Stop à manipulação do Estado, cidadãos contribuintes e economia

                  O regresso da Islândia   (-    Com a demissão do primeiro-ministro (de direita), envolvido no escândalo dos off-shores do Panamá, a Islândia volta ao centro das atenções (lendo só o que se tem escrito há anos sobre a Islândia no Facebook, até é estranho que o país tenha um primeiro-ministro de direita com contas em off-shores - pensei que já fosse uma democracia popular direta sem banqueiros, ou coisa do gênero...).       Mas não é sobre os acontecimentos imediatos que me apetece escrever, mas sobre um assunto que já se arrasta há anos - a revisão constitucional islandesa.
     Em 2010 foi eleita uma assembleia constituinte na Islândia, por voto único transferível (um sistema eleitoral em que os candidatos concorrem individualmente, e os eleitores ordenam-nos por preferência no boletim de voto; um candidato precisa de um dado número de votos para ser eleito -  numa eleição para n lugares, será necessário ter algo como 1/n do total dos votos para a eleição - e se tiver mais, os votos excedentes transitam para os candidatos ordenados a seguir no boletim; supostamente esse sistema terá a mesma independência pessoal dos deputados que no sistema uninominal e a mesma representação das minorias que no sistema proporcional); é a essa eleição que se referem os mails em cadeia que circulam há anos dizendo que na Islândia uma assembleia de cidadãos assumiu o poder.
      Pouco depois o Tribunal Constitucional declarou essa eleição ilegal e dissolveu a constituinte; em resposta, o parlamento (que continuou a funcionar normalmente; a assembleia constituinte era mesmo só para fazer uma nova constituição) decidiu, com os votos dos partidos de esquerda, criar uma comissão para elaborar um projeto de reforma constitucional, e escolheu para essa comissão as mesmas pessoas que inicialmente tinham sido eleitas para a assembleia constituinte.      A assembleia constituinte/conselho constitucional elaborou um projeto de nova constituição, incluindo pontos como a separação entre a Igreja e o Estado (coisa que ainda está longe de acontecer nos paises nórdicos supostamente progressistas), permitir a petições de cidadãos convocar referendos, etc.
      Em 2012, foi feito um referendo consultivo sobre as propostas de revisão, que foram aprovadas pelos votantes; no entanto, o projeto de revisão tem estado congelado, ainda mais desde que a direita regressou ao poder, em 2013.
             Proposta de nova constituição islandesa [pdf]   e   Constituição atual [pdf] 

-----  Estes  islandeses...     (-por J.Rodrigues, 16/3/2015, Ladrões de B.)
 
