentido de Estado reconheçam que isso foi de uma irresponsabilidade imperdoável.
     Do ponto de vista do projecto de construção europeia, a incerteza é grande – e, para um convicto europeísta, preocupante. Ninguém sabe o que um terremoto pode fazer exactamente, mas, do que sabemos e do que não sabemos hoje, alguns pontos merecem-me, desde já, uma reflexão pessoal.      *** : 
     A ruptura das negociações neste sábado é um fracasso de todos os intervenientes.
    É, em primeiro lugar, um fracasso da Europa como entidade política democrática. A maioria das lideranças europeias, alinhadas no Partido Popular Europeu (a direita europeia onde cabem o PSD e o CDS) estão antes de mais nada interessadas em demonstrar que um governo de uma família política mais à esquerda do que o “arco da governação” europeu terá de ser, eles não querem que deixe de ser, um governo fracassado.
   Tal como em Portugal, há quem entenda que a democracia tem donos e só admite à governação os que pertencem a um certo subconjunto dos partidos, mesmo que todos sejam votados pelo povo. Tal como acho isso inadmissível em Portugal, acho isso inadmissível na Europa. As minhas simpatias políticas não vão, à partida, para o Syriza, tal como não vão, em Portugal, para, digamos, o Bloco de Esquerda – mas, indiscutivelmente, se o Bloco de Esquerda ganhasse as eleições em Portugal eu teria de estar contra qualquer tentativa europeia de boicotar um governo do meu país.   Tenho de pensar o mesmo em relação à Grécia. Acresce que a Europa, tão tesa com a Grécia, contemporiza muito facilmente com o regime pré-fascista da Hungria (a ponto de o Sr. Juncker, naquela triste ocasião da cimeira de Riga em que distribuiu palmadas e outras palhaçadas pelos líderes europeus, ter chamado ao PM húngaro, em tom de brincadeira, “o ditador” – como se isso fosse coisa com que se brincasse). E essa bonomia com os fascistas aconselharia, apenas por decência, menos rigidez com outras orientações. 
     Esta ruptura também será, se se confirmar, um fracasso da Europa como corpo institucional, porque abre a porta a um recuo inédito na construção europeia: se a Grécia sair do Euro, é um passo atrás que destrói a imagem do “avanço permanente” (mesmo que por pequenos passos).  E, no que toca a recuos, nada como o primeiro – para abrir a possibilidade da série.   Quem pense que tudo isto só afecta o Euro, desengane-se: esta é uma crise profunda de todo o projecto de construção europeia, amolgado pelos egoísmos vesgos e pela falta de estatura histórica dos líderes europeus que calharam em (má) sorte a este nosso tempo.
      Esta ruptura sinaliza a fraqueza institucional da Europa também por causa do papel que deixaram o FMI desempenhar: o papel de polícia mau, a fazer propostas e exigências negociais incompreensíveis, talvez para cobrir alguns governos europeus que queiram atirar a pedra e esconder a mão.   Sobre o que parece ser a irracionalidade do comportamento do FMI, basta ouvir o que diz Manuela Ferreira Leite, insuspeita de esquerdismo, mas sem qualquer necessidade de esconder o que pensa por conveniência.  Como resume Nicolau Santos no Expresso (Economia, 27/06/15):   “o que leva o Fundo a recusar que o Governo grego opte por um corte significativo nas despesas com a Defesa, sabendo-se precisamente que a Grécia canaliza para esta área o terceiro maior orçamento dos países da UE?   Ou a recusar que Atenas aplique uma taxa extraordinária às empresas com mais de meio milhão de lucros anuais?   Ou a recusar um importante aumento de impostos sobre quem mais pode, ao contrário do que aceitou em Portugal?   Ou a recusar que o Governo helénico taxe o jogo online?!»   Tudo boas perguntas, mas a pergunta mais perturbadora ainda é:   e os países do Euro, Estados Membros da União Europeia, admitem isto?
     Mas esta ruptura é também um fracasso do governo grego.
     (Ao dizer isto, estou a assumir que o governo de Tsipras estava de boa-fé a tentar chegar a acordo na Europa – e estou a afastar o cenário segundo o qual tudo isto teria um estratagema para justificar a ruptura.)
     O governo grego recebeu um mandato para encontrar uma alternativa à austeridade. Tinha, portanto, de tentar encontrar esse espaço na Europa.  O método que costuma funcionar para encontrar espaço na Europa consiste em tentar encontrar aliados, construir alianças, mobilizar solidariedades.  Ora, o actual governo da Grécia apareceu, desde o início, demasiado compenetrado da sua singularidade, demasiado ufano do seu isolamento.  Até o brilhante ministro das finanças, Varoufakis, pareceu demasiadas vezes ofuscado com o brilho da sua estrela.  Não é nunca bom método na Europa.  Alguns representantes da social-democracia europeia tentaram estender a mão à Grécia (enquanto outros, em boa verdade, têm uma acção política que nos envergonha).  [«Há "socialistas" europeus a fazerem figuras tristes, isso é verdade. Mas não todos. E os únicos sinais de aproximação à Grécia têm vindo de socialistas europeus. Que, infelizmente, têm pouca força: os europeus votaram na direita na europeias e agora é isto.»].     Até o presidente da Comissão chegou a dar sinais de alguma contemporização.  Mas o brilho retórico do académico Varoufakis não chegou para construir uma coligação capaz de criar um espaço de acordo alternativo.  Parece, no plano da retórica, ter caído na armadilha de governos provocadores, como o português, que destratou o governo grego com o “conto de crianças”, tendo Passos chegado ao ponto de nem cumprimentar Tsipras na estreia deste no Conselho Europeu.
