Problema górdio: Eurozona, tratados e sistema financeiro

Os Tratados  mudam-se com  rupturas.   (-J.Bateira, 20/6/2015, Ladrões de B.)

     O sistema monetário internacional do padrão-ouro acabou em 1931, no dia em que o Reino Unido abandonou o compromisso com a convertibilidade a uma taxa fixa. Seguiram-no outros países e o resultado está à vista na figura que o Alexandre Abreu publicou num magnífico texto do ano passado. Comparem a trajectória da crise nos países que saíram do sistema (desvalorização da moeda - linha cinzenta) versus a dos que mantiveram a austeridade (desvalorização interna - linha amarela).   Hoje, apesar dos estabilizadores automáticos (subsídios de desemprego e outros) e de se tratar do conjunto da zona euro e não apenas da periferia (linha vermelha), percebe-se bem que esta crise já demorou demasiado tempo.

     Oxalá a Grécia tome a dianteira e nos ajude a romper com este projecto anti-democrático. Para mudar a Europa, é preciso romper com os Tratados da UE. Os que querem mudar por dentro, devagar, com a diplomacia convencional para não ofender ninguém, desempenham o papel do "polícia bom" neste processo de tortura e submissão dos povos europeus ao totalitarismo ordoliberal.  Neste sentido, o economista italiano Sergio Cesaratto apela à esquerda europeia para que assuma a estratégia da ruptura (aqui). Onde está escrito 'Grécia' podia estar 'Portugal':

     A "união monetária europeia" constituiu uma armadilha tanto para a Grécia como para a Itália, (e Portugal) embora com diferentes caminhos. De facto, os dois países estão em diferentes estádios do desenvolvimento capitalista.

Para a burguesia italiana, tratava-se de finalmente livrar-se do poder dos sindicatos impondo ao trabalho uma disciplina germânica (totalizante, de sobre-exploração, medo, enfraquecimento e perda de direitos). O modelo monetário e económico europeu abriu essa oportunidade já que foi construído sobre a ideia de políticas de deflação competitiva. A burguesia grega viu o euro como o caminho fácil para atrair o capital estrangeiro de forma a financiar a despesa privada e pública, e as importações, o que permitia manter o consenso eleitoral.      (...)

      A alternativa, tanto para a Grécia como para a Itália, teria sido uma estratégia de desenvolvimento nacional independente, com uma estratégia industrial liderada pelo Estado (a que a UE se opõe) acompanhada de uma taxa de câmbio competitiva.

    O que veio a seguir é bem conhecido. Como era de esperar, as políticas de austeridade falharam a recuperação do desenvolvimento sustentado, produzindo desindustrialização e miséria. O projecto europeu tornou-se cada vez mais um projecto reaccionário, sendo a Europa federal e progressista uma quimera (sempre foi) que apenas umas quantas pessoas loucas ainda têm a coragem de defender.      (...)

     Dado que uma unificação política europeia mais profunda, democrática e progressista, está fora de alcance, devemos lutar por uma dissolução pacífica e justa da presente união monetária e económica e substituí-la por um novo quadro institucional.    Este seria baseado na cooperação económica, monetária e financeira, mas também permitiria a cada país a liberdade de prosseguir a estratégia de crescimento democrático que melhor sirva o seu estádio de desenvolvimento.

     Percebemos que uma dissolução, pacífica e sem dor, da actual união económica e monetária europeia não é uma tarefa fácil.  Ainda assim, devemos lutar para que a actual situação se torne insustentável tendo em vista acelerar a transição para um novo estádio de cooperação na Europa mais democrático e socialmente comprometido.

----- O “polícia bom” é do mesmo grupo de lampeiros que por cá arranja sempre formas se banquetear no caldeirão da neoliberal UE enquanto receita Pec’s (austeridade, privatizações, perdas sociais em todos os sectores) mas na realidade nada faz de diferente:
tratado orçamental – é bom e é para ser usado com “inteligência”, leia-se destruição do estado social;
austeridade – devagar devagarinho estamos confiantes que as coisas podem vir lentamente a melhorar um bocadinho, enquanto vamos entregando aos privados o sistema público de segurança social;
auditoria e reestruturação da dívida – nem pensar falar disso, isso equivale a levar com uma porta nas trombas e um monumental chuto no c..;
euro – é uma adoração transcendental beatífica com direito a lengalenga … tu és e sobre ti erigiremos um culto neoliberal
    Quando tudo isto começar a ruir e não deve tardar preparemo-nos para o oportunismo do costume do centro, da direita e da extrema. Depois de terem vendido a família e alinhado na destruição da comunidade a pior coisa que nos pode acontecer é, o neoliberalismo nacional amaciado ou outra patranha, continuar a aceitar a indignidade da UE, a destruir o estado social e a empobrecer a maioria dos portugueses, privatizando tudo o que ainda resiste.

-----  ...excerto dum magnífico texto de Manuel Loff (via otempodascerejas2):
      "«(...) Quem o escreve é a Comissão da Verdade sobre a Dívida Pública nomeada em abril pela presidência do Parlamento da Grécia, constituída por peritos internacionais (ou julgar-se-á que “peritos” são só os FMI e do BCE?) e que apresentou esta semana um relatório preliminar. Contrariando todo o discurso dos nossos governos austeritários, que entendem que não há nada que discutir quanto à legitimidade da dívida (“há que a pagar, ponto final!”), o Parlamento grego criou uma comissão “com o mandato de investigar sobre a criação e o aumento da dívida pública, a forma e as razões pelas quais ela foi contraída, e o impacto que as condições associadas aos empréstimos teve sobre a economia e a população.”
     Concluiu ela que o crescimento da dívida pública grega desde os anos 80 “não se deveu a um gasto público excessivo, que se manteve abaixo do gasto público doutros países da eurozona, mas sim ao pagamento de juros extremamente altos aos credores, um excessivo (...) gasto militar, perda de receita fiscal devido aos fluxos ilícitos de capital, à recapitalização estatal dos bancos privados e aos desequilíbrios criados (…) na conceção da própria União Monetária.”      “O uso do dinheiro” que adveio dos dois resgates (2010 e 2012) “foi estritamente ditado pelos credores, sendo revelador que menos de 10% destes fundos se tenham destinado ao gasto corrente do governo.” Em que foram gastos, então? No resgate de bancos privados gregos e europeus: a troika passou dinheiro à Grécia (a juros, claro) para que esta pagasse aos bancos (mais juros). E dessa forma, a Grécia (como Portugal) ficou sob o protetorado de instituições internacionais de que fazem parte mas onde a sua voz não conta para nada, cedendo-lhes toda a sua soberania económica — e, automaticamente, toda a sua soberania nacional!   Por água abaixo vai a tese, tantas vezes repetida por Teixeira dos Santos, Gaspar e a ministra dos swaps, de que os empréstimos servem para pagar pensões e a saúde pública, pelo que devemos estar todos agradecidos aos nossos benfeitores..."  -- http://www.publico.pt/mundo/noticia/a-grecia-e-as-licoes-da-austeridade-1699519  .



Publicado por Xa2 às 07:40 de 22.06.15 | link do post | comentar |

4 comentários:
De 'Misteriosas' troikas e Euros... a 22 de Junho de 2015 às 15:28
Mistérios ...

os gregos estão a aprender/ sofrer o que todos já sabemos há muito.

têm sido audazes , esperneiam, gritam, dizem as verdades verdadinhas,
mas a formatação global está bem montada

e, é claríssimo, que sozinhos (sem a solidariedade e coligação de outros povos / governos da Europa, da 'periferia') pouco ou nada conseguirão contra os elevados interesses da finança mundial e dos capatazes governantes ao seu serviço.

os gregos estão a ser esmagados pelos senhores do mundo.
tal como todos os outros míseros povos.

retirado de Económico:

O ministro grego das Finanças, Yanis Varoufakis, acusa o Eurogrupo de falta de Transparência e de incapacidade para lidar com os problemas da moeda única (EURO) e de ter ignorado todas as propostas que levou à reunião na quinta-feira.


Num artigo de opinião publicado no jornal Irish Times e dirigido aos cidadãos irlandeses, Varoufakis DENUNCIA
as regras de funcionamento do fórum que reúne os ministros das Finanças do euro
por impedirem o debate das propostas de Atenas
e resumirem os ministros a meros peões (ao serviço da alta finança).

