Três Palhaços na Televisão do Crespo

Três economistas de nomeada falaram no programa do Crespo. Medina Carreira, João Duque e Hernâni Lopes. Falaram, mas não disseram nada.

Todos apontaram o problema do endividamento português e do facto de Portugal importar mais que exporta e viver acima das suas posses e deixar para o futuro juros de dívida da ordem dos 5%.

Tudo muito bem, mas não tiveram a coragem de dar claramente a sua solução do problema, apesar de ligeiramente deixarem aflorar que se trataria de dar como findo o chamado modelo social europeu que teria sido criado em trinta anos quando a nossa civilização tem 10 mil anos.

Hernâni Lopes falou em falta de honestidade, honra, capacidade de trabalho, facilitismo, etc. como causas dos nossos problemas.

Na verdade, os três economistas nunca trabalharam na vida. Nunca produziram nada no campo e nunca venderam nada do campo ou para o campo, nunca trabalharam numa fábrica química e nunca produziram e venderam acetato de polivinilo, por exemplo, ou parafusos ou pequenas motorizadas, etc. Nem Medina Carreira nem Hernâni Lopes ou João Duque sabem o que é trabalhar e produzir. Sabem uns números e nunca ouviram falar na palavra concorrência nacional e internacional e, por isso, acham que é tudo devido à falta de honra de uma elite estatal e empresarial, além de não saberem muita coisa mais.

Assim, Medina Carreira não sabe que o país que mais exportou nos últimos sessenta anos, a Alemanha, e que mais saldos positivos registou e mais investiu no estrangeiro, obtendo daí importantes lucros, está numa situação crítica com mais de 11% de desemprego, apesar da baixa natalidade de há quase cinquenta anos, e meteu-se numa política de poupança de 80 mil milhões de euros. Então, o que é que os alemães fizeram aos biliões que ganharam e porque razão o seu Pib sofreu uma quebra de 5,7% em 2009?

O mesmo pode ser dito do Japão, país grande exportador com uma indústria só comparável no Mundo à alemã e imensos investimentos no estrangeiro que proporcionam riqueza acrescida. Porque razão têm os japoneses a maior dívida interna e externa mundial? O que fizeram com o dinheiro dos Toyota, Lexus, Nissan, Mazda, etc.

Um pequeno país considerado exemplar, a Irlanda, entrou em quase falência e só se salvou por ser muito pequeno com pouco mais de três milhões de habitantes.

Dois países europeus com custos salariais muito baixos e pouco sociais, a Roménia e a Bulgária, estão a atravessar uma crise tremenda e não têm o euro. Repare-se que dezenas de fábricas estrangeiras que em Portugal fabricavam calçado, cablagens e muita coisa mais deslocalizaram-se para a Roménia. Então porque razão estão os romenos à beira de uma falência maior que a Grécia? E este país, possuidor da maior marinha mercante do Mundo, mesmo que navegando com muitas bandeiras de conveniência, e senhor de uma das maiores indústrias de turismo do Mundo, graças ao seu clima, passado histórico e proximidade de grandes mercados europeus. Porque está a Grécia falida?

E podia falar da Espanha com um pujante turismo, uma grande indústria automóvel que fabrica mais de três milhões de carros por ano e agora com 20% de desemprego.

A França com uma das economias mais equilibradas do Mundo, isto é, boa agricultura, óptima indústria pesada e ligeira, civil e militar, enorme proeminência no sector nuclear e científico, importante turismo, etc. entrou também em crise e o presidente Sarkozy decretou uma redução de 10% nos gastos de todos os ministérios. Então para que servem a imensa economia exportadora francesa que vai das maçãs e pão congelado às centrais nucleares e mísseis, passando pelos pneus Michelin, automóveis, artigos de moda, etc.?  O desemprego francês já ultrapassou os 14%.

Podíamos falar de muitos outros países, mesmo da China, com uma população activa de 800 milhões de trabalhadores mais 200 milhões de disponíveis que não estando propriamente desempregados vivem miseravelmente nas aldeias à espera de poderem sair para encontrar um emprego ligeiramente melhor na construção civil ou numa fábrica.

