2 comentários:
De classe média, reformas e ricos. a 4 de Outubro de 2016 às 17:01
---- Fortunas e responsabilidades

(-por F. Moura, 4/10/2016, http://esquerda-republicana.blogspot.pt/ )


As contas (não o raciocínio, mas já la vamos) do Ricardo Campelo Magalhães fazem sentido: 500 000 euros para a velhice de um casal não é em si muito dinheiro.
Partindo do pressuposto de que vivem reformados cerca de 20 anos, dá cerca de 1000 euros por mês a cada um.
Seria uma boa reforma para a maior parte das pessoas, mas isso não faria deles ricos.

Mesmo graves são duas coisas. A primeira é que este tipo de raciocínio revela a (pouca) consideração que pensadores como o Ricardo Campelo Magalhães têm pela Segurança Social.
Nada que já não soubéssemos, mas é sempre bom vê-lo expresso de uma forma tão eloquente.

A segunda é que a esmagadora maioria dos portugueses, que vivem do seu trabalho, não conseguem poupar 250 000 euros ao longo da vida só com os seus salários.
Os poucos que eventualmente consigam, de certeza que não terão a tal "parca reforma".

Ou seja, para a esmagadora maioria dos portugueses, assalariados ou trabalhadores independentes, o raciocínio do Ricardo Campelo Magalhães não faz sentido nenhum (mesmo que as contas até façam).
Grave é este desfasamento e desconhecimento da realidade (a que acrescem julgamentos morais sobre "responsabilidade").
Desfasamento esse que é uma característica comum às cabeças pensadoras (que as há) do anterior governo e dos atuais PSD e CDS.


De Stiglitz: exigir + democracia na U.E. a 3 de Outubro de 2016 às 15:45

Stiglitz, o herege (--por Mariana Mortágua, 6/9/2016)


Esta semana começou com o "baque" causado por Joseph Stiglitz, prémio Nobel da Economia, ao afirmar que os custos da permanência no euro são insustentáveis para Portugal.
O economista defende mesmo que o melhor para a Europa seria um "divórcio amigável" de alguns países.

O furor em torno da notícia só existe porque na Europa e, muito particularmente, em Portugal se alimentou a ideia de que o euro e a sua construção eram inquestionáveis, indiscutíveis, incriticáveis.

Obcecados pela defesa do seu próprio status quo, eurocratas, instituições e políticos do "consenso europeu" ergueram muros e cerraram fileiras.
Rotularam como radicais irresponsáveis todos os que ousaram criticar os caminhos de Bruxelas, recusaram-se a ver os erros e esmagaram todas as alternativas concretas, como a experiência grega.

Pois bem, a heresia de Stiglitz está correta.
Seria sempre difícil criar um processo de convergência entre economias tão diferentes.
Mas fazê-lo sem qualquer controlo sobre os fluxos financeiros, sem um Banco Central capaz de atuar quando necessário, sem autonomia orçamental ou económica, é impossível.
A integração monetária retirou quase todos os instrumentos de política económica, e os que restavam foram destruídos pela austeridade pós-crise.
Isto sem falar, é claro, dos permanentes ataques às democracias nacionais, disfarçados de regras europeias, que a maioria prefere naturalizar para não ter de reconhecer a maior evidência:
a União Europeia não é um espaço democrático.

Quer isto dizer que a UE e o euro têm que deixar de existir? Não necessariamente.
Há muitas políticas que poderiam alterar o rumo da história europeia. A questão é:
estarão Bruxelas, Berlim e as direitas europeias abertas a isso?
Stiglitz, mesmo de fora, compreendeu que o radicalismo que comanda os destinos da UE mais facilmente levará a Europa à desagregação do que à necessária mudança.

Uma coisa é certa.
Há hoje quem entenda que vale a pena enfrentar Bruxelas por mais democracia e pela recuperação de instrumentos de política económica, que vão do investimento público à renegociação da dívida.
Do outro lado não há caminho, não há racionalidade, não há proposta.
Há um barco que afunda ao som da teimosa e orgulhosa orquestra dos velhos consensos.


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