Que futuro político-económico? U.E., Portugal, França, Itália, Alem ...

Quem  manda  mesmo  aqui ?   (- por J.Rodrigues, 10/12/2016, Ladrões de B.)

 Em Novembro de 2013, queixava-me do seguinte: durante meses a fio tivemos de suportar os euro-iludidos com a narrativa das eleições alemãs; aguentem, depois é que pode começar a mudança na Europa, diziam.
   Agora, em final de 2016, falta menos de um ano para as novas eleições legislativas alemãs e já recomeçou o discurso aparentemente euro-iludido: aguardemos por 2017, diz-se, então as coisas podem começar a mudar depois das eleições alemãs; por exemplo, no que à renegociação da dívida diz respeito.
    Nada mudará para melhor pela Alemanha, claro, dado o consenso ordoliberal entranhado numa potência credora: a renegociação da dívida é sempre para ir sendo feita nos tempos e nos termos dos credores, para ir sendo usada como instrumento de condicionalidade política, garantindo a neoliberalização das economias políticas nacionais periféricas, sobretudo no campo onde quase tudo se decide, o das relações laborais, ou seja, garantindo custos salariais, directos e indirectos, relativamente baixos para os capitais que circulam por aí a partir do centro.
    A Grécia, em greve geral esta semana contra este regime externo e os seus executantes internos, aí está a ilustrar pela enésima vez a economia política europeia da dívida. O eco de Bruxelas cá no burgo, também conhecido pelo nome de Conselho das Finanças Públicas, também confirma à sua ideológica maneira isto.
    E como isto está tudo ligado, não causará admiração que um governo que não quer tomar qualquer iniciativa na área da dívida, com receio das implicações de tal acto de desobediência em termos da pertença a uma zona monetária disfuncional, seja também um governo que, pelos vistos, não quer mexer nas regras laborais regressivas herdadas da troika e do seu espírito nos anos anteriores à agressão externa, em particular na área onde as vitórias de classe foram mais fortes: a destruição da contratação colectiva.  Se isto se confirmar, a política de um governo apoiado pelas esquerdas será apenas um momento temporário de travagem do tal comboio rumo ao abismo.
    Na melhor das hipóteses, tal dever-se-á ao facto de não se querer afrontar o eixo Bruxelas-Frankfurt numa área que este segue com particular atenção. Não preciso de dizer mais nada sobre a natureza da integração europeia e das suas instituições de suporte. Já só não vê, quem não quer mesmo ver. Sejamos francos: o aprofundamento da crise de legitimação destas instituições controladas pela grande potência da zona, fruto do agudizar das contradicções que lhe são inerentes, é uma condição necessária, se bem que obviamente não suficiente, para mudar as regras viciadas deste jogo e para dar mais margem de manobra aos governos democráticos nacionais das periferias.
 

 Que futuro para Portugal ?  Que futuro para a UE ?  (-por Jorge Bateira, 28/11/2016, Ladrões de B.)

 
Para quem não pôde participar nos debates de Almada (18 Nov.) e Lisboa (19 Nov.) aqui fica um resumo. Na encruzilhada em que nos encontramos, a pergunta crucial a que não podemos fugir é esta: o que fazer a seguir?
     Estaremos a chegar ao fim da época neoliberal do capitalismo? Mark Blyth defende que sim e afirma que vem aí uma época de neonacionalismo.
(outros dizem que será neo-feudalismo e neo-imperialismo de empresas transnacionais ... mas,  porque não aprofundar/ desenvolver o cooperativismo ?)
          Laços  ?    (-J.Rodrigues, 29/11/2016, Ladrões de B.)
  Em entrevista ontem ao Público, F.Medina (pres. da CMLisboa) defendeu o reforço dos laços entre PS, PCP e BE a nível nacional. (...)
    No Verão, um número da The Economist já tinha dito “adeus à esquerda versus direita”, dado que “o conflito que importa é entre abertura e fechamento”. Medina seguiu exactamente esta linha. Dada a sua tentativa de enquadrar a questão europeia, não pode espantar que se tenha colocado explicitamente ao lado de Merkel, ou seja, atrás da liderança imperial da chanceler, tal como o fazem sempre todos os euro-liberais mais ou menos aflitos.
     Num discurso aparentemente consistente, defendeu também que Portugal tem de estar na linha da frente de todo o aprofundamento europeu, ou seja, tem de aceitar o que não poderá deixar de ser o reforço do controlo estrangeiro da nossa economia, sociedade e política.  (...)
     A hegemonia é a capacidade de enquadrar, de colocar as questões: abertura e fechamento do quê, para quê e para quem? Parece-me melhor. Portugal precisa de reestruturar a dívida externa, nacionalizar a finança e deixar de depender da maldição da poupança externa, o que pressupõe instrumentos de política nacional para gerir a balança corrente sem ser através da oscilação entre crise e estagnação. No domínio comercial, Portugal precisa de contornar as regras liberais do mercado único, numa combinação de proteccionismo selectivo e política industrial em modo Estado empreendedor, o que não depende das ficções dos Paddy Cosgrave desta vida. Mais fechamento, portanto, para reconquistar espaço para uma nova versão dos 3 D.     Em relação a pessoas ou ideias, Portugal pode e deve ter uma atitude relativamente aberta, o que não quer dizer necessariamente oferecer as chaves da capital a outras figuras nada recomendáveis, como o actual ditador egípcio, o que obedece ao liberal FMI, enquanto manda prender e matar milhares de opositores.
     Enfim, é preciso distingir entre várias formas de abertura e de fechamento. Soa familiar? É um programa dito keynesiano. Parece ainda radical, mas em tempos que serão, esta é a aposta, de maior desglobalização vai parecer bem sensato. Talvez o laço social e político se tenha de reforçar por aqui, mesmo que esse reforço seja externamente sobredeterminado...
 
------   França: infelizmente, é isto    (-J.Lopes, 29/11/2016, Entre as brumas ...)
Gauche : les ir-res-pon-sa-bles.

----- Vai ganhar as primárias da esquerda francesa  (G.Silva, 28/11/2016, 4Rep.)

«Nunca nenhum candidato [Fillon, centro-direita] foi tão longe na submissão às exigências ultraliberais da União Europeia”, afirmou Marine Le Pen (FN, extrema direita), criticando os cortes propostos de 500 mil funcionários públicos, a subida do IVA, a redução das prestações sociais. Para combater o candidato da direita, a FN está a apoiar-se no seu programa económico eurocéptico, anti-globalização e intervencionista (*).

-----Quando a  Itália  treme    (-por V. Moreira, 5/12/2016, CausaNossa)

    1. Não tem razão L.A.-C. quando escreve que imputei aos eleitores italianos, e não aos governantes, a culpa por o referendo constitucional ter sido indevidamente transformado num plebiscito ao Governo.     Na verdade, o que defendi foi que referendos como este - que pedia aos cidadãos uma decisão sobre dezenas de alterações à Constituição, inacessíveis ao cidadão comum, numa situação de grande insatisfação em relação ao Governo  - não deviam ser convocados, o que obviamente é antes de mais uma crítica ao primeiro-ministro italiano.        Além do mais, um dos traços dos referendos é que eles tendem a só poder ser revertidos por outro referendo, o que se traduz numa expropriação definitiva da democracia parlamentar.
     2. Agora que Renzi - cumprindo a sua "ameaça" - , pagou com a demissão a sua imprudência, aproveito para dizer que se eu fosse italiano teria votado a favor da reforma constitucional de simplificação e de correção de algumas disfunções do sistema político (redução da dimensão e dos poderes do senado, eliminação das províncias, atenuação da fragmentação do poder político regional).     Quem conhece o sistema político italiano não pode deixar de se interrogar como é que ele pode funcionar com um mínimo de racionalidade, eficiência, estabilidade e responsabilidade.
     3. Não faz sentido pensar que a derrota do referendo e a demissão de Renzi venham a desencadear um processo de saída do euro. Mas é de recear que a Itália entre de novo num período de turbulência política, com reflexos negativos na problemática situação financeira e económica do País.     Mesmo que o BCE venha em socorro da estabilidade da zona euro e da dívida pública italiana, não é de excluir que outros países mais vulneráveis, como Portugal, venham a ser negativamente afetados. Uma das consequências da união monetária é que os problemas financeiro de um Estado-membro, sobretudo se importante, têm efeitos sobre os elos mais fracos.
 
