De Síria: ditadura e tolerância religiosa. a 5 de Setembro de 2013 às 11:06
Para pior já basta assim
(por Daniel Oliveira, Arrastão e Expresso online)

"A Síria é uma república monárquica.
Ao pai Hafez al-Assad sucedeu o filho, Bashar al-Assad. Os dois têm o carisma de uma anémona. Mas, mesmo assim, não hesitam em levar o culto da personalidade até ao enjoo. As fotografias de pai e filho são omnipresentes. Todos os cafés, lojas, restaurantes e bares, queiram ou não queiram - e duvido muito que algum queira -, são obrigados a ostentar as carinhas dos dois senhores. Nas fotos de propaganda do regime ao pai e ao filho junta-se o Espírito Santo.
O filho predileto de Hafez, Basil al-Assad, era o candidato ao trono, mas morreu prematuramente num acidente de viação. Ficou o filho Bashar, o mais ocidentalizado, que chegou a dar sinais de abertura nunca concretizados. Basil surge como herói, montado em cavalos. Ao que parece praticava hipismo e conseguiu um segundo prémio para a Síria. Sendo da dinastia Assad, isso chega para ser um novo Saladino. As imagens estilizadas do defunto estão estampadas nos carros.

A Síria é, como praticamente todos os regimes árabes, uma ditadura repressiva. Esta calhou ter estado do lado de lá do Muro - ou seja, do lado dos derrotados. Mas falar de socialismo aqui seria no mínimo exagerado.
A intervenção do Estado na economia é maior do que nos países vizinhos. A repressão política também.
A religiosa, pelo contrário, é mais baixa.
Trata-se de uma ditadura laica que da mesma forma que prende e mata os opositores políticos, mantém controlados os movimentos de qualquer tipo de fundamentalismo religioso
que nunca quereriam nada com a dinastia Assad. A ligação ao Irão é táctica, não religiosa, já que a esmagadora maioria da população é sunita (mesmo que o regime seja dominado pelos alauitas, pequeno ramo dos xiitas, sendo este um dos 2 grandes ramos dos muçulmanos, o outro é o dos sunitas)."

"Se em Damasco a diversidade religiosa se sente, em Alepo ela é muito presente. Alepo diz-se o mais antigo local habitado do Mundo e a sua história é feita de conquistas, reconquistas, ocupações e guerras. Mas também de convivência.
O hotel onde fiquei é no bairro arménio, maioritariamente cristão. Um bairro semelhante existe na cidade velha de Damasco. No domingo, fui assistir à missa dos maronitas. Podia ser em qualquer cidade europeia, mas eram árabes que ali estavam. Nos bairros cristãos de Damasco e Alepo os símbolos religiosos (crucifixos e imagens de Cristo) são tão visíveis como os símbolos islâmicos no resto da cidade.
Nos anos sessenta houve tensões com os cristãos (arménios, ortodoxos gregos, maronitas e católicos latinos) mas os problemas não são comuns e muito menos visíveis para um visitante.
Há ainda drusos, xiitas e alauitas, para além da maioria sunita.
Com mais uma guerra a decorrer no Líbano, impressiona-me que cheguem, aos milhares, a Alepo e Damasco, refugiados libaneses de todos os credos: maronitas, drusos, xiitas, sunitas. Como se o Líbano fosse a reprodução extremada do mosaico sírio e a Síria, apesar da ditadura e da repressão (ou até por causa delas), a sua versão pacifica."

Reutilizo aqui duas passagens do pequeno diário que escrevi quando, há sete anos, estive na Síria. Não eram notas políticas. Apenas apontamentos de duas das coisas que mais notei na vida quotidiana de um dos países que mais me impressionou, pela sua beleza, até hoje:
a ditadura, uma das mais repressivas do mundo árabe, e a inabitual convivência religiosa. A que poderia acrescentar a convivência étnica, que junta curdos, turcos, arménios e árabes.
Duas impressões que demonstram que as coisas são, por vezes, mais complicadas do que parecem. A pior das ditaduras pode ser, do ponto de vista religioso e étnico, um regime tolerante.

Juntem-se a estes dois dados o papel estratégico da Síria na região.
Todos os conflitos no Líbano são incompreensíveis sem perceber o que se passa no vizinho sírio.
E qualquer conflito no Líbano tem repercussões imediatas em Israel e no seu conflito com a Palestina.
Damasco tem um diferendo territorial com Telavive, dá apoio à resistência palestiniana e tem, no seu território, campos de refugiados palestinianos (bastante mais dignos, diga-se em abono da verdade, dos que existem no Líbano ou na Jordânia).
...


