Política, economia, lucro .vs. cidadãos, interesse comum e Estado

«Não sou Ateniense nem Grego mas Cidadão do Mundo» - SÓCRATES.

Quanto ao outro e ao resto da boiada  ... bla bla bla ...

... presunção de inocência e perigo, provas, segue-o-dinheiro, segredo de justiça e media, spin, fugas de informação e fugas ao fisco,  sociedades de advogados, contabilidades criativas, economices, legalices, lobies de multinacionais, privatizações, concursos, adjudicações, contratos, rendas e PPP, bancos e bangsters, ... bla bla... 

... escreventes-comentadores avençados, cabala, contra-ataque, campanha, timming, vistos gold, meninos d'ouro, submarinos, monte branco, BES poderoso, BPN, BdP, CMVM, Finanças, Governo, PSD, CDS, PS, centrão de interesses, arco da governação, ... bla bla bla...  

... offshores, união europeia, comissão eur., conselho eur., euro, tratado europeu, tratado euro-usa (TTIP), comércio livre, globalização, desregulação, flexização, neo-liberalismo, estado-mínimo, estado-capturado, 'soberania', 'justiça', 'liberdade', 'democracia', 'nacional', ... bla bla ...

... 'mérito', 'competência', 'confiança política', 'liderança', 'empreendedorismo', 'competitividade', 'produtividade', 'eficiência, 'eficaz', 'novilíngua' da quinta dos porcos ... bla bla bla...

 ... abstenção, alienação, jotas, barões e carneirada, bajulação, cunhas e nepotismo, tráfico de influências, luvas, corrupção, mafiosos, falta transparência, interesses obscuros, negócios ...  bla bla bla ... 

... alternativas, cidadania.



Publicado por Xa2 às 07:46 de 24.11.14 | link do post | comentar | ver comentários (15) |

P. Socialista crítico e mobilizador

Entrevista de Pedro Nuno Santos, ao Jornal Sol de 12/6/2014   (via N.Oliveira, 365forte)

Membro do núcleo político de Costa, diz que as diferenças para Seguro estão sobretudo na capacidade de liderar. Descarta um bloco central e elogia políticas socráticas.

 

- António Costa não falou do Tratado Orçamental na apresentação oficial da campanha. Foi lapso?
- Não foi, de certeza. É uma matéria à qual ele dá importância. António Costa tem uma posição bem mais crítica em relação ao Tratado Orçamental do que a posição oficial do PS.
- O que deve fazer o PS em relação ao Tratado Orçamental?

- Acho que deve ser respeitado na medida em que não obrigue o Estado a desrespeitar os compromissos com o povo português. O Tratado Orçamental não pode pôr em causa o compromisso que o Estado tem com os seus trabalhadores, com os pensionistas, com o povo. Este compromisso deve ser honrado em primeiro lugar.

- Mas como se reduz o défice sem cortar despesa no Estado?

- Cortar despesa e aumentar impostos para cumprir o défice orçamental leva a que o resultado seja o contrário do desejado. Temos de mudar o paradigma para conseguir o equilíbrio sustentável das contas públicas. Isso só se faz com políticas de crescimento económico.

- António Costa, em relação à Europa, disse: «nunca mais [seremos] subservientes». Devemos contestar as metas orçamentais em Bruxelas?

- Deve haver uma atitude que afirme os interesses de Portugal e não temos tido isso nos últimos anos, sem subserviência, como diz António Costa. Não é o que temos tido. O primeiro-ministro quis ir 'para além da troika' e duplicou a dose de austeridade que estava negociada. Precisamos de adoptar uma estratégia inteligente sem pôr em causa a participação de Portugal no projecto europeu, que garanta a Portugal liberdade para uma política diferente.

- O PR apelou a entendimentos entre os partidos até ao OE. Como deve agir o PS?

- O problema do país não é o PS negar-se a entendimentos com a direita. Precisamos é de mudar essa política. E essa mudança já não se vai fazer com esta maioria.

- O que afinal distingue António Costa de António José Seguro nas políticas concretas?

