SÓCRATES? E NÓS?
Já foi quase tudo dito sobre José Sócrates. Que me ocorre dizer sobre José Sócrates?
Em 6 de Maio de 2011, escrevi no Público sobre ele um dos meus escritos mais contundentes ("O grau zero da política"), uma peça que foi interpretada como favorecendo a ascensão de Pedro Passos Coelho ao poder (é claro que eu já temia que vinha aí algo de mau, mas pior teria sido manter José Sócrates, como o PS queria).
Eu, tal como João Miguel Tavares no Público de hoje, não sou juiz e não o vou julgar no plano jurídico. Sou apenas um cidadão que vê e comenta a vida pública. Já o julguei no plano político.
Quanto ao resto não sei, mas verifico que há numerosos casos duvidosos que ele não esclareceu.
Oxalá Sócrates estivesse inocente e se pudesse daqui por uns tempos diluir (apagar será impossível) a mancha na democracia portuguesa causada pelos numerosos casos controversos em que o nome do antigo primeiro-ministro esteve e está envolvido.
Mas, dados os notórios rabos de palha deixados, tudo indica que tal será difícil senão mesmo impossível.
O que há a fazer? Esperar que a justiça siga o seu curso, pedindo-lhe se possível mais rapidez do que a costumada.
E, como todo este caso, queiramos ou não, tem óbvias consequências políticas, tanto para o PS que esteve no governo como para o PSD e CDS que actualmente estão (um governo muito afectado, lembremos, por um presumível caso de corrupção ligado com os vistos gold, que levou à demissão de um ministro, para já não falar do resto),
esperar que os partidos, todos os partidos, façam a regeneração que conseguirem fazer e, nesse processo, se protejam - e, acima de tudo, nos protejam - do terrível vírus da corrupção.
A possibilidade de renovação, nos partidos e nos governos, é uma das grandes virtudes da democracia.
António Costa, que vai ser muito provavelmente o futuro primeiro-ministro, recebe sem ter feito nada por isso uma importante ajuda com o caso Sócrates.
Assim ele perceba que este caso deve ter consequências internas, de modo a aumentar a credibilidade do PS (Mário Soares lamentavelmente não percebeu).
O PSD e o CDS estão nos dias que correm descredibilizados.
E o PS, para que haja confiança no próximo governo e esperança na democracia, tem de aumentar o seu merecimento de crédito.
Pedro Passos Coelho subiu ao poder porque já ninguém acreditava em José Sócrates. Não foi tanto o mérito seu mas mais a falta de mérito do seu predecessor.
António Costa não deveria subir ao poder apenas porque já ninguém acredita em Passos Coelho.
(- Carlos Fiolhais , DeRerumNatura, 27/11/2014)
Comentar: