Ó Brigada música popular e canção de intervenção

Ó Brigada

« Comem-nos vivos em vida /  Mortos a terra nos come /  Como dá tanta comida /  Quem cá passou tanta fome? ».

    Logo que o Homem toma consciência da sua condição, e o exprime esteticamente, está entornado o caldo da exploração do homem pelo homem. Por isso há quem tenha procurado – e insista – destinar a Arte Popular ao recanto do pitoresco, o lugar em que tudo o que é testemunho vivo soçobra. Chegariam então os tais turistas, «avinhados ao ritmo dos ferrinhos e da concertina»; e haviam de chegar os mandantes, orgulhosos dos governados humildes, na atitude, e garridos, no trajar; e chegariam também os entendidos, habilidosos na justificação do paradoxo de um povo empobrecido porém feliz. Lopes-Graça, apoiado no trabalho de Michel Giacometti (e alguns, poucos, mais) viria a baralhar tão conveniente harmonia, definindo a nossa música popular como «a crónica viva e expressiva da vida do povo português – quer dizer: da vida rústica do povo português» (Fernando Lopes-Graça, in A Canção Popular Portuguesa). O fascismo não facilitou a vida à música dos nossos campos. Ciente da sua inadequação no cenário idílico do Estado Novo fascista, Salazar deu a inventar a «política do espírito» em que um povo colorido e coreografado se exibiria em arraiais de FNATes e concursos de folclore. A música do povo português não era bem-vinda nesses certames de construção de uma “tradição popular” fascista, e ainda bem. Cairia o cantar do povo português no esquecimento da História não fora a persistência – a existência! – dos seus naturais cultores, o trabalho de recolha realizado por Michel Giacometti e alguns mais (poucos), e a própria História que, por artes do 25 de Abril, havia de lhe encontrar lugar e urgência no desenho da nossa identidade democrática. Nada mais natural, pois, do que um grupo de jovens ter considerado, faz agora 40 anos, que o seu tempo era «o tempo de, também aqui, no campo da cultura popular, dar um passo em frente, fazendo [a música popular] irromper do marasmo e do esquecimento de cinquenta anos de ditadura cultural» (texto de apresentação de «EitoFora», 1977). Estava, assim, achado o programa de acção da Brigada Victor Jara dois anos depois de, no ambiente dinamizador do MFA, se ter achado o nome do grupo: «o de Brigada, com intenção; o de Victor Jara, com admiração e saudade». Quarenta anos depois, permanecem o propósito e o nome.    ...    Para Ouvir e Ver:

Brigada Victor Jara   ;   No You TubeBrigada Victor Jara  ;   Victor Jara, relato das últimas horas deste cantor revolucionário chileno executado, juntamente com milhares de cidadãos em Setembro 1973, pelos fascistas do ditador Pinochet que derrubou a democracia e assassinou o presidente Salvador Allende.



Publicado por Xa2 às 07:36 de 22.05.15 | link do post | comentar |

Às portas de Abril: canto e intervenção

Nas Portas de Santo Antão às portas de Abril (-por A.Paço)

    A este propósito, republico um texto do João Mesquita (já falecido).

A um mês da queda da ditadura, os expoentes máximos do «canto de intervenção» actuaram no Coliseu de Lisboa, perante milhares de pessoas. Ninguém adivinhava o que aí vinha. Mas, quem lá esteve, sentiu que a liberdade estava a passar por ali.

«Grândola, vila morena/ Terra da fraternidade/ O povo é quem mais ordena/ Dentro de ti ò cidade.»  Quando cinco mil pessoas, de pé, de braço dado e inclinando-se compassadamente, ora para a esquerda, ora para a direita, começaram a entoar a mítica canção de José Afonso, o soalho de madeira do velho Coliseu dos Recreios transmitiu a sensação de poder ruir em qualquer altura.  Mas não foi isso que fez que um arrepio fosse subindo pela espinha da multidão.  No palco, exactamente do mesmo modo, alguns dos nomes mais importantes da chamada música popular portuguesa cantavam igual melodia. Só isso era absolutamente inédito no Portugal de então.  No seu conjunto, o ambiente dava a sensação de que, mais do que um grande espectáculo ou uma grande festa, era algo de histórico que estava a acontecer.