"A zona euro move-se de uma forma misteriosa.
As decisões importantes são carimbadas pelos ministros das Finanças que desconhecem os detalhes,
enquanto funcionários não eleitos de instituições poderosas (Troika, CE, BCE, FMI, Eurogrupo, ...)
se travam em negociações unilaterais com um governo em angústia", lê-se no artigo.

Queixando-se de não conseguir fazer chegar as suas propostas escritas aos homólogos,
o ministro aponta o dedo a Wolfgang Schauble, que argumenta que
qualquer proposta terá de passar pelo parlamento alemão antes de ser aprovada.

"É como se a Europa determinasse que os ministros das Finanças eleitos não estão à altura da tarefa de dominar os pormenores técnicos;
um trabalho deixado a 'peritos' que não representam os eleitores mas as instituições", acrescenta.

Pedindo aos irlandeses que se recordem da "indignidade" que é estar sob um programa de resgate,
Varoufakis argumenta que é inútil alimentar um sentimento de hostilidade contra o povo de Atenas,
já que não promove o entendimento,
não contribui para o debate sobre as instituições e
é desnecessário entre povos que têm mais em comum do que pensam.

"A Grécia e a Irlanda sofreram no início da crise
porque o eurogrupo não foi desenhado para lidar eficientemente com as crises.
Ainda é incapaz de o fazer", alega.


De DDT: neoliberais e Finança mundial a 22 de Junho de 2015 às 15:06
Dos donos disto tudo (DDT)
(- por Sofia Loureiro dos Santos,  21.06.2015, http://defenderoquadrado.blogs.sapo.pt/dos-donos-disto-tudo-1113086)

grecia.png (imagens do PM Grego Tsipras e do Min.Econ.Fin. Varoufakis)


Não há opiniões nem estados de alma do FMI, do BCE ou do Eurogrupo que não sejam gritadas nas primeiras páginas dos jornais, em todas as televisões, partilhadas nas redes sociais.

Mas há conferências e discursos que, não fossem alguns blogues atentos, não chegariam a ninguém. ( http://conversa2.blogspot.pt/2015/06/a-angela-merkel-morre-e-chega-as-portas.html )

Manipulação informativa total e programada.
O que é importante é insistir na radicalidade do Syriza ou seja, da irresponsabilidade do povo grego que teve a ousadia de escolher o governo errado, segundo a ideologia dos donos disto tudo.

[http://www.imf.org/external/index.htm [ All Will Benefit from Steps to Cut Excessive Inequality—Lagarde

Lifting the “small boats” of the poor and middle class can build both a fairer society and a stronger economy, IMF head Christine Lagarde says, telling a Brussels conference that growing and excessive inequality has become a problem for economic growth and development. ]]

donos disto tudo.png (imagens de: Lagarde/FMI, Merkel/ PMAlemã, Schaube/ Min.Fin.Alemão, chefe do Eurogrupo/...)

Etiquetas: economia, europa, política


De Petição: queremos a Grécia... a 22 de Junho de 2015 às 15:54

Foi criada uma Petição Pública Queremos a Grécia na Europa : http://peticaopublica.com/pview.aspx?pi=PT77536

Divulguem o mais rápido possível
Um abraço
Rosa Castro Pita


Muito obrigado por criar a Petição: Queremos a Grécia na Europa. Acabou de dar um passo importante na direcção de uma mudança. Comece desde já a recolher assinaturas.

Uma forma eficaz de começar a recolher assinaturas é enviar um email aos seus contactos, para que caso concordem, assinem e divulguem também a Petição.

Enviar um email para as pessoas que conhece é a ferramenta mais poderosa que têm. Pode recomendar a Petição aos seus amigos através da nossa ferramenta de recomendação.

Poderá também partilhar a Petição através do seu Facebook, Twitter ou outras redes sociais que utilize e por último submeter o link da sua Petição para blogs, sites e fóruns sobre o mesmo tema.

O sucesso da sua Petição depende de uma divulgação eficaz.

Com os nossos melhores cumprimentos,
A equipa PeticaoPublica.com

Esta mensagem foi-lhe enviada porque criou uma petição ou causa no site: peticaopublica.com.