De .Síria: intervir para ficar PIOR ?!!. a 5 de Setembro de 2013 às 11:15

Para pior já basta assim
(por Daniel Oliveira, Arrastão e Expresso online)
...
...(Síria)...
Tem uma aliança tática com o Irão.
Tem muitos refugiados iraquianos e relações próximas com o outro lado da fronteira.
Tem uma minoria curda e está, mesmo que de forma ligeira, ligada aos conflitos do Curdistão com Bagdad e Ancara.
O regime é dominado por alauitas (que se consideram xiitas), quando a maioria da população é sunita.

Ou seja, a Síria é um dos elementos mais sensíveis na filigrana que é o Médio Oriente. Por ali passam, de forma intensa ou moderada, quase todos os conflitos da região: curdos contra turcos, iraquianos e sírios, palestinianos contra israelitas, iranianos contra o Ocidente, todos contra todos no Líbano, sunitas contra xiitas, muçulmanos contra cristãos.

A queda do regime de Assad pode parecer uma boa notícia. Mas também pode trazer muitos amargos de boca.
Entre os rebeldes estão muitos fundamentalistas islâmicos ('jihadistas', alQaeda, ...) que, numa sociedade habituada a viver numa razoável paz religiosa, poderiam abrir uma panela de pressão que nunca mais se fechará.
A convivência que encontrei em Alepo e Damasco será, estou seguro, uma impossibilidade com a chegada de alguns dos rebeldes ao poder.
Que Assad é um torcionário, não tenho qualquer dúvida. Que os que o lhe querem suceder não sejam ainda piores é coisa que não apostaria.

Ao que se junta destabilização que a mudança de regime pode trazer a todo o Médio Oriente. Mas nem é necessário que haja uma revolução na Síria.
Basta a intervenção ocidental naquele território, com o sempre INDESEJADO envolvimento americano e com a participação das duas principais potências ocidentais com interesses económicos e estratégicos na região - França e Reino Unido -, para que a instabilidade se espalhe por todo o Médio Oriente.

Não há, do ponto de vista da paz na região, qualquer bom argumento para uma intervenção militar externa.

Não há nenhum argumento político para substituir uma ditadura por aquilo que dificilmente virá a ser uma democracia (provavelmente será uma DITADURA pior !!!: política, religiosa, étnica e cultural).

Sobra, então, o argumento moral para esta intervenção. Um argumento difícil de sustentar. Poderia enumerar dezenas de guerras civis recentes e mais mortíferas do que a da Síria.
A questão são as armas químicas? Mas os mortos do Darfur ou do Ruanda são diferentes por ter sido usado armamento convencional? Centenas de milhares de vítimas valem menos se forem mortas à catanada?
E não sabemos que também os rebeldes sírios já usaram este tipo de armamento?

Não sei se os interesses económicos na região, para os quais a Síria tem uma posição geográfica estratégia, explicam esta vontade de intervir.

Apostaria mais em razões internas norte-americanas e francesas. A paz na região é que não é de certeza.

Resumindo: nenhum argumento estratégico, político e moral sério pode ser usado para esta intervenção. Qual é a minha alternativa?
A mais difícil de escrever, perante mais de cem mil mortos e dois milhões de refugiados:
terão mesmo de ser os sírios a resolver a encruzilhada em que se encontram.

A nós, resta-nos esperar que ali surja um poder democrático e laico. Depois desta guerra, não será provável. Mas quanto teve a Europa de penar para chegar às suas imperfeitas democracias?
Não terão os árabes o direito de encontrar o seu próprio caminho?
Não aprenderam os EUA que, quase sempre que se meteram no Médio Oriente, deixaram tudo ainda pior do que encontraram?


De .comentários e factores ocultos... a 5 de Setembro de 2013 às 11:35
------- Excelente análise. Concordo inteiramente.
Qualquer intervenção militar ocidental na Síria fará explodir o Líbano e Israel.
As lições da guerra do Iraque parecem ter sido esquecidas, ou nunca reconhecidas.

------ Carlos Marques
ADENDA: penso ter lido nas entrelinhas que existem duas razões para esta ataque:
colocar os russos em sentido, depois do caso Snowden,
e premiar a CNN pela mãozinha que a pivot deles deu ao Obama no debate decisivo com o Romney.

---- Ant.Cunha
Concordo com o Daniel nesta questão. Um intervenção externa e um forçar da queda deste regime irá transformar a Siria em mais um país fundamentalista, 10x PIOR que o existente.