- Não temos de estar já a tentar encontrar as diferenças programáticas entre Costa e Seguro, elas acontecerão naturalmente. O principal problema do PS é um problema de liderança, é a incapacidade da liderança do PS de mobilizar o povo português para um programa alternativo. É a isto que temos de dar resposta. António Costa tem mostrado a capacidade de mobilização que a actual liderança não tem tido.

- As europeias mostraram essa incapacidade?

- Sim. Se, em 2011, nas últimas legislativas, tivemos uma derrota com 28%, em 2014, no estado em que o país está, só conseguimos subir 3 %. Isso quer dizer que não conseguimos ganhar a confiança do povo português.

- António Costa pediu uma maioria forte'. O PS deve aliar-se preferencialmente à esquerda e descartar um bloco central?

- Eu entendo que o PS devia construir uma maioria à esquerda. Embora o primeiro objectivo deve ser o de obter uma maioria absoluta - e António Costa tem condições para o conseguir, como as sondagens o demonstram. Mas precisamos de uma maioria que governe à esquerda e é impossível esse governo tendo como aliados o PSD e o CDS.

- As primárias vão dar direito de voto a simpatizantes do PS. As candidaturas vão 'arrebanhar simpatizantes', como prevê, criticamente, José Sócrates?

- Espero que isso não aconteça. É uma inovação importante, ao nível da participação popular, que aliás tem sido defendida também por muitos apoiantes do António Costa - eu também - há vários anos. As primárias são uma oportunidade de abrir o partido à sociedade civil.

- Costa fala em renovação do PS mas tem com ele toda a ala socrática. Não há o perigo de regressar ao passado?

- A ideia de que há uma ala socrática não é partilhada por mim. Agora, todos os militantes do PS são importantes e não me parece que António Costa descure nenhum, era o que faltava. Nós não temos nenhum problema com José Sócrates, foi líder do PS seis anos e fez coisas muito importantes para o país. Quanto à renovação, não tenho dúvidas de que acontecerá, essa é a história de António Costa que conseguiu sempre trazer novos quadros ao PS, como agora aconteceu ao escolher os jovens Fernando Mediria e Duarte Cordeiro para a Câmara de Lisboa.

- Não devia haver uma demarcação em relação a políticas erradas de Sócrates, como as PPP?
- Eu defendo que o PS faça um juízo crítico sobre a governação que fez, não só com Sócrates, mas também com as outras governações socialistas, para no futuro poder fazer diferente. Pessoalmente, fui crítico sobre o modelo de PPP no financiamento das obras públicas, a desregulamentação do mercado de trabalho e de algumas privatizações. Mas é importante também afirmar as coisas boas que fizemos para modernizar a economia. José Sócrates tinha uma política industrial sem precedentes. Um exemplo: a instalação de uma rede de abastecimento eléctrico no país foi criticada por desperdício, mas foi a instalação dessa rede que capacitou a EFACEC para hoje ser um dos líderes mundiais de carregadores eléctricos.
- Acredita que a movimentação nas distritais e concelhias do PS possa levar ao congresso extraordinário?
- Não sei. Mas mais importante que saber se vai ou não haver um congresso extraordinário é o movimento a que estamos a assistir no PS. É um fenómeno novo, para mim. São os militantes, livremente, a mobilizarem-se para apoiar António Costa e a forçarem até os seus dirigentes a apoiar António Costa.


Publicado por Xa2 às 07:55 de 16.06.14 | link do post | comentar | ver comentários (15) |

Lideranças: submeter-se ou enfrentar troika, euro, ... oligarquias e bangsters

O ódio a Sócrates    (-por Daniel Oliveira)

...   ...   ...

Porque gera tantos ódios José Sócrates? Os que o odeiam responderão com rapidez que faliu o país. Nessa não me apanham mesmo. Até porque a "narrativa" tem objetivos políticos e ideológicos que ultrapassam em muito a figura do ex-primeiro-ministro, o que revela até que ponto podem ser estúpidos os ódios pessoais de uma esquerda que, por mero oportunismo de momento, comprou uma tese que agora justifica todo o programa ideológico deste governo. 

