De Neoliberais e reaccionários salazarentos a 20 de Março de 2014 às 12:09
O retrato de um reaccionário
(-por António Paço, 20/3/2014, 5Dias)

Soares dos Santos, antigo presidente do grupo Jerónimo Martins, deu esta terça-feira uma entrevista ao Diário de Notícias, pela ocasião da passagem dos 40 anos da Revolução dos Cravos. Eis o retrato de um reaccionário:
Soares dos Santos acredita «pouco no poder das revoluções», «a não ser que sejam de mentalidades», mas não reparou que o 25 de Abril nos fez passar, em passo de corrida, de um país «de burros e mulheres vestidas de preto», como diz uma amiga italiana que nos conhece e olha para nós com olhos de quem vem de fora,
para um país mais alegre, optimista, em que as pessoas acreditaram que podiam mudar as suas vidas (e mudaram-na muito, apesar das derrotas) e imensamente mais capaz, mais educado e mais saudável.
Até a mal chamada «classe política» (de esquerda e de direita) ganhou outra cilindrada (hoje, infelizmente, estamos entregues ao galinheiro das jotas).
Durante anos, tivemos dirigentes muito mais capazes (para o bem e para o mal, consoante o ponto de vista) do que aquelas múmias do fascismo.
E ganhámos, sobretudo, milhares de pessoas competentes, empenhadas e dedicadas, que nos seus locais de trabalho, nas empresas, nos hospitais, nas escolas e universidades fizeram o País dar um enorme salto em frente.
Muitos daqueles que durante a revolução foram ou se tornaram «militantes», isto é que olhavam para a vida e para a sociedade como um todo e procuravam intervir para transformá-la, depois dos meses de brasa ‘transferiram’ a sua militância para o seu trabalho, para os locais onde exerciam as suas profissões.
O resultado disso é tão imenso, que seria muito difícil quantificá-lo.
Esse outro país nascido do 25 de Abril enfrenta hoje uma maré de contra-reforma, de retrocesso social, mas não morreu e, acredito, ainda ouviremos falar dele.

Para Soares dos Santos, a revolução significou «a destruição do tecido agrícola e industrial do país pelo PCP, a injecção do ódio entre classes sociais e as perseguições individuais».
Traduzindo para português: a reforma agrária e as greves por melhores condições de vida (‘o PCP’, para Soares dos Santos; Salazar diria antes ‘o comunismo ateu’) destruíram o tecido agrícola e industrial.
Claro, a terra em grande parte abandonada nas mãos dos latifundiários e trabalhadores quietinhos e obedientes na indústria é que era bom [para isso era preciso uma PIDE, mas ele abstém-se de referi-lo].
E quem é que deu cabo da indústria naval, da siderurgia, da metalomecânica, etc? O PCP?
Mas como, se tudo isso foi feito muito depois da Revolução e por governos onde não estava o PCP?
(Mas estiveram os membros da troika nacional.) «Injecção de ódio entre as classes», diz ele de um país que bate recordes negativos no que diz respeito à conflitualidade social na Europa.
Talvez um bocadinho mais de «ódio entre as classes», isto é, de os que estão a ser lixados pelos colegas do Soares dos Santos tratarem de ir às fuças dos que lhes andam a lixar a vida fosse melhor receita.

E «perseguições individuais»? Está a falar, obviamente, dos saneamentos nalgumas empresas e organismos do Estado a seguir ao 25 de Abril.
Sr. Soares dos Santos: não há memória de outro país que tenha sofrido uma ditadura tão prolongada e que tenha sido tão manso com os opressores.
Quantos pides foram julgados e condenados? Alguém molestou o Américo Tomás e o Marcelo Caetano?
Foram mandados para a Madeira e depois, como o povo lá se manifestou dizendo que «não queremos cá lixo», despachados para o Brasil.
Não foram para o Forte de Peniche, para a Sibéria nem para Guantanamo!


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