Os Egípcios estão a ver-se doidos para correr com os fundamentalistas. Conheci este verão um grupo de
Tunisinos que trabalhavam em Portugal no verão e por incrível que pareça eles preferem ter o ex-ditador do que os fundamentalistas religiosos.

----- Manolo Heredia
Excelente enquadramento. Faltou a análise, que explica quem ganha e quem perde, e o quê, com a queda destes regimes (quem espera ganhar ou perder).

A questão Israel-nuclear, Irão-nuclear, Líbano e Palestina em 'lume-brando', base naval russa, oleodutos (russos, americanos, ingeses, franceses), negócio das armas.
Que são as verdadeiras causa de alguns países (empurrados pelos gr. lobbies das multinacionais petrolíferas, armas, militares, ... mais os seus apoiados grupos armados e movimentos político-religiosos) com interesses instalados quererem ir lá "molhar a sopa".

----- Apophis
Concordo. Para além disso afirmo que o fundamentalismo islâmico ou islamofascismo (principalmente de origem sunita) é o maior promotor da agenda norte-americana, ou o resultado dela.
Faz sentido que o regime sírio lhes retire poder, o que contribui para uma sociedade mais laica.
Os Estados Unidos combatem ao lado da Al-Qaeda no Iémen, mas a comunicação social não divulga isso porque pode estragar a narrativa. Se isso acontecer na Síria vai ser mais difícil de esconder.

Os próprios sírios até podem tentar resolver o problema, mas com a CIA a financiar os "rebeldes" isso torna-se mais complicado.

-----
O que é claro é o interesse do imperialismo (financeiro, petrolífero, militar, ... e os religiosos-fanáticos) pelo domínio daquela zona, nem que para isso tenham que destruir país atrás de país


De .Mentira e + Terror. a 5 de Setembro de 2013 às 12:54
No limiar de mais uma guerra imperialista a equidistância mata
(-por Renato Teixeira, 4/9/2013)

O Senado dos EUA já deu luz verde ao Nobel da Paz e Presidente dos EUA para atacar a Síria. O Congresso, muito provavelmente, seguir-lhe-á as pisadas. Sem arriscar ainda grandes elucubrações – porque não há guerrilheiros à espera dos meus escritos e porque tenho pouca pachorra para os inventar –
importa desmistificar o pretexto que tem vindo a ser usado para justificar mais uma cruzada das tropas americanas, que como disse Chomsky, só pode ser considerado um crime de guerra.

Enquanto os vídeos divulgados por Hollande, belicista do PSF, nada demonstra a não ser que alguém usou, de facto, material químico,
a Argélia 1 divulgou um vídeo que deixa claro que há sectores dos “rebeldes” que estão a usar armas químicas.
Em reforço desta tese a AP também recolheu testemunhos, na primeira pessoa, que confirmam a história e o mesmo se passa com os mails que foram interceptados e divulgados pelo Pastebin, que revelam toda a encenação (via Tugaleaks).

Podemos estar perante o facto de uns e outros andarem a usar bombas químicas mas os únicos que podem ser acusados com base em provas cabais não são os correlegionários de Assad – ver vídeo em anexo com compilação de evidências – que já contam no seu campo com a Rússia, o Irão e o Hezbollah.

Seria por isso importante que aqueles que à esquerda não hesitam em apontar o dedo ao regime em matéria de uso de armas químicas fossem capazes de citar mais do que as notícias da propaganda francesa, israelita ou norte-americana.
É que até podem ter razão, mas a citar quem citam não convencem rigorosamente ninguém.

A máquina de guerra está em marcha, uma vez mais a pretexto sem texto, com intenções nebulosas e mal explicadas.
Se é evidente que Assad não é flor que se cheire não é menos evidente que quem o combate deixa muito a desejar.
Mas sabemos que a guerra é a guerra, como dizia o Fausto, e quem ficar, nesse contexto, em cima do muro, acabará baleado pelos dois lados.

O derrube de Assad só será um bom sinal se ele for feito pelo povo sírio.
Se ele for garantido com drones, à bomba e com o músculo de uma intervenção imperialista, que irá causar uma devastação incalculável, não se abrirá nenhuma possibilidade emancipatória nem para o país nem para a região.
Assim foi no Iraque, no Afeganistão ou na Líbia. Assim será na Síria.
É uma via que só acrescenta terror ao terror. É voltar a fazer a guerra com os olhos muito longe da paz.


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