      Na verdade, não creio que as propostas que o governo grego tem apresentado aos seus congéneres europeus sejam propostas radicais. Radicais têm sido, por exemplo, as destemperadas reacções do FMI.   Mas, quanto à pura política, o governo grego escolheu caminhos preocupantes.   Desde o princípio, desde a formação do governo:  o actual governo da Grécia não é exactamente um governo de esquerda, mas sim uma coligação entre uma frente de partidos usualmente designados como extrema-esquerda (o Syriza) e um partido marcadamente de direita, populista e nacionalista, anti-imigração, anti-semita, contra a separação entre o Estado e a Igreja, contra o casamento entre pessoas do mesmo sexo.  Tsipras podia ter feito outra opção: por exemplo, o partido O Rio (potami), centrista moderado, pró-europeu e anti-austeridade, era considerado um candidato óbvio a parceiro do Syriza para completar a maioria. Mas não foi essa a escolha e a escolha efectivamente feita nunca foi um bom sinal.
     Agora, esta ideia do referendo tem contornos estranhos.
Não estou, em princípio, contra a convocação de um referendo. Concordo que uma maioria de representantes possa entender que as consequências de uma decisão são suficientemente estruturantes da vida colectiva para deverem ser decididas por voto directo.   Aliás, já anteriormente o governo PASOK de Georgios Papandreou quis (em 2012) fazer um referendo ao plano de resgate proposto pelos parceiros europeus, embora dele tenha desistido pressionado pela Alemanha (e até por alguns aliados) e tendo obtido o apoio da direita parlamentar ao plano de resgate. (Já agora, alguém se lembra de qual foi a posição de Tsipras sobre o referendo que Papandreou propôs?)
Mas este referendo é bizarro.   Com os dados que temos neste momento, pode crer-se que o referendo não foi convocado a tempo para ser uma peça da negociação, porque vai acontecer depois do fim do programa de assistência e, portanto, vai plebiscitar qualquer coisa depois do facto consumado. Vão votar uma proposta dos credores que nessa altura já não estará em cima da mesa? Curiosamente, o governo grego parece ter o apoio dos fascistas (Aurora Dourada) para o referendo.    Será que, nestas condições, o referendo tem alguma potencialidade para abrir para uma solução?  Ou o referendo é apenas a entrada para um beco sem saída?  Sim, eu também concordo com o primado da política (em vez da ditadura dos mercados, da alta finança), mas isso exige que os actos políticos tenham algum sentido – e não estou certo do que quererá o governo grego fazer com o resultado do referendo.  O referendo não faz grande sentido se for apenas o fim da linha, faria mais sentido se fosse claro quanto a uma opção de futuro.
     Agora, pesadas todas as responsabilidades, desenganem-se aqueles que pensam que isto é um fracasso da Grécia. Isto é, acima de tudo, um fracasso da Europa – e, claro, nessa medida, também um fracasso da Grécia.
     Não são as pequenas circunstâncias políticas que interessam neste caso. Não é o destino deste ou daquele político ou partido que importa agora. O que importa é saber se a Europa vai ser capaz de reganhar o seu estatuto como espaço democrático de dimensão continental a trabalhar para a prosperidade partilhada dos povos participantes.   Se não for capaz de retomar essa ambição de longo prazo e dar-lhe concretização, a Europa como construção política original só pode definhar – em primeiro lugar, porque os povos desacreditarão.   Como, aliás, já começam a desacreditar.
Como se vê, não são optimistas estas reflexões.  Mas o pessimismo não ilumina o caminho.  E o que precisamos é de um caminho, um caminho que recusa o pensamento único. Recusar a tese de que quem está na Europa tem de seguir a “austeridade expansionista”. Recusar, concomitantemente, a tese de que, para fazer uma política alternativa é preciso sair da Europa (ou sair do Euro).   Essas duas teses têm algo em comum:  aceitam que na Europa só é possível o pensamento único.  E isso é inaceitável para um democrata:  em democracia tem sempre de haver escolha. E é nessa escolha – que tem de ser realistas, mas tem de ser escolha – que se joga a democracia política, mas também económica e social. Há que trabalhar para não nos vergarmos à ditadura do pensamento único.
   (Como não podia deixar de ser, continuo basicamente na mesma linha que estava há três meses, quando disse ao Público o que pensava sobre isto.)


