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De Net, tempo, cidadania, polis, literacia a 2 de Junho de 2015 às 18:50
Brave net world

Em Daredevil, o último grande sucesso da Netflix, Ben Urich é um jornalista íntegro, corajoso, que durante anos denunciou vários casos de corrupção em Nova Iorque. Mas, hoje, neste brave net world, sente-se deslocado.
O jornal onde trabalha há muitos anos está a perder audiências e o público parece ter perdido o interesse pelas suas histórias.
O chefe diz-lhe para escrever sobre outros assuntos, assuntos que supostamente interessam mais às pessoas.
Contrariando as orientações superiores, Urich investiga um processo de CORRUPÇÃO que envolve polícias, juízes, jornalistas e políticos, todos a soldo de Wilson Fisk, o vilão da história. Em desespero, Urich decide criar um blog para denunciar os crimes.

Numa cena entre Urich e o vilão, diz o último:
- E tu pensas que as tuas divagações na internet vão alterar alguma coisa?
- As pessoas sempre procuraram a verdade, e não interessa onde é que a possam encontrar.
- No meu tempo e no teu talvez isso fosse verdade.
Hoje, no mundo à nossa volta, as pessoas estão apenas preocupadas com os casamentos das celebridades e em exibir vídeos de gatos nas redes sociais.
Mas os assuntos complicados, os assuntos que interessam, exigem demasiada atenção, exigem tempo, e as pessoas perdem-se e distraem-se nos milhares de canais que têm a sua disposição.

- Tenho mais fé na humanidade.
- Também Cristo tinha, se bem me lembro.
Há muito tempo que carradas de especialistas espremem os miolos a tentar perceber quem é que tem mais razão neste diálogo.

A visão optimista acha que com mais educação, informação e meios de comunicação activos e independentes
as pessoas tenderão a interessar-se e a envolver-se, cada vez mais, nos assuntos da polis e, dessa forma, poderão contribuir para o bem-comum e controlar melhor o poder.

A visão pessimista acha que esse cidadão ideal é uma ilusão perigosa (no sentido em que só levará a frustrações e a eventuais tiranias);
o mundo é cada vez mais complexo, as pessoas não têm tempo, nem competências para perceber a maior parte dos assuntos públicos, e não há educação que resolva este problema.

Nesta visão, por exemplo, os blogs e as redes sociais não melhoram em nada as coisas;
pelo contrário, fizeram, sobretudo, vir ao de cima muita da boçalidade, violência e ignorância subterrâneas,
que antes, pelo menos, a maioria das pessoas tinha algum pudor em exibir. Fala-se mesmo em rarefacção da tolerância e da democracia.

Nunca se chegou a nenhuma conclusão definitiva sobre este assunto e, provavelmente, nunca se chegará.

(-por José Carlos Alexandre , 1/6/2015, http://destrezadasduvidas.blogspot.pt/ )


De PM não acredita na felicidade... a 1 de Junho de 2015 às 09:59
O primeiro-ministro que não acredita na felicidade
(Nicolau Santos, in Expresso Diário, 29/05/2015)


Pode um primeiro-ministro que não acredita na felicidade conduzir políticas que visem elevar o bem-estar dos cidadãos e o seu nível de vida nos planos económico, social, cultural, educativo?
Ou um primeiro-ministro assim só consegue conduzir políticas que provoquem dor aos seus concidadãos como única forma de redenção do país?

Quando chegou ao poder, Pedro Passos Coelho disse ao que vinha:
culpabilizar-nos a todos pelo pedido de ajuda internacional que o país foi obrigado a fazer em 2011, como resultado do que disse serem os nossos excessos consumistas, que nos conduziram a viver acima das nossas possibilidades.

O mantra foi repetido à exaustão sem ter em conta que o mercado imobiliário estava bloqueado há 40 anos, pelo que mais de 80% dos portugueses foram obrigados a pedir crédito bancário para comprar uma habitação;
e sem ter igualmente em conta que os bancos prosseguiram durante anos políticas agressivas na concessão de crédito a juros muito baixos para a compra de inúmeros bens de consumo, perecíveis ou duradouros.

A ideia de que os agentes económicos agiram de forma racional, tendo em conta os estímulos públicos e privados que lhes eram dirigidos, esteve sempre ausente da cabeça do primeiro-ministro.
Para ele, a culpa era nossa, individual e em conjunto, que nos endividámos para além do admissível, não importando as razões porque tal aconteceu.
E por isso disse a frase-chave que tem conduzido a sua ação desde que chegou a São Bento:
só saímos disto empobrecendo.
E os que não encontram por cá oportunidades de trabalho devem procurá-las no exterior.

UM PRIMEIRO-MINISTRO QUE NÃO ACREDITA NA FELICIDADE PODE TOMAR MEDIDAS QUE VISEM CRIAR CONDIÇÕES PARA OS SEUS CONCIDADÃOS QUE NÃO COMUNGUEM DA SUA DESCRENÇA ATINGIREM ESSE PATAMAR ESOTÉRICO?

Dizem os lábios finos do primeiro-ministro:
“Ninguém está certo de conseguir produzir uma política que garanta a felicidade seja de quem for.
Não acredito em coisas dessas. De resto, nem acredito na felicidade.”

É uma frase que levanta várias perplexidades. Mas há uma incontornável:
um primeiro-ministro que não acredita na felicidade pode tomar medidas que visem criar condições para os seus concidadãos que não comunguem da sua descrença atingirem esse patamar esotérico?

Ou, pelo contrário, um primeiro-ministro tão infeliz por dentro, tão descarnado da alma, só consegue aplicar aos seus concidadãos políticas punitivas, por acreditar que são elas que nos tornam melhores, assim como os padres se fustigam com cilícios para expiarem as suas culpas?

A resposta dá-a o próprio Passos:
“O objectivo que temos é vencer a doença, não é perguntar se as pessoas durante esse processo têm febre, têm dor ou se gostam do sabor do xarope.”
Que possamos morrer da cura ou que nos tornemos um povo de zombies não lhe passa pela cabeça.


NOTA
Perplexidade, é como Nicolau Santos, classifica a afirmação de passos coelho em como não acredita na felicidade, razão porque descrê da possibilidade de haver quem a consiga trazer aos seus concidadãos.

Utilizaria um termo bem mais contundente para qualificar esta confissão, deixo-o ao critério de cada um.
Porque o dever de qualquer governante é o de possuir uma Visão capaz de trazer uma significativa melhoria à vida de quem governa.

Não se trata de, qual frei Gabriel Malagrida que, perante o terramoto de 1755 culpou os lisboetas de todos os mais hediondos pecados e por isso terem de sofrer-lhes o castigo,
imputar aos cidadãos o despesismo dos anos anteriores à vinda da troika e, agora, verem-se obrigados a empobrecer como penitência.

Se Churchill prometeu sangue, suor e lágrimas aos seus concidadãos, foi num tempo em que esse sacrifício se justificava.
Nos tempos actuais assumir um discurso desse tipo só pode ser execrado por sair da mente de um fanático ideológico tão insensato quanto aquele jesuíta de má memória.


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