------  Na Áustria, as eleições presidenciais foram ganhas por candidato ecologista e não pelo candidato de extrema direita nacionalista/populista, que parecia ser favorito.


Publicado por Xa2 às 08:03 de 29.11.16 | link do post | comentar |

7 comentários:
De . U.E. (desgov.) falha ... e cairá?. a 14 de Dezembro de 2016 às 13:04
A União Europeia falha porque falta

(-por AG, 14/12/2016, CausaNossa)


"Alepo jaz massacrada, Putin e Assad exultam. Incapaz de agir, que resta de credibilidade ao Conselho Europeu?

A Europa falha porque falta. Na Ucrânia agredida e ocupada pela Rússia. E na Síria, no Iraque, no Yemen, na Libia, na Palestina, onde Estados Membros não só não se coordenam mas rivalizam. A vender armas e noutros sórdidos negócios com regimes que fazem guerras por procuração instrumentalizando grupos terroristas, como o saudita, o qatari, o turco.

Não admira que Putin, Erdogan, em breve Trump, se afeiçoem a chantagear e encurralar uma Europa em retrocesso intergovernamental anti-integracão, a reboque de um governo alemão sem estratégia, que pode querer apaziguar, mas de facto alimenta populismos xenófobos.

Do euro incompleto que semeia divergência e desigualdade, à fiscalidade não harmonizada que desvirtua mercado interno e aproveita à corrupção e crime organizado, passando pela Fortaleza Europa que entrega migrantes e refugiados a redes de traficantes e radicaliza os seus próprios jovens dando recrutas à hidra terrorista: esta não é a União Europeia da paz, dos direitos humanos, da solidariedade e do progresso.

Esta Europa inter-governamental não nos protege, nem defende: destrói-se, pondo em causa a nossa segurança e a segurança global."


---Minha intervenção em plenário do Parlamento Europeu, esta manhã, sobre a preparação do próximo Conselho Europeu (15.12.2016)


De Berlim Eurogrupo enterra sul e UE... a 14 de Dezembro de 2016 às 16:05
É assim que Merkel vai salvar a Europa?


Aos ingénuos que depositam grandes esperanças em Merkel e acreditam que só ela pode salvar a Europa, recomendo que não esqueçam este episódio.*

Se é assim que a Alemanha vai salvar a Europa, então faço votos para que saiamos deste clube de debochados enquanto é tempo.

------- * Enorme error europeo

(El País, 7/12/2016)

El rechazo del Plan Moscovici ratifica el poder de Berlín y condena a Europa al bajo crecimiento

La decisión del Eurogrupo de rechazar, a instancias de Alemania, Holanda y países satélites, el modesto plan de estímulo fiscal propuesto por el comisario Pierre Moscovici es una pésima noticia para la economía global, para la europea y también para la española.
No solo porque una vez más se frustran las expectativas de que cambie una política irracional de austeridad que está arrastrando a la economía europea a una tasa de crecimiento irrisorio,
baja creación de empleo e inflación peligrosamente próxima a la deflación;
ni porque Bruselas haya sido ostentosamente desautorizada por Berlín y sus aliados en la penitencia (de los demás),
sino porque, además de todo ello, el rechazo a una política defendida por el FMI, la OCDE, el BCE y casi todas las instituciones económicas
llega en un momento delicado para la UE, con un referéndum fracasado en Italia, un problema bancario grave e irresuelto en ese país, con la incertidumbre acumulada tras el Brexit, la agresiva economía de Trump y la recuperación del precio del crudo.