Publicado por Xa2 às 20:30 de 28.06.15 | link do post | comentar |

16 comentários:
De Querem continuar a F... a Grécia e o Syr a 30 de Junho de 2015 às 17:04

A Troica quer exercer o "direito de pernada" sobre a Grécia para derrubar o Siryza
(http://puxapalavra.blogspot.pt/ 25/6/2015)

Para que os servos não esquecessem que quem mandava neles era o Senhor feudal, o fidalgo exercia entre outros actos de poder o "direito de pernada".
Isto é, tinha o direito a ser ele a "desvirginar" na noite de núpcias a serva que habitasse os seus domínios.
A humilhação do noivo e da noiva traduzir-se-ia de forma simbólica com o Senhor a passar a perna, num gesto largo, sobre a cama dos noivos. É, pelo menos, o que reza a lenda.

Ora o que se passa na Grécia é parecido, a Troica quer ter o direito de pernada sobre a Grécia e o governo grego não aceita o papel da serva humilhada.
O governo Português que se ofereceu para a pernada com prostituto prazer não aceita que o governo grego não seja humilhado como ele próprio foi
e como Junker reconheceu ao considerar que “era perfeitamente compreensível” a recusa do governo grego em ser desautorizado na sua terra por uns funcionários de segunda categoria, a Troica, isto é, "em ser humilhado, como aconteceu com Portugal".

O Siryza não aceita que seja o povo grego que já está de rastos a pagar de novo a parte maior do "castigo".
Tanto mais quanto o remédio só agravou a doença, na Grécia como em Portugal.

O Governo de Tsipras não quer castigar mais os que mais sofreram com a política de austeridade dos governos anteriores, da direita ou do PASOK que, como
em geral os partidos socialistas europeus, converteu-se, desde Tony Blair, ao neoliberalismo.

A Troica quer não apenas o dinheiro mas também ser ela, que não foi eleita, a decidir como e a que classes sociais, na Grécia, o vai cobrar.
E quer fazer recair sobre os mais desfavorecidos o grosso da factura a pagar.
Não será por malvadez mas porque descredibilizaria o Siryza que gostaria de ver desaparecer da cena política grega,
porque não ofende os oligarcas gregos nem os seus apaniguados dos partidos que se prestaram a aceitar o "direito de pernada" da Troica,
porque se "está nas tintas" para com a justiça social, para com o sofrimento dos gregos mais causticados com a austeridade.

