Privatização do mundo e predação social e ambiental

A  privatização  do  mundo   (-por F.Castro, 29/10/2011, Esq.Republicana, adaptado)

  As poucas décadas de democracia e prosperidade que a Europa viveu a seguir à segunda guerra mundial são uma anomalia da história. E não durou porque a liberdade e a justiça social que as democracias parlamentares do norte da Europa gozaram foi feita retirando privilégios aos ricos.
   Durante as duas ou três gerações que durou, a classe alta foi obrigada a pagar impostos e a aceitar os interesses da maioria, pela primeira vez em milhares de anos.    A elite não achou piada, mas como muitos tinham apostado no Hitler e no Mussolini e no Halifax e no Pétain e no Pio XII, foram forçados a atravessar o deserto.  Nos anos setenta (em Portugal nos anos '80/'90), como era de esperar, os ricos reorganizaram-se para ultrapassarem as desventuras e voltarem ao poder pró absoluto (a neoliberal "escola de Chicago", os Bilderbergs e o WWF, por exemplo, são parte de um esforço vastíssimo dessa reorganização).     E foi neste contexto que há mais ou menos 30 anos que os políticos (e os jornalistas) que aceitaram viver debaixo da mesa dos ricos desataram a dizer mal da política, a sabotar a democracia/estado social e a repetir convulsivamente a mentira de os privados fazerem mais e melhor do que as administrações públicas,... e a defender/impor  'outsourcings' e privatizações. 
---     As razões dos ricos  (e das suas empresas privadas, anónimas e sediadas em paraísos fiscais) são simples e fáceis de perceber:  do ponto de vista deles, quanto mais dinheiro tiverem melhor. Não porque consigam comê-lo todo, mas por poder, prepotência, vaidade, e para viverem acima da lei, como sempre viveram (num «outro mundo») e muito acima da "ralé e gentinha". 
     Para continuarem a dispor de servos, a pagar baixos impostos ou a fugir deles (através de esquemas "subterrâneos"/ilegais e de empresas offshore), a terem tratamento VIP/'gold' e segurança e justiça privada ... 
    Para comprarem políticos, legisladores, governantes, administradores públicos, ... e  a mandarem governar e fazer legislação para  defender o seu lucro e interresse privado à custa do interesse público, à custa da maioria dos cidadãos, do ambiente e dos serviços e infra-esturas públicas...
    Para exigirem cada vez mais privatizações (a preço d'amigos e em saldo), mais desregulação e não-controlo, mais incentivos/ isenções e subsídios públicos (para "investirem", para exportarem, para  manterem/ criarem emprego,  ameaçando com deslocalização e desemprego colectivo, fazendo falências fraudulentas, enriquecendo mais ainda com especulação imobiliária e financeira, ...). 
    Actualmente são as grandes empresas (geralmente grupos multinacionais, principalmente bancos, ind. petrolíferas, automóveis, armas, farmacêuticas, telecomunicações, media, distribuição/hipermercados, ... ) que dominam tanto os mercados (produtores e consumidores, através de concessões monopolistas, oligopólios e cartel) como os próprios Estados, seja através de lobbies (corruptores e ameaçadores) junto de governos/ comissões/ administrações como através de políticos (seus empregados/ avençados ou futuros 'tachistas') e de governos fantoches
    Não são os cidadãos governos tribunais e parlamentos representantes dos povos que governam; não são os Estados, a U.E. ou a ONU, não são as democracias ... mas são estas multinacionais que governam de facto, e decidem tanto as políticas internas como as externas, seja na economia, na saúde, na educação, ... ou até na guerra. 
    Em alguns casos é claro que as grandes empresas (monopolistas ou cartelizadas) são «ministérios», «exércitos privados e invasores/ocupantes» ou «estados dentro dos próprios estados» (: EDP, Sonangol, ..., FMI e fundos «soberanos») mas na maioria actuam/governam através de redes de accionistas/participações cruzadas em diversas empresas, protegidas por legislação especial ou desregulada, por tratados comerciais, paraísos fiscais, concessões/ contratos "blindados", arbitragem/'justiça' privada, e 'armadas' com exércitos de advogados, fiscalistas, contabilistas, investigadores, consultores, RPs, comentadores, jornalistas, ... e até mercenários/assassinos.
