Indignidade, orgulho e nação -vs- tolerância e bom senso

 -----   Castigo  indigno        (-Pedro Figueiredo, 16/3/2016, 365forte)

   Na primeira visita da actual ministra da Justiça à Assembleia da República, Francisca Van Dunem afirmou, a propósito das condições das prisões portuguesas, que o Estado tem o direito de suspender a liberdade aos seus cidadãos pelos crimes por estes cometidos, mas nunca a dignidade. Este deverá ser o ponto de partida com que o senado francês discutirá o projecto de revisão constitucional denominado Protecção da Nação, que hoje e amanhã tem lugar na câmara alta do parlamento francês. A votação final é dia 22.

    Para além de alterações ao estado de emergência, o documento prevê também a perda da nacionalidade aos franceses condenados por "um crime ou um delito que constitua um atentado grave à vida da nação".(?!  tudo o que o governo e secreta quiser !!) Já nem se fala em terrorismoA ideia original apresentada por Hollande ao congresso em Versalhes, três dias depois do ataque ao Bataclan, afectava apenas os detentores de dupla nacionalidade mesmo nascidos em França. No entanto, as críticas de discriminação não tardaram e a emenda foi pior que soneto: o texto final aprovado a 10 de Fevereiro na Assembleia Nacional incluiu todos os cidadãos. Sem excepção. O que, no caso de quem não tem dupla nacionalidade, significa tornar-se apátrida. Algo que o presidente francês, no mesmo discurso de Novembro, havia recusado.

     Foi ao argumento de “responsabilidade igual, sanções iguais” que o primeiro-ministro francês se agarrou na audição que teve para convencer os senadores a aprovar um texto que devia envergonhar o berço do Iluminismo. Assim explicaram os dois professores de direito constitucional que o Senado também já ouviu sobre o assunto. “Se o sentimento de pertença a uma nação não forja a ideia de comunidade política então é necessário retirar da Constituição as referências a valores e símbolos como a bandeira, o hino e o lema”, explicou Dominique Chagnollaud, continuando: “Os tempos conturbados em que vivemos são uma boa oportunidade para recordarmos certos princípios”. Os mesmos que serviram de base à Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão, de 1789, e que contagiou o Mundo de forma a que ainda hoje sirva de guia ideológico. Paris é, pois, um farol em perigo de perder luz. Que valha o Senado.

    A questão torna-se ainda mais incompreensível na medida em que a nacionalidade é um direito consagrado na Declaração Universal dos Direitos Humanos (art. XV) e qualquer violação é um atentado à dignidade da pessoa. Aqui levada a cabo pelo próprio Estado que se rege pelo princípio jus solis, atribuindo o direito de nacionalidade a todos os que nasçam em solo francês.  O código civil francês, no artigo 25º, já prevê a perda de nacionalidade. No entanto, salvaguarda os casos em que tal implique a criação de apátridas. Não há crime algum, por mais hediondo que seja, que justifique castigos indignos (tortura, pena de morte, apátrida, ...) inscritos na lei.

-----     os traques do (herói) Gama cheiravam a rosas     (-P.Pinto, 16/3/2016, Jugular)

    Não duvidem que sim. Quem sabe, às rosas produzidas pelo prof. Tournesol n'As Jóias da Castafiore, já que se trata de matérias com evidente afinidade. Nem estou a ver como não. Aliás, os mal-cheirosos só apareceram depois, muito depois. Há quem diga que foi com os Filipes, há quem afirme que foi com os liberais, e há quem jure a pés juntos que foi só em 1974. Nesses tempos gloriosos, não, nunca. A ver pelas reações da notícia que veio a lume há dois dias, a do anúncio da alegada descoberta dos destroços de uma nau portuguesa em Omã, nem outra hipótese é, sequer de considerar. Nesses tempos, tudo o que os portugueses faziam era heroico e glorioso e enche-nos (ou deveria encher-nos) de orgulho. Como diz um comentário à notícia, "É este o Portugal que me enche de orgulho, é neste país que me revejo, é esta a Pátria de nossos valerosos antepassados que Camões tantas vezes sublimou!". Outro diz "Notável descoberta reveladora uma vez mais da nossa capacidade, enquanto Nação", ... todo o fervor pátrio em poucas palavras: "O portugal Gigante. ...". Até o insigne deputado Carlos Abreu Amorim não se contém na sua emoção patriótica e deixa escapar um "Histórias de orgulho dos povos que têm história", na sua página do Facebook. É que, pelos vistos, há povos que não a têm; só os merecedores dela, concluí eu. Mas depois, já no Twitter, emendou a mão dizendo que "há povos que têm mais história que outros" e que nós "temos muita". Aqui, confesso, esgotaram-se-me os argumentos; já quando era puto tinha dificuldade em discutir com o senhor da mercearia.

    Bom. Eu cá não gosto muito de me pronunciar sobre glórias e heroísmos, mas posso dizer alguma coisa sobre orgulho. O orgulho é uma coisa magnífica: não custa nada, não precisa de ser aprendida ou treinada, não é parca nem rara e faz os seus possuidores sentirem-se no topo do mundo. Se é justificada ou não, é lá com cada um. Eu posso achar é que os faz passar por figuras ridículas, mas isso é apenas a minha opinião. Mas já agora, e se não tomar muito tempo, talvez fosse interessante olhar um bocadinho para os tais motivos de tão hiperbólico "orgulho". Na verdade, o que foi achado (assumindo que se confirma a autenticidade da atribuição dos vestígios às naus de Vicente Sodré) foram apenas destroços de naus portuguesas. Motivo de orgulho? bem... com certeza que sim, mas as mesmas faziam parte da 4ª armada que partiu de Lisboa para a Índia, portanto, é um orgulho assim já a dar para um bocejante déjà vu. A armada fez grandes serviços, feitos de navegação notáveis? Nem por isso, era uma armada de patrulha que Vasco da Gama deixou na Índia quando ele próprio regressou à Europa, para controlar a situação e proteger Cananor e Cochim dos ataques de Calecute. O capitão Vicente Sodré, aparentemente em desobediência ao seu sobrinho almirante, preferiu ir fazer razias aos navios muçulmanos que iam e vinham do Mar Vermelho. Se fossem navios árabes (ou vikings ou ... ingleses) a fazer o mesmo no Algarve - que o faziam, não duvidemos - seriam por cá chamados de "piratas"; mas como eram 'os nossos' portugueses no Índico, bom, nesse caso são heróis que nos enchem de "orgulho".

   Vicente Sodré era o comandante da pequena frota que ancorou junto às ilhas de Kuria-Muria (como eram chamadas na época). Os portugueses foram alertados pelos habitantes da terra da aproximação de uma tempestade. Podiam ter procurado abrigo, tiveram tempo, oportunidade, meios e informação para isso. Não o fizeram. Ou acharam que as âncoras e a robustez das naus resistiriam à tormenta, ou não quiseram perder presas e saques. Numa palavra, ou foram estúpidos (a bazófia nacional, ao contrário do heroísmo, não esmoreceu por cá, como se vê), ou gananciosos. Vicente Sodré, enquanto comandante da armada, foi incompetente e responsável pela perda de dois navios e de muitas vidas. A mim, pessoalmente, nada disto me suscita especial orgulho, mas isso deve ser cá defeito meu, a juntar à falta de patriotismo. Adiante: o resultado - naufrágio de ambas as naus - está à vista. O irmão de Vicente Sodré, Brás, que comandava a 2ª nau (S. Pedro, também afundada com a Esmeralda), apressou-se a mandar matar os pilotos árabes, aparentemente em vingança pela morte do irmão. Já nessa altura a culpa era sempre dos técnicos e nunca dos líderes, mas pronto: eis o excelente comportamento de um herói, merecedor dos maiores orgulhos, para quem assim achar.

    Bem. Ok. Vá lá, Vicente Sodré e os seus homens tinham defeitos, como todos nós. Eram subalternos que aproveitaram a ausência do patrão para umas farras e a coisa correu mal, ups!, falta de calo, azar, inexperiência, a gente desculpa. Agora se o insigne Vasco da Gama, o tal dos traques aromáticos, estivesse presente, ah caramba, aí a glória tinha escorrido abundantemente, tinha sido uma indigestão de heroicidade. Certo? Hmmm. Se os destiladores de orgulho conhecessem os pormenores da estadia do Gama na Índia, antes do tal regresso, não sei, se calhar tinham que fazer segunda destilação, quiçá mais refinada e discreta. É que a dita estadia (a 2ª na Índia, relembre-se) foi particularmente sanguinária e brutal. Como diz o cronista Gaspar Correia, o almirante regressou à Índia empenhado em, antes de mais, vingar as afrontas que sofrera na primeira viagem e as que padecera Pedro Álvares Cabral. Mais adiante, o mesmo cronista descreve um episódio sintomático. Sintomático de quê? De heroísmo e glória? Eu acrescentaria: claro (e especialmente aromáticos), mas também do espírito ecuménico e de tolerância que o nosso PR tão bem relembrou na sua tomada de posse. Aqui vai: primeiro torturou o embaixador (um brâmane hindu) do Samorim de Calecut para lhe extorquir informações. Depois, e como presente de despedida antes de o devolver ao seu senhor, "mandou cortar os beiços de cima e de baixo [...] e mandou cortar as orelhas a um cão da nau, e as mandou apegar e coser com muitos pontos ao brâmane no lugar das outras".