Entre outras medidas, pressionado e fazendo concessões,
o governo grego propôs, à União Europeia, isto é, a Merkel, e ao FMI e ao BCE - a Troica - entre outras, as medidas seguintes que permitam o pagamento da dívida:

- uma taxa de 12% nos lucros das empresas acima de 500 mil euros.

- Aumento da taxa de IRC de 26% para 29% que afetará cerca de 15 mil empresas com lucros de 100 mil euros e deverá render 410 milhões de euros em 2016.

- Sobretaxa no IRS, para rendimentos anuais, em euros, superiores a

12 mil - 0,7% ; 20 mil - 1,4% ; 30 mil - 2 % ; 50 mil - 4 % ; 100 mil - 6 %

- Redução da despesa com defesa.

- Aumento do imposto especial sobre produtos de luxo, como iates privados, de 10% para 13%.

- Aumento de impostos sobre o jogo.
[ Link para JNegócios ] http://www.jornaldenegocios.pt/economia/detalhe/como_a_grecia_propoe_obter_8_mil_milhoes_com_aumentos_de_impostos_e_cortes.html


De Homem, Político, Grego: Varoufakis. a 30 de Junho de 2015 às 17:12
http://puxapalavra.blogspot.pt/ 26/6/2015

Voroufakis entrevistado. O homem, o político, a Grécia

JANICE TURNER, ENTREVISTA VAROUFAKIS para “The Times Magazine”/ The Interview People Varoufalis O expresso reprodu-la em 2015-06-17 [aqui] e para que continue online coloquei-a no Puxapalavra in Extenso

A entrevista visa dar a conhecer o homem, o político e a política do governo grego do Siryza. Devido à extensão não está aqui totalmente reproduzida.

Grande entrevista: as confissões, motivações e explicações de Varoufakis
....

Dois dias depois de nos encontrarmos, a Grécia devia fazer o seu primeiro pagamento de junho ao Fundo Monetário Internacional (FMI), no valor de 310 milhões de euros, iniciando uma série de reembolsos que totalizarão 13 mil milhões de euros até ao fim do mês.
A Grécia já andou à cata de trocos no forro do sofá da nação. Hospitais, universidades e autarquias locais entregaram as suas reservas ao Governo; o Estado protela os pagamentos aos fornecedores, para ter dinheiro vivo.
Depois de cinco anos de austeridade, a economia grega encolheu 25% e mantém-se em recessão; um quarto da população (e 60% dos jovens) está no desemprego.

Do que a Grécia precisa, do que espera neste carrossel pede-a-Pedro-para-pagar-a-Paulo da finança mundial, é de mais um empréstimo, de 7,2 mil milhões de euros, de resgate da chamada “troika” de instituições financeiras: FMI, Banco Central Europeu e Comissão Europeia.
Mas o dinheiro está a ser retido até a Grécia concordar em cumprir as exigências da troika:
mais privatizações, mais cortes nas pensões e mais mudanças nas leis laborais que facilitem os despedimentos.
Por outras palavras, mais austeridade, precisamente o que o Governo radical do Syriza foi mandatado para combater após a sua retumbante vitória eleitoral.
....
Conversa abertamente, interrompendo-se de dez em dez minutos para atender o telefone. A última chamada – “Olá, Larry!” – para falar com Larry Summers, o professor de Harvard e secretário do Tesouro de Clinton, é feita na casa de banho privada. Varoufakis, 54 anos, não parece esmagado por ter às costas o destino da nação. ...

... Vai escrever um livro? “Claro que vou! Ha, ha!”

Varoufakis descreveu-se a si mesmo como um “economista acidental” e diz agora que é um “político relutante”

E ele é, claro, o menos enfadado dos políticos. Quando lhe pergunto se, enquanto jovem assistente na Universidade de Essex – onde a sua máxima
“Subvertam o paradigma dominante”
foi estampada em t-shirts pelos estudantes – poderia imaginar-se ministro das Finanças, Varoufakis ri-se. “Nem há um ano poderia imaginar!”
Na verdade, estava a trabalhar no Texas quando o Syriza o pôs nas listas. Não era membro do partido e continua a não o ser, ainda que nas eleições de janeiro tenha recolhido a maior votação de todos os candidatos apoiados pelo Syriza.

