De Cidade NeoLiberal/ 'limpeza social'. a 7 de Maio de 2015 às 17:43
Bem-vindos à cidade neoliberal

Ao longo dos últimos três anos, segundo uma investigação do The Independent, mais de 50 mil famílias terão sido compelidas a abandonar as suas casas, localizadas nos bairros do centro de Londres, sendo posteriormente deslocadas para zonas administrativas situadas na periferia da cidade.
Um movimento silencioso, quase imperceptível, que o periódico britânico rotula de «limpeza social» (social cleansing)
e que traduz fundamentalmente o impacto, nos agregados familiares pobres, da subida das rendas e dos cortes em protecção social, a partir de 2010
(com a fixação de um tecto nos apoios sociais e com a introdução do «imposto de quarto», nos alojamentos sociais).

A informação a que o The Independent teve acesso, e que consta de documentos que as autoridades recusaram inicialmente divulgar, permite constatar a existência de
«um número sem precedentes de famílias que deixaram de poder pagar a casa em que viviam, sendo arrancadas dos seus bairros e deslocadas para localidades cada vez mais longe da capital,
quebrando-se deste modo os laços com familiares e redes de apoio». No total, entre o início de 2012 e o final de 2014,
o êxodo de famílias pobres da capital quase quadruplicou, tendo vindo entretanto a acelerar-se o ritmo das deslocações administrativas (que se estima rondar actualmente as 500 famílias por semana).

Ou seja, está a verificar-se precisamente o contrário do que prometera o (conservador/ neoliberal) Mayor de Londres, Boris Johnson, quando disse em 2010 que as reformas que iria implementar não conduziriam a uma «limpeza social de tipo Kosovo»,
assegurando que os londrinos jamais veriam «milhares de famílias a serem removidas dos lugares onde vivem».
Emma Reynolds, a ministra-sombra do Partido Trabalhista (na oposição) para a Habitação, considera tratar-se de
«uma tragédia, o facto de tantas pessoas estarem sem casa ou a lutar por manter um tecto e, como se isso não fosse suficiente,
são ainda confrontadas com o cenário ficarem a milhas da sua actual casa».

Bem-vindos pois às novas cidades, socialmente desenhadas pelo fomento deliberado das desigualdades,
pela recusa do papel do Estado e das políticas sociais públicas na promoção do bem-estar e da igualdade de oportunidades, para já não falar da consagração das lógicas mais selvagens de mercado.
Não configurando, como é óbvio, nenhuma nova etapa interessante nas formas de organização urbana das sociedades,
a cidade neoliberal antes reconstitui e reproduz as lógicas de SEGREGAÇÃO e as «muralhas» que caracterizavam a cidade medieval.

(-por Nuno Serra, 7.5.2015 , http://ladroesdebicicletas.blogspot.pt/2015/05/bem-vindos-cidade-neoliberal_7.html )


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