Sábado, 6 de Setembro de 2014

A Economia Política do Ébola       (-por L. Phillips, 2/9/2014, trad. de A. Bento para esquerda.net)

O ébola é um problema que não vai ser resolvido porque não é lucrativo fazê-lo. Precisamos de uma campanha para destruir as doenças não lucrativas, defende o autor.

A nossa rápida explicação é que se as pessoas infectadas com ébola fossem brancas o problema seria resolvido. Mas o papel do mercado - quer na recusa das empresas farmacêuticas em investir na investigação, quer nas condições no terreno criadas por políticas neoliberais que exacerbam e até encorajam estes surtos – não é referido.

  O racismo é certamente um factor. Jeremy Farrar, um especialista em doenças infecciosas e director da Wellcome Trust, uma das maiores organizações benevolentes de investigação médica, disse à Toronto Star: “Imaginem uma região do Canadá, da América ou da Europa em que ocorresse a morte de 450 pessoas em consequência de uma febre hemorrágica viral. Seria simplesmente inaceitável – e é inaceitável na África Ociedental.”

   Ele mencionou o caso de uma vacina do ébola desenvolvida pelo Canadá que foi fornecida numa situação de utilização de emergência a um investigador alemão em 2009 após um acidente no laboratório. “Moveram-se os céus e a terra para apoiar um técnico de laboratório alemão. Por que é que aqui diferente? Porque se trata da África Ocidental?”  Mas o ébola é um problema que não está a ser resolvido porque quase não se arranja dinheiro para tal. É uma doença não lucrativa.

   Morreram cerca de 2400 pessoas desde que o ébola foi identificado pela primeira vez em 1976. As principais empresas farmacêuticas sabem que o mercado para lutar contra o ébola é diminuto enquanto que os custos para desenvolver o tratamento são significativos. Numa base meramente quantitativa, alguns poderiam alertar (talvez com razão) contra o direccionar em demasia para esta doença que mata muito menos gente do que, por exemplo, a malária (morreram 300 mil desde o começo da epidemia do ébola) ou a tuberculose (600 mil).

   No entanto, as restrições económicas que atrasam os progressos no desenvolvimento do tratamento do ébola também explicam por que as empresas farmacêuticas resistem em desenvolver o tratamento dessas doenças assim como de muitas outras.

    Na última década viu-se um enorme avanço na investigação das terapias para o ébola, geralmente no sector público ou em pequenas empresas biotecnológicas com significativo financiamento público, com uma variedade de opções de tratamento em cima da mesa incluíndo produtos com base em ácidos nucleicos, terapias de anticorpos e uma série de vacinas candidatas – cinco das quais protegeram com sucesso primatas não humanos contra o ébola.

    Anthony Fauci, o director do National Institute of Allergy and Infectious Diseases, tem dito nos últimos dias na imprensa a todos os que o quiserem ouvir, que uma vacina do ébola estaria muito próxima – se não fossem os gananciosos interesses corporativos.  “Temos estado a trabalhar na nossa própria vacina do ébola, mas nunca conseguiríamos nenhuma aquisição por parte das empresas,” disse à USA Today.  “Temos uma candidata, colocamo-la em macacos e parece boa, mas o incentivo por parte das empresas farmacêuticas para desenvolver uma vacina que trata pequenas epidemias de trinta em trinta ou de quarenta em quarenta anos… bem, não é lá grande incentivo!”, disse à Scientific American.

   Quase todos os que estão familiarizados com a questão dizem que o know-how existe. Só que as epidemias são tão raras e afectam tão poucas pessoas para que valha a pena, isto é, que seja lucrativo, para as empresas farmacêuticas desenvolvê-la.

   “Estas epidemias afectam as comunidades mais pobres do planeta. Embora criem uma incrível agitação, são acontecimentos relativamente raros,” disse à Vox Daniel Bausch, o director do emergente departamento de infeccções da Naval Medical Research Unit Six (NAMRU-6), um laboraório de investigação biomédica em Lima, no Peru. “Assim, se se olhar para o interesse das empresas farmacêuticas, não há um grande entusiasmo em levar um medicamento do ébola pelas fases um, dois e três de uma experiência e fazer uma vacina do ébola que talvez umas poucas dezenas ou centenas de milhares de pessoas venham a usar.”