      Já anteriormente atacara um navio carregado de peregrinos muçulmanos que vinham de Meca (sobretudo mulheres e crianças) para Calecut e recusara todas as ofertas de resgate (as riquezas do navio eram imensas) pelas respetivas vidas. Em vez disso, mandou imobilizá-lo e afundá-lo a tiros de bombarda e, depois, pegar-lhe fogo. As mulheres gritavam e mostravam dinheiro e jóias, pedindo misericórdia para resgatar as suas vidas; "algumas tomavam nos braços os seus filhinhos e os levantavam ao ar, persuadindo-o assim que tivesse piedade daqueles inocentes". O herói Vasco da Gama assistiu a tudo de uma escotilha e manteve a sua postura impassível. Não sou eu quem o diz, é o português Tomé Lopes, que estava a bordo e assistiu a tudo. O mesmo que registou que os eventos tiveram lugar a 3 de outubro de 1502, dia que, como afirma, "hei de recordar todos os dias da minha vida". Eu entendo. Quem assiste a tamanho banho de glória não se esquece e, 500 anos depois, não faz esmorecer o gorgulho a quem o relembra. Orgulho, orgulho, bolas, maldito corretor. Os traques do Gama cheiravam a rosas? Enganei-me, queria dizer cheiram.

     --- J.S.:    Quando os outros fazem as coisas são bárbaros, medievais, mauzões, o que se quiser. Quando somos nós, chamamos-lhe heroísmo. Vamos admitir que os disparates escritos ... são fruto da ignorância. Para sermos bonzinhos. É que se não são fruto da ignorância, então o que estes  comentadores andam a fazer é a apologia do genocídio... Ponto final.



Publicado por Xa2 às 08:49 de 19.03.16 | link do post | comentar |

Arménia e genocídio

Recordar a Arménia, no centenário do início do genocídio  (-J.Lopes, 24/4/2015, Entre as brumas)

     Do primeiro genocídio do século XX (muitos outros ocorreram antes e depois, para vergonha da humanidade), resultou quase um milhão e meio de mortos, deportações e milhares e milhares de fugitivos. Na noite de 24 de Abril de 1915, (por militares e milícias turcas) foram detidas e deportadas para a parte leste do país/império mais de 200 personalidades («políticos» e «intelectuais»), acontecimento que passou a ser simbolicamente considerado como o início do massacre (e deportação para os desertos da Síria e do Iraque).
    O processo foi aqui diferente do adoptado mais tarde pelos nazis (no holocausto), já que a limpeza étnica não se baseou em teorias sobre raças (mas, principalmente, na diferença de língua e religião, cristã). Por exemplo, dezenas de milhares de mulheres e crianças foram raptadas  e adoptadas por famílias (turcas) muçulmanas e depois convertidas (ao islão). (A maioria dos homens e rapazes que não conseguiram fugir foram fuzilados, enforcados ou passados pela espada*, enquanto as raparigas e mulheres foram forçadas a caminhar centenas de kms, esfomeadas, maltratadas, violadas, vendidas, casadas com desconhecidos... Os seus bens foram roubados ou destruídos, incluindo igrejas e bibliotecas).
     Famílias inteiras fugiram (as que puderam), dispersando-se primeiro pelas terras/países mais próximos e depois um pouco por todo o mundo (França, R.U., URSS, EUA, ...). O país/povo tem ainda hoje uma vastíssima diáspora (os descendentes dos "restos da espada"* que conseguiram fugir) que sonha, maioritariamente, em regressar a casa e reconstruir a «Grande Arménia». 
Registo um caso particular com que lidei quando passei uns dias nessas magníficas e sofridas paragens:  a guia que acompanhou o grupo em que me integrei, muito jovem, era iraniana / arménia e os avós escaparam por um fio ao Genocídio.    Fugiram com a família, andaram pela Rússia e acabaram por se instalar no Irão. Multiplicaram e os descendentes por lá se mantêm, sonhando com a possibilidade de regressarem à terra dos antepassados, que querem ajudar a reconstruir. Não é fácil para todos, mas foi o que esta neta já fez:  guia e intérprete de espanhol em Teerão, foi deixando de ter trabalho por diminuição de visitantes àquelas paragens (por razões óbvias) e aproveitou o movimento inverso de desenvolvimento do turismo na Arménia. Uma irmã já se lhe juntou e espera que mais possam «regressar» a uma espécie de terra prometida – é assim que a sentem.
     Charles Aznavour, nascido em França mas filho de emigrantes arménios, verdadeiro herói nacional, canta em honra dos que «caíram» nesta terrível fase histórica de barbárie:

P.S. – A foto que está a meio do post é do monumento comemorativo do 50º aniversário do Genocídio, que vi em Echmiazin (na Rep. da Arménia).
--- Na Rep. da Turquia ainda hoje é tabu cultural e crime falar/lembrar o genocídio exercido em 1915 sobre os arménios, concidadãos de 2ª classe do império turco otomano; também nos países muçulmanos, bem/mal como nos aliados da NATO (incluindo Portugal), as autoridades se coibem de falar desse expiatório e execrável crime colectivo e de estado
--- O genocídio foi despoletado por uma pesada e humilhante derrota dos otomanos em batalha contra os russos, sendo alguns arménios acusados de deserção e passagem para o lado inimigo, 'culpa' que rapidamente foi alargada a todos os soldados arménios nas fileiras otomanas e a toda a comunidade arménia (e cristã), tornada 'bode expiatório' das suas frustações e perdas militares (devido à impreparação do império e inépcia dos comandantess e governantes) ...
--- Após a derrota (e dissolução) do Império Otomano na 1ªGG, foi criada a República da Arménia integrada na URSS, sendo hoje um país independente que compreende uma parte (a leste da Turquia e 'berço') do que era a "Grande Arménia", que estava sob domínio do grande mas enfraquecido império turco otomano
--- Para Portugal, na 2ªGG, veio Calouste Sarkis Gulbenkian (arménio exilado em França e Inglaterra, o eng."sr.5%" dos contratos de exploração petrolífera negociados por ele em representação do Império Otomano junto das companhias inglesas, francesas, americanas,...), cuja fundação tem um serviço dedicado à cultura Arménia e apoio às comunidades arménias, estejam elas na Rep. Arménia, na Turquia, na Síria, etc.
--------- Sobre a Arménia, suas gentes e cultura ver também o filme ARtMENIANS, passado na RTP, e comentários e posts de H.Araújo.


Publicado por Xa2 às 07:22 de 27.04.15 | link do post | comentar | ver comentários (3) |

Repúblicas e ditadura -vs- democracia

Rescrever a História?   (Aventar, 01/10/2014 por António de Almeida)

-O Estado Novo existiu. É um tempo Histórico que ninguém deseja ver repetido, mas também não deve ser esquecido. Muito menos apagado como se entre 1926 (28 maio) e 1974 (25 abril) ninguém tivesse exercido o cargo de Presidente da República em Portugal. Ou não se realizaria uma exposição e parece-me duvidoso que a presença de 3 personagens o justifique, ou se vamos pelo carácter provavelmente alguns dos políticos da 1ª república talvez merecessem um escrutínio mais apertado. Isto para não ir mais longe, porque se abrirmos a caixa de Pandora acabamos a retirar as estátuas do Marquês de Pombal. Tenham juízo. Apagar imagens e rescrever História é prática de regimes totalitários, não de Democracias.

-O assunto nem merece toda esta polémica que se levantou à volta dos bustos. Mas então porque não retirar os quadros de todos os Presidentes da República que estão expostos no Palácio de Belém. Durante 40 anos ninguém levantou a questão. Nestes 40 anos em sucessivas audiências aos diversos P.R. terão passado extremistas e radicais durante o PREC, enquanto líderes de oposição Álvaro Cunhal, Carlos Carvalhas, Jerónimo de Sousa ou Francisco Louçã entre outros. Quando este programa foi para o ar na RTP, ocupava o Palácio de Belém como chefe de Estado, Mário Soares. Será ele também um perigoso revisionista que pretende branquear o passado? Os quadros podem ficar expostos em Belém, mas os bustos em S.Bento já são intoleráveis? Porquê agora, passados 40 anos? Ou tem apenas a ver com o momento político e querem à força arranjar mais uma disputa ideológica?

