De Pangloss... 2014 - a coisa está mal a 14 de Janeiro de 2014 às 18:12
PANGLOSS EM LISBOA, 2014

Todas as vezes que começo estes artigos, a minha certeza é: “Lá vou outra vez escrever o mesmo”. Olho à volta e vejo mil e uma coisas mais interessantes para escrever. Por exemplo, sobre o Candide, de Voltaire, que estou a ler agora com outros olhos.

Mas a coisa está tão mal,
que mesmo com o aviso do meu Grilo Falante para deixar o presente e falar de passarinhos e nuvenzinhas e de como é belo o nosso Portugal, eu volto ao mesmo.
O país está a “dar a volta”, e eu “perturbado” “zangado”, “ressabiado”, “ignorado”, “velho”, ou “infantil” conforme a idade do autor da classificação, não vejo os excelsos “sinais da retoma” e o êxito à vista do “fim do resgate”.

E, por isso mesmo, Cândido e o seu jardim e Pangloss e a sua métaphysico-théologo-cosmolonigologie acabam a desembocar nestes
miseráveis dias de hoje, onde as pessoas de bem não podem deixar de ficar zangadas com o exercício impante de hipocrisia que por aí passa nos discursos oficiais, nos comentários oficiais, no mundo político-mediático cheio de “responsabilidade” e “inevitabilidade” e vazio.
Nuns casos, só vazio, noutros, vazio interessado e interesseiro.
É, Pangloss estaria bem nos dias de hoje, contando-nos a “narrativa” “positiva”, “optimista”, “aberta para o futuro”, “cheia de esperança nas virtudes excepcionais do povo português”, da actual situação nacional.

Ouvindo Pangloss, ouço-os a eles:
de como vivemos no melhor dos mundos possíveis, com os “sinais positivos da economia” em cada esquina,
com o fim do resgate a prazo, e a reconquista “plena” da “nossa soberania”, com o estrangeiro, até há pouco tempo perverso e desconfiado com os PIGS, agora cheio de admiração pelas virtudes do “ajustamento” português, com o “admirável esforço dos portugueses” e a capacidade excepcional das suas empresas “para dar a volta”.
Ou seja, estamos mesmo no “fim do caminho”, a “dar a volta”. Mas a “dar a volta” a quê? “Dar a volta para onde? “Dar a volta” para quem?

É por isso que não vejo muita diferença entre o que diz Portas, Passos Coelho, e Cavaco Silva e é repetido pela voz do poder.
Acresce que o PS de Seguro não conta como oposição.
Mesmo a esquerda, ao comportar-se reactivamente como um reverso do espelho do poder, não faz outra coisa senão reforçar o discurso dominante, aceitando falar a partir dele, a partir do seu quadro interpretativo, a partir da sua forma mental.
O enorme deserto do pensamento dos nossos dias vive dessa dualidade em que os temas, os modos e os tempos são definidos pelo poder e “recusados” pela oposição, dentro da mesma linguagem e aceitando muitas vezes os mesmos limites.

O discurso do poder hoje assenta num rito de passagem. Estamos em 2014, o nosso ano da “libertação do resgate”, o nosso 1640, o ano em que a troika se vai embora.
Este é o tempo, que culmina com um rito de passagem, porque o momento lustral de recuperação da “soberania” tem data.
Por isso, acentua-se o momento da “passagem”, para festejar um resultado e anunciar uma nova aurora.
É tudo ficção, porque não há nenhuma mudança substancial a ocorrer em Maio de 2014, vamos continuar presos àquilo a que já estamos presos, seja pela troika, seja pelo direito de veto de Bruxelas aos Orçamentos, seja pelo Pacto Orçamental, mas é uma ficção útil, instrumental. Festejemos.

Para que é que serve este tempo até Maio?
Para nos dizer que até lá temos que aceitar tudo, em particular esse Orçamento e as suas sucessivas revisões, cujo conteúdo miraculosamente não entra no discurso oficial, a não ser como o “instrumento necessário” para o fim do resgate, ou seja, uma coisa neutra e menor.
Discute-se e fala-se muito de uma coisa etérea, os “sinais da retoma”, e quase nada sobre uma coisa dura e sólida, o Orçamento que aumenta e muito a austeridade para 2014.
Quando vejo alguém centrar o seu discurso nos “sinais da retoma” já sei ao que vem, e já sei aquilo de que não vai falar.

A natureza do Orçamento e o que ele nos diz sobre o que se passou nestes últimos dois anos e o que se vai passar neste ano de 2014 e no futuro são deixados em silêncio.
E silêncio porque não encaixa no tom congratulatório que tão útil vai ser para as eleições europeias e as legislativas.
Aliás, o silêncio sobre as motivações eleitorais ...


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