    John Ashton, presidente da Faculdade de Saúde Pública do Reino Unido, escreveu um vivo artigo de opinião no Independent acusando “o escândalo do desinteresse da indústria farmacêutica em investir na pesquisa em produzir tratamentos e vacinas, algo que ela se recusa em fazer porque os números envolvidos são, segundo as suas palavras, tão pequenos que não justificam o investimento. É a falência moral do capitalismo a agir na ausência de uma moldura ética e social, concluiu.

     Esta situação não é única para o ébola. Durante trinta anos, as grandes empresas farmacêuticas recusaram-se a fazer investigação em novas classes de antibióticos. Devido a este “vazio de descobertas” os clínicos prevêem que dentro de vinte anos fiquemos totalmente sem medicamentos eficazes contra infecções de rotina. Muitas técnicas e intervenções médicas introduzidas desde os anos 40 dependem de um fundamento de protecção antimicrobiana. Os ganhos em expectativas de vida que a humanidade experimentou durante este tempo dependem de muitas coisas, mas certamente não teriam sido possíveis sem os antibióticos. Antes do seu desenvolvimento, as infecções com bactérias eram uma das causas de morte mais comuns.

Em Abril, a Organização Mundial de Saúde emitiu pela primeira vez um relatório referindo a resistência aos micróbios em todo o mundo, encontrando “níveis alarmantes” de resistência bacteriana. “Esta séria ameaça já não é uma predição para o futuro, mas está a acontecer neste momento em todas as regiões do mundo e tem o potencial para afectar toda a gente, de qualquer idade, em qualquer país,” avisou o corpo de saúde das Nações Unidas.

    A razão disto é simples, como as próprias companhias admitem: simplesmente não faz sentido para as empresas farmacêuticas investir cerca de $870 milhões (ou $1.8 biliões tendo em conta os custos de capital) por medicamento aprovado pelos reguladores num produto que as pessoas só usam uma mão cheia de vezes na sua vida quando têm uma infecção, comparado com investir a mesma quantia no desenvolvimento de medicamentos altamente lucrativos para doenças crónicas como a diabetes ou o cancro que os doentes têm que tomar diariamente, muitas vezes para o resto da vida.

    Todos os anos nos EUA, de acordo com os CDC (Centros de Controlo e Prevenção da Doença) cerca de dois milhões de pessoas são infectadas com bactérias resistentes aos antibióticos. Em resultado disso, 23 mil morrem.  Vemos uma situação idêntica com o desenvolvimento das vacinas. Há décadas que as pessoas compram medicamentos para a asma ou insulina, por exemplo, enquanto que as vacinas habitualmente só precisam de uma ou duas tomas uma vez na vida.  Há décadas que muitas empresas farmacêuticas abandonaram não só a investigação e o desenvolvimento de vacinas mas também a produção, de tal modo que em 2003 os Estados Unidos começaram a sentir escassez de muitas das vacinas para a infância. A situação é tão grave que os CDC têm um site público que dá conta da escassez e dos atrasos correntes em vacinas.

    Mas pelo menos, com respeito ao ébola onde o mercado se recusa em prover, o departamento de defesa sente-se à vontade para intervir e afastar os princípios do mercado livre no interesse da segurança nacional.

    O virologista Thomas Geisbert do Ramo Médico da Universidade do Texas em Galveston falou à Scientific American sobre a sua esperança na vacina VSV uma das opções mais promissoras contra o ébola: estamos a tentar arranjar financiamento para fazer os estudos humanos … mas depende de facto do apoio financeiro às pequenas empresas que desenvolvem estas vacinas. Os estudos humanos são caros e necessitam de dólares do governo. Com o ébola há um pequeno mercado global, não há um grande incentivo para uma grande empresa farmacêutica fazer uma vacina contra o ébola e por isso vai ser preciso financiamento governamental.