Bustos       (01/10/2014 por José Gabriel)

Já cá faltavam as boas almas a desancarem o PCP, os Verdes e o BE pela oposição que aqueles partidos manifestaram à presença dos bustos dos “presidentes” nomeados por Salazar na exposição da Assembleia da República. Pois eu subscrevo o protesto daqueles deputados. E isso não tem nada a ver com o “apagar da história” com que tanto se preocupam alguns.

Deixando de lado o facto de a exposição de bustos ter sempre associada a ideia de homenagem – dou de barato que não será esse o caso – a questão é de saber se o tempo que vivemos é a ou a República, ou seja, se o período fascista foi uma fase da República Portuguesa. Se esse regime se plasma numa “res-publica”, coisa do povo, coisa pública. Na minha modesta opinião, não. Logo, é totalmente desadequado classificar os três títeres fascistas como “presidentes da república”, já que tal república não existia. Não podemos ficar reféns da dicotomia república-monarquia. Diria mesmo, talvez para escândalo de alguns, que a monarquia constitucional em Portugal teve momentos mais próximos dos valores republicanos que o Salazarismo.

Peninsulares   (02/10/2014 por João José Cardoso)

Onde, na Europa, um parlamento expõe bustos dos seus ditadores do séc. XX? na Alemanha ou em França, países com legislação anti-revisionista, que têm metido na cadeia os que tentam branquear a História?

Imaginam vária imprensa e imensos blogues a glorificarem um criminoso de guerra e terrorista confesso por altura do seu falecimento nesses dois países, ou numa Bélgica ou Holanda?

Estão a ver os partidos de um governo na defesa da “memória” de um Hitler (que até foi eleito), das estátuas de Estaline ou pregando por Petain?

Neste canto da Europa, o ibérico, também a desgraça nos une. O governo espanhol e o português juntam-se na mesma mistificação, são governos sabonete, lavam e ainda perfumam. Somos o canto das ditaduras que não soubemos extirpar, uns trocaram a democracia pela desonra dos seus milhares de heróis assassinados pelo bárbaro Franco, nós deixámos que lentamente o Estado Novo seja visto com a brandura habitual proclamada pelos seus herdeiros.

Somos a vergonha da Europa.

 



Publicado por Xa2 às 07:45 de 04.10.14 | link do post | comentar |

Os nossos avós eram drogados e não sabiam (IV)

Olhem 100 a 120 anos para trás e...pasmem! Os "remédios" dos nossos avós...

Maltine

Este vinho de coca foi fabricado pela Maltine Manufacturing Company de Nova York.

A dosagem indicada dizia: "Uma taça cheia junto com, ou imediatamente após, as refeições. Crianças em proporção."


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Publicado por Zurc às 00:01 de 22.05.11 | link do post | comentar | ver comentários (1) |

Os nossos avós eram drogados e não sabiam (III)

Olhem 100 a 120 anos para trás e...pasmem! Os "remédios" dos nossos avós...

Vinho Mariani

O Vinho Mariani (1865) era o principal vinho de coca do seu tempo.

O Papa Leão XIII carregava um frasco de Vinho Mariani consigo e premiou o seu criador, Ângelo Mariani, com uma medalha de ouro.


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Publicado por Zurc às 00:03 de 13.05.11 | link do post | comentar |

Os nossos avós eram drogados e não sabiam (II)

Olhem 100 a 120 anos para trás e...pasmem! Os "remédios" dos nossos avós...

Vinho de Coca

O vinho de coca da Metcalf era um de uma grande quantidade de vinhos que continham coca disponíveis no mercado. Todos afirmavam que tinham efeitos medicinais, mas indubitavelmente eram consumidos pelo seu valor "recreador" também.


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Publicado por Zurc às 00:00 de 27.04.11 | link do post | comentar |

Os nossos avós eram drogados e não sabiam (I)

Olhem 100 a 120 anos para trás e...pasmem!

Os "remédios" dos nossos avós...

Um frasco de heroína da Bayer.

Entre 1890 a 1910 a heroína era divulgada como um substituto não viciante da morfina e

um remédio contra tosse para crianças.


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Publicado por Zurc às 00:01 de 18.04.11 | link do post | comentar |

Academias Musicais no Lumiar – Século XIX

No Lumiar, em Lisboa, existem ainda duas colectividades dos finais do século XIX, que se mantêm firmes, resistindo aos tempos, embora com dinâmicas diferentes, ambas fazem parte da história do Lumiar e da cidade de Lisboa.

Academia Musical Joaquim Xavier Pinheiro de 1888

Localiza-se na Alameda das Linhas de Torres ao n.º 45, próximo do estádio Alvalade XXI, edifício de primeiro andar, apresenta uma planta rectangular simples discreto, nem se dá conta dos seus 123 anos de História.

Não conheço actualmente a sua actividade recreativa, mas não deve ser muito expressiva, possivelmente não passa actualmente de um local para bater umas cartas nas mesas ou outro tipo de jogos de mesa, fomentava a modalidade ténis de mesa.

Academia Musical 1º de Junho de 1893

No Largo Júlio Castilho n.º 3, vizinha do Museu do Traje, vamos encontrar um bom exemplo de colectividade, recentemente efectuou grandes obras de requalificação no seu interior, dispõem de uma notável actividades nos campos da cultura através da Música, Teatro, danças de salão, grupo coral, responsável pelas marchas do Lumiar, aquando das festas de S. António em Lisboa.

Dinamiza ainda a praticado atletismo, Basquetebol, orientação e xadrez, dispõem ainda de um blog (http://academialumiar.blogs.sapo.pt)

Parabéns pelos seus 118 anos de História.

O Lumiar tem tradição, defendo vivamente a preservação destes espaços, a população do Lumiar ou melhor dizendo os Lisboetas, devem de forma natural manterem a tradição das colectividades.

João Carlos Antunes



Publicado por Gonçalo às 00:01 de 13.03.11 | link do post | comentar |

No Lumiar, Estúdios da Tobis à venda, um ícone do Cinema Português

O Estado Português quer vender a sua actual participação maioritária no capital da Tobis, o estúdio histórico do cinema português, localizado no Lumiar, em Lisboa. A base de licitação para a operação pode aproxima-se dos sete milhões de euros.

O anúncio da venda já saiu em Diário da República, com a indicação de que as propostas de aquisição deverão ser entregues junto do Instituto de Cinema e Audiovisual, até 9 de Março próximo. Nesse mesmo dia, as propostas recebidas serão abertas em sessão pública.

Gostaria de deixar um pouco da sua história, é sempre bom reviver momentos de ouro do cinema Português e da sua ligação ao Lumiar.

Em 1920 – Francisco Mantero vende terreno com antigas edificações da Quinta das Conchas, mediante escritura de 5 de Janeiro, à empresa Técnica Publicitaria Film Gráfica Caldervilha.

Em 1932 – A companhia Portuguesa de filmes sonoros Tobis Klangfilm é constituída a 3 de Junho. Um mês de depois, adquire uma parcela de terreno da Quinta das Conchas, outrora vendido por Francisco Mantero à empresa Técnica Publicitaria Film Gráfica Caldervilha e aqui nascia o primeiro estúdio da companhia Portuguesa de filmes sonoros Tobis Klangfilm.

Em 1934 A companhia Portuguesa de filmes sonoros Tobis Klangfilm, que entretanto mudou a sua designação para Tobis Portuguesa, inaugura a 17 de Agosto o novo estúdio, aqui viriam a ser filmados obras como:

A Canção de Lisboa, realizado por Cottinelli Telmo (com Beatriz Costa, Vasco Santana, António Silva e… Manoel de Oliveira). (1933),

As Pupilas do Senhor Reitor, de Leitão de Barros, segunda longa-metragem. (1935),

Maria Papoila, de Leitão de Barros. (1937),

João Ratão, de Jorge Brum do Canto, apresentado com o filme cultural Primeira Travessia Aérea do Atlântico Sul de Fernando Fragoso e Raul Faria da Fonseca. (1940),

O Pai Tirano, de António Lopes Ribeiro ou O Pátio das Cantigas produzido por António Lopes Ribeiro e realizado Francisco Ribeiro (Ribeirinho). (1941),

O Costa do Castelo, de Arthur Duarte. (1943),

A Menina da Rádio, de Arthur Duarte,

O Leão da Estrela, de Arthur Duarte, com António Silva, Milú, Erico Braga, Curado Ribeiro, Laura Alves, Artur Agostinho, Maria Olguim. (1947).

A Tobis, teve um papel importante no âmbito da indústria cinematográfica nacional, na sua contribuição para o desenvolvimento do cinema em Portugal e na sua inserção no contexto mais geral da história contemporânea portuguesa; próximo de 80 anos de história na fabricação de cinema em Portugal, está a viver uma página negra na sua história, o futuro para os 66 trabalhadores não está fácil, a maioria com mais de 25 anos de casa, não são excepção no que toca por vezes ao pagamento dos salários em atraso.