Varoufakis, apesar dos muitos livros que escreveu, descreveu-se a si mesmo como um “economista acidental” e diz agora que é um “político relutante”. ... “Da mesma forma, acredito em políticos relutantes.
Uma pessoa que se entusiasme com o poder político devia ser impedida de o ter.”

Na primeira reunião do Governo do Syriza, conta, o novo primeiro-ministro disse:
“Rapazes, lembrem-se: não queremos saber dos nossos gabinetes”.
Varoufakis olha à sua volta, com as suas pinturas modernas, as plantas yucca, as estantes de livros de economia e uma ausência total de objetos pessoais, e depois ergue os braços do sofá magenta.
“Não estou ligado a este gabinete, a este sofá. Quero dizer, se ficar sem eles amanhã, estou-me nas tintas.
Isso, acho, é fundamental. Se começamos a sentir que perdemos a nossa posição ministerial – as sondagens estão a resvalar, meu deus, o Wall Street Journal não está a dizer grande coisa sobre mim, se calhar estou de saída –,
se começamos a ralar-nos com isso, então muito depressa perdemos a força.”
...
Varoufakis está refrescantemente livre do estilo treinado para os media de fugir às questões.
Abre um livro de candura e eloquência. Quando lhe digo que ainda não aprendeu as maneiras dos políticos, diz com dramatismo:
“Quando as aprender, demito-me.
Por outras palavras, quando começar a mentir e a não chamar espada a uma espada, deixei de ser útil.
Não acho que o mundo, e a Grécia ...


De Varoufakis: Min. das Finanças da Grécia a 30 de Junho de 2015 às 17:21
...
.Não acho que o mundo, e a Grécia de certeza, precise de mais um político que distorça a realidade. Eu não falei de mais, só falei verdade”.

Na sua eleição, causou furor ao declarar “sou o ministro das Finanças de um Estado na bancarrota”. Mas isto, afirma, é um simples facto.
A Grécia não sofre de falta de liquidez - é insolvente. E não há empréstimo que a cure.
“É como um amigo seu que não pode pagar a hipoteca da casa obtendo um novo cartão de crédito e dizendo que o problema está resolvido.”

Diz que recebe ameaças de morte desde a crise de 2010, quando se manifestou exaltado
contra os resgates, contra os cleptocratas que esgotaram os fundos e contra a injustiça
que é o grego comum sofrer pelo desgoverno dos banqueiros.

O que é preciso, reclama Varoufakis, não é só investimento na Grécia, mas generosidade de espírito.
Fala do famoso “discurso da esperança” feito pelo secretário de Estado norte-americano James Byrnes à Alemanha em 1946, como prelúdio do Plano Marshall.
Foi a declaração da América de que desejava a paz com o seu inimigo derrotado; de que a Alemanha tinha o direito de voltar a ser próspera à custa de trabalho esforçado.
O discurso de esperança da Grécia, declara, deve ser feito por Angela Merkel.

Quando negoceia, mantém presente vários gregos que lhe exemplificam os males do país:
pensa num casal de empresários que conheceu e que tenta erguer das cinzas uma start-up arrasada pelo sistema fiscal;
lembra-se de um homem de quarenta e muitos anos que veio servir de tradutor quando Varoufakis deu uma entrevista a um jornal espanhol - antigo professor de línguas com família, vive agora na rua.
“Disse-me: 'apoio-o, mas não pode fazer nada por mim. Estou feito. Acabado.
Faça qualquer coisa é pelos que estão à beira do precipício e ainda não caíram'.”

Depois, numa noite em que foi beber um copo com a mulher, a artista Danae Stratou, ao bairro rico de Kolonaki, em Atenas, viu “uma idosa muito bonita, dos seus oitenta, muito limpa e bem arranjada, sentada num banco de jardim”.
Veio a saber que era uma burguesa que vivia num dos apartamentos da zona e que se tinha tornado numa sem-abrigo. “Passa ali a noite e quem a conhece toma conta dela.”