William Sheridan, o médico director da BioCryst Pharmaceuticals, que desenvolveu a droga anti-viral experimental BCX4430, descreve assim a difícil situação financeira que enfrenta a investigação e o desenvolvimento do tratamento do ébola: “Simplesmente não faria um corte numa grande empresa.”

   Mas para uma pequena empresa como a sua, o governo federal apoiou a investigação e prometeu comprar as provisões de medicamentos anti-ébola como medida preventiva contra o bioterrorismo. A BCX4430 também é desenvolvida em cooperação com o Instituto de Pesquisa Médica para Doenças Infecciosas do Exército dos EUA (US Army Medical Research Institute for Infectious Diseases (USAMRIID). “Há um mercado e o mercado é o governo dos Estados Unidos”, disse à NPR.

    O  USAMRIID, juntamente com a Agência para a Saúde Pública do Canadá, também está a apoiar o desenvolvimento do ZMAPP, um soro de anticorpos monoclonais, por uma pequena empresa biotecnológica, a MAPP Biopharmaceutical em San Diego, o qual foi administrado a semana passada a dois médicos americanos, Kent Brantly e Nancy Writebol, a trabalhar com o grupo missionário evangélico cristão Samaritan’s Purse.  Os dois tinham adoecido na Libéria quando cuidavam de pacientes infectados com o vírus ébola. O estado de Brantley tinha-se deteriorado rapidamente e tinha telefonado à sua mulher a despedir-se. Uma hora depois de Brantley ter recebido o soro experimental o seu estado tinha mudado de forma evidente, com a melhoria da respiração e o fim da irritação na pele.

   Na manhã seguinte foi capaz de tomar duche sozinho e quando chegou aos Estados Unidos depois de ter sido evacuado da Libéria, foi capaz de descer da ambulância sem ajuda. Igualmente, Writebol está “de pé e a andar” depois da sua chegada a Atlanta procedente da capital liberiana.

Devemos ser extremamente cautelosos quanto a tirar conclusões deste desenvolvimento, afirmando que este medicamento curou os missionários. Temos uma amostra de apenas dois nesta “experiência clínica” sem grupos cegos ou de controlo. O medicamento nunca tinha sido testado até ao momento em seres humanos por segurança e eficácia. E como em qualquer doença, uma certa percentagem de doentes melhoram por si. Não sabemos se o ZMapp foi a causa da evidente recuperação. Não obstante, não é descabido afirmar que este acontecimento é uma grande esperança.

   Dois dos anticorpos ZMapp foram originalmente identificados e desenvolvidos por investigadores no Laboratório Nacional de Microbiologia em Winnipeg e em Defyrus uma “empresa de biodefesa das ciências da vida” em Toronto com financiamento do Canadian Safety and Security Program of Defence R&D Canada. O terceiro anticorpo na mistura foi produzido por Mappbio em colaboração com o USAMRIID, os Institutos Nacionais de Saúde e a Agência de Defesa de Redução de Ameaças. As empresas associaram-se com a Kentucky Bioprocessing em Owensboro, uma firma produtora de proteinas que foi comprada no início deste ano pela empresa-mãe da RJ Reynolds Tobacco, para fazer pharming nas plantas de tabaco carregadas de anticorpos.

   Ao saber-se do papel do Pentágono e da instituição de defesa do Canadá, alguns deram um salto para as teorias da conspiração. Com efeito, ZMapp parece ser uma tempestade perfeita de uma nemésis popular: OGMs, Big Tobacco, Pentágono e injecções que se parecem um pouco com vacinas!

Mas o financiamento do Departamento de Defesa não deve ser visto como maléfico. Antes, é clara a superioridade do sector público como guardião e motor da inovação.

    No entanto, nem todas as doenças não lucrativas são sujeitos de preocupação pelo bioterrorismo dos coronéis. E por que havia o sector privado de agarrar as condições lucrativas e deixar as não lucrativas para o sector público?

