De "opinion makers", CFA e o comunismo. a 16 de Novembro de 2015 às 11:52
Publica o "Expresso" http://domedioorienteeafins.blogspot.pt/2015/11/clara-ferreira-alves-e-o-comunismo.html um artigo de opinião de Clara Ferreira Alves intitulado "Anticomunista, obrigada!".
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Ou António Costa é um génio político e submete os parceiros à sua imponderável vontade ou caminhamos para a mais grave crise de regime depois do 25 de Abril »
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Porque a jornalista tem desempenhado um papel importante como opinion-maker nos últimos anos, ... comentá-lo:

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Costumo ouvir as intervenções de Clara Ferreira Alves (CFA) no "Eixo do Mal" e leio os seus artigos, quando acontece passarem-me à frente dos olhos. Tenho apreciado, nestes últimos anos, muitas das suas intervenções, embora não subscreva, obviamente, todas as suas opiniões.

Acontece, contudo, que o posicionamento político de CFA se alterou substancialmente nas semanas mais recentes, quando se começou a consolidar a ideia da formação de um governo "à esquerda". Ao longo dos quatro anos do executivo de Passos Coelho, CFA mostrou-se sempre contrária, senão mesmo hostil, à coligação PSD/CDS, e criticou acerbamente as decisões da União Europeia relativamente à austeridade em geral, tal como a falta de uma política externa comum europeia (maxime na crise dos refugiados), a forma como Berlim e Bruxelas trataram o Syriza e o caso grego, para já não falar das diatribes contra as medidas do ministro Vítor Gaspar e da verberação das actuações do ministério público, nomeadamente no caso Sócrates, para referir apenas alguns exemplos. Atitudes essas que lhe granjearam a admiração de grande parte dos seus leitores e ouvintes, não só de esquerda mas até de direita.

Todavia, nas últimas semanas, como escrevi acima, CFA começou a inflectir as suas posições tradicionais e a manifestar a sua progressiva preocupação com a eventualidade de um governo de esquerda em Portugal. O que surpreendeu (ou não) quem a escuta. De facto, CFA foi convidada, em 2011, do célebre Clube de Bilderberg, do qual, até há pouco, Francisco Pinto Balsemão, proprietário do "Expresso" e da SIC, era, de alguma forma, o "representante português". E o Clube de Bilderberg , associação mais ou menos secreta sobre a qual saem periodicamente alguns polémicos livros, não faz convites grátis. É por isso que não deverá estranhar-se muito a atitude de CFA no seu texto de hoje, em que, ostensivamente, se reclama de anticomunista. Não que a tenha ouvido alguma vez fazer profissões de fé no comunismo, mas a urgência deste texto, onde se proclamam algumas verdades (é bom dizê-lo) parece despropositada e desnecessária.

Começa CFA por evocar alguns problemas pessoais que teve com o PCP desde os tempos do PREC. Foi uma época de grande ebulição política e ideológica. Nessa altura, o Partido pretendia mesmo constituir-se em vanguarda do processo revolucionário. Não sei se Cunhal, que era um homem inegavelmente inteligente, acreditava no fundo o que evocava na forma, mas o certo é que em 25 de Novembro fez prudentemente marcha atrás, fiel ao provérbio "Vão-se os anéis, ficam os dedos". Quem não sendo comunista, andou, por essa altura, envolvido em acções não só políticas, mas culturais, sindicais, associativas, etc. conhece bem o desejo hegemónico dos comunistas de tudo controlarem, Tudo e todos. E todos tivemos, com certeza, as nossas querelas com o PCP.

Refere também CFA que acredita «na economia de mercado, no capitalismo regulado, na iniciativa privada». Eu também acredito na economia de mercado, mas não no monoteísmo do mercado que conduziu à presente e aparentemente irreversível sociedade de consumo até ao infinito, onde se consome - e se desperdiça - o desnecessário, deixando morrer à fome milhões de seres humanos que tiveram a infelicidade de nascer em regiões do mundo menos "privilegiadas". Eu também acredito no capitalismo regulado, mas não existe capitalismo regulado a nível global, mormente depois que Reagan e Thatcher destruíram os últimos travões à financiarização da economia, à criação dos produtos tóxicos, à instalação despudorada dos paraísos fiscais. Eu também acredito na iniciativa privada, mas considero que os serviços estratégicos essenciais da Nação devem estar nas mãos do Estado. Não mais do que estes, mas também não menos.

Diz ainda CFA que é contra «a colect...


De "opinion makers", CFA e o comunismo. a 16 de Novembro de 2015 às 11:57
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Diz ainda CFA que é contra «a colectivização da propriedade, contra a eliminação da competição, contra a taxação intensiva do capital». Não creio que o PCP (e quando CFA escreve que é anticomunista depreende-se que se refere ao comunismo do PCP) tenha hoje a ambição de proceder à colectivização da propriedade (mesmo que detivesse o Poder), quando muito à nacionalização das empresas estratégicas. Nem penso que ele seja contra a competição da inteligência e do trabalho, mas existe hoje na sociedade contemporânea (não comunista mas neoliberal) uma competição selvagem em que os mais fracos (a qualquer título) são espezinhados pelos mais fortes sem qualquer mão que os proteja. Quanto à taxação intensiva do capital, parece-me que o importante é taxar progressivamente todos os rendimentos, mas de forma realmente (e não apenas aparentemente) progressiva, e sobretudo evitar que a parte mais substancial do capital e dos seus rendimentos se escape entre as malhas do fisco para destinos (supostamente) ignorados ou inacessíveis.

Muito mais escreveu CFA, mas registo uma última nota: a questão dos costumes. O PCP (e os demais partidos comunistas ortodoxos) foram sempre de um conservadorismo acéfalo em matéria de costumes, nomeadamente sobre aborto, homossexualidade, etc. Tão conservadores quanto a Santa Igreja Católica Apostólica Romana. Deve-se em Portugal, ao Partido Socialista e ao Bloco de Esquerda uma abertura nesta matéria a que o PCP foi obrigado a aderir. Nem faria sentido que assim não fosse, pois - e este capítulo é mais importante do que poderá parecer - arriscá-lo-ia a um progressivo isolamento das massas trabalhadoras, já que estas questões não constituem privilégio dos ricos.

Tudo isto dito, regresso ao princípio. Qual a necessidade de CFA se apresentar hoje como anticomunista? Uma demarcação imperiosa do Governo de esquerda que se espera seja constituído nos próximos dias? Um desabafo de alma? Um ajuste de contas? A prestação de um serviço? Insondáveis são os desígnios de uma jornalista indiscutivelmente culta e habitualmente coerente.

Porque afinal não é o PCP que vai para o Governo, é o Partido Socialista. E os acordos, que eu naturalmente hoje desconheço, são tão só de incidência parlamentar e sobre as matérias que deles constam. Não vale a pena alimentar fantasmas. O PCP pode não ter mudado assim tanto nestes últimos quarenta anos, mas não é seguramente o mesmo. E o mundo também mudou. Mudou até muito, par o bem e para o mal. Terá o PCP receio de que as suas transigências em algumas matérias o possam condenar à insignificância política, como aconteceu noutros paises europeus? Não acredito.

Assim, e não sendo de considerar a manutenção de um governo de gestão, coloca-se a vexata quaestio: preferirá CFA um governo minoritário da Coligação com o apoio parlamentar do PS??? É que, nas circunstâncias presentes, não existe alternativa.
------Blogue de J.Magalhães, 7/11/2015 ------



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