Os estúdios estão integrados numa malha urbana, bastante apetecível aos especuladores imobiliários, vamos ver o que este filme nos reserva, esperando que tenha um final feliz.

João Carlos Antunes



Publicado por Gonçalo às 10:59 de 06.03.11 | link do post | comentar |

Edifício Escolar da Sociedade José Estêvão em ruína no Lumiar, em Lisboa

Este edifício localiza-se no centro do Lumiar, entalado entre dois edifícios modernos, junto do Centro Comercial na Alameda das Linhas de Torres, teimosamente resiste, dando apenas neste momento abrigo aos pombos que por lá fazem a sua vida.

Em 2007 suspeitava-se que iria ser substituído por mais um bloco de cimento, pois o estado de degradação era tal que colocava em risco à data, a segurança de quem por ali passava.

Passados quatro anos, como devem calcular o risco aumentou consideravelmente, embora tenha sido colocado uma protecção junto ao passeio, para evitar males maiores.

Este edifício foi em tempos aula infantil, cantina e balneário e pertenceu à Sociedade Instrução e Beneficência José Estêvão fundada em 1911, perfazendo agora o seu centenário.

O Lumiar irá perder mais um ponto de interesse local e assim se apaga a história.

Aproveito o momento para falar dos centros escolares republicanos que fazem parte da riquíssima história do associativismo, tão vigoroso na segunda metade do século XIX e nas primeiras décadas do século XX e o Lumiar faz parte deste roteiro Republicano.

Fenómeno também europeu o associativismo oitocentista visava responder aos problemas e solicitações sociais decorrentes de transformações muito importantes, então vividas tanto na sociedade portuguesa como nas demais sociedades dos países ocidentais.

Entre essas transformações, merece referência particular o fenómeno do desenvolvimento das cidades, decorrente do crescimento demográfico e das intensas migrações do campo para as cidades.

É neste contexto historicamente inédito que se assiste ao declínio de formas tradicionais de sociabilidade, à proletarização de camadas importantes da sociedade, à emergência de formas novas de pobreza e mesmo ao agravamento de formas de comportamentos desviantes como o alcoolismo, a vadiagem e a prostituição. Da imensa variedade de todos esses problemas decorre a infinita variedade das associações então criadas, muito diversas quanto à sua natureza, às suas finalidades e às qualidades e condições sociais dos seus associados.

As associações surgem assim como resposta a problemas sociais graves de desenraizamento e de sociabilidade, pois visam o reenquadramento social do indivíduo, sobretudo urbano, numa determinada “associação”, que pode ter objectivos meramente bairristas, ou então sérias motivações profissionais, culturais, filantrópicas, cívicas, políticas, recreativas ou mesmo explicitamente educativas.

A pujança do associativismo oitocentista acaba por envolver todas as camadas sociais, embora seja de longe mais intenso nas cidades, entre as classes médias e as camadas mais pobres da sociedade.

Sabemos que a generalidade das associações tinha objectivos estritamente laicos e era muitas vezes politicamente progressista. Muitas das associações criadas entre nós no último quartel do século XIX tinham, porém, uma importante acção cultural e educativa.

Era necessário e urgente acudir ao gravíssimo problema social proporcionado pela existência de amplas camadas infanto-juvenis vítimas da pobreza, da orfandade, do abandono e do analfabetismo. Face à falência ou à inoperância dos sistemas assistenciais e educativos do Estado, muitas associações procuraram contribuir, cada uma de acordo com a sua natureza, os seus fins e os seus meios para a resolução, sempre pontual e localizada, dos problemas sociais vividos pelas crianças e jovens da comunidade em que se integravam e que serviam. Por isso, muitas das associações então criadas procuravam contribuir para a criação e sobretudo para a educação das crianças desprotegidas, de modo a transforma-las em verdadeiros cidadãos, devidamente escolarizados, portadores de uma eficiente formação profissional, como hoje diríamos e, enfim, úteis à comunidade.

Por outro lado, face às fragilidades do sistema oficial de ensino, nomeadamente ao nível do ensino primário, havia que procurar alternativas mais ou menos informais e até improvisadas mas que respondessem, mesmo que parcialmente, a alguns dos problemas inerentes à deficiente escolaridade dos portugueses e em particular ao problema do analfabetismo. Assim, desde pelo menos o início dos anos 80 do Século XIX que se vão improvisando e ensaiando, promovidos por entidades particulares, modelos organizativos de escolas e de cursos alternativos à escola oficial e às suas graves deficiências. Visava-se quer o combate às carências escolares de sectores importantes da população, quer o ensaio de modelos escolares e pedagógicos alternativos, eventualmente conducentes a uma praxis e a uma escola “nova” e mesmo “republicana”.

Pela sua origem, pela sua natureza, pelos seus objectivos e até pelos seus estatutos, os Centros Escolares Republicanos distinguem-se de outras associações e sociedades da época, mesmo quando estas também tivessem, embora sempre subsidiariamente, objectivos educativos. Com efeito, os Centros Escolares Republicanos, pelos seus estatutos, tinham como objectivo determinante uma função escolar, proporcionando educação e formação a segmentos importantes da comunidade em que se inseriam e que serviam. Os Centros Escolares Republicanos distinguem-se, do mesmo modo, dos chamados Centros Republicanos, pois estes tinham essencialmente objectivos políticos e partidários.

João Carlos Antunes



Publicado por Gonçalo às 00:11 de 27.02.11 | link do post | comentar | ver comentários (2) |

A origem do conceito de "licença de parto"

Num período de dois anos, entre 1913 e 1915, a América seguiu atentamente uma dura batalha judicial que haveria de mudar radicalmente a forma como as mulheres eram encaradas nos locais de trabalho.

Uma professora de Nova Iorque fora despedida a 22 de Abril de 1913 por estar grávida, com as autoridades escolares a defenderem o despedimento com base em “negligência do dever com o propósito de dar à luz”.

Numa atitude rara para a época, a professora não aceitou a decisão dos seus superiores e levou o caso para tribunal. Dois anos depois, o processo acabaria por instituir as bases de um direito que alastraria por todo o globo: a licença de parto. Esta professora, pioneira na luta pelos direitos laborais das mulheres chamava-se Bridget Peixotto e era membro da comunidade de judeus nova-iorquinos de ascendência portuguesa.

Bridget casara a 12 de Fevereiro de 1912 com Francis Raphael Maduro Peixotto, um corretor de seguros — que, nascido em 1860, era 20 anos mais velho que ela. Quando casou, Bridget Peixotto trabalhava já há 18 anos no sistema de ensino primário nova-iorquino, tendo passado com distinção os exames de promoção aos escalões mais elevados do magistério primário.

No ano lectivo de 1912/1913, Bridget e Francis Maduro Peixoto moravam no número 41 de St. Nichols Terrace, em Manhattan, ela era professora principal da Escola Pública 14, em Thongs Neck, Bronx, auferindo um salário anual de 2400 dólares (o que daria hoje qualquer coisa como 4500 dólares mensais ajustados pela inflação).

Em Fevereiro de 1913, Bridget Peixotto adoece gravemente enquanto estava grávida e notifica de imediato as autoridades escolares, tal como obrigava a lei. Na altura, no entanto, as professoras não podiam continuar na profissão depois de darem à luz, uma vez que a sociedade não via com bons olhos que uma mulher casada, e mãe de filhos, trabalhasse fora de casa.

Bridget Peixotto acabou por ser suspensa e seguidamente despedida — enquanto estava ainda no hospital depois de ter sido mãe de Helen Esther Peixotto — por “negligência do dever com o propósito de dar à luz”.

Não se dando por vencida, Bridget Peixotto desafia a acusação e a própria ideia de que uma mulher não poderia continuar a ensinar depois de ser mãe. Citada na edição de 29 de Maio de 1913 do New York Times, ela afirma: Contestarei o caso até ao fim. O Conselho Educativo, ao permitir que mulheres casadas ensinem ao mesmo tempo que as proíbe de cumprirem uma função fundamental do casamento, está a agir de forma ilegal. É absolutamente imoral e não será apoiado por nenhum tribunal. Em nenhum lado se pode proclamar a maternidade como uma negligência do dever. É permitido às mulheres casadas ensinarem nas escolas públicas, mas negasse-lhes tempo para que tenham filhos.

Em primeira instância, a verdade é que o Conselho Educativo manteve a decisão, votando 27 contra 5 em favor do despedimento de Bridget Peixotto. É então que ela avança para os tribunais. Depois de ver o processo arrastar-se infinitamente, com várias decisões judiciais em seu favor, por ordem do Supremo Tribunal, em 1914 Bridget Peixotto faz uma exposição ao Comissário Estadual para a Educação, John Huston Finley, que anos mais tarde seria director do New York Times. Em resposta, Finley dá-lhe razão e escreve: A Senhora Peixotto foi acusada de negligência do dever, mas não foi declarada culpada de negligência — foi sim declarada culpada de ter dado à luz.