Se, devido ao seu imperativo de busca do lucro, a indústria farmacêutica é estruturalmente incapaz de produzir esses produtos de que a sociedade precisa, e o sector público (neste caso debaixo da capa militar) tem consistentemente de cobrir as falhas deixadas por esta falha do mercado, então este sector tem de ser nacionalizado, permitindo que as receitas dos tratamentos lucrativos subsidiem a investigação, desenvolvimento e produção de tratamentos não lucrativos.

    Em tal situação, não teríamos sequer que discutir se a prevenção da malária, do sarampo ou da poliomielite merece uma maior prioridade; podíamos apontar ao mesmo tempo para os grandes nomes e para as doenças negligenciadas. Não há garantia que abrir a torneira do financiamento público produza imediatamente um resultado positivo, mas neste momento, as empresas farmacêuticas privadas nem sequer estão a tentar.

    Isto é precisamente o que se quer dizer quando os socialistas falam de o capitalismo ser um entrave no desenvolvimento posterior das forças produtivas. A nossa preocupação aqui não é meramente que a recusa da Big Pharma em se envolver em doenças tropicais esquecidas, em vacinas e em antibióticos R&D seja grosseiramente imoral ou injusto, mas que a produção de uma potencial quantidade de novos produtos e serviços que possam trazer benefícios para a nossa espécie e expandir a esfera da liberdade humana estejam bloqueados devido à letargia do mercado livre e à escassez de ambição.

    É vital concentrar a atenção numa vacina ou em medicamentos. Mas fazer isso sem também prestar atenção à deterioração da saúde pública e das infraestruturas gerais ao longo da África Ocidental e às condições económicas que contribuem para a probabilidade de epidemias de doenças zoonóticas como o ébola é como usar um balde para esvaziar a água de um barco roto que se está a afundar.

   O filogeógrafo e ecologista Rob Wallace descreveu bem como a disputa neoliberal estabeleceu as condições ideais para a epidemia. A Guiné, a Libéria e a Serra Leoa são alguns dos países mais pobres do planeta, ficando nos 178º, 174º e 177º lugares entre os 187 países no Indice do Desenvolvimento Humano das Nações Unidas.   Se tal surto ocorresse nos países do norte da Europa, por exemplo, nos países com algumas das melhores infraestruturas de saúde do mundo, a situação teria mais probabilidades de ser contida.

    Não é apenas a inexistência de hospitais de campo, a falta de práticas de higiene apropriada nos hospitais existentes, a ausência de unidades de isolamento e um quadro limitado de profissionais de saúde altamente treinados capazes de seguir todas as pessoas que possam ter estado expostas e isolá-las. Ou que melhores cuidados de apoio sejam uma condição vital para melhores resultados, qualquer que seja o tratamento disponível. A propagação da doença também foi exacerbada por um tremendo afastamento das estruturas governamentais básicas que, de outro modo, seriam capazes de mais eficazmente restringir movimentações, gerir dificuldades logísticas e coordenar-se com outros governos.

    Daniel Bausch, epidemiologista e especialista em doenças infecciosas, que trabalhou em missões de investigação perto do epicentro do actual surto, descreve num artigo publicado em Julho no jornal da Public Library of Science Neglected Tropical Diseases (Doenças Tropicais Esquecidas) como “testemunhou este “contra-desenvolvimento em primeira mão”; em cada viagem de volta à Guiné, em cada longa viagem de carro de Conakry à região da floresta, as infraestruturas pareciam cada vez mais deterioradas – a estrada que tinha sido pavimentada estava pior, os serviços públicos eram menos, os preços mais altos  e a floresta mais desbastada.”