   É pura e simplesmente falso que Sócrates tenha falido o país. E isto não é matéria de opinião. Sócrates faliu o país da mesma forma que todos os que eram primeiros-ministros entre 2008 e 2010 em países periféricos europeus o fizeram. Até 2008 todos os indicadores financeiros do Estado, a começar pela dívida pública, e todos os indicadores da economia seguiam a trajetória negativa que vinha desde a entrada de Portugal no euro (ou até desde o início da convergência com o marco, que lhe antecedeu), verdadeiro desastre económico que ajuda a explicar uma parte não negligenciável da situação em que estamos. A narrativa que esta crise se deve ao governo anterior, além de esbarrar com todos os factos (o truque tem sido o de juntar o aumento da dívida anterior e posterior a 2008 e assim esconder a verdadeira natureza dessa dívida), esbarra com a evidência do que se passa nos países que estavam em situação semelhante à nossa e não tiveram Sócrates como primeiro-ministro. Posso escrever tudo isto com uma enorme serenidade: fui opositor de Sócrates e sempre disse o que estou a dizer agora.

    Também nada de fundamental, até 2008, distinguia, para o mal e para o bem, os governos de Sócrates dos anteriores. O que era diferente correspondia às pequenas diferenças entre os governos do PS e do PSD, que já poderiam ter sido detectadas em Guterres. O que era igual, conhecemos bem e podemos identificar em Barroso, Guterres ou Cavaco. Em todos eles houve decisões financeiras desastrosas - das PPP à integração de fundos de pensões privados na CGA, da venda ruinosa de ativos a maus investimentos públicos. Em todos eles houve interesses, tráficos de influências, mentiras, medidas demagógicas e eleitoralistas. Sócrates foi apenas mais um.

     Há uma parte deste ódio que surgiu à posteriori (sim, vale a pena recordar que Sócrates venceu duas vezes as eleições). Perante a crise, o país precisava de encontrar um vilão da casa. Como escrevi, irritando até muitas pessoas de esquerda, em Outubro de 2010, ainda Sócrates era primeiro-ministro: "São sempre tão simples os dilemas nacionais: encontra-se um vilão, espera-se um salvador. Sócrates foi um péssimo primeiro-ministro? Seria o último a negá-lo. Mas, com estas opções europeias e a arquitetura do euro, um excelente governo apenas teria conseguido que estivéssemos um pouco menos mal. Só que discutir opções económicas e políticas dá demasiado trabalho. Discutir a Europa, que é 'lá fora', é enfadonho. É mais fácil reduzir a coisa a uma pessoa. Seria excelente que tudo se resumisse à inegável incompetência de Sócrates. Resolvia-se já amanhã." O único acerto a fazer é que, perante este governo, a avaliação de incompetências passou para um outro patamar.

    Sócrates acabou por servir, nesta crise, para muitas cortinas de fumo. A de quem quis esconder as suas próprias responsabilidades passadas. A de quem queria impor uma agenda ideológica radical e tinha de vender uma "narrativa" que resumia a história portuguesa aos últimos 9 anos e esta crise a um debate sobre a dívida pública. E a de quem, sendo comentador, economista ou jornalista, e tendo fortes limitações na sua bagagem política, foi incapaz de compreender a complexidade desta crise e optou por uma linha um pouco mais básica: o tiro ao Sócrates. Não lhes retiro o direito ao asco. Eu tenho o mesmo pelo atual primeiro-ministro. Mas não faço confusões e já o escrevi várias vezes: Passos sai, Seguro entra e, se não houver um enfrentamento com a troika, fica tudo exatamente na mesma. Porque o problema não é exclusivamente português e, mantendo o país no atual quadro europeu, depende muito pouco do nosso governo.

    Há outra explicação para o ódio que Sócrates provoca. As novas gerações da direita portuguesa são, depois de décadas na defensiva, de uma agressividade que Portugal ainda não conhecia. A que levou à decapitação da direção de Ferro Rodrigues, através do submundo da investigação criminal e do submundo do jornalismo, representado, desde sempre, pelo jornal "Correio da Manhã". A mesma que tratou de criar um cerco de suspeição que transformou, durante seis anos, a política nacional num debate quase exclusivamente em torno do carácter do primeiro-ministro. Um primeiro-ministro que, como tantos políticos em Portugal, se prestou facilmente a isso. Um cerco que fez com que poucos se dessem ao trabalho de perceber o que estava a acontecer na Europa desde 2008 e como isso viria a ser trágico para nós. Andávamos entretidos a discutir escutas e casos.