Finalmente, em Janeiro de 1915, numa decisão histórica, John Finley dá ordens para que Bridget Peixotto seja reabilitada nas suas funções prévias com salário pago por completo. Três anos depois, em 1918, ela tornar-se directora da escola, mantendo-se no magistério primário em Nova Iorque até se reformar, em 1948, quando atingiu a idade limite de 70 anos.

Bridget Peixotto faleceu a 10 de Abril de 1972, em Nova Iorque, aos 92 anos de idade, deixando um legado invejável. No obituário que lhe dedicou dois dias após o seu falecimento, o New York Times afirmava que ela era responsável pela institucionalização da licença de parto por todo o país e pelo mundo: O seu caso permitiu que largos milhares de mulheres pudessem tirar uma licença para dar à luz. A decisão motivou também alterações no sistema do sector privado, fazendo com que hoje seja perfeitamente normal que uma mulher possa manter o emprego quando fica grávida.


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Publicado por JL às 00:14 de 30.01.11 | link do post | comentar | ver comentários (2) |

Do 'Santa Maria' para o mundo o "maior comício" anti-Salazar

Há 50 anos, não havia redes sociais, mas a tomada de um paquete com 600 passageiros e 350 tripulantes por um punhado de 23 revolucionários mal armados teve o efeito de um comício à escala planetária: a comunidade internacional virou as costas a Salazar.

"Se não foi outra coisa", o assalto ao paquete português "Santa Maria", na madrugada de 22 de Janeiro de 1961, no mar das Caraíbas "foi o maior comício do mundo contra Salazar, foi um comício à escala planetária, foi um sufrágio mundial à credibilidade do regime fascista". Camilo Mortágua, então com 27 anos, foi um dos 12 exilados políticos portugueses em Caracas, Venezuela, a embarcar na aventura do Directório Revolucionário Ibérico de Libertação (DRIL). Com 11 espanhóis, idealizaram apossar-se do navio, rumar à ilha de Fernando Pó, apoderar-se de uma canhoneira e de armas da guarnição militar espanhola, apontar a Luanda, assumir o poder na colónia portuguesa, instalar um governo provisório e irradiar a sublevação armada contra as ditaduras peninsulares.

Liderados pelo capitão Henrique Galvão, importante quadro dissidente do regime e delegado plenipotenciário do general Humberto Delgado (outro dissidente, depois de ter ocupado destacados cargos), derrotado na farsa das eleições presidenciais de 1958, os revolucionários acabariam por ver frustrados os seus objectivos. Mas não completamente os políticos imediatos. "Pretendia-se uma operação com impacto", conta Mortágua [ler entrevista]. E teve: a "Operação Dulcineia" - em alusão à quimérica dama do D. Quixote ("D. Quixote de la Mancha") de Cervantes - convocou a imediata atenção dos média de todo o Mundo, que se precipitaram a enviar repórteres.

Com os jornais do país submetidos a férrea censura e manipulados pelas notas oficiosas do Governo, apenas os estrangeiros podiam narrar o acontecimento (a primeira captura de um navio por razões políticas, como viria a sê-lo o desvio de um avião da TAP 11 meses depois) e  colocar na agenda internacional a ditadura. Foi através da cadeia de televisão norte-americana NBC que Galvão, que partilhava a liderança da operação com o comandante "Jorge Soutomaior" (nome de guerra do galego José Hernánez Vasquez, ex-combatente comunista na Guerra Civil de Espanha), invocou a condição de combatente político e neutralizou a arma diplomática de Salazar. Acusando os revolucionários de pirataria, o ditador pretendia que os aliados na NATO, com a frota norte-americana no Atlântico à frente, recapturassem o paquete. França e Holanda não reagiram; a Inglaterra desistiu face à pressão trabalhista. Só os Estados Unidos se fizeram ao mar, com cinco vasos de guerra e uma esquadrilha de aviões.

A esquadra aeronaval dos EUA localizou o "Santa Maria" cinco dias após a aventura começar. O barco zarpara no dia 20 do porto venezuelano de La Guaira, com destino a Miami. Dissimulada entre os 600 passageiros seguia uma parte do comando revolucionário; a outra embarcou clandestinamente e acoitou-se com armas. Três outros homens, Galvão entre eles, entrariam no dia seguinte em Curaçao.

A acção foi desencadeada cerca da 1.10 horas do dia 22. Foi rápida - coisa de dez ou 15 minutos. Na tomada da ponte de comando, um oficial de bordo é morto e outro gravemente ferido. O desembarque humanitário de feridos, no dia 23, na ilha de Santa Lucia - decisão controversa na liderança - foi fatal: denunciou a presença do navio, atrasando a navegação para África.

Só no dia 25 foi avistado, mas não abordado. Galvão insistiu com os EUA que se tratava de um acto político e não de pirataria vulgar. John Kennedy, recentemente eleito, cede. Entre 27 e 31 de Janeiro, decorrem conversações entre os líderes do comando e o contra-almirante Allen Smith, em representação dos EUA, atentas à alteração política no Brasil: hostil aos revolucionários, o presidente cessante, Kubitchek de Oliveira, seria substituído no dia 1 de Fevereiro por Jânio Quadros, democrata amigo de Delgado. No dia 2, o navio chega a Recife e os revolucionários recebem asilo político.

Mas já nada será como dantes. "O governo fascista de Salazar está menos seguro no poder do que julga", sentencia o clandestino "Avante!", classificando a operação do "Santa Maria" como "uma séria derrota" e anunciando "um novo período de ascenso revolucionário". E 1961 foi muito agitado.

[Jornal de Notícias]



Publicado por JL às 12:21 de 22.01.11 | link do post | comentar | ver comentários (1) |

Memórias de Portugal Respeitado
Corria o ano da graça de 1962. A Embaixada de Portugal em Washington recebe pela mala diplomática um cheque de 3 milhões de dólares (em termos actuais algo parecido com € 50 milhões) com instruções para o encaminhar ao State Department para pagamento da primeira tranche do empréstimo feito pelos EUA a Portugal, ao abrigo do Plano Marshall.

O embaixador incumbiu-me – ao tempo era eu primeiro secretário da Embaixada – dessa missão.

Aberto o expediente, estabeleci contacto telefónico com a desk portuguesa, pedi para ser recebido e, solicitado, disse ao que ia. O colega americano ficou algo perturbado e, contra o costume, pediu tempo para responder. Recebeu-me nessa tarde, no final do expediente. Disse-me que certamente havia um mal entendido da parte do governo português. Nada havia ficado estabelecido quanto ao pagamento do empréstimo e não seria aquele o momento adequado para criar precedentes ou estabelecer doutrina na matéria. Aconselhou a devolver o cheque a Lisboa, sugerindo que o mesmo fosse depositado numa conta a abrir para o efeito num Banco português, até que algo fosse decidido sobre o destino a dar a tal dinheiro. De qualquer maneira, o dinheiro ficaria em Portugal. Não estava previsto o seu regresso aos EUA.

Transmiti imediatamente esta posição a Lisboa, pensando que a notícia seria bem recebida, sobretudo num altura em que o Tesouro Português estava a braços com os custos da guerra em África. Pensei mal. A resposta veio imediata e chispava lume. Não posso garantir a esta distância a exactidão dos termos mas era algo do tipo: "Pague já e exija recibo". Voltei à desk e comuniquei a posição de Lisboa.

Lançada estava a confusão no Foggy Bottom: - não havia precedentes, nunca ninguém tinha pago empréstimos do Plano Marshall; muitos consideravam que empréstimo, no caso, era mera descrição; nem o State Department, nem qualquer outro órgão federal, estava autorizado a receber verbas provenientes de amortizações deste tipo. O colega americano ainda balbuciou uma sugestão de alteração da posição de Lisboa mas fiz-lhe ver que não era alternativa a considerar. A decisão do governo português era irrevogável.

Reuniram-se então os cérebros da task force que estabelecia as práticas a seguir em casos sem precedentes e concluíram que o Secretário de Estado - ao tempo Dean Rusk - teria que pedir autorização ao Congresso para receber o pagamento português. E assim foi feito. Quando o pedido chegou ao Congresso atingiu implicitamente as mesas dos correspondentes dos meios de comunicação e fez manchete nos principais jornais. "Portugal, o país mais pequeno da Europa, faz questão de pagar o empréstimo do Plano Marshall"; "Salazar não quer ficar a dever ao tio Sam" e outros títulos do mesmo teor anunciavam aos leitores americanos que na Europa havia um país – Portugal – que respeitava os seus compromissos.