     Wallace refere que aqui, tal como em muitos países, uma série de programas de ajustamento estrutural foram encorajados e aplicados por governos ocidentais e por instituições financeiras internacionais que exigem a privatização e a contracção de serviços governamentais, a remoção de tarifas enquanto o agro-negócio do norte continua subsidiado e uma orientação no sentido de as colheitas irem para exportação à custa da autosuficiência alimentar. Tudo isto leva à pobreza e à fome e, por sua vez, à competição entre a comida e as colheitas para exportação para a capital; a terra e as produções agrícolas que levam a uma cada vez maior consolidação da posse da terra, em especial por companhias estrangeiras que limitam o acesso dos pequenos agricultores à terra.

    O ébola é uma doença zoonótica, o que significa uma doença que se espalha dos animais para os humanos (ou vice versa). Cerca de 61% das infecções humanas ao longo da história foram zoonóticas, desde a gripe à cólera ou o HIV.   O único maior factor que leva ao crescimento em novas patogenias zoonóticas é o maior contacto entre humanos e a vida selvagem, muitas vezes pela expansão da actividade humana na selva. À medida que as forças de ajustamento estrutural forçam as pessoas a sair do campo, mas sem isso ser acompanhado com oportunidades de emprego na cidade, Wallace refere que elas mergulham “no interior da floresta para se expandirem no território, para alargar as espécies de animais caçados, para encontrar madeira para produzir carvão e nas minas para extrair minerais, aumentando o seu risco de exposição ao virus do ébola e outras patogéneses zoonóticas nestes cantos remotos.”    Como Bausch refere:   “Factores biológicos e ecológicos podem levar à emergência do vírus da floresta, mas claramente a paisagem sociopolítica dita para onde ele vai daí, um ou dois casos isolados ou uma grande e prolongada epidemia.”

  Estes resultados são a consequência previsível de desenvolvimento crescimento não planeado, ao acaso, em áreas que se sabe serem a origem da propagação zoonótica e sem o tipo de apoio infraestrutural  e valores igualitários que permitiram, por exemplo, a eliminação da malária da América do Sul depois da II Grande Guerra pelos CDC numa das suas primeiras missões.

   Nestes poucos meses que passaram o pior surto de ébola na história expôs a falência moral do nosso modelo de desenvolvimento farmacêutico. A luta pela assistência de saúde pública nos Estados Unidos e a luta aliada contra a privatização da assistência médica noutros sítios no ocidente sempre tem sido uma meia batalha. O objectivo de tais campanhas só pode verdadeiramente ser atingido quando se montar uma nova campanha: reconstruir a indústria farmacêutica internacional como um serviço do sector público assim como atingir as políticas neoliberais mais vastas que minam indirectamente a saúde pública.

     Podíamos ir buscar inspiração aos grupos activistas do HIV/SIDA do fim dos anos 80/princípio dos anos 90 como o ACT UP e o Treatment Action Group e nos anos 2000, a Campanha Acção de Tratamento da África do Sul que combinava acção directa e desobediência civil contra as empresas e contra os políticos, com uma compreensão cientificamente rigorosa da sua condição.   Mas desta vez, precisamos de uma campanha mais vasta e global que cubra não apenas uma doença, mas a panóplia de falhas do mercado quanto a desenvolvimento de vacinas, vazio de descoberta de antibióticos, doenças tropicais negligenciadas e todas as doenças esquecidas da pobreza. Precisamos de um activismo do tratamento com base na ciência que tem o objectivo estratégico, ambicioso, mas alcançável da conquista democrática da indústria farmacêutica.  Precisamos de uma campanha para destruir as doenças não lucrativas.



Publicado por Xa2 às 08:51 | link do post | comentar

7 comentários:
De Tráfico de órgãos Humanos, aumenta. a 9 de Setembro de 2014 às 12:51
Aumenta consumo de carne humana
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Rins à venda

Desespero é comum em vendas de rins
Traficantes de órgãos exploram doadores e pacientes desesperados

(- por KEVIN SACK , via http://fichacorrida.wordpress.com/2014/09/09/aumenta-consumo-de-carne-humana/ , 9/9/2014 )

RAMAT GAN, Israel – Tirando o valor cobrado, quase US$ 200 mil, o surpreendente foi como foi fácil para Ophira Dorin comprar um rim.

