18 comentários:
De Gregos vs bárbaros e vampiros a 20 de Fevereiro de 2015 às 16:06
A Europa a 'ver-se grega'.

[- Qual é o mais competente? o 'radical' min. grego Varoufakis, ou o neonazi 1ºM. húngaro Orbán Viktor ]

Não estou pessimista:
era costume, quando ainda havia debate na Europa comunitária, que estes grandes choques fossem o prelúdio dos acordos inevitáveis. Nos últimos anos perdemos esse hábito...
Ainda creio, contudo, que o grande braço-de-ferro com a Grécia pode ser resolvido de forma satisfatória.
Claro que os donos do jogo podem pensar:
se cedemos, vai haver outros povos a pensar que podem fazer escolhas democráticas - que atrevimento! - e estragar a estória inscrita nos anais do pensamento único.
Mas, se há ainda algum juízo na Europa, os que mais ganham com o Euro não podem correr o risco de lançar os 28 num turbilhão de efeitos imprevisíveis. Imprevisívies para todos.

O aspecto mais perturbador desta crise, para um socialista como eu sou, é a cobardia política de muitos partidos da social-democracia europeia.
Perante a narrativa, muitas vezes infantil
(há cidadãos alemães, por exemplo, que pensam que o seu país dá dinheiro à Grécia - e estou a falar de relatos directos destas convicções),
pode ser impopular explicar ao eleitorado que um mito é um mito, não uma realidade.
Mas, se os dirigentes políticos não servem para explicar o que é difícil de explicar, servem para quê?
Quando os partidos se acomodam ao estreito horizonte desta semana ou da próxima, para não terem más sondagens e não terem de explicar ideias difícieis de entender
- quando os partidos renunciam a cumprir o seu papel de terem e defenderem uma proposta em que acreditam, a democracia torna-se um saco cheio de ar.
E um saco cheio de ar é coisa para rebentar com estrondo.

Não se trata de legitimar qualquer resultado eleitoral só por ser um resultado eleitoral.
Se Marine Le Pen vencer em França, não vou aplaudir o resultado como uma vitória da democracia.
Mas se desprezarmos a opinião de um povo que não aguenta mais o "ajustamento" pelo método esmagamento,
a Europa vai caminhar, em poucos anos, para vitórias "à Le Pen" em muitos outros países.
Se a Europa não ouvir os seus povos, esta Europa implodirá. Mais cedo do que tarde.
Isso é o que está em causa.

Gostava era de ver os ministros que tratam o governo grego com tanta displicência (e mesmo com total falta de sentido de Estado)
a levar a sério a ameaça que consiste em termos na Hungria um governo que funciona como comissão instaladora do fascismo.
(e a Espanha de PP e ... e ... lhes querer seguir o exemplo)
Por que será que isso não preocupa esta camada de anões da política europeia?
Será por, ao governo húngaro, já o acharem competente?!


De Civiliz. Helénica vs Bárbaros neoLiberai a 26 de Fevereiro de 2015 às 11:27

A GRÉCIA ANTIGA E OS MESTRES PENSADORES

por Tomás Vasques, em 24.02.15, http://hojehaconquilhas.blogs.sapo.pt/

Estalou o verniz aos nossos mestres pensadores, essa fina flor doméstica do pensamento único europeu, quando os hereges gregos, esmifrados até ao tutano, se revoltaram contra os Deuses de Berlim.
Glucksmann já tinha anotado que os mestres pensadores revelam-se sempre da mesma maneira:
o tribunal de Atenas motivava a condenação de Sócrates:
ele não respeita os nossos Deuses e os nossos competentes, por conseguinte conspira para instalar outros deuses e outros competentes, ele quer a sua lei em vez da nossa.
Tal como o adivinho Meleto, em nome da acusação, pediu a morte de Sócrates como castigo,
esta turba também pede a morte dos gregos que colocam em causa os seus Deuses loiros e as leis do pensamento único.

O pedido de pena capital para os gregos vem acompanhado de “pensamento científico”, a lembrar o 1984, de Orwell.
Coitados dos gregos, até a Grécia Antiga lhes querem roubar.
Dizem os mestres pensadores (José Manuel Fernandes, no Observador) que “estes” gregos não são herdeiros dos outros, os da Antiguidade, os pais da nossa civilização, da democracia e da filosofia. “Estes” gregos são mais Otomanos, e esta Grécia não passa de um produto da vontade das potências europeias, a quem devem, por isso, deduz-se, vassalagem.
Condescendem, contrariados que “Sócrates, Platão ou Tucídides eram atenienses”. Quanto ao resto são “mitos” – escrevem sem rodeios, nem vergonha.
Até Aristóteles, discípulo de Platão, que em Atenas fundou o Liceu, é retirado à herança grega. Nasceu ali ao lado, Macedónia – dizem.
Pitágoras – esse – nasceu na Grécia, admitem, mas desenvolveu o seu trabalho no sul de Itália, como se esta região não estivesse sobre o domínio grego e outras na Turquia, onde nasceu por exemplo Tales de Mileto.
Para esta gente, vale tudo. Tudo isto é tão estouvado como dizer que o poeta Ahmed Ben Kassin, por exemplo, não é árabe. Nasceu em Granada, quando esta cidade estava sobre o domínio árabe.
O afã de matar os gregos é tal que lhes retiram a paternidade: são filhos de pais incógnitos.

E como se não bastasse, num exercício de demagogia reles, ainda roubam aos gregos o valioso património, maravilhas do mundo antigo.
Escrevem os mestres pensadores, eufóricos, para desvalorizar o povo grego, que o Farol de Alexandria, o Mausoléu de Halicarnasso ou o Templo de Artemis em Éfeso não se localizam na Grécia, como não se fossem obras ímpares da civilização grega.
Também a Igreja de São Paulo, em Diu ou a Igreja de Olivença não estão em território português. E daí?

Os mestres pensadores, zelosos acólitos dos deuses de Berlim, destilam ódio ao “irresponsável” povo grego
porque veio pôr em causa o pensamento único.
Não precisavam, para isso, de lhes roubar o passado.

*Os Mestres Pensadores é o título de um ensaio de André Glucksmann sobre o totalitarismo.

(Publicado no Repórter Sombra)


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