Editoriales anteriores
Alemania se queda sola (20/11/2016)
Europa amenazada (15/11/2016)


Merkel, Schäuble y el Bundesbank tienen que saber que la terca negación de una política fiscal expansiva alienta poderosamente el fuego del euroescepticismo;
carece de sentido lamentarse por la expansión del populismo y la disgregación en Europa
cuando sus dirigentes ofrecen este espectáculo de arbitrariedad y conducta irracional.
La defensa política de la austeridad presupuestaria, amparada además por los países que disponen de superávit presupuestario para optar por estímulos inversores públicos,
ratifica la idea de que los países centrales del área están utilizando la ortodoxia del déficit en su propio beneficio,
atrayendo masivamente flujos financieros desde los países del sur para así consolidar sus propias opciones de crecimiento.


Resulta muy peligroso minusvalorar las consecuencias del Eurogrupo del lunes y la demostración de rodillo prepotente practicada por Berlín y sus aliados.
Es un error enorme que facilita la disgregación del euro en un momento particularmente difícil para la política europea.
Aquellos europeos que creían que la UE no resuelve sus problemas tienen hoy un motivo más para ratificar su convicción;
quienes esperaban un golpe de autoridad de Bruselas ya saben que la Comisión es impotente frente a Berlín;
y aquellos que apreciaban un cierto grado de flexibilidad en Alemania habrán podido comprobar que las esperanzas de cambio son una entelequia.
Invocar como explicación las próximas elecciones alemanas es una excusa.
El euro sigue en manos del fundamentalismo del déficit y de la penitencia contra el gasto.


De Colónia de €grupo neoliberal. fdp. a 15 de Dezembro de 2016 às 12:29

Grécia: que nome se dá a uma nova decisão de Bruxelas?

(-por J.Lopes, 15/12/2016, Entre as brumas)

O Eurogrupo anunciou ontem a suspensão das medidas de alívio da dívida grega por o governo de Tsipras ter decidido repor o 13º mês aos pensionistas que recebem menos de 850 euros, medida essa que deve ser hoje aprovada no Parlamento. O ministro das Finanças defende que esta decisão não vai contra o memorando que a Grécia assinou, mas não parece ser esse o entendimento de outros, nomeadamente de Wolfgang Schäuble que se apressou a reagir negativamente.

O que está em causa custará cerca de 600 milhões de euros, retirados ao excedente orçamental de 2400 milhões, obtido este ano pelas finanças públicas gregas.

Outras medidas estão na calha e esperam-se novas reacções, o que levou Alexis Tsipras a afirmar: «Creio que toda a gente deve respeitar o povo grego, que nos últimos sete anos fez sacrifícios gigantescos em nome da Europa. Carregámos o peso da crise dos refugiados. Foi em nome da Europa que implementámos nos últimos anos uma política de austeridade extremamente dura. Isso tem de ser respeitado por todos».

Uma verdadeira tragédia grega sem fim, uma União Europeia cruel que vai cavando a sua própria sepultura.


De Governos sob/NeoLiberais: Itália e ... a 13 de Dezembro de 2016 às 18:06

Addio Renzi (Adeus ao PM italiano, após Referendo perdido)


O bufão Renzi era o homem do governo alemão e de outros europeístas em Itália, ou seja, o homem para impor todas as reformas neoliberais inscritas na lógica do euro, a começar e a acabar nas relações laborais.

Trata-se de uma moeda, todo um regime económico, com grandes responsabilidades por uma estagnação que dura há tanto tempo quanto a nossa: com menos quebra de investimento e menos dívida externa, em percentagem do PIB, mas mais crédito malparado no balanço de bancos ainda mais periclitantes, dadas as suas ligações mais fortes a uma base industrial erodida.