Dois anos atrás, diante da perspectiva de passar anos fazendo diálise, Dorin começou a procurar um intermediário que pudesse ajudá-la a furar a longa fila de espera por órgãos para transplante em Israel. Sem conseguir encontrar doador compatível entre familiares e amigos, ela encarava uma batalha diária contra a náusea, exaustão e depressão. Em pouco tempo sua família descobriu três nomes: Avigad Sandler, ex-corretor de seguros suspeito de tráfico; Boris Volfman, emigrado ucraniano e protegido de Sandler, e o empresário Yaacov Dayan.

Como o New York Times descobriu em uma investigação sobre o comércio global de órgãos para transplante, os três homens estavam entre os maiores operadores no mercado israelense clandestino de rins. Há anos eles embolsam valores enormes por organizar transplantes no exterior para pacientes que recebem seus rins novos de doadores estrangeiros, conforme mostram documentos.

A Organização Mundial da Saúde estima que a oferta de órgãos transplantáveis não satisfaz um décimo da demanda. Especialistas dizem que milhares de pacientes por ano provavelmente recebem transplantes ilícitos no exterior. Quase sempre as pessoas que vendem seus órgãos são pobres e mal informadas sobre os riscos.

Uma análise feita pelo NYT dos maiores casos de tráfico de órgãos desde 2000 sugere que israelenses exerceram um papel desproporcional na atividade. Isso se dá em parte porque restrições religiosas relativas à morte e à profanação mantêm os índices de doação de órgãos de mortos em níveis tão baixos que alguns pacientes sentem que não têm alternativa senão procurar em outra parte.

"Quando uma pessoa precisa de um transplante de órgão, ela faz tudo o que estiver a seu alcance" para consegui-lo, disse Meir Broder, alto assessor jurídico do Ministério da Saúde israelense.

O desespero se evidenciou no funcionamento do canal de turismo de transplantes que levou Ophira Dorin e outros pacientes estrangeiros a Costa Rica entre 2009 e 2012. O NYT rastreou a rede de San José, a capital de Costa Rica, até Ramat Gan, distrito comercial movimentado próximo a Tel Aviv.

O governo costa-riquenho não sabe ao certo quantos estrangeiros receberam transplantes de órgãos de origem suspeita. Mas o NYT identificou 11 pacientes -seis israelenses, três gregos e dois residentes americanos- que viajaram a San José para fazer transplantes de rins obtidos de moradores locais. Dois outros israelenses localizados trouxeram doadores de Israel com eles.

A rede foi criada por um grupo de participantes que incluiu intermediários israelenses ricos, um nefrologista costa-riquenho e intermediários que recrutavam doadores em um táxi e uma pizzaria. Quatro pacientes israelenses ou fontes próximas deles identificaram Yaacov Dayan, conhecido como Koby, como sendo quem os levou a Costa Rica.

As autoridades costa-riquenhas investigam a operação há mais de um ano. Mas não está claro se a polícia costa-riquenha ou israelense já vinculou os transplantes a Dayan ou outros intermediários israelenses.

A família de Ophira Dorin foi encaminhada a Avigad Sandler, que disse estar enviando clientes ao Sri Lanka por US$ 200 mil em dinheiro vivo, Dorin contou. Os colegas de trabalho da paciente promoveram um evento para levantar fundos, e seus pais refinanciaram sua casa.

Um cambista disse à mãe de Dorin que seu tio tinha feito um transplante de rim no Sri Lanka por menos dinheiro que isso. O intermediário usado pelo tio em questão, Boris Volfman, pediu US$ 10 mil à vista e disse a Dorin que ela teria que levar os outros US$ 150 mil ao Sri Lanka. No dia seguinte a polícia israelense prendeu Volfman, Sandler e outros por suspeita de tráfico de órgãos. As suspeitas não tinham relação com o caso de Dorin.