Anos mais tarde conheci o Dr. Aureliano Felismino, Director-Geral perpétuo da Contabilidade Pública durante o salazarismo (e autor de umas famosas circulares conhecidas ao tempo por "Ordenações Felismínicas" as quais produziam mais efeito do que os decretos do governo). Aproveitei para lhe perguntar por que razão fizemos tanta questão de pagar o empréstimo que mais ninguém pagou. Respondeu-me empertigado: - "Um país pequeno só tem uma maneira de se fazer respeitar – é nada dever a quem quer que seja".

Lembrei-me desta gente e destas máximas quando há dias vi na televisão o nosso Presidente da República a ser enxovalhado pública e grosseiramente pelo seu congénere checo a propósito de dívidas acumuladas.

Eu ainda me lembro de tais coisas, mas a grande maioria dos Portugueses de hoje nem esse consolo tem.

Estoril, 18 de Abril de 2010
Luís Soares de Oliveira


Publicado por [FV] às 18:27 de 29.04.10 | link do post | comentar | ver comentários (9) |

Alexandre Herculano : exemplo de Português
 Alexandre Herculano de Carvalho e Araújo nasceu em Lisboa, em 28 de Março de 1810 numa modesta família de origem popular; a mãe, Maria do Carmo de São Boaventura, filha e neta de pedreiros da Casa Real; o pai, Teodoro Cândido de Araújo, era funcionário da Junta dos Juros (Junta do Crédito Público).

    Na sua infância e adolescência não pode ter deixado de ser profundamente marcado pelos dramáticos acontecimentos da sua época: as invasões francesas, o domínio inglês e o influxo das ideias liberais, vindas sobretudo da França, que conduziriam à Revolução de 1820. Até aos 15 anos frequentou o Colégio dos Padres Oratorianos de S. Filipe de Néry, então instalados no Convento das Necessidades em Lisboa, onde recebeu uma formação de índole essencialmente clássica, mas aberta às novas ideias científicas.

      Impedido de prosseguir estudos universitários (o pai cegou em 1827, ficando impossibilitado de prover ao sustento da família) ficou disponível para adquirir uma sólida formação literária que passou pelo estudo de inglês, francês, italiano e alemão, línguas que foram decisivas para a sua obra literária. Estudou Latim, Lógica e Retórica no Palácio das Necessidades e, mais tarde, na Academia da Marinha Real, estudou matemática com a intenção de seguir uma carreira comercial.

 

      Com apenas 21 anos, participará na revolta de 21 de Agosto de 1831 do Regimento n.° 4 de Infantaria de Lisboa contra o governo ditatorial de D. Miguel I, o que o obrigará, após o fracasso daquela revolta militar, a refugiar-se num navio francês fundeado no Tejo, nele passando à Inglaterra e, posteriormente, à França, indo depois juntar-se ao exército Liberal de D. Pedro IV, na Ilha Terceira (Açores). Alistado como soldado no Regimento dos Voluntários da Rainha, como Garrett, é um dos 7 500 "Bravos do Mindelo", assim designados por terem integrado a expedição militar comandada por D. Pedro IV que desembarcou, em 8 de Julho de 1832, próximo da praia do Mindelo (um pouco a Norte do Porto - hoje "praia da Memória"), a fim de cercar e tomar a cidade do Porto. Como soldado, participou em acções de elevado risco e mérito militar.

      Passado à disponibilidade pelo próprio D. Pedro IV, foi por este nomeado segundo bibliotecário da Biblioteca do Porto. Aí permaneceu até ter sido convidado a dirigir a Revista Panorama, de Lisboa, revista de carácter artístico e científico de que era proprietária a Sociedade Propagadora dos Conhecimentos Úteis, patrocinada pela própria rainha D. Maria II, de que foi redactor principal de 1837 a 1839.

      Fez poesia, como A Voz do Profeta em 1836 e A Harpa do Crente em 1838, publicou obras como Eurico, o Presbítero de 1844 (obra maior do Romance Histórico em Portugal no século XIX) e a História da Origem e Estabelecimento da Inquisição em Portugal. Mas a obra que vai transformar Alexandre Herculano no maior português do século XIX é a sua História de Portugal, cujo primeiro volume (de 4) é publicado em 1846. Obra que introduz a historiografia científica em Portugal, não podia deixar de levantar enorme polémica, sobretudo com os sectores mais conservadores, encabeçados pelo clero.

      Atacado pelo clero por não ter admitido como verdade histórica o célebre Milagre de Ourique – segundo o qual Cristo aparecera ao rei Afonso Henriques naquela batalha -, Herculano acaba por vir a terreiro em defesa da verdade científica da sua obra, desferindo implacáveis golpes sobre o clero ultramontano, sobretudo nos opúsculos Eu e o Clero e Solemnia Verba.

     O prestígio que a História de Portugal lhe granjeara leva a Academia das Ciências de Lisboa a nomeá-lo seu sócio efectivo (1852) e a encarregá-lo do projecto de recolha dos Portugaliae Monumenta Historica (recolha de documentos valiosos dispersos pelos cartórios conventuais do país), projecto que empreende em 1853 e 1854.

     Herculano permanecerá fiel aos seus ideais políticos e à Carta Constitucional, que o impedira de aderir ao Setembrismo. Apesar de estreitamente ligado aos círculos do novo poder Liberal (foi deputado às Cortes e preceptor do futuro Rei D. Pedro V), recusou fazer parte do primeiro Governo da Regeneração, chefiado pelo Duque de Saldanha. Recusou honrarias e condecorações e, a par da sua obra literária e científica, de que nunca se afastou inteiramente, preferiu retirar-se progressivamente para um exílio que tinha tanto de vocação como de desilusão. Numa carta a Almeida Garrett confessara ser seu mais íntimo desejo ver-se entre quatro serras, dispondo de algumas leiras próprias, umas botas grosseiras e um chapéu de Braga. Ainda desempenhou o cargo de Presidente da Câmara de Belém (1854 de 1855), cargo que abandona rapidamente.

 

      Em 1857, após o seu casamento com D. Mariana Meira, retira-se definitivamente para a sua quinta de Vale Lobos (Azóia, Santarém) para se dedicar (quase) inteiramente à agricultura e a uma vida de recolhimento espiritual - ancorado no porto tranquilo e feliz do silêncio e da tranquilidade, como escreverá na advertência prévia ao primeiro volume dos Opúsculos.

     (Nas Cortes/Parlamento e no exílio em Vale de Lobos) Herculano exerce um autêntico magistério moral sobre o País (reconhecido pelos seus pares e concidadãos de qualquer quadrante partidário). Na verdade, este homem frágil e pequeno, mas dono de uma energia e de um carácter inquebrantáveis era um exemplo de fidelidade a ideais e a valores que contrastavam com o pântano da vida pública portuguesa. Isto dá vontade de morrer!, exclamara ele, decepcionado pelo espectáculo torpe da vida pública portuguesa, que todos os seus ideais vilipendiara.

     Aquando da segunda viagem do Imperador do Brasil a Portugal, em 1867, Herculano entendeu retribuir, em Lisboa, a visita que o monarca lhe fizera em Vale de Lobos, mas devido à sua débil saúde contraiu uma pneumonia dupla de que viria a falecer, em Vale de Lobos, em 13 de Setembro de 1877.

   Fonte: http://pt.wikipedia.org/wiki/Alexandre_Herculano


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Publicado por Xa2 às 23:28 de 28.03.10 | link do post | comentar | ver comentários (9) |

Perestrello, Salazar e o padre

Histórias de vida

Vejam lá se gostam desta lição de história que nos foi contada por um ilustre historiador da Marinha.

“Nos tempos idos do fascismo, o pai de António Oliveira Salazar era feitor numa grande propriedade do velhote Perestrello situada lá para os lados de Santa Comba Dão. Perestrello teve dois filhos, um rapaz e uma rapariga. A menina ainda foi namorada de Salazar e o rapaz, mais conhecido pelo Perestrello Vasconcellos, que cursou engenharia, quando Salazar chegou ao poder colocou-o como administrador da Casa da Moeda e posteriormente, em 1939, assumiu a gestão do Arsenal do Alfeite.

Perestrello Vasconcellos morreu em 1962 e deixou seis ou sete filhos, dos quais um deles foi engenheiro naval, na Lisnave, e outro, sentiu vocação para sacerdote e veio a ser capelão da Marinha. Em 1959, o capelão Perestrello Vasconcellos fez parte da célebre conspiração "Caso da Sé", na qual participaram vários opositores ao regime como Manuel Serra. Na eminência do capelão também ser preso, o presidente do governo Oliveira Salazar chamou a S. Bento o pai do capelão Perestrello Vasconcellos e aconselhou-o a mandar o filho para o Brasil para que não tivesse o desgosto de ver um filho na prisão. Tudo em consideração ao velhote Perestrello de quem o pai de Salazar tinha sido feitor.

E foi assim, que o padre Perestrello Vasconcellos debandou para o Brasil. Nos anos 70 com a primavera marcelista do primeiro-ministro Marcelo Caetano, o padre Perestrello Vasconcellos regressou a Portugal e foi exercer o sacerdócio na paróquia de Loures.