Que tais reformas pudessem ser facilitadas por uma concentração de poder no executivo seria só a enésima confirmação da forma como o capital financeiro olha para as constituições antifascistas do Sul. A lógica do chamado vínculo externo está há muito tempo pensada pelas elites neoliberais italianas, incluindo Draghi, para eliminar tudo o que foi conseguido num tempo com outra correlação de forças, incluindo o mais importante Partido Comunista da Europa Ocidental.

Ontem, a resposta popular esteve à altura, num país onde a esquerda foi devastada pelo europeísmo – da coisa que dá pelo nome de Partido Democrático, onde foram desaguar antigos democratas-cristãos como Renzi e antigos comunistas convertidos aos Consensos de Washington e de Bruxelas, aos restos de coisas ridículas como a lista “com Tsipras” às últimas eleições europeias.

No país de Gramsci e de Togliatti, sobram os sindicatos e algumas ainda pequenas forças que já perceberam que a tarefa principal tem os contornos de uma libertação nacional de novo tipo. Ontem, deu-se um passo para desencadear um processo que urge. Resta saber quais os seus tempos, contornos e protagonistas.

(- por João Rodrigues , 5.12.2016 , Ladrões de b.)


De Extrema direita populista: caos na U.E.. a 29 de Novembro de 2016 às 18:06

Abriu a caça a Marine Le Pen
(-D.Q. Andrade, Público, 27/11/2019)

François Fillon, candidato escolhido pela direita francesa na corrida ao Eliseu, tem um perfil conservador, católico e burguês, mas apresenta-se como um reformador com uma proposta (neo)liberal (dura) para reduzir o tamanho do Estado francês.
Foi escolhido não por ser o melhor candidato a Presidente, mas por ser a melhor aposta para combater a candidata da Frente Nacional. Não é por acaso:
Fillon vai disputar o espaço de Le Pen e para isso apresenta propostas que replicam algumas das sua bandeiras.
Mas já há pouco a disfarçar: Marine é a principal figura da eleição francesa da Primavera. O candidato que a direita escolheu até pode ser agora o favorito nas sondagens — se é que elas ainda valem alguma coisa como indicadoras do voto —, mas o esforço de todos os partidos será concentrado no combate ao crescimento da plataforma de apoio da Frente Nacional.

Não, Marine Le Pen não é o bicho papão. Mas é uma política demagógica atrelada a ideias políticas que são muito perigosas.
A sua campanha tem o mesmo apelo da de Trump:
uma aposta no medo e na ansiedade provocados pelo terrorismo, pela imigração, pela perda da identidade e pela fragilidade económica face à globalização.
Uma vitória de Le Pen será a confirmação dos nacionalismos que cruzam a Europa, e que ainda esta semana poderá dar origem a um presidente de extrema-direita na Áustria.
Mas é em França que se joga aquele que poderá ser o derradeiro ponto de rotura na deriva populista europeia.

Uma França de Le Pen será mais nacionalista,
com uma política securitária que ajudará a popularizar os racismos mais ou menos encapotados na sociedade francesa.
Será também, de forma quase inevitável, o enterro da União Europeia.
Começará pela saída do euro, que é uma promessa de campanha assumida;
continuará pela tentativa de retirada do clube europeu, através de um referendo em que o medo do futuro pode ser tão decisivo como foi no Reino Unido.
O fim do vínculo europeu francês seria o golpe final numa União já enfraquecida pelo “Brexit” — e Portugal seria um dos que mais perderiam neste cenário.

À direita Fillon, à esquerda Manuel Valls, François Hollande ou Emmanuel Macron:
um deles deverá disputar a segunda volta das presidenciais com Marine Le Pen.
Têm em comum o facto de serem um produto das democracias tradicionais e das sociedades abertas do Ocidente.
Será portanto ainda uma candidatura liberal a dar a cara na luta contra o extremismo populista — mas já não há garantias de vitória.