   Estes islandeses são loucos, dirão as nossas elites intelectuais e políticas: sem grande eco por cá, na semana passada, a Islândia decidiu meter mesmo na gaveta (retirar) um pedido de adesão à UE e eventualmente ao euro, estranhamente aí apoiado por alguns sectores de esquerda, o que de resto pode ajudar a explicar a sua derrota nas últimas eleições.
     Não se esqueçam que (os islandeses, com o eclodir da crise/bancarrota, impuseram) controlos de capitais, política cambial, Estado social robusto, imposição de perdas aos credores e recuperação económica já com anos não são para nós. Nós por cá somos então mais assim: a soberania é coisa do passado e o Estado-nação também, já que a UE e o euro protegem os nossos interesses ou podem, por milagre, vir a protegê-los (!!). E, de qualquer forma, são irreversíveis, tal como a globalização.(!!)
    Também não se esqueçam, que quem pensa o contrário, quem pensa que é possível e necessário recuperar margem de manobra nacional, só pode um perigoso populista, um aliado objectivo, e até quiçá subjectivo, de Le Pen ou mesmo um admirador de Estaline. Ou todas estas coisas ao mesmo tempo, tanto faz. E guerra, fale-se muitas vezes de guerra, com um ar grave de quem sabe do que está a falar.
    A sabedoria convencional e o que passa por pensamento crítico em certas áreas acabam por partilhar o mesmo desígnio pós-nacional, com a diferença que a sabedoria convencional ainda proclama hipocritamente “Portugal acima de tudo”, mas só porque os partidos que dela se servem têm eleições para disputar. É que a ideia de soberania ainda é popular...
----- 
            O  "Milagre"  NeoLiberal    !!!    --(por R.P. Narciso, PuxaPalavra, 17/3/2015)
     Entrou-me pela casa dentro, com a ajuda da RTP, um tal JYRKI KATAINEN, com ar de embaixador dos "mercados"     mas que afinal é o vice-presidente da Comissão Europeia, líder do Partido da Coligação Nacional (partido conservador NEOLIBERAL) e ex-1º Ministro da Finlândia.
      Este cavalheiro, um acólito de Ângela Merkel, veio garantir a um país atónito, que a política do Governo (do PSD/CDS), nestes três anos, representa um VERDADEIRO MILAGRE.
      Está em visita ao 1ºM PPC e recomendou-lhe, ali à nossa frente, SEM VERGONHA, que prossiga a sua política de "mudanças estruturais".     Mudanças estruturais?! Está a referir-se a quê?
     À dívida que passou de 90% do PIB para 130%,
     ao desemprego que subiu para o dobro,
     aos cortes de salários da administração pública e dos reformados,
     aos cortes na Saúde, na Educação, na Segurança Social,
     à maior vaga de emigrantes desde os anos 60 e agora com o predomínio de licenciados e quadros técnicos?
     Ou estará a referir-se à privatização de empresas estratégicas da economia nacional?
     O mais certo é o GRANDE MILAGRE que refere ter consistido em libertar os BANCOS alemães e franceses que arcavam com a maior parte da insegura dívida soberana portuguesa.
     Esse Sr. KATAINEN está a tomar-nos por parvos?
     Está a falar de "milagre" a um país socialmente devastado, a uma população condenada à pobreza?!
     Ou estará a referir-se aos 840 multimilionários portugueses que aumentaram as suas fortunas   de 90 para 100 mil milhões de dólares em 2012, um dos anos de maior empobrecimento dos "outros portugueses" ?!!   ( "Relatório de Ultra Riqueza no Mundo 2013" do banco suíço UBS) .  


Publicado por Xa2 às 07:52 de 13.04.16 | link do post | comentar |

13 comentários:
De Abjecto Esmagar Pessoas. a 18 de Março de 2015 às 11:20
Quando a banca esmaga os seus trabalhadores e o Estado assina a sua execução

(17/3/2015, por Lúcia Gomes, http://manifesto74.blogspot.pt/2015/03/quando-banca-esmaga-os-seus.html#more )


"Já não aguento mais, não consigo. Tornei-me numa pessoa execrável, nem me reconheço. Acordo a meio da noite a chorar, tenho ataques de pânico, não durmo sem comprimidos! Nem sei como o meu marido me atura assim. Há dois anos. Acordo, levanto-me da cama e estatelo-me no chão.

Todos os dias entro ali, sorrio. De cada vez que o telefone toca acho que vai ser nesse momento. De cada vez que o meu director olha para mim, acho que me vai despedir. De cada vez que chama um de nós acho que vai ser despedido.

Não aguento. Estou sempre a pensar que me vão fazer alguma.

----- Por 832 euros por mês estou nisto há dois anos. Sem aumentos há 7.

Perdi tanta coisa. Há um ano perdi um filho. Tenho 44 anos e estou reduzida a isto. Nunca mais vou conseguir engravidar. Perdi o meu filho por estar assim e cheia de medicação. Não posso continuar. Não posso. Não aguento."

Esta não foi a primeira vez que ouvi tudo isto. E não será a última, certamente. Assim é a banca:
espreme, quebra, destrói.

A banca que se divide em múltiplas empresas, todas do mesmo grupo mas todas sem ter nada a ver umas com as outras.
Que detém empresas de contratação (Como o BES detém a Multipessoal mas os trabalhadores do BES contratados pela Multipessoal são trabalhadores da Multipessoal e não do BES)
para não contratar trabalhadores com direitos.
Que paga salários de 700 euros a licenciados.
Que despede, despede, despede,
sempre com «acordos de reestruturação» com o alto patrocínio do Governo
que lhes dá as quotas para que seja a Segurança Social a pagar os subsídios de desemprego enquanto milhares vão para as ruas.

Rescinde, pagamos mais do que diz a lei. Rescinde, o Governo vai dar-nos as quotas.

A determinada altura nem se sabe quem é o administrador da banca e quem é o ministro, o despedimento, afinal, tem o aval dos dois.