E depois há os seus antigos alunos da Universidade de Atenas. Antes da crise, faziam fila à porta do seu gabinete para pedir recomendações para os mestrados.
Depois de 2010 pediam-lhe referências para irem trabalhar para o estrangeiro.
Ele próprio se juntou à fuga de cérebros, em 2012, saindo para os Estados Unidos desencantado com o desfazer do seu departamento e com o corte no salário,
que significava que não podia apoiar a filha, Xenia, que desde 2005 vive com a sua ex-mulher, a académica Margarite Poulos, em Sydney.

Embora seja um político recente, Varoufakis foi criado num ambiente muito politizado.
O seu pai, Giorgos, que subiu a pulso até se tornar presidente da maior siderurgia grega, lutou do lado dos comunistas na guerra civil; a sua mãe, bioquímica, era militante feminista.
O pai foi preso uns tempos pela junta militar que deteve o poder na Grécia no final dos anos 60, princípio da década de 70 do século passado; o tio esteve preso vários anos.
“Lembro-me de a porta ser arrombada ao pontapé pela polícia secreta”, recorda Varoufakis.
À noite, a família juntava-se em segredo a ouvir a BBC, cuja emissão estava proibida.

Saiu para estudar em Inglaterra com 17 anos - ficando por lá até aos 27 - e foi-lhe difícil transmitir aos amigos britânicos o horror de viver em ditadura.
....
Deve conhecer a visão popular no norte da Europa de que, por muito lamentável que seja a provação do povo grego, a sua miséria é autoinfligida.
A evasão fiscal na Grécia é endémica, a política suja, a idade de reforma baixa, o sector público hiperdimensionado — e isto endurece os corações.
“São grandes mentiras baseadas numa miríade de pequenas verdades”, diz Varoufakis.

“A imunidade fiscal para os poderosos, a corrupção, uma oligarquia que gere tudo mal…
Sim, montes de coisas mal feitas. Isso é assim desde 1827, quando o Estado grego moderno foi criado.”
Mas, argumenta, o Estado grego vive dentro das suas possibilidades no que toca a salários e pensões - só está paralisado pelas dívidas.
E os atuais problemas da Grécia vêm da própria entrada do país...


De V., a Grécia, o Euro e os Troikos. a 30 de Junho de 2015 às 17:28
...
...E os atuais problemas da Grécia vêm da própria entrada do país na Zona Euro:
“A crise que tivemos nos últimos sete anos não teria simplesmente existido.
Em 2008, teríamos tido uma pequena correção, mais ou menos como a Bulgária.
E nos últimos três ou quatro anos temos crescido muito rapidamente.”
...
Os ricos não vão fugir? “É deixá-los ir”, diz Varoufakis com um gesto vago.
“Eles já foram, de qualquer forma - o seu dinheiro está em Londres ou nas Ilhas Caimão.
Por isso, acho que nos desenvencilhamos sem eles.
O que precisamos de fazer é travar este regime que perpetua e reproduz as coisas más.”

“Destruição. Completa destruição”. (...) “Não sobraria nada; voltava tudo à Idade da Pedra.
Por isso não estou preparado para realizar essa experiência de nos libertarmos do euro. Acho que temos de consertar o euro”, refere Varoufakis

Mas e quanto àqueles que dizem que a Grécia mascarou as dívidas para atingir os critérios de entrada no euro?
“Acredita mesmo que os europeus são tão facilmente enganados?”, exclama.
“Que lhes mentimos e nos safámos? Dizer que os governos gregos da época conseguiram mentir para entrar é simplesmente desonesto.”
“Claro” que a Grécia “não devia ter entrado no euro”, mas uma vez que a sua situação é integralmente causada por essa entrada, cabe à Europa resolver a crise resultante.

Não sente, após meses de negociações, que a Alemanha e a Grécia são simplesmente irreconciliáveis?
“Sou um otimista”, diz. O que mais o desapontou nas conversações, depois de anos de universidade, é a falta de rigor e superficialidade dos debates.
Dez minutos para cada, “burocratas não eleitos falam na perspetiva das suas instituições e depois passamos horas a discutir o comunicado final”.