---      As razões dos políticos (e dos jornalistas), daqueles sem "sentido de estado/ética" nem "coluna vertical", também são fáceis de entender:   viver debaixo da mesa dos ricos (com algumas benesses ou tachos) é melhor que viver numa meritocracia ou de um trabalho honesto (que nunca os enriqueceria).   O Barroso nunca teria o que tem se não fosse um sabujo dos ricos.
---      As razões dos pobres que votam na direita também são óbvias e o Luis Buñuel explicou-as eloquentemente no filme "Viridiana":  os miseráveis têm tendência para serem miseráveis  (porque têm necessidades básicas a satisfazer e menos condições de acesso à educação, empregos decentes, ..., porque a iliteracia grassa e é campo fértil para a propaganda, manipulação, burla, alienação, ... com «pão e circo»/"FFF".
      Mas este fenómeno  (iliteracia + pão e circo+...) também atinge a classe média, pois a elite quer manter o máximo de poder e domar essas maiorias com maciças doses de desinformação, comentários, jogos, telenovelas, concursos, «fait divers»... com escândalos, "questões fracturantes", crimes passionais e excentricidades diversas que os pasquins publicam e as redes sociais amplificam ... - dantes era o perigo amarelo, depois eram os comunistas a comerem crianças, agora é o islão, o terrorismo, ... e as 'boxes', TV, telemoveis, 'ipads', 'Facebook', ... 
     Assim,  tanto a elite (em defesa da sua classe e exploração) como os novos riquitos/ "empresariozitos"  e os alienados (pobres ou 'mediados') estão sempre a falar das pessoas que "são um fardo para as outras".   É-lhes avesso verem os outros a viver melhor ou a lutarem por justiça e trabalho com direitos, a ascenderem socialmente e a terem uma vida decente, mesmo que a globalidade da sociedade/ comunidade e país também ganhe com isso, ... tal como lhes é avesso qualquer ideia de interesse público, cooperação, estado social, sindicalização, civismo, igualdade, ...  - o seu "credo e deus" é o dinheiro,  ajudado pela "sorte/Deus", o individualismo, o privado, a empresa, o empreendedorismo, a concorrência (geralmente falseada), o mercado, o "mérito" (também falseado), ... sobrepondo o «ter» ao «ser» Humano. 
---      A classe média  tem alguma coisa (e por isso, individualmente, tem muito medo, mas se for grande, unida, tem capacidade para exigir mais justiça e menos desigualdade, ameaçando os chorudos lucros e o poder/privilégios dos super ricos e suas empresas predadoras) ... logo, para se manter, a poderosa elite tem que desunir, segmentar, "espremer" a classe média (com 'austeridade', impostos, baixos salários, precariedade, mais horas de trabalho, ... e manter-lhes a "cabeça baixa", sem tempo nem vontade para pensar e agir colectivamente) ... há que aliená-la (com drogas, pão e circo) e fazê-la desejaaaar/esperançaaar ser elite e, no entretanto, levá-las ao consumismo/ dívidas e pobreza, e ... comprar as suas cabeças, votos e apoios para defender os interesses da elite/ricos/ «os 1%»...   
     Todos os dias vejo aqui as secretárias do meu departamento, profissionais excelentes e incansáveis, a trabalhar horas extraordinárias sem receberem nem mais um cêntimo, sem aumentos nem perpectiva deles até 2015, a saberem que os administradores ganham entre $250k a $500k  por ano (c. 22 a 45 mil dólares/ mês), e se aumentam todos os anos, e esses explorados trabalhadores são dos primeiros a defender o governador crápula que nomeou esta casta de cleptocratas.
       Se calhar temos (a «choldra e a paulada») que muitos merecem: ... até a literacia, coragem e solidariedade suplantarem o medo, alienação, exploração,  nepotismo,  corrupção, ...