O revés durou pouco tempo. ...
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De Tráfico q. a TV NÃO mostra. a 9 de Setembro de 2014 às 12:55
Aumenta ...
... ... ...
O revés durou pouco tempo. Foi organizado um encontro com Dayan, que, segundo Dorin, disse que um transplante na Costa Rica sairia por US$ 175 mil. Ele tomou o cuidado de não especificar que esse valor incluiria um rim. "Mas ficou subentendido que o pagamento abrangeria tudo, incluindo o órgão", disse Dorin.

Ela contou que parte do dinheiro foi transferida eletronicamente para um hospital em San José e que ela fez um pagamento ao nefrologista Francisco José Mora Palma, que supervisionou seu transplante. Mora então pagou US$ 18,5 mil a um desempregado de 37 anos por seu rim, de acordo com um documento do tribunal.

Horas depois de Dorin chegar a San José, em junho de 2012, Mora teve um encontro com ela e o doador em seu hotel. Ali, ela disse, eles assinaram declarações juramentadas em espanhol, idioma que ela não sabe ler, jurando que o dinheiro não trocaria de mãos.

"Minha situação era crítica", contou Dorin. "Eu não me sentia bem, e minha condição estava se agravando. Mesmo sabendo que era ilegal, acho que eu não teria feito nada diferente."

Viagens médicas

Em 2012, cerca de 50 mil visitantes já gastavam US$ 330 milhões por ano na Costa Rica com procedimentos tão diversos quanto tratamentos de canal e abdominoplastias, segundo o Conselho para a Promoção Internacional da Medicina de Costa Rica.

Especialistas como nefrologistas e cirurgiões de transplantes precisam trabalhar em hospitais públicos, onde recebem possivelmente US$ 7.000 mensais. Mas podem ganhar mais que isso trabalhando fora de seu horário normal em hospitais particulares, dando atendimento a pacientes ricos.

Chefe de nefrologia no hospital público Rafael Ángel Calderón Guardia, o Dr. Mora também tinha privilégios nos hospitais particulares Clínica Bíblica e La Católica. Ele disse em vídeo que um transplante de rim poderia custar US$ 250 mil nos Estados Unidos.

Mora não respondeu a reiterados pedidos de entrevista.

Os que forneceram rins a pacientes estrangeiros foram, em sua maioria, homens de baixa renda e baixo nível de instrução.

Duas doações foram organizadas por um imigrante grego em Costa Rica, Dimosthenis Katsigiannis, que tem 56 anos e é proprietário da pizzaria Akropolis.

De acordo com seu advogado, em 2009 Katsigiannis recebeu uma ligação de um parente que precisava de um transplante. Ele fez algumas perguntas a médicos que frequentavam seu restaurante e foi encaminhado ao Dr. Mora.

Um homem de 38 anos que ofereceu um rim por cerca de US$ 5.500 ficou tão satisfeito que seu irmão mais velho procurou fazer o mesmo, disse o advogado de Katsigiannis, Jesús Gilberto Corella Quesada. Segundo o advogado, Katsigiannis não recebeu nada por seu envolvimento.

As autoridades disseram que vendedores subsequentes foram recrutados por Maureen Cordero Solano, 33 anos, uma policial que também era taxista. Ela recebeu US$ 1.000 de Mora por doador, segundo um mandado de busca.

O NYT descobriu que os transplantes de Ophira Dorin e dois outros israelenses foram organizados por Dayan, que negou enviar pacientes a Costa Rica.

Acordo abortado

A polícia de Israel se negou a comentar se está investigando o caso de Costa Rica. A investigação feita pela Costa Rica cresceu após um episódio em 18 de março de 2013 em que um casal costa-riquenho chegou ao aeroporto Ben Gurion, em Tel Aviv. Rosa, então com 20 anos, e Roberto, 26, eram naturais do planalto central costa-riquenho, onde o café e a cana-de-açúcar são cultivados em férteis encostas vulcânicas. (O NYT não publicou seus nomes completos porque eles são considerados testemunhas protegidas.) Nenhum deles tinha estado fora do país ou viajado de avião antes.