De .Direita +neoliberal em França... a 29 de Novembro de 2016 às 17:56
--T.Sousa, Público

2. Os analistas esqueceram-se, porventura, de que há uma França profunda, burguesa, conservadora, católica, que vive no conforto das cidades médias e que ainda hoje odeia a herança de Maio de 68. A emergência da extrema-direita, apoiada nos deserdados da globalização, concentrou todas as atenções, deixando de fora essa burguesia “silenciosa” que viu os seus valores esquecidos durante muito tempo. Fillon é o seu melhor representante. Católico, foi o único candidato que tomou posição contra as leis que legalizam os casamentos gay (ainda que apenas a possibilidade de adopção) e que é contra a procriação medicamente assistida, a não ser para casais heterossexuais. Sem um discurso radical contra os imigrantes, Fillon defende a proibição do burkini, que alimentou a raiva contra os muçulmanos, depois do ataque terrorista de Nice. É, ele próprio, um exemplo dessa burguesia de província, com o seu castelo perto de Le Mans, onde vive com a sua mulher galesa e os seus cinco filhos. É aqui que se diferencia de Juppé, muito mais do que na sua política económica e social, em que ambos têm uma agenda de reformas “hiperliberal” (como acusam os socialistas) ou “delirante” (como acusa Marine), que vai do horário de trabalho à facilidade do despedimento, passando pela redução de impostos para as empresas e para as famílias da classe média e a redução drástica do peso do Estado. As diferenças são de quantidade e Fillon leva a melhor com o programa mais radical. Não é por acaso que lhe chamam de “Thatcher boy”. Ele próprio não enjeita o rótulo nem parece incomodar-se com ele. Limita-se a dizer que é apenas pragmático. Já em 2008, dizia que a França se aproximava da bancarrota. Dois exemplos: ambos querem acabar com as 35 horas, Juppé defende as 39, Fillon a lei geral europeia de 48 horas; Fillon quer um corte de 500 mil funcionários em cinco anos, Juppé apenas 200 mil.

3. As diferenças em relação a Juppé voltam a manifestar-se no que respeita à política externa. O antigo primeiro-ministro de Chirac aprecia a velha doutrina gaullista, dando à França o papel de “intermediária” entre Washington e Moscovo. Fillon vai muito mais longe na defesa de uma aproximação à Rússia. Os empresários franceses agradecem-lhe esta reconciliação com o grande vizinho do Leste. Em 1991, foi contra Maastricht. O terrorismo islâmico é a sua prioridade e isso implica o entendimento com a Rússia e até com Bashar al-Assad. Quando o criticam, diz que De Gaulle, Churchill e Roosevelt também se aliaram com Estaline para derrotar a Alemanha nazi. A ele, cabe-lhe a missão mais modesta de derrotar Le Pen na segunda volta, num contexto muito diferente do de 2002. Nessa altura, quando o socialista Lionel Jospin ficou pelo caminho e Jaques Chirac teve de enfrentar Jean-Marie Le Pen, a disciplina republicana não falhou. Hoje, já não há essa certeza. Trump foi a mais recente demonstração.

4. Se tudo correr como o previsto, o que deixou de ser uma garantia, François Fillon será o próximo Presidente francês a ter de encontrar um terreno comum com Berlim, para tentar tirar a Europa da crise profunda em que está mergulhada. Angela Merkel acaba de anunciar a sua candidatura a um quarto mandato, 48 horas depois da bela despedida que Obama lhe ofereceu e quando as sondagens indicam que já recuperou da crise dos refugiados. Quer unir os alemães “para fazerem frente ao populismo”. Na apresentação da sua candidatura, antecipou um mundo muito diferente e mais perigoso. “Pondo as coisas com cautela, o mundo vai ter de se reorganizar depois das eleições americanas e no que respeita às relações com a Rússia.” O slogan da campanha é óbvio: “Vocês conhecem-me”. Vai ser uma batalha mais difícil do que as anteriores. Tem de conter a extrema-direita sem desocupar o centro, garantindo que a sua vitória seja suficiente para impedir uma coligação do SPD com os Verdes e com o Die Linke. Com Fillon terá um parceiro disposto a fazer o que é preciso para devolver à economia francesa a capacidade competitiva, que tem perdido aceleradamente perante a poderosa economia alemã. Defende uma “ruptura tranquila” num país que sempre preferiu as revoluções. Falta saber se há um entendimento possível quanto ao futuro da Europa e o seu lugar no mundo. Trump veio baralhar o jogo. Completamente.