Wolfgang Schäuble tem sido o mais firme opositor da Grécia, insistindo em medidas de austeridade, mas Varoufakis diz que o prefere a outros negociadores com duas faces.
“Gosto das nossas reuniões, porque ele também chama espada a uma espada.
Por isso, quando falamos, é tudo muito civilizado, cheio de respeito mútuo – discordamos, mas sei que posso acreditar no que ele me diz.”

No turbilhão de especulações sobre as intenções do Syriza, há uma teoria de que Varoufakis, que escreveu livros sobre a teoria dos jogos, está secretamente a trabalhar num plano B - a saída da Grécia do euro.
Mas ele rejeita isto com veemência:
“Não tenho mandato para empobrecer mais um milhão ou dois de gregos, para fazer uma experiência social,
pôr quatro milhões de pessoas a viver abaixo da linha de pobreza, só para ver em quanto tempo recuperamos mais tarde”.
...
O Syriza estabeleceu muitas “linhas vermelhas” nas negociações.
Mas quais são as suas próprias? “Eu só não quero dar muita importância ao facto de ser político e ainda menos de ser ministro.
Não vou negociar a minha integridade para manter este cargo.”
Demitir-se-ia, declara, se não fosse capaz de libertar a Grécia do seu eterno ciclo empréstimo-pagamento-austeridade.

Mas avisa com ar soturno:
se a Grécia for à bancarrota e deixar o euro, se o país mergulhar no passado, o governo do Syriza não será substituído pelos velhos partidos centristas que falharam, mas pela Aurora Dourada, o partido neonazi grego.
“Este é um país que lutou com unhas e dentes contra os nazis.
Os três países europeus que tiveram uma maior percentagem de baixas no combate aos nazis foram a Rússia, a Jugoslávia e a Grécia.
Um movimento nazi indígena na Grécia é uma afronta à nossa História.”
Mas a combinação da implosão económica e da humilhação nacional
– “como vocês, europeus, dizem, os gregos são um caso perdido de aldrabões do fisco e preguiçosos, não é?” – pode levá-la ao poder.

E para onde iria Varoufakis?
“De volta para a universidade”, diz, encolhendo os ombros.
Sente falta de ter tempo para ler e de correr na rua sem ser detido por cidadãos que querem contar-lhe as suas histórias pessoais. (Diz-me que está morto por ir ao ginásio: “Limpa-me a cabeça como mais nada”)
Com a sua bela Danae, ainda come em esplanadas de Atenas sem seguranças, mesmo depois do incidente de abril em que foi cercado e ameaçado por anarquistas.
Embora nos dias que correm tenha muito pouco tempo para gozar o seu pequeno barco e outros prazeres da vida. Depois de uma sessão fotográfica para a “Paris M..


De V.: subverter o paradigma dominante. a 30 de Junho de 2015 às 17:31

Varoufakis entrevistado. O homem, o político, a Grécia
...
...
...Depois de uma sessão fotográfica para a “Paris Match” de que hoje se arrepende, foi criticado por ousar comer peixe no seu terraço durante a crise.
“Não sou católico - não acredito no purgatório e na autoflagelação. As pessoas dizem-me,
'Foste apanhado a beber vinho'. E daí?”

Entretanto, o telefone toca.
Em Bruxelas e Berlim e Washington, banqueiros e burocratas dão voltas à cabeça para saberem como lidar com este político relutante que
continua a subverter o paradigma dominante, porque ele e o seu país sentem que têm tudo a perder.

Etiquetas: Grécia, Siryza, Vorufakis
# posted by Raimundo Pedro Narciso


De Mudar os Tratados da UE e Euro. a 2 de Julho de 2015 às 16:35

Esta não é a Europa dos nossos pais

(por Diogo Moreira, 29/6/2015,
http://365forte.blogs.sapo.pt/ )

Neste momento não existem boas soluções para a Grécia,.
Se elas alguma vez existiram, em algo mais do que a cabeça de pessoas bem intencionadas, os dias que temos vindo a assistir na Europa encarregaram-se de acabar com esses sonhos utópicos.

Aqueles que governam a Europa já não se preocupam com os europeus.
Preocupam-se antes com os seus eleitores, com os seus votos, com a sua carreira política.
O ideal de solidariedade europeia, a argamassa de um projecto comum de paz, livre comércio, e intercâmbio político, económico e social, já não impera nas decisões de Bruxelas.