QUEREMOS A GRÉCIA E TODOS OS PAÍSES DA EUROPA NA UNIÃO EUROPEIA, SIM,
MAS NÃO NA NA ACTUAL UNIÃO EUROPEIA DO CAPITAL,
PORQUE ESTA NÃO OBEDECE AOS PRINCÍPIOS DE IGUALDADE, SOLIDARIEDADE E FRATERNIDADE,
, A EUROPA DOS CIDADÃOS, COM QUE FOI IDEALIZADA POR JEAN MONET E ROBERT SCHUMAN, SEUS MENTORES, DEPOIS DA II GRANDE GUERRA MUNDIAL!

Rosa Castro Pita


De 'sentido de estado' ridículo e ... a 22 de Junho de 2015 às 12:51
Serviço público
Era algum jornalista, até podia ser mesmo um estagiário e vinha a propósito, ir perguntar ao homenzinho responsável e cheio de "sentido de Estado" e ex-sindicalista não menos responsável e não menos cheio de "sentido de Estado", João Proença, se já leu o relatório do FMI. :

------http://derterrorist.blogs.sapo.pt/circo-3011409
---- Circo ridículos, -- por J.Simões, derTerrorist, 15//6/2015

Ou como a incompetência do FMI está a matar o capitalismo:


«Não só se confirma que a desigualdade está ao "mais alto nível em décadas" e que uma maior desigualdade tem como consequência um abrandamento do crescimento da economia [...].

[...] mais desigualdade faz as economias crescer menos. "Se a parte do rendimento dos 20% mais ricos aumenta, então o crescimento do PIB diminui no médio prazo", [...] "um aumento da parte do rendimento detida pelos 20% mais pobres está a associado a um crescimento do PIB mais elevado".

Como a desigualdade faz mal ao crescimento, faz sentido perceber o que a está a provocar, para tentar inverter a tendência.

Um dos mais importantes é o aumento do prémio que é oferecido aos que têm mais qualificações. Com o desenvolvimento tecnológico, a parte da população que tem qualificações que lhes permitem tirar mais vantagens desse desenvolvimento viu os seus rendimentos subirem muito mais do que os que não têm essas qualificações.

[...] “a suavização da regulação nos mercados de trabalho está associada com uma desigualdade no mercado e um peso do rendimento dos 10% mais ricos mais elevada”, [...] “a flexibilidade do mercado de trabalho beneficia os ricos e reduz o preço de negociação dos trabalhadores de mais baixos rendimentos”.

“A política fiscal já desempenha um papel significativo a enfrentar a desigualdade de rendimento em muitas economias avançadas, mas esse papel redistributivo da política fiscal pode ser reforçado através de uma maior importância para os impostos sobre a fortuna e a propriedade, de uma tributação mais progressiva dos rendimentos, da redução das oportunidades para a fuga aos impostos, de uma melhor escolha dos benefícios sociais, ao mesmo tempo que se minimizam os custos de eficiência”»
----------

Voltaram os "cursos da CEE"

Agora em versão 2. 0, direita sabida, em véspera de eleições e apostada em manter o poder custe o que custar.
Mistura-se uma pitada, q.b. , de "activos empregados", para dar gostinho à boca e compor o prato ,
pespega-se com os desempregados nas empresas, como gente grande a fazer o trabalho de gente empregada
– formação em movimento, ainda se paga ao patrão para os ter lá
e, no fim do dia, os números do desemprego baixaram, tipo uma ladeira com inclinação de 10%,
toda a minha gente ganha dinheiro e vai para casa satisfeita
e os partidos do Governo fazem um brilharete na campanha eleitoral. Siga a marcha.

-----------
o 'artista' e o Mito urban... cala-te (paf) !

«Passos explicou que o governo
na electricidade passou a taxa de reduzida para normal,
e na restauração de intermédia para o nível normal.
"Como vê, não aumentei a taxa do IVA", concluiu.»


----------

Vamos lá a ver se a gente se entende e se a gente entende a natureza desta gente e a mecânica da coisa:
quando se fala em "perdão da dívida grega"
significa que quem emprestou dinheiro à Grécia vai deixar de receber o dinheiro que emprestou
ou que vai deixar de ganhar o dinheiro que pensava ganhar quando emprestou?

--------Anti-Globalização selvagem

Já tínhamos uma Bíblia da anti-globalização selvagem, pelo capitalismo das marcas e das corporações.
Agora temos um Papa anti-globalização selvagem, contra o Governo global das multinacionais.
E um Papa com uma Bíblia na mão é outra loiça.


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