Publicado por Xa2 às 07:47 de 20.06.14 | link do post | comentar |

10 comentários:
De Bangsters, jornalistas, troica e desgov. a 20 de Junho de 2014 às 13:00
Rewind/ Fast Forward buttons
(-por josé simões, 19/6/2014)

Como é que uma jornalista se sente depois de fazer figura de idiota útil? Ou foi paga para isso? Ou foi um investimento no futuro?

«Muitas pessoas não perceberam por que é que andava a entrevistar banqueiros todos os dias.
A verdade é que as entrevistas foram feitas numa segunda, numa terça, numa quarta e numa quinta; 48 horas depois, o primeiro-ministro estava a pedir ajuda financeira.». Judite de Sousa, Público, 2012-12-04.

«Com o distanciamento que o tempo permite, é hoje evidente que a PRESSÃO dos BANQUEIROS liderados por Ricardo Salgado, secundado, fundamentalmente, por todos os que entretanto vieram a receber fundos públicos, não era inocente.
Preferiam, como é óbvio, um apoio global ao país de que poderiam BENEFICIAR em parte para acudir às suas mazelas,
a uma solução à espanhola dirigida ao sector bancário, onde efectivamente nasceu a crise do país vizinho e também a nossa, por causa do excesso de endividamento que permitiu.
Uma intervenção directa nos bancos portugueses sempre anunciados internamente como sólidos e credíveis poderia, de facto, destruir reputações e accionistas de referência.

Se tivéssemos seguido a estratégia da Espanha em tempo útil e NEGOCIADO uma AUSTERIDADE reformista interna, agora poderíamos movimentar-nos menos CONDICIONADOS por CREDORES que ficarão por cá até saldarmos o último cêntimo do grande empréstimo, ou seja, qualquer coisa como 30 ANOS […]»

Tem algum peso na consciência, sente algum remorso pela quota-parte de responsabilidade no sofrimento e nas privações impostas aos portugueses?


De Classe média paga, desce e diminui. a 27 de Junho de 2014 às 17:05

Todos no mesmo barco ...

(A.Abreu, 25/6/2014, http://expresso.sapo.pt/todos-no-mesmo-barco=f877623#ixzz35dsS7UNL )
...
...
A forma de a explicar tem a ver com a forma como os sacrifícios decorrentes da crise e da austeridade ao nível da distribuição do rendimento têm sido distribuído pela população. Desproporcionalmente, esses sacrifícios têm incidido sobre os segmentos médios, médios-baixos e médios-altos da distribuição do rendimento, de tal forma que todos eles têm visto a sua situação em termos de rendimento aproximar-se dos segmentos de rendimento mais baixo. Em termos agregados, chega até a registar-se uma redução da desigualdade global (como sucedeu em 2012) porque existe um nivelamento por baixo de uma parte substancial da distribuição. Ao mesmo tempo, porém, o extremo superior continua a distanciar-se do resto da distribuição, tal como resulta evidente dos indicadores que olham para os extremos... ou das notícias sobre o número de milionários. Os 99% contra o 1% não é um mero slogan: é uma descrição particularmente acertada das desigualdades contemporâneas, incluindo em Portugal, e da forma como a crise e a austeridade as acentuam.

Estamos todos no mesmo barco? Talvez: uns no porão, outros em festa no convés superior.

-----: desigualdade, repartição do rendimento, coeficiente de Gini, Portugal, austeridade, crise, Blogues, Economia, Alexandre Abreu ---- -----
---Nunosilva2:
É de facto nefasto o que se está a passar em Portugal (e nos EUA e na UE), e, ou o PS, PSD e CDS deixam de se levar pelo neoliberalismo, e retornam novamente á social democracia cristã, ou então afundam-se a eles próprios juntamente com o país (e mais uma vez, não se afundam todos).

Eles ainda têm, até nos próprios quadros internos e pessoas independentes, capazes de os guiar. Mas infelizmente os interesses, a sede de poder e até algum fanatismo, falam mais alto.

Vejam que o próprio limiar de pobreza tem vindo a descer, devido ao efeito da mediana no cálculo.
Se levarmos em conta os rendimentos de 2009, o número de pobres em Portugal depressa atingiria o 3 milhões...

---moncarapacho:
...O agravamento das desigualdades... tem a ver com crises ... com austeridades, tem a ver com a coordenação universal do capital, com a falta de regulação que controle tudo isso, com a competitividade conseguida à custa de baixos salários.
...
Ou muito me engano, ou só vai encontrar agravamentos, para isso se fez a globalização e liberdade de movimentos de capitais, para dar mais lucros aos homens do dinheiro......
---fmarta8:
Faz bem em dar ênfase à desigualdade social, e faz bem a esquerda em bater nessa tecla. Felizmente, essa luta começa a ganhar visibilidade, também graças ao apoio de pesos pesados da Economia como o Stiglitz e o Krugman.
Infelizmente, reina o medo, e no medo pontifica a direita. E da direita só se pode esperar vistas-curtas e o típico umbiguismo.
O que fazer? Lutar homem-a-homem, discussão-a-discussão, até que as pessoas notem o que está a frente dos olhos de todos. Lutar contra o medo, contra o egoísmo, contra o conservadorismo bacoco... não podemos permitir este regresso ao feudalismo feito em pézinhos-de-lã!

---


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