O embaixador de Costa Rica em Israel, Rodrigo X. Carreras Jiménez, disse que o casal chamou a atenção da polícia quando desembarcou com apenas uma mala, pouco dinheiro e tendo como único plano encontrar um desconhecido na saída de passageiros.

"Eles acabaram confessando que tinham vindo para vender um rim da moça", disse Carreras. Disseram que o Dr. Mora era o intermediário.

Contatados em Costa Rica, Rosa e Roberto disseram não saber por que foram enviados a Israel, sendo que o normal era que as pessoas que receberiam os transplantes viajassem até Costa Rica.

Eles tinham contraído empréstimos ...
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De Vendem seus corpos por centavos ... a 9 de Setembro de 2014 às 12:58
Aumenta ...
... ... ...

Eles tinham contraído empréstimos de quase US$ 3.000 e estavam tendo dificuldade em saldar a dívida. Roberto ganhava US$ 500 mensais como guarda de segurança, e Rosa estava concluindo o colegial. Eles tinham um bebê e viviam numa favela. Roberto contou que uma parente -Maureen Cordero- lhe propôs uma saída. Quando exames médicos desqualificaram Roberto como doador, Rosa se ofereceu para doar um rim.

No aeroporto, segundo Carreras, uma enfermeira chegou e pediu para extrair sangue de Rosa. Um advogado também apareceu. Ele e a enfermeira foram mandados embora. O advogado, Lior Lev, disse que um cliente, cujo nome ele se recusou a informar, o tinha mandado à procura do casal. Documentos legais mostram que Lev já representou Yaacov Dayan em outras questões.

Rede desbaratada

Em 18 de junho de 2013, policiais costa-riquenhos invadiram o hospital Calderón Guardia e prenderam o Dr. Mora. O Organismo de Investigação Judicial, o FBI do país, também prendeu Maureen Cordero e apreendeu registros médicos de Mora. O médico passou quatro meses preso, até pagar fiança de US$ 180 mil.

Os documentos apreendidos levaram as autoridades a várias pessoas que tinham vendido seus rins e resultaram na prisão, em outubro, do cirurgião vascular Victor Hugo Monge Monge, que havia transplantado os órgãos, e dos dois urologistas que os extraíram dos doadores.

Uma porta-voz do promotor principal disse que acusações criminais formais devem ser feitas contra Katsigiannis, Mora e os três outros médicos. Maureen Cordero está cooperando com a promotoria, e as pessoas que venderam seus rins foram incluídas num programa de proteção do governo.

"Nenhum deles está em boa condição financeira, social ou de saúde", disse Henry Madrigal Ledezma, do Organismo de Investigação Judicial.

A direção do hospital La Católica, onde foi realizada a maioria dos transplantes, não respondeu a pedidos de declarações. O hospital Clínica Bíblica disse que não poderia ter suspeitado que doadores e receptores organizariam transplantes baseados "em declarações falsas".

O escândalo levou a Assembleia Legislativa costa-riquenha a aprovar uma lei em março que endurece as restrições ao tráfico de órgãos.

Não foram feitas acusações a Sandler, Volfman e seus colaboradores. A investigação parecia estar fechando o cerco em torno deles quando a polícia israelense prendeu um dos ajudantes de Volfman, em abril. Numa audiência, o superintendente de polícia Meir Arenfeld disse que a polícia e promotores estavam estudando transplantes organizados na Turquia pela empresa de Volfman, Leshem Shamaim. No final do ano passado, nefrologistas israelenses notaram que receptores de rins estavam retornando de Ancara, a capital turca.

Um deles trazia registros médicos encaminhados por um funcionário da Leshem Shamaim.

"Está claro para nós que essas pessoas venderam seus corpos por centavos", disse Arenfeld, aludindo aos doadores.


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Colaboração de Irit Pazner Garshowitz, em Jerusalém, e de Mónica Quesada Cordero, de San José, Costa Rica
--- http://fichacorrida.wordpress.com/2014/09/09/aumenta-consumo-de-carne-humana/


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