De Valores, práticas e o Futuro ocidental a 29 de Novembro de 2016 às 13:49

----- Linhas vermelhas? (da Alemanha/UE? ao próximo presidente dos EUA)
(-por N.Serra, 19/11/2016, Ladrões de B.)

«A Alemanha e os EUA estão ligados por valores.
A democracia, a liberdade, o respeito pelo direito, a dignidade do homem independentemente da sua cor de pele, da sua religião, do seu sexo, da sua orientação sexual ou das suas convicções políticas.

É na base desses valores que eu proponho uma cooperação estreita ao futuro presidente dos Estados Unidos, Donald Trump.»

Angela Merkel, naquela que foi, surpreendentemente, uma das reações mais frontais, claras e corajosas à vitória de Donald Trump.
Para ser consequente, como deve - e retirar todas as ilações que resultam da sua própria declaração - a chanceler terá contudo que começar por
assumir o impacto que as políticas de austeridade e os atropelos à soberania dos Estados tiveram no recrudescer da extrema-direita na Europa
(como sucedeu de forma particularmente clara e grave na Grécia)
e tomar posições concretas, e igualmente firmes, caso a administração norte-americana ponha em causa os tais valores de que depende, segundo Merkel, a futura cooperação com os EUA.


---Adelino Silva:
Convenhamos que vivemos um período bestial em que predomina a mentira de estados e estadistas que por sua vez impõem sistemas fracturantes aos trabalhadores produtores e aos povos europeus.

Madame Merkel tem mostrado quanto vale nesta globalizante frustração ...
Como se deve perceber ela não esta´ a retratar-se, ela esta´ a querer ser mais papista que o Papa.

--Jaime Santos disse...
Não deixa de ser irónico que nos tempos que correm seja a Alemanha o mais coerente defensor dos valores da Democracia (neo)Liberal,
em particular de uma solução global para o problema dos refugiados
(que contribuiu para criar ao retirar recursos à ACNUR, é certo, mas pelo menos sempre teve uma atitude bem mais prudente que a França, o RU e os EUA relativamente aos problemas líbio e sírio).

Quem conhece o País e a sua Lei Fundamental não estranhará. E a postura relativamente à Grécia ou à imposição de medidas de austeridade aos restantes Países da zona Euro nada tem que ver com o comportamento da Alemanha Nazi, e quem se põe a brincar com tais coisas ou não sabe do que fala e é ignorante ou sabe e é no mínimo irresponsável.

E, convenhamos, entre a rigidez estúpida e algo hipócrita dos alemães, e as soluções que andam na cabeça de muitos dos novos nacionalistas de todas as cores, e que já foram aliás experimentadas nos mais diversos sítios com os lindos resultados que se conhecem, eu prefiro de longe os chatos dos alemães...

---Anónimo :
Sim, sim, claro que a "cooperação" europeia com os EUA de Trump só se fará se o recém eleito POTUS se reger pelos altos princípios da impoluta chanceler alemã.
Que valimento terão esses elevados princípios (típica e exclusivamente europeus ou singularmente alemães?) da Senhora Merkel se tivermos em conta a recente história da política externa alemã -
o reconhecimento prematuro da independência eslovena,
o apoio flagrante (em dinheiro e em armas) aos "ustasha" croatas,
a participação em sucessivas aventuras da NATO (a Alemanha tem, neste preciso momento, tanques estacionados na fronteira ocidental da Federação Russa),
a destruição, pura e simples da Grécia,
o apoio à subida dos neonazis ucranianos "europeístas" ao poder por meio de um golpe de estado -
isso é coisa que não é chamada para a avaliação das sinceríssimas palavras do nosso querido Bismarck de saias.


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