Num belo dia, o admirado e venerado padre Perestrello Vasconcellos, em plena missa dominical, deixou os paroquianos atónitos e lavados em lágrimas. Anunciou que iria deixar o sacerdócio porque se apaixonara por uma senhora da família Lorena. O padre passou à sua condição de cidadão com matrimónio e dessa união nasceu Marcos Perestrello Vasconcellos, o ex-vereador socialista da Câmara de Oeiras e actual secretário de Estado do governo do Partido Socialista.

Conclusão da história: o fascismo e a Igreja Católica deram à luz ilustres socialistas…”

P.S.: Na verdade, verdadinha é que todos, de uma forma ou de outra, todos somos provenientes da mesma mistura. O que me parece grave, muito grave mesmo, é que uns e outros não tenhamos conseguido libertar-nos, ainda dessas raízes que nos prendem os passos e nos tornam tão tacanhos e obsoletos. É por isso que, há quem diga, “da cunha à corrupção não dista um passo de formiga” e é bem verdade. Continuamos feudais e feudalizados, a viver em quintas e senhorios. Como no tempo do Salazar.



Publicado por Zé Pessoa às 09:40 de 18.11.09 | link do post | comentar | ver comentários (5) |

Há 70 anos: os primeiros tiros da II Guerra Mundial

Os convites apresentavam uma enorme cruz suástica e foram entregues por marinheiros corteses. No dia 1 de Setembro de 1939 deveria ter lugar no velho couraçado pré-dreadnought Schleswick-Holstein da marinha germânica uma festiva recepção em honra dos responsáveis alemães e polacos pela cidade livre de Danzig e porto polaco de Gdynia. Danzig, hoje Gdynia, era uma espécie de Olivença alemã cedida à Polónia na sequência da derrota alemã na I. Guerra Mundial e reivindicada pelo regime nazi em conjunto com outros territórios entregues a outros países como os sudetas, então já recuperados pela Alemanha.

 O couraçado que servia de navio-escola de cadetes, datado de 1906, estava amarrado de popa ao porto de Danzig-Neufahrwasser em visita de “cortesia”. Entre este porto e a foz do Vístula situa-se um longo promontório com as fortificações polacas de Westerplatte. A norte existe outra língua de terra com os cais de Hella da marinha de guerra polaca no seu extremo.

A Sociedade das Nações autorizara o estacionamento de uma força polaca de 198 soldados de infantaria no Westerplatte. O comandante dessa força fora também convidado para a recepção a bordo do Schleswick-Holstein, tal como o chefe das alfândegas polacas, o comandante do porto de Gdynia e demais autoridades polacas e os representantes dos 300 mil alemães da cidade dita livre de Danzig. Os convidados esperavam beber vinho do Reno e cerveja bávara, mas em vez disso receberam, pelas cinco da madrugada, granadas dos 4 canhões de 280 mm e 14 de 150 mm que bombardearam impiedosamente a área fortificada de Westerplatte.

O canhoneio naval foi pouco depois acompanhado pelos ataques dos bombardeiros em voo picado “Stukas” (Junkers 87) na tentativa de destruir a marinha polaca e todo o sistema de defesa costeira, mergulhando à velocidade constante de 350 milhas horárias para largar duas bombas de 550 kg ou quatro de 250. Poucas horas depois, os alemães fazem desembarcar tropas que traziam escondidas no velho couraçado alemão e mais uns tantos homens a partir de vedetas rápidas apoiadas pelo fogo do couraçado gémeo Schlesien, mas em vão, retiraram-se para o território alemão limítrofe.

A guarnição polaca de Westerplatte aguentou heroicamente a agressão germânica durante cinco dias e cinco noites até ser quase totalmente dizimada. Por sua vez, as forças de marinha em Hella resistiram até ao dia 1 de Outubro de 1939, quatro dias mais que a própria capital do país, Varsóvia, e foi mesmo a última porção de território polaco a ser conquistada pelos agressores nazis.

Foram os primeiros tiros disparados na imensa tragédia que foi a II. Guerra Mundial de que resultou a morte de 55.293.500 homens e mulheres, dos quais 7.375.800 foram baixas alemãs. A marinha de guerra alemã perdeu 95 mil homens, tanto a bordo dos navios afundados como em combates terrestres travados por unidades de infantaria de marinha e marinheiros desembarcados, enquanto a “Royal Navy” viu 55 mil dos seus homens morrerem pela Pátria. A maior parte dos marinheiros mortos no conflito ficou em sepulturas sem flores, pois como diz a velha canção marinheira alemã “Não há flores na sepultura do marinheiro”.

À hora em que o velho Schleswick-Holstein iniciava o bombardeamento das posições polacas, as tropas nazis levantavam as barreiras fronteiriças e penetravam na Polónia sem atender aos insistentes pedidos da diplomacia polaca para resolver pacificamente a questão do chamado “corredor de Danzig”, a saída para mar em território ex-alemão concedida à Polónia pelo Tratado de Versalhes que pôs fim à I. Guerra Mundial.

 A ordem de ataque foi dada pessoalmente pelo ditador Hitler, a quem todos os militares e funcionários civis tinham jurado obediência pessoal logo após a morte do velho presidente Hidenburg.

Não houve declaração formal de guerra. Dias antes, o ministro dos Negócios Estrangeiros Ribentrop conseguiu assinar um Pacto de Não Agressão com o seu colega soviético que dava todas as garantias ao “Reich” (Império) de não se ver envolvido num conflito em duas frentes.

Para o efeito, Estaline viu-se obrigado a substituir o seu ministro para os assuntos exteriores Litinov por Molotov, já que o primeiro percebeu bem o carácter absurdo de tal pacto. Mas quem manda são os ditadores, e a Alemanha foi para a guerra com a aquiescência de Estaline, sem que algum general ou almirante alemão tivesse verdadeiramente apoiado a política de guerra, mas também ninguém teve a coragem de dizer não.

O regime hitleriano não admitia opiniões opostas e era mais do que “sui generis”. Limitava-se à pessoa de Adolfo Hitler que na ocasião era a própria constituição, o parlamento, o governo e tudo mais.  Apesar de ter alcançado o poder de uma forma mais ou menos democrática, Hitler tornou-se rapidamente num ditador por via de uma série de assassinatos e golpes sujos. Perdera as eleições presidenciais de 13 de Março de 1932 com uma diferença de 6 milhões de votos a favor do octogenário Marechal Hidenburg. Mas foi depois nomeado Chanceler pelo presidente eleito quando o seu minoritário partido nazi conquistou 230 lugares num Parlamento de 610 e obteve o apoio do partido centrista cristão e do anterior Chanceler Von Papen. Este tornou-se vice-chanceler de Hitler, pois foi a condição imposta por Hidenburg para nomear o futuro ditador como chefe do Executivo.

Uma vez no poder, Hitler manda os seus apaniguados lançarem fogo ao Parlamento (Reichstag), a 28 de Fevereiro de 1933, acusando os comunistas e socialistas de modo a prender os respectivos deputados.

 Todos os discursos do ditador caracterizavam-se pelo ódio espumante, gritaria e clamorosos erros de gramática, perfeitamente evidentes para todo o conhecedor da língua alemã nos vídeos que estão aí à venda.

Depois do decreto de Hidenburg, Hitler organiza novas eleições em clima de grande pressão com sociais-democratas e comunistas metidos em campos de concentração e os seus jornais assaltados e destruídos pelas milícias SA do Partido Nazi. Mesmo assim, só consegue 44 por cento dos votos. Mas, com mais de 100 deputados eleitos pela oposição presos e com o apoio dos católicos conseguiu que o novo Parlamento reunido na sala da Ópera Kroll, fortemente guardada pelas SA, aprovasse uma lei que lhe conferiu todos os poderes executivos e legislativos, suspendendo a Constituição de Weimar. O pretexto foi a luta contra o desemprego e a crise económica.

Após a morte de Hidenburg, a 2 de Agosto, para não ter de jurar a Constituição de Weimar, Hitler não assume a presidência para a qual uma lei de 1 de Agosto, falsamente assinada por Hidenburg, o designara como sucessor provisório.

O ditador preferiu inventar o título de “Führer” (Condutor da carroças ou da Alemanha), sem qualquer carácter constitucional, e assumir o comando das forças armadas. Mas, não sem que antes tivesse assassinado pessoalmente Ernst Röhm, o chefe das milícias SA, e quase todos os seus principais dirigentes, que o eram também do partido Nazi. O objectivo era consolidar o seu poder puramente pessoal sem que alguém como o chefe das SA pudesse vangloriar-se de ter colocado Hitler no poder.

Hitler foi bem um pobre produto dos erros das democracias burguesas e partidos comunistas que no pós-Grande Guerra de 1914-18 tornaram não só a vida impossível a uma Alemanha pacífica e social como fizeram do pacífico e democrático SPD – Partido Social-Democrata -  o seu principal inimigo.

