Resistência coordenada à Globalização infeliz e injusta

Trump e nós: o fim da globalização feliz  (-P.Silva, 9/11/2016, MachinaSpeculatrix)

       Vi pouca televisão entre o jantar de ontem e o telejornal das sete da manhã de hoje, quando soube da vitória de Trump nas presidenciais americanas. Mas ouvi ontem à noite Francisco Louçã produzir a frase mais certeira sobre estes acontecimentos nos EUA, antes do desenlace. Dizia ele que, quaisquer que fossem os resultados das eleições, isto era o fim da globalização feliz – e esse fim acontecia precisamente nos Estados Unidos.

      Tem toda a razão. Porque esta luta política, como outras que se andam a travar, é o preço da abordagem à globalização dirigida pelos “de cima” contra “os de baixo”. Quer dizer, uma abordagem à globalização onde os que ganham com o desmantelamento das barreiras se unem à escala global (internacionalismo dos beneficiados) para uma liberalização desenfreada e para uma maciça destruição de direitos “justificada” pelas vantagens prometidas a longo prazo de uma abertura o mais ampla possível à concorrência. O internacionalismo dos beneficiados empurra os perdedores para os guetos nacionais, que assim se tornam “naturalmente” nacionalistas (e protecionistas). Como tive oportunidade de escrever há semanas, a propósito da “polémica Mariana Mortágua” na Conferência Socialista em Coimbra, os sociais-democratas tivemos também responsabilidade nesse processo, designadamente quando fomos demasiado ingénuos face à liberalização dos movimentos de capitais, que serviu também para enfraquecer a política face aos novos poderes fácticos do dinheiro.

       "O fim da globalização feliz”: tem toda a razão, porque não é o fim da globalização, apenas o fim da ideia de que a globalização é naturalmente boa e boa para todos. Os Descobrimentos portugueses também produziram ganhadores e perdedores, mas não deixou de se impor. E os que simplesmente tentaram travá-la, em modo de mera resistência, não tiveram grande sucesso. A globalização é uma política, não é um fenómeno natural, não é inevitável como os terremotos. Mas não é facilmente controlável, porque criou as suas próprias instituições (os famosos “mercados”) e se agarrou inteligentemente aos meios materiais apropriados à sua característica global (a rede electrónica mundial que corre mais depressa e é muito mais versátil do que as caravelas portuguesas dos Descobrimentos). Só uma resistência coordenada entre muitos, que se ponham de acordo em construir alternativas ao pior da globalização, pode conseguir alguma coisa. É por isso que a União Europeia é indispensável para fazer face à globalização injusta e garantir na nossa região a massa crítica suficiente para mostrar a viabilidade de outro tipo de relações internacionais. É por isso que a União Europeia tem de mudar, para fazer o que lhe cumpre em garantir a esta região do mundo que não abandonamos os direitos sociais e cívicos em nome das promessas incumpridas da globalização. A União Europeia tem de construir uma Europa Social e só desse modo pode fazer sentido.

       Esse fim da globalização feliz seria um facto qualquer que fosse o resultado das eleições: tem toda a razão. Se Trump perdesse, por muito ou por pouco, isso não apagava a realidade de um povo farto do sistema. Tão farto que pode suportar os excessos de um candidato por ele ser, apesar de tudo, o único que, com a violência que o assunto requer, aponta o dedo aos podres da casta dos instalados (que é um fenómeno diferente de uma elite democrática). A distinção esquerda/direita, que continua a fazer todo o sentido, está a ser atropelada pela distinção dentro/fora do sistema. E a distinção dentro/fora do sistema coincide cada vez mais com a distinção globalismo/nacionalismo. Nesse cruzamento, a esquerda acomodada ao sistema tem culpas, porque os instalados de esquerda não são menos cúmplices do que os instalados de direita (seja essa cumplicidade consciente ou inconsciente). Caracterizo o populismo como uma forma de fazer política onde as decisões complexas são apresentadas como decisões simples, desse modo levando as pessoas ao engano quanto à possibilidade de sair de uma determinada encruzilhada perigosa sem riscos. Condeno sem hesitações esse populismo. Mas, estou certo, temos de ser mais “populares” em raciocinarmos e em agirmos mais próximo da vida concreta das pessoas, abandonando desculpas demasiado sofisticadas para pedirmos sempre sacrifícios presentes em nome de futuros brilhantes demasiado distantes e voláteis.

