De Grécia - radical mas combativa. a 22 de Setembro de 2015 às 09:01
SYRIZA

Durante semanas silenciei-me quanto ao que se ia passando na Grécia depois de, em Janeiro, me ter servido da vitória do Syriza como argumento de identificação de algo de novo a despontar na política europeia, igualmente possível de pressentir no referendo escocês, nas regionais espanholas ou no avanço do Sinn Fein na Irlanda.
Duraram meses presenciámos os esforços quixotescos dos gregos para inflectirem a política europeia no sentido, que melhor servisse os seus interesses. Sem sucesso como se viu (por nos outros países estarem no poder partidos de direita), mas com a consciência de, apesar de derrotados, o terem tentado!

Por isso, desejei muito a vitória de ontem, não só retira à direita o argumento da efémera ascensão e súbita queda de quem ousou outro caminho, que não o austeritário,
mas sobretudo por manter em aberto o resultado final de uma guerra de que já se ganharam e perderam batalhas, sem se ter chegado a um desenlace definitivo.

Quem pensa que o terceiro resgate significou a capitulação grega bem pode esperar sentado, porque Tsipras não descansará enquanto não mudar para melhor as condições com que sempre se manifestou em desacordo,
apesar de ter sido obrigado a aceitá-las enquanto a relação de forças se mantiver como então. E já desde Galileu que sabemos estar num mundo que continua a girar, sujeito a permanente mudança.

A explicação para o resultado oficial das eleições gregas é fácil de formular:
Mesmo reconhecendo, que a situação não melhorará nos próximos anos,
os eleitores reconheceram a coragem dos que procuraram mudar o rumo das coisas em vez de imitarem os antigos donos do poder, sempre lestos a curvarem a espinha perante os dislates germânicos (e seguidores locais da direita neoliberal).
E por isso voltaram a confiar-lhes o seu futuro na expectativa de se verem menos causticados do que o seriam com o regresso ao passado representado pela Nova Democracia e pelo Pasok.

A minha esperança reside na possibilidade de ver o Pasok desaparecer ou, mais tarde ou mais cedo, fundir-se com o Syriza, porque carrega um fardo demasiado pesado na sua imagem para que seja redimido.
O ideal socialista carece ser recuperado e fortalecido nas terras gregas e, após libertar-se dos suspeitos do costume (os que nunca saberão ser poder por escolherem preferencialmente a via do inócuo protesto),
Tsipras estará em condições de assumir o espaço, que Papandreou ou Venizelos se escusaram a ocupar.

Numa leitura colateral há, igualmente, a assinalar o rotundo falhanço das sondagens, mesmo as efectuadas no próprio dia das eleições com os eleitores apanhados à saída das urnas.

A Grécia tem sido o laboratório de ensaio para diversas experiências políticas e uma delas foi a utilização das sondagens enquanto ferramenta essencial à direita para convencer muitos cidadãos quanto à probabilidade de um empate técnico com tudo em aberto.

Daqui a duas semanas em Portugal será provável que nos deparemos com algo de semelhante:
numa altura em que os comícios e acções de campanha de António Costa vão batendo sucessivos recordes de entusiasmo e de participação em todos os sítios por onde ele vai passando
e a dupla passos & portas arriscam o menos possível as actividades em ambientes não protegidos para não virem a ser confrontados com o seu descrédito junto das populações,
é anedótica a tentativa de muitos opinadores televisivos em discutirem as sondagens como se elas estivessem próximas da realidade.


De Grandes empresas e Fraude V W. a 28 de Setembro de 2015 às 15:14

O escândalo Volkswagen.

(-por Luís Menezes Leitão, em 28.09.15, http://delitodeopiniao.blogs.sapo.pt/ )

O escândalo Volkswagen constitui um exemplo típico da forma como as empresas podem usar os desenvolvimentos tecnológicos para a fraude e como tantos discursos sobre a corporate responsability afinal podem conduzir a isto.

O software na indústria automóvel tem contribuído para tornar os automóveis mais seguros. Um dos exemplos é o ABS que permite perceber quando o carro está em derrapagem com uma roda a deslizar sem rodar, compensando a situação travando e libertando as rodas. A empresa lembrou-se de usar o mesmo princípio para detectar se o carro estava a ser usado não em estrada, mas num banco de ensaios, recolhendo como indícios só estarem a rodar as rodas da frente (as únicas com tracção) ou o volante estar fixo, ou o carro estar numa altura maior ou sem alterações na pressão atmosférica exterior. Nesses casos, o motor reduzia a emissão de gases poluentes, permitindo bons resultados nos testes.

Como aqui se explica, o assunto só foi descoberto porque na América surgiu uma associação privada, o International Council on Clean Transportation, que decidiu fazer testes às emissões dos carros na estrada, descobrindo que o VW Passat tinha emissões 5 a 20 vezes superiores aos resultados anunciados. Contactada a Volkswagen, esta respondeu que tinha sido um erro de medição nos testes feitos pelo ICCT. Este não ficou, porém, satisfeito, denunciando o assunto publicamente, desencadeando a intervenção da United States Environmental Protection Agency (EPA). Esta pressionou várias vezes a Volkswagen para explicar o que se estava a passar, mas esta limitava-se a dizer que se tratava de meras falhas técnicas. Até que a EPA informou a Volkswagen de que, se o assunto não fosse esclarecido, proibiria a comercialização dos carros nos Estados Unidos. Só com essa ameaça a Volkswagen confessou a criação do software. A EPA deu então uma resposta lapidar: o assunto deixa de ser da nossa competência e passa para a esfera do Departamento de Justiça. Ao mesmo tempo, nos Estados Unidos estão a ser preparadas inúmeras class actions contra a Volkswagen, com um exército de advogados americanos a querer representar os compradores de carros enganados.

A Volkswagen corre o risco assim de enfrentar inúmeros processos a nível mundial, que no limite podem pôr em causa a sua própria sobrevivência. É extraordinário que uma fábrica que sobreviveu à destruição total após a II Guerra Mundial e chegou a ser um ícone da cultura pop com modelos como o Carocha e o Pão de Forma, tenha agora a sua sobrevivência ameaçada por um escândalo desta proporção. E que sucedeu ao seu CEO Martin Winterkor, responsável por este escândalo? Foi para casa com uma indemnização de 28 milhões de dólares. Há algo de muito errado em tudo isto.


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