     As cinco mil almas que, naquela noite de 29 de Março de 1974, se deslocaram ao lisboeta Coliseu dos Recreios – pagando por um bilhete, desde que não comprado na «candonga», 50 escudos –, estavam longe de imaginar que, menos de um mês depois, o regime que tanto detestavam estava derrubado. Muito mais: que a «Grândola, Vila Morena», por elas entoada em coro (haviam começado a fazê-lo em pequenos grupos, aliás, ainda antes de o espectáculo se iniciar), seria o sinal para o arranque das operações militares que levariam à queda de Marcelo Caetano. Mas quando o I Encontro da Canção Portuguesa – assim se chamou a iniciativa, organizada pela Casa da Imprensa – terminou, era uma e um quarto da madrugada, todos quantos nele participaram tinham a sensação de terem dado um empurrãozinho para que nada, no País, fosse como até aí.

    O quarteto de Marcos Resende abriu o programa, que desinteligências de última hora com a organização impediram que fosse apresentado pelo radialista José Nuno Martins. «Até é capaz de ser (um grupo) razoável, só que não se chegou a ouvir, dada a maior força dos assobios», escrevia-se no Diário de Notícias do dia seguinte.   Sucedeu-lhe o duo Carlos Alberto Moniz-Maria do Amparo. «Tenho notado a sua presença em locais e encontros completamente opostos. Só se se perderam», anotava Alexandre Pais no República, dando corpo à pouca disponibilidade para concessões então dominante em certos círculos oposicionistas. Veio depois um (quase) ilustre desconhecido. «O meu nome é Manuel José Soares. Peço desculpa de não o ter dito (no início da actuação)», apresentou-se o próprio, que tal como todos os outros, actuou gratuitamente.

    A primeira grande ovação da noite foi para Carlos Paredes e Fernando Alvim. «(Com eles), o público percebeu que uma guitarra não é sinónimo de fado. E que este, gasto em realizações anteriores da Casa da Imprensa, em boa hora não tinha sido para ali chamado», sustentava Regina Louro, também no República. Estava criado o ambiente para a atribuição dos prémios da associação mutualista dos jornalistas, anunciados por Joaquim Furtado e atribuídos por um júri que integrava os críticos José Duarte e Tito Lívio e os radialistas João Paulo Guerra e José Manuel Nunes. A maioria deles não provocou estrondo – Carlos Trincheiras, no bailado; António Victorino de Almeida, na TV; Jorge Peixinho, na música erudita; António Ramos Rosa, na literatura; Vasco Barbosa, como instrumentalista; Nela Maysa, como pianista; Elsa Saque, como cantora lírica. Mas os restantes dois deram brado. Um foi para o programa radiofónico Página Um, da Rádio Renascença, e entre os que o receberam encontrava-se Adelino Gomes, então já afastado da rádio e a trabalhar na revista Seara Nova. O Diário de Notícias chegava a garantir que o prémio não fora atribuído e O Século ocultava o nome de Adelino.   O outro foi para Sérgio Godinho e José Mário Branco, pelos seus álbuns de estreia – Os Sobreviventes e Mudam-se os Tempos, Mudam-se as Vontades, respectivamente. Os dois cantores encontravam-se exilados em França e, portanto, «não puderam comparecer», como dizia O Século. Mas pouca gente recebeu tantos aplausos como eles. Afinal, canções como «Romance de um dia na estrada», de Sérgio, ou «Queixa das almas jovens censuradas», de Zé Mário (com letra de Natália Correia), corriam já de boca em boca.

    Após o intervalo, a primeira actuação foi dos espanhóis Viño Tinto. Também estes, ainda que por razões bem diferentes, estiveram para «não comparecer». É que a gerência do hotel lisboeta onde se hospedaram reteve-os por uns tempos, quando se apercebeu de que se preparavam para sair sem que a respectiva conta estivesse liquidada. A direcção da Casa da Imprensa lá resolveu o problema. José Carlos Ary dos Santos, que surgiu a seguir no palco, é que teve de resolver o seu sozinho. Parte da assistência não lhe perdoou, entre outras coisas, o envolvimento nos Festivais RTP da Canção. E desatou a assobiá-lo. Como de costume, Ary não se ficou: «Eu venho para dizer poesia. Se não gostam, manifestem-se no fim.» Abandonou o palco sob aplausos, depois de ter declamado «SARL».