Com a invasão da Polónia, o governo inglês, que tinha um Pacto de Apoio com a Polónia, enviou um ultimato a Hitler para cessar as hostilidades, o que não foi respondido na íntegra. O ditador alemão respondeu que só aceitava uma Polónia polaca, isto é, sem os territórios alemães, bielorussos e ucranianos. Por isso, a 3 de Setembro de 1939, a Inglaterra declara guerra à Alemanha, no que foi seguida pela França.

Para impressionar os aliados, Hitler convidou os russos a atacarem a Polónia cerca de duas semanas depois, o que fizeram apesar de terem assinado em 1934 um Pacto de Não Agressão com a Polónia em termos muito semelhantes ao que firmaram com os nazis. Mal sabia o ditador Estaline que também viria a ser vítima da mesma falta de ética.

Os aliados anglo-franceses não se impressionaram muito com a agressão soviética à Polónia, antes pelo contrário. Desconhecedores do clausulado do Pacto nazo-comunista, julgaram que a ocupação de parte da Polónia bem como das Repúblicas Bálticas foi uma imposição de Estaline e viram nisso uma evidente fraqueza da Alemanha Nazi e prelúdio de um grande conflito entre esta e a URSS. Daí não terem aceite a proposta de Paz que Hitler fez chegar aos governos da Inglaterra e da França após a conquista da Polónia, na qual comprometia-se a refazer um pequeno estado polaco independente sem os territórios de população alemã nem os que tinham cidadãos ucranianos e bielorussos.

Saliente-se aqui, a título de curiosidade, que o tratado assinado entre a Inglaterra e a Polónia obrigaria os britânicos também a entrarem em guerra com a União Soviética. Foi também essa uma das razões porque Hitler convidou Estaline a invadir a Polónia. Só que tal não aconteceu por não ter qualquer sentido, teria sido mesmo uma espécie de suicídio das duas únicas grandes democracias europeias a entrada em guerra simultânea contra Soviéticos e Nazis.

Hitler ficou surpreendido com a declaração de guerra da Inglaterra e da França à Alemanha, mas estava preparado para o facto, tanto mais que pensava que os “vermes”, como designava os franceses, não seriam capazes de atacar, deixando-se ficar nos fortes da Linha Maginot. Nessa altura, os ditadores comunistas e nazo-fascistas acreditavam que o Estado centralizado e impiedoso a todo o transe seria sempre mais forte que o Estado democrático. Por outro lado, os aliados tomaram conhecimento da forma silenciosa como o povo alemão aceitou o começo da guerra, quase que de luto. Não houve manifestações, nem a favor nem contra, só o profundo silêncio de um povo que não esqueceu a tragédia da guerra de 14-18 e o tremendo desastre que foi a crise económica de 1929 e anos subsequentes aliado ao drama do desemprego em massa e pagamento de incomportáveis reparações aos aliados.

 

Extraído do livro “Um Século de Guerra no Mar”, escrito por Dieter Dellinger, e publicado na Revista de Marinha desde 1995 a 1999 e no blog “História Náutica


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Publicado por DD às 10:01 de 23.08.09 | link do post | comentar | ver comentários (1) |

Em busca da honradez de Diógenes

Diógenes de Sínope, da Grécia antiga (413 a.C.), hoje Turquia, filósofo de Atenas, discípulo de Sócrates e mestre de Diógenes, andava, segundo diz a lenda, pelas ruas dessa cidade, com uma lanterna acesa em pleno dia, procurando um homem que merecesse o qualificativo de honrado. Pelos vistos, mesmo nesse tempo, já era difícil encontrar muitas pessoas com semelhantes qualidades.

Estamos, hodiernamente muito mais pobres, não haverão duvidas. Não temos coragem, não temos lanterna e não temos a esperança que ainda tinha Diógenes. Hoje é muito mais difícil encontrar-se um homem ou mulher honrada. Sim porque hoje existe igualdade do género coisa que naquele tempo seria impensável, mas o que é que adianta? Quanto á honradez, está claro!

Diógenes levou ao extremo os preceitos cínicos de seu mestre Antístenes. Foi o exemplo vivo que perpetuou a indiferença cínica perante o mundo. Desprezava a opinião pública e parece ter vivido em uma pipa ou barril. Seus únicos bens eram um alforge, um bastão e uma tigela (que simbolizavam o desapego e auto-suficiência perante o mundo), sendo ele conhecido como o filósofo que vivia como um cão.

Segundo a tradição, Diógenes vivia a vaguear pelas ruas na mais completa miséria até que um dia foi aprisionado por piratas para, posteriormente, ser vendido como escravo. Um homem com boa educação chamado Xeníades o comprou. Logo ele pôde constatar a inteligência de seu novo escravo e lhe confiou tanto a gerência de seus bens quanto a educação de seus filhos.

Nos tempos que correm não seria necessário nem possível ir tão longe quanto o que se conta de Diógenes, mas o exemplo poderia servir "caricaturalmente" para serem colocados alguns sem abrigo como gestores de bancos e empresas ou grupos económicos. Muito provavelmente não teria existido tanta pilhagem em alguns bancos, não estariam outros tantos na falência, nem o Prof. Cavaco Silva estaria sem saber onde param as suas poupanças e muito menos o Estado teria de suportar os elevados custos reparadores de tão significativas brechas contabilitico-finaceiras. Onde pararão certas fortunas pessoais conseguidas em meia dizia de anos?

Diógenes é tido como o primeiro homem a afirmar, "Sou uma criatura do mundo (cosmos), e não de um estado ou uma cidade (polis) particular", manifestando assim um cosmopolitismo relativamente raro em seu tempo. A globalização, ainda que não generalizada na vida das pessoas, pois ainda não conseguimos libertar-nos das fronteiras e tornarmo-nos cidadãos do mundo, veio dar-lhe razão. O futuro, certamente confirmará a sua cosmopolitaneidade, enquanto cidadãos do mundo. Quanto à falta de honradez nada mais há a esperar, foi confirmado, resta-nos trabalhar no sentido do seu esforço, para que a situação se inverta.

Pois, algumas certezas podemos ter, quanto à génese do caos económico e social em que nos encontramos actualmente é de que ele foi procedente da ganância sem limites dos seus respectivos responsáveis e também que não serão esses responsáveis que são capazes de tomar novos caminhos e ter outros comportamentos que não sejam o de repetir os seus vícios entranhados nos seus modos de vida.

Importa sair do estádio de espanto e de incredulidade em que nos encontramos, alias, em que parece os responsáveis políticos se encontram e partir para a tomada de medidas rigorosas e profundas começando por responsabilizar económica e criminalmente quem não actuou com o zelo que a suas funções exigiam no bom governo das respectivas instituições de que eram, são ou foram responsáveis.

Importa determinar regras claras, transparentes e de rigor, no plano sectorial e de aplicação global dos mercados. Urge designar novos responsáveis pelas instituições e em concreto das entidades reguladoras nacionais e internacionais.

Efectivamente, não se podem confundir os delinquentes com os inspectores, os ladrões com os polícias, mas se uns praticaram os crimes porque a “ocasião fez o ladrão” jamais a existência de uns pode justificar a não actuação de outros, muito pelo contrário. Por isso uns e outros, e na respectiva medida do dolo, têm de ser julgados e sancionados, sob pena de todos terem de andar de lanterna na mão, neste caso para esconder a falta de honestidade. [Fonte: Wikipédia]

Fotografia: Diógenes, de John William Waterhouse, mostrando a sua lâmpada, o seu barril e as cebolas das quais ele se nutria.



Publicado por Zé Pessoa às 00:07 de 15.06.09 | link do post | comentar | ver comentários (8) |

Massacre de Tiananmen: aconteceu há vinte anos

 

Em memória das vítimas civis que procuravam a liberdade, assassinadas pelo exército chinês.



Publicado por JL às 16:54 de 04.06.09 | link do post | comentar | ver comentários (1) |

Imagens inéditas da crise académica de 1969

 

O Clube de Jornalistas recebeu e não pode deixar de partilhar uma colecção de fotografias sobre a chamada crise académica de 1969.

Embora não tendo sido feitas por jornalistas profissionais, estas fotos são informação pura, dura e bela, com um valor inestimável 40 anos depois. A introdução está feita com a explicação escrita por José Veloso, um homem ainda hoje interveniente na vida pública e na altura um dos mais activos membros da secção de fotografia (amadora, claro) da Associação Académica.

Isto também é informação… de cidadãos jornalistas, num tempo em que não havia net, nem Youtube, nem vídeos, nem máquinas digitais, nem nenhuma dessas modernices… E quando os cidadãos jornalistas não perdiam tempo a fotografar trivialidades.


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Publicado por JL às 18:53 de 03.06.09 | link do post | comentar |

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