A mente probabilística

Para compreender o fenómeno político ou qualquer outro produzido pelas sociedades humanas é fundamental um certo conhecimento do funcionamento da mente. Pelo menos há que saber algo do pouco que se sabe desse misterioso universo constituído por uns largos milhares de milhões de neurónios e respectivas conexões. Este número é tão elevado que permite deduzir que os neurónios e conexões transformam a percepção e todo o tipo de conhecimentos numa multitude de sinais com os quais são constituídos os memes ou genes mentais a formarem genomas de ideias auto-replicáveis e replicáveis de mente em mente para estabelecerem idiossincrasias e os colectivos do cálculo e do saber. A informação celular a partir das células da retina ou de outro órgão do corpo humano não pode deixar de ser uma sinalética ainda desconhecida da ciência. Os genomas mentais formam os conectomas que, além de armazenarem o saber, estão em permanente função de cálculo probabilístico. O ser humano, e até o animal nada sabe, apenas reconhece a probabilidade de o ruído parasita que constantemente modela, transforma e estabiliza os conectomas. E isso não é mais que um sistema de cálculo de probabilidades com funções de várias constantes prováveis de tipo qualitativo subdivididas em variáveis quantitativas. Qualquer evento percepcionável existe como tal, mas pode ter uma quase infinita variabilidade quantificável.

A mente humana deduz sempre a partir de um evento a probabilidade de o mesmo se repetir e de pertencer a um conjunto universal de eventos, variáveis nalguns aspectos, mas uniformes como ideias universais. Já os filósofos gregos tinham descoberto os universais que foram depois desenvolvidos como ideias abrangentes pelo filósofo escolástico francês Abelardo do ano mil.

O córtex cerebral produz em permanência cenários prováveis de um mundo perceptível, mas não forçosamente real, pelo menos no aspecto quantitativo. Daí a necessidade de corrigir com a “aritmética do Estado”, ou seja a estatística, no entender dos gregos, os dados produzidos nos conectomas pela mente com recurso aos eventos memorizados pela experiência do passado ou conhecimento aprendido.

Assim, de uma pequena colecção de eventos, por exemplo, burlas, a mente tende a favorecer uma função universal por desconhecer a amplitude do universo em que se inserem os eventos. Claro, nada nos diz que uma função não seja universal e que, por exemplo, todos os banqueiros não tendam a burlar seja quem for até à probabilidade limite de calcularem que não vão sofrer consequências negativas.

O cérebro é fundamentalmente uma máquina de calcular todas as causas possíveis de algo de percepcionou, daí que a diferença entre maior ou menor inteligência relativamente a qualquer fenómeno tem apenas a ver com stock de causas prováveis existente nos conectomas.

O mesmo sucede com os animais. Quase todos vêem apenas o movimento e calculam sempre a probabilidade deste ser uma ameaça. Contudo, aprendem que certos objectos em movimento como uma pessoa a praticar o “jogging” na Quinta dos Lilases não são uma ameaça e, por isso, nem os canídeos nem os pombos se preocupam com o corredor e mal se afastam quando passa. Mas os borrachos são mais medrosos e voam imediatamente logo que passa um “jogger”. Por sua vez, este, ao sentir um ruído de passos com uma certa cadência atrás de si, calcula que há uma probabilidade quase a 100% de ser igualmente um “jogger”; logo não é uma ameaça, mas se o ruído for muito diferente, a mente do fundista calcula a diferença entre a primeira probabilidade e outras, como por exemplo, dois cavalos da GNR a trote. A probabilidade de ser atropelado pelos equídeos não lhe parece grande dado que os cavaleiros da Guarda são profissionais experientes do ramo. Com a aproximação do ruído surge a certeza que se tratam mesmo de cavalos. Com ruídos dos casco, modificaram-se os parâmetros do cálculo probabilístico da mente.

Segundo Alexandre Pouget da Universidade de Rochester (EUA), “a haver uma equação probabilística do cérebro, ela virá dos chamados “circuitos canónicos” que são microarquitecturas neuronais que se repetem em todo o córtex cerebral e sempre idênticas” e, como tal, são as unidades fundamentais do cálculo probabilístico e correspondem às “portas lógicas” dos microprocessadores (agrupamentos de alguns transístores) com os quais o computador faz todos os cálculos. Só que no cérebro a separação entre o processo de cálculo e a memória é capaz de não ser idêntica à de um computador.

A simples visão de uma imagem implica já um cálculo. A pupila que nos parece parada, movimenta-se continuamente em pequenas sacudidelas que varre toda a imagem, transmitindo influxos nervosos de cima para baixo de um lado para outro. Muito animais não vêem objectos parados; o ser humano vê porque a pupila e a retina estão sempre em oscilação e nas camadas profundas do córtex para onde são lançados os influxos da imagem há circuitos canónicos aleatórios em oscilação permanente e a produzir um ruído parasitária, sempre preparada para trabalhar novos eventos. Yoshua Bengio da Universidade de Monreal diz que a taxa dos fenómenos cerebrais aleatórios tem fases de maior e menor intensidade, correspondendo a primeira a um estado de grande criatividade e a segunda a um estado de grande eficácia do tipo de cérebro meio desportista meio artista.

Em síntese, pode dizer-se que só o provável é produto da nossa mente, nunca o absolutamente certo, e daí que a inteligência colectiva resultante da interacção de muitas mentes também é probabilística, não havendo pois certezas sobre qualquer acontecimento, a não ser sobre uma parte do passado. A probabilidade mais aleatória aumenta com os grandes números, pois a mente humana tem uma dificuldade crescente no trabalho com os números, mas responde bem desde que a mente esteja treinada para funcionar com números universais de onde derivam as muitas parcelas que os compõem.

 

Enfim, pode ler-se quase tudo sobre o cérebro aqui.


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Publicado por DD às 00:35 de 05.07.09 | link do post | comentar |

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