    A Ary sucederam-se – não necessariamente por esta ordem – José Barata Moura, o grupo Intróito, Manuel Freire, Fernando Tordo (a sua, e de Ary dos Santos, «Tourada», também foi mal recebida, ou não tivesse sido concorrente aos contestadíssimos festivais televisivos da época), Fausto, Vitorino, José Jorge Letria e, finalmente, Adriano Correia de Oliveira e José Afonso.   Zeca «atacou» logo com «Grândola». Depois, cantou «Milho Verde», a outra canção sua cuja interpretação foi autorizada pela Censura.   A seguir, chamou todos os restantes cantores ao palco, estes deram os braços, começaram a bater, ritmadamente, com os pés no chão, as luzes apagaram-se na sala. «Grândola, vila morena…», ouviu-se novamente, desta vez em coro. Cinco mil pessoas levantaram-se, como se uma mola as tivesse impulsionado. Deram igualmente os braços. E cantaram, também elas: «… terra da fraternidade…».

    No fim, houve quem tivesse entoado o hino nacional. Mas deu a ideia de que mesmo esses, se pudessem, cantariam antes «A Internacional».   Só que ainda faltava um mês para o derrube de Marcelo, a polícia de choque estava estacionada nas proximidades, a sala tinha pides espalhados por todos os cantos, a liberdade de expressão não era especialmente apreciada pela ditadura.  Que o digam os artistas que, no fim do espectáculo, foram interpelados pela então denominada Direcção-Geral de Segurança.  Ou os que, para evitarem tão desconfortáveis encontros, saíram pela porta dos fundos…   -  in António Simões do Paço (coord.), Os Anos de Salazar, vol. 30, O Povo é Quem Mais Ordena, Planeta DeAgostini, 2008, pp. 154-157.



Publicado por Xa2 às 13:22 de 29.03.14 | link do post | comentar |

DESTAQUE DO MÊS
14_04_botão_CUS
MARCADORES

todas as tags

CONTACTO

Email - Blogue LUMINÁRIA

ARQUIVO

Novembro 2019

Junho 2017

Março 2017

Fevereiro 2017

Janeiro 2017

Dezembro 2016

Novembro 2016

Outubro 2016

Setembro 2016

Agosto 2016

Julho 2016

Junho 2016

Maio 2016

Abril 2016

Março 2016

Fevereiro 2016

Janeiro 2016

Dezembro 2015

Novembro 2015

Outubro 2015

Setembro 2015

Agosto 2015

Julho 2015

Junho 2015

Maio 2015

Abril 2015

Março 2015

Fevereiro 2015

Janeiro 2015

Dezembro 2014

Novembro 2014

Outubro 2014

Setembro 2014

Agosto 2014

Julho 2014

Junho 2014

Maio 2014

Abril 2014

Março 2014

Fevereiro 2014

Janeiro 2014

Dezembro 2013

Novembro 2013

Outubro 2013

Setembro 2013

Agosto 2013

Julho 2013

Junho 2013

Maio 2013

Abril 2013

Março 2013

Fevereiro 2013

Janeiro 2013

Dezembro 2012

Novembro 2012

Outubro 2012

Setembro 2012

Agosto 2012

Julho 2012

Junho 2012

Maio 2012

Abril 2012

Março 2012

Fevereiro 2012

Janeiro 2012

Dezembro 2011

Novembro 2011

Outubro 2011

Setembro 2011

Agosto 2011

Julho 2011

Junho 2011

Maio 2011

Abril 2011

Março 2011

Fevereiro 2011

Janeiro 2011

Dezembro 2010

Novembro 2010

Outubro 2010

Setembro 2010

Agosto 2010

Julho 2010

Junho 2010

Maio 2010

Abril 2010

Março 2010

Fevereiro 2010

Janeiro 2010

Dezembro 2009

Novembro 2009

Outubro 2009

Setembro 2009

Agosto 2009

Julho 2009

Junho 2009

Maio 2009

Online
RSS
blogs SAPO