      Essa globalização feliz acaba precisamente nos EUA, o país idealizado como o principal ganhador dessa liberalização desenfreada e irrestrita. Tem toda a razão. É essa idealização que marca o carácter simbólico desta vitória de Trump. Mas não sejamos injustos para os americanos. Temos na Europa, e mesmo na União Europeia, governos protofascistas, que põem em causa o Estado de Direito, como a Hungria ou a Polónia. E vamos lá ver que governo teremos em França daqui a pouco. Não nos desculpemos com os americanos, pois isso seria apenas prolongar a nossa cegueira.
     Talvez Trump venha a ser menos mau do que ele próprio prometeu. Mas isso serão acidentes da política quotidiana. O essencial é que a sua vitória, com o discurso que fez, mostrou que andamos demasiado distraídos (alienados). E que tardamos em perceber que cavámos, não só a direita mas também a esquerda, um insuportável fosso entre as pessoas concretas e as instituições democráticas.
    O que fazer?    Começando na Europa, construir uma nova política que junte a social-democracia e as outras esquerdas (o que alguns chamam esquerda radical) para trazer para o centro da democracia “os de baixo”, os que tardam em sentir na sua vida concreta os benefícios da democracia. Tal como recusámos o “socialismo de miséria” (quando não aceitámos que, em nome do socialismo ou do comunismo, se fizesse a igualdade tornando todos semelhantemente pobres), recusemos também a “democracia de miséria”: uma democracia onde os deserdados podem votar mas permanecem afastados da vida que uma sociedade decente lhes devia dar.



Publicado por Xa2 às 08:18 de 09.11.16 | link do post | comentar |

1 comentário:
De Globaliz.-vs-Protecionismo. ou ...? a 18 de Janeiro de 2017 às 12:45

----China avisa que ninguém vencerá guerra comercial


O presidente Xi Jinping falou durante uma hora no Fórum de Davos (ACMorais, DN, 18/1/2017)

Intervenção de Xi Jinping no Fórum Económico Mundial esteve repleta de críticas a Donald Trump, sem nunca citar o seu nome.

"Num mundo marcado por grandes incertezas e pela volatilidade, esse mundo lança o olhar para a China", declarou Klaus Schwab, o fundador do Fórum Económico Mundial de Davos,
ao apresentar o presidente Xi Jinping, que proferiu ontem a conferência inaugural da 47.ª edição dos encontros a decorrerem até sexta-feira naquela localidade dos Alpes suíços.

Na primeira vez que um presidente chinês participou no Fórum, Xi Jinping teve uma mensagem clara e direta à altura das expectativas enunciadas pelo responsável dos encontros ao apresentar o dirigente máximo do regime de Pequim.
No final da intervenção de cerca de 60 minutos, o antigo chefe de governo sueco Carl Bildt escreveu no Twitter:
"Há um vazio na liderança económica global e Xi Jinping pretende preencher esse vazio. E está ter algum sucesso".
Para o presidente do Banco Europeu de Investimento, Werner Hoyer, as palavras de Xi foram "notáveis"; um discurso "diferente do habitual", disse à Reuters Ian Bremmer, que dirige a consultora de risco Eurasia Group.

Sem nunca o citar pelo nome, Xi dirigiu uma série de críticas ao presidente eleito dos Estados Unidos, Donald Trump.
"Ninguém sairá vencedor de uma guerra comercial", afirmou para definir a seguir os perigos do protecionismo:
as pessoas "fecham-se a si próprias num quarto escuro" à espera de protegerem-se dos perigos.
O vento e a chuva ficam lá fora, mas também a luz e o oxigénio".
E, à maneira de um pedagogo explicou que "é verdade que a globalização económica criou novos problemas, mas isto não justifica, de modo algum, pôr de parte a globalização económica".
Palavras com destinatário óbvio: Donald Trump.
O presidente eleito prometeu denunciar ou renegociar acordos multilaterais de comércio e prometeu criar taxas alfandegárias para desincentivar as importações e proteger a produção nacional.

O dirigente chinês, que falava perante uma plateia onde, além de sua mulher, Peng Liyuan, estava o vice-presidente dos EUA, Joe Biden, recorreu às palavras usadas por Abraham Lincoln no célebre discurso de Gettysburg para
defender o direito de todos ao desenvolvimento, que "não pode ser visto como propriedade de um só país" - "o desenvolvimento é do povo, pelo povo e para o povo", disse.

Recorrendo a metáforas capitalistas e provérbios chineses, Xi apresentou a China como um modelo de país "totalmente aberto" ao comércio livre.
"Sabemos demasiadamente bem que não há almoços grátis no mundo e que as tartes não caem do céu".
Em 2016, segundo o FMI, a China contribuiu em 39% para o crescimento da economia mundial.

Xi garantiu que não irá recorrer à desvalorização da moeda nacional, o renminbi, para incentivar as exportações e apelou aos signatários do acordo de Paris sobre o clima para honrarem os compromissos assumidos.
Mais uma vez, o destinatário destas palavras só podia ser um: Trump.
No passado, o novo presidente dos EUA, que toma posse sexta-feira (no mesmo dia em que finda a reunião de Davos), acusou Pequim de recorrer à manipulação do renminbi para criar vantagens injustas para as suas exportações e declarou ter a intenção de desvincular-se do acordo de Paris.


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