Voltando ao nosso meio, a zona euro, vemos nos gráficos de endividamento linhas extremamente horizontais desde 1999 a 2009. Os governos aumentaram ligeiramente as suas despesas em cerca de 20% na média geral em 2009 por causa das intervenções que fizeram para salvar bancos, mas que não têm continuidade neste anos e estão a dar lucros. O governo português recebe juros pelas garantias concedidas aos bancos sem que tenha gasto algum dinheiro, excepto no BCP e isso foi por razões de gangsterismo financeiro da parte de ex-ministros do Cavaco como o Oliveira e Costa e Dias Loureiro que antes da crise não era visível.

A linha do endividamento das empresas mostra que estão rigorosamente ao nível de 1999. Só os bancos da zona euro fizeram subir as suas dívidas, mas estão em queda e já ao nível de 2005. As famílias da zona euro endividaram-se em pouco mais de 10% do que estavam há onze anos atrás.

A crise começou por ser financeira nos EUA, mas atrás dela está a palavra concorrência com a entrada 500 milhões de trabalhadores chineses pagos a menos de meio dólar à hora na produção de bens transaccionáveis para os mercados mundiais e com eles entraram muitos outros milhões de trabalhadores de outros quadrantes do globo.

Os três economistas como nunca trabalharam nas suas vidas, não sabem que a essência de um posto de trabalho produtivo está na possibilidade de vender o produto do trabalho acima do seu custo, seja muito ou pouco, mas tem sempre de pagar as despesas, nomeadamente o salário do trabalhador e os descontos para as seguranças sociais, o investimento, etc. Se esse desidrato estiver garantido, nascem indústrias como cogumelos.

Recordo que há muitos anos atrás, o tomate de indústria transformado em polpa ou pelado em conserva dava algum dinheiro. Nasceram dezenas de fábricas e eu fartei-me de vender sementes para os cultivos de tomate no Alentejo. De repente, a então CEE resolveu subsidiar o tomate italiano que se tornou mais barato e quase todas as indústrias portuguesas faliram. Isto foi pouco antes da entrada de Portugal na CEE. Depois veio a liberalização e o tomate conservado passou a vir de toda a parte, Roménia, China, Marrocos, etc. Isto é só um exemplo de que com algum lucro há investimento, produção, postos de trabalho e exportação. E nada disso tem a ver com mais 1 ou 1,5% no IRS ou no IVA como referiu a Manuela Ferreira Leite no Expresso e que seria um travão ao investimento. Ninguém investe porque ganhou mais 2 ou 3%, mas sim se existir uma procura para os bens ou serviços que pretende produzir.

A procura determina tudo, até a venda de produtos financeiros, derivados e papel sem substância material e a procura vem sempre do lucro da produção. Não é verdade, como diz Hernâni Lopes, que haja dinheiro e procura sem uma origem material. Depois pode reproduzir-se como dinheiro, mas só até um determinado limite. Os investidores profissionais na bolsa contentam-se com pequenas mais valias de 0,25 a 0,75%, comprando hoje para vender amanhã ou depois. Quanto menos ganharem em cada transacção, mais lucro têm no fim do ano porque nunca chegam a perder.

A abundância de dinheiros nos bancos americanos resultou das exportações chinesas, cujos saldos não se converteram em bens para melhorar as condições de vida do operariado chinês.

E foi a concorrência chinesa que levou as economias europeias ao actual descalabro. Os alemães julgavam que estavam fora do problema e enfrentam agora 11% de desempregados, a taxa maior desde os anos trinta.

Para além disso, os três economistas nunca ouviram falar em saturação dos mercados e, por má fé ou ignorância, estão numa era anterior à de Marco Pólo, não sabem da existência da China. É que isso não vem nos seus gráficos. Nem Medina, nem Duque, nem Lopes sabem que o País possui já mais de seis milhões de unidades habitacionais independentes para menos de quatro milhões de famílias e que toda a gente tem telemóvel, electrodomésticos, calçado, roupa e consome 56 kg de peixe por ano, etc.

A Europa está cada vez mais a deixar de ser uma fábrica do Mundo e ao perder a capacidade de trabalho de nada serve reduzir as despesas dos Estados ou os salários dos trabalhadores, etc. porque se tornará cada vez mais pobre.