Porventura, este estado de coisas era inevitável.
A União Europeia sempre foi uma falsa união.
Incapaz de dar o salto para uma verdadeira união política, ficou-se pelo fac-símile de uma união económica e monetária, que na realidade nunca dispôs de instrumentos apropriados para tal.

A hubris de quem, sociais-democratas, socialistas, conservadores e liberais, achava que as futuras crises europeias iam aprofundar os mecanismos de integração, visto que as alternativas seriam impensáveis, é hoje trágica.

O poder na Europa, da Esquerda à Direita, está hoje nas mãos de quem realmente pouco difere no seu objectivo fundamental:
a obediência cega aos mercados, ou diremos nós aos seus mestres (da alta finança, transnacional, dos 'offshores', do neoliberalismo).

À luz desse objectivo, qualquer desvio da ortodoxia neoliberal é impensável.
Mesmo que seja uma necessidada absoluta da economia, ou de simples decência humana.

É um facto comprovado, e reiterado, que a Grécia é incapaz de ultrapassar a sua profunda crise económica e social sem uma reestruturação da sua dívida, e sobretudo sem um alívio dos pagamentos dos juros da dita.
As actuais, e futuras, medidas de austeridade apenas agravam a situação negativa vigente.
No actual contexto da austeridade idiótica e punitiva de Bruxelas, e do FMI, não existe qualquer possibilidade para haver crescimento económico grego.
E sem crescimento económico, não poderá repagar os empréstimos que já recebeu, ou que ainda poderia receber.

Os gregos estão assim entre a espada e a parede.
Ou se submetem ao ultimato de Bruxelas, em que o único resultado seria mais desgraça e miséria, sem efeitos práticos,
ou rompem com os credores e o Euro, procurando uma via alternativa através da desvalorização de uma nova moeda própria, entrando numa nova situação de contornos imprevisíveis.

É esta a escolha que têm em mãos.

Por culpa da Europa. Por culpa de todos nós.


Comentar post

DESTAQUE DO MÊS
14_04_botão_CUS
MARCADORES

todas as tags

CONTACTO

Email - Blogue LUMINÁRIA

ARQUIVO

Junho 2017

Março 2017

Fevereiro 2017

Janeiro 2017

Dezembro 2016

Novembro 2016

Outubro 2016

Setembro 2016

Agosto 2016

Julho 2016

Junho 2016

Maio 2016

Abril 2016

Março 2016

Fevereiro 2016

Janeiro 2016

Dezembro 2015

Novembro 2015

Outubro 2015

Setembro 2015

Agosto 2015

Julho 2015

Junho 2015

Maio 2015

Abril 2015

Março 2015

Fevereiro 2015

Janeiro 2015

Dezembro 2014

Novembro 2014

Outubro 2014

Setembro 2014

Agosto 2014

Julho 2014

Junho 2014

Maio 2014

Abril 2014

Março 2014

Fevereiro 2014

Janeiro 2014

Dezembro 2013

Novembro 2013

Outubro 2013

Setembro 2013

Agosto 2013

Julho 2013

Junho 2013

Maio 2013

Abril 2013

Março 2013

Fevereiro 2013

Janeiro 2013

Dezembro 2012

Novembro 2012

Outubro 2012

Setembro 2012

Agosto 2012

Julho 2012

Junho 2012

Maio 2012

Abril 2012

Março 2012

Fevereiro 2012

Janeiro 2012

Dezembro 2011

Novembro 2011

Outubro 2011

Setembro 2011

Agosto 2011

Julho 2011

Junho 2011

Maio 2011

Abril 2011

Março 2011

Fevereiro 2011

Janeiro 2011

Dezembro 2010

Novembro 2010

Outubro 2010

Setembro 2010

Agosto 2010

Julho 2010

Junho 2010

Maio 2010

Abril 2010

Março 2010

Fevereiro 2010

Janeiro 2010

Dezembro 2009

Novembro 2009

Outubro 2009

Setembro 2009

Agosto 2009

Julho 2009

Junho 2009

Maio 2009

Online
RSS
blogs SAPO