E é assim que se vai passando, enquanto seres humanos já nem se reconhecem,
a lei molda-se ao sistema para o beneficiar, os ministros assinam todas as portarias necessárias e vamos assistindo a isto.
«Não posso continuar. Não posso. Não aguento».

Que haja depois disto uma resistência maior do que a que C. já teve. Porque o seu acto último de resistência foi ficar sozinha na empresa que tem o mesmo nome do banco mas que não é banco.
Resistiu. E pode estar de cabeça erguida quando olhar para trás. Num futuro que esperamos que seja diferente, porque contaremos com ela para o construir.
------

... num esforço mais uma vez para esconder a miséria desta sociedade podre e sem remissão.

E apresenta-nos a sua " realidade ", feita dos lugares-comuns próprios de quem acha que a realidade é a sua e que acha que tem o direito de negar aos outros a sua dignidade de vida. Ofende desta forma a condiçao humana , mercê da sua apologia da miséria do quotidiano, da exploração desenfreada, que defende e quer preservar..

E faz silêncio sobre os que se apropriam da riqueza gerada pelos que trabalham.

A destruição do sistema de segurança social passa pelo primeiro-ministro na sua actividade como "trabalhador" .É um dos que foge à lei

E o silencio continua sobre a realidade das PPP e dos Swaps e dos juros duma dívida que afinal é deles e do saque à riqueza nacional de que as privatizações são um modelo

A realidade para o sacana de serviço é assumir a condição da imutabilidade dum mundo em que os exploradores e a exploraçao se perpetuam É retirar a humanidade da equaçao da condiçao humana.
É defender a concentraçao do capital em cada vez menor nº de mãos, que 85 pessoas detenham tanto como a metade mais pobre do planeta, dirá também que a concentração da riqueza deve ser imutável

Eis a luta de classes
este é o mesmo discurso que os esclavagistas tinham sobre a sua realidade factual e as suas inevitabiidades.
e defende os seus, os gestores do BES, o funcionamento do capital,o silencio que faz pairar sobre a trampa do funcionamento dos mercados vive paredes meias com o apelo à submissão da realidade .

Os NeoLiberais só oferecem Desemprego e fome, Miséria e falta de acesso à saúde, Velhice desprotegida, Sub-Vida, Saque e o "seu direito"!


De Economia e discurso NeoLiberal... a 18 de Março de 2015 às 15:24
------ Um blog de alucinados armado em jornal *

( por josé simões, derTerrorist )


Para quem "trabalhadores" são "colaboradores",
"corrigir pensões e salários" significa "cortar pensões e salários",
"requalificação" de funcionários públicos é mete-los numa prateleira para cortar parte do vencimento,
"ajustamento" é para ler "corte"
e onde se lê "corte" deve ler-se esbulho, roubo, confisco,
"reforma do Estado" é acabar com funções e valências do Estado social,
um "despedimento" é uma "dispensa de serviços"
e uma "reestruturação" é um "despedimento colectivo" ou a "dispensa" de muitos "colaboradores".
(* http://observador.pt/opiniao/saudades-do-tempo-em-que-eramos-livres-e-nao-sabiamos/ :«politicamento (in)correcto»?)

------ E tem sol e tem mulheres bonitas e tem cavalos e tem aviões para vender

"Portugal oferece, como sabem, uma localização competitiva para os investimentos.
Tem uma mão-de-obra e quadros altamente qualificados e flexíveis num mercado concorrencial.
Dispõe de infra-estruturas físicas e tecnológicas de qualidade – estradas, aeroportos e portos marítimos"


------ Da série "Reformas Estruturais" [que são um "estado d’ alma" *]

E aliviar o peso do Estado na economia.
«O número de desempregados que conseguiu arranjar trabalho com a ajuda do Instituto de Emprego e Formação Profissional (IEFP) atingiu níveis inéditos em 2014,
mas mais de metade dessas colocações foi feita através dos programas de apoio à contratação financiados por dinheiros públicos».


E o homem velho que continua a não querer nada com o homem novo que o liberalismo que aliviou a economia do peso do Estado quer criar.
«Portugal registou a maior queda da taxa de emprego entre os Estados-membros da União Europeia no último trimestre de 2014, com uma descida de 1,4% face ao trimestre anterior».

É o mercado a funcionar, estúpido.


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