Portugal está empobrecer, como diz Medina Carreira, porque isso está a acontecer a toda a Europa que baixou os braços produtivos e prefere importar da China. E não se cometeu o erro de deixar entrar os carros chineses e japoneses que estão contingentados no espaço europeu. Por isso, as exportações de automóveis semi-fabricados em Portugal cresceram 17,6% entre Janeiro e Março deste ano e em toda a Europa a produção aumentou 25,3%.

No calçado e têxtil, a indústria portuguesa exporta menos de 20% do que exportava em 2001, mas tem recuperado alguma coisa nos últimos meses e ainda exporta bens no valor de 3,5 mil milhões de euros. Nada disso tem a ver com honestidade, moleza, facilitismo como disse o palerma do Lopes. É concorrência a funcionar nos mercados, é a verdadeira economia, estúpido.

Portugal está hoje a exportar muitos mais bens de equipamento e produtos farmacêuticos que antes e são sectores em franco crescimento como é a produção de papel de impressão de alta qualidade. Os empresários portugueses procuram novos sectores e o Governa procura novos mercados, nomeadamente no eixo atlântico como em Angola, Brasil, Venezuela, EUA, Marrocos, etc. Os palermas nem tomaram conhecimento das visitas que Sócrates tem feito.

A Europa tem de se defender e isso passa por proteger o trabalho de um espaço económico de 501 milhões de habitantes, mesmo que isso custe bastante aos exportadores do Terceiro Mundo. Isto é uma guerra, ou morremos nós ou morrem eles ou então seguimos o caminho da Paz comercial que é o do equilíbrio mútuo das balanças comerciais.

Não pensem os idiotas que falam no programa do Crespo que isso tem a ver com os ministros de cá ou com as elites mais ou menos capazes. Haja mercado e produz-se e o mercado não pode ser artificial na base de regalias pecuniárias pagas pelo Estado, já que o dinheiro do Estado vem dos consumidores e o consumidor só cria os meios financeiros se existirem condições para produzir.



Publicado por DD às 00:23 de 13.06.10 | link do post | comentar | ver comentários (3) |

DESTAQUE DO MÊS
14_04_botão_CUS
MARCADORES

todas as tags

CONTACTO

Email - Blogue LUMINÁRIA

ARQUIVO

Junho 2017

Março 2017

Fevereiro 2017

Janeiro 2017

Dezembro 2016

Novembro 2016

Outubro 2016

Setembro 2016

Agosto 2016

Julho 2016

Junho 2016

Maio 2016

Abril 2016

Março 2016

Fevereiro 2016

Janeiro 2016

Dezembro 2015

Novembro 2015

Outubro 2015

Setembro 2015

Agosto 2015

Julho 2015

Junho 2015

Maio 2015

Abril 2015

Março 2015

Fevereiro 2015

Janeiro 2015

Dezembro 2014

Novembro 2014

Outubro 2014

Setembro 2014

Agosto 2014

Julho 2014

Junho 2014

Maio 2014

Abril 2014

Março 2014

Fevereiro 2014

Janeiro 2014

Dezembro 2013

Novembro 2013

Outubro 2013

Setembro 2013

Agosto 2013

Julho 2013

Junho 2013

Maio 2013

Abril 2013

Março 2013

Fevereiro 2013

Janeiro 2013

Dezembro 2012

Novembro 2012

Outubro 2012

Setembro 2012

Agosto 2012

Julho 2012

Junho 2012

Maio 2012

Abril 2012

Março 2012

Fevereiro 2012

Janeiro 2012

Dezembro 2011

Novembro 2011

Outubro 2011

Setembro 2011

Agosto 2011

Julho 2011

Junho 2011

Maio 2011

Abril 2011

Março 2011

Fevereiro 2011

Janeiro 2011

Dezembro 2010

Novembro 2010

Outubro 2010

Setembro 2010

Agosto 2010

Julho 2010

Junho 2010

Maio 2010

Abril 2010

Março 2010

Fevereiro 2010

Janeiro 2010

Dezembro 2009

Novembro 2009

Outubro 2009

Setembro 2009

Agosto 2009

Julho 2009

Junho 2009

Maio 2009

Online
RSS
blogs SAPO