De Téc. superior, "privilegiado", ... a 4 de Maio de 2015 às 16:45
Ser técnico superior no país da austeridade, (por Luís Capucha Pereira ,4/5/ 2015, Manifesto 74 )
7Série "Ser no país da austeridade"

Sou o Luís, tenho 34 anos, e dizem que sou um privilegiado. É o que me fazem crer, e a realidade, muito sem eu querer, obriga-me a anuir – tenho trabalho, dos mais estáveis e dos que apresentam melhores condições.
Nunca ganhei muito, mas o salário nunca atrasou.

No entanto, desde 2008 que não tenho aumentos. Um terço do meu salário esvai-se em impostos diretos.
Já não era bom, mas tem piorado, fruto da sobretaxa de 3,5% em IRS, do aumento dos descontos para a ADSE, eu sei lá!, até tenho medo de olhar para o meu recibo de vencimento…
Como sou um privilegiado, impuseram que trabalhasse 40h semanais como os restantes trabalhadores portugueses, também eles privilegiados, mas um pouco menos.
Como sou um privilegiado, impuseram que tivesse 22 dias de férias, e não 25, como os restantes trabalhadores portugueses, também eles privilegiados, mas um pouco menos.
Como sou privilegiado, retiraram-me quatro feriados – um privilégio para todos os trabalhadores portugueses: esses privilegiados de grau diverso. (É preciso… pois!)
Tenho a minha carreira congelada e, quando descongelar, sei que vou demorar 10 anos para progredir um pouquinho, para esperar mais dez anos para progredir mais outro pouquinho e, assim, de dez em dez anos, até à reforma cansada (com sorte e o colesterol controlado talvez dure além da esperança!).

Perdi, nos últimos cinco anos, 25% do meu poder aquisitivo.
Sou o Luís, tenho 34 anos e dizem que sou um privilegiado porque tenho trabalho, dos mais estáveis e dos que apresentam melhores condições - se me portar bem, não tenho que emigrar.
Trabalho numa Câmara Municipal. Não conheço ninguém cujo sonho seja, ou tenha sido, trabalhar numa Câmara Municipal!

Mas... licenciatura em engenharia terminada (paga a sacrifícios familiares),
perspetivas incertas como profissional de teatro, pouco useiro em anglicanismos e
com pouco acesso a patrocínios para arriscar profissão de entrepreneur, dado a utopias emancipatórias que recusam a apropriação das mais-valias do meu trabalho,
racionalizei - muito cá para mim - que trabalhar na função pública era trabalhar para todos e por todos
e que o concurso para estágio profissional que decorria era uma boa oportunidade.

Concorri e entrei. Em 2007, trabalhar numa Câmara Municipal dava-me perspetivas.
Em 2015, oito anos depois, ganho efetivamente menos do que quando entrei, como estagiário profissional;
a perspetiva que tenho é a de que, quando me reformar daqui a trinta anos (?), possa ganhar aproximadamente mais 200€ do que aquilo que ganhava em 2007.
De que serve mais um mestrado, mais uma formação avançada, mais uma e outra e outra formação,
e a dedicação às populações que a autarquia serve?
(Que me livrem e guardem de parecer mal-agradecido!)
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Olho à minha volta:
quantas vezes duvido que esta malta desmotivada e desiludida ainda saiba o que é sonho?
O entusiasmo ao revés que advém do facto de, neste momento, trabalhar num município português talvez faça deste texto um exercício de escrita trágica e cansada. Sonho?

Somos o resultado dos sonhos enviesados dos que nos governam - o Soares sonhou e olhem para nós cá na Europa connosco lá;
o sonho húmido do Sá Carneiro é a espuma bolorenta dos nossos dias…
É o sonho deles que comanda a nossa vida, o que querem que diga?
Como sonhar numa realidade que confunde a esperança e o futuro dos homens com um exercício de estatística?
É mais fácil acreditar na minha estreia no D. Maria e na apresentação do meu mais recente livro na Feira Internacional de Paraty, que terei que conciliar com a preparação do dueto com o Leonard Cohen…
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(Pronto: já me acalmei…)
Esta crónica teve dezenas de começos e, agora que me aproximo do fim, ainda não sei se sei escrever sobre o que me propus.
Sou o Luís, tenho 34 anos e chateia-me chamarem-me privilegiado porque trabalho numa Câmara Municipal.
Mas vivemos numa sociedade de mínimos e de devoção às inverdades – enleiam-nos no discurso das inevitabilidades
e é mais fácil culpar o funcionário público mais à mão,
numa fuga para a frente que é a génese do ódio.

Não condescendo. ...


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