     ...  Goste-se ou não do estilo, Sócrates é, muitas vezes, de uma violência verbal inabitual em Portugal. Ele é, como se definiu na entrevista a Clara Ferreira Alves, anguloso. E voltou a prová-lo, nesta conversa, de forma eloquente. Num País habituado a políticos redondos isso choca. Ainda mais quando se trata de um líder do centro-esquerda, por tradição cerimoniosa e pouco dotada de coragem política. Sócrates, pelo contrário, tem, e isso nunca alguém lhe negou, uma extraordinária capacidade de confronto e combate. O estilo público de Guterres, Sampaio, Ferro Rodrigues e Seguro (muito diferentes entre si em tudo o resto) é aquele com o qual a direita gosta de se confrontar. A aspereza de Sócrates deixa-a possuída, irritada, quase invejosa. A ele não podiam, como fizeram com Guterres, acusar de indecisão e excesso de diálogo. Sócrates acertou na mouche: ele é o líder que a direita gostaria de ter. 

   Também a maioria dos portugueses tende a gostar de um estilo autoritário, mas sonso, que nunca diz claramente ao que vem, de que Cavaco Silva é talvez o exemplo mais acabado. Diz-se, ou costumava dizer-se, que Cavaco é previsível. Mas ele não é previsível por ser fiel às suas convicções, que nós desconhecemos quais sejam. É previsível porque quer sempre corresponder ao arquétipo do político nacional: moderado, ajuizado, prudente, asceta e severo. Apesar de, na realidade, no seu percurso cívico e político pouco ou nada corresponder a estas características. Pelo contrário, Sócrates corresponde, na sua imagem pública, ao oposto de tudo isto.

    Não é o primeiro político português a fugir ao modelo do líder austero e sacrificado, que Salazar impôs ao imaginário nacional e que Cunhal, Eanes, Cavaco ou Louçã acabaram por, mesmo que involuntariamente, reproduzir. Já Soares fugira desse estilo e se apresentara emotivo, imprevisível e bon vivant. O que mudou desde então? Tudo. A exposição pública, o escrutínio da imprensa, o poder de disseminação do boato. Ainda assim, arrisco-me a dizer que se há um político português vivo que consegue arrebatar mais paixões, sejam de amor ou de ódio, do que José Sócrates ele é Mário Soares. À sua direita e à sua esquerda.

    Mas há uma enorme diferença entre Soares e Sócrates: o estatuto. Que resulta da idade, do currículo político e do tempo histórico em que foram relevantes. E, para tentar resumir, é esta diferença que ainda faz Sócrates correr. Acho que ele não se importa nada de ser odiado pela direita e por parte da esquerda. O que o incomoda é isso não corresponder a um papel histórico que, mal ou bem, lhe seja reconhecido. É não ter atingido um estatuto em que ser odiado por muitos não só é normal como recomendável. No fundo, move-se pelo mesmo que todos os políticos que ambicionaram mais do que uma pequena carreira: o sonho da imortalidade. E essa é, entre outras, uma das razões porque não compro o retrato do pequeno bandido que enriqueceu com uns dinheiros dum outlet em Alcochete. Parece-me que a sua ambição é muito maior. Por isso, façamos-lhe justiça de acreditar que também serão maiores e mais nobres os seus pecados.



Publicado por Xa2 às 07:52 de 29.10.13 | link do post | comentar | ver comentários (2) |

SOCRATES, o não filósofo, o do parlapié

Por: José António Saraiva, em 8 de Abril, 2013 no Semanário Sol

 

Há uns anos, eu deixava habitualmente o carro no parque subterrâneo de um prédio com acesso pela Av. da Liberdade e cujas traseiras davam para a Rua Duque de Palmela.

João Vale e Azevedo, na altura presidente do Benfica, tinha escritório nesse prédio, o que era uma festa: quase todos os dias, à saída dos elevadores, havia uma bateria de jornalistas à sua espera.
Às vezes, eu e ele cruzávamo-nos de manhã ou ao fim da tarde, e fazíamos conversa de circunstância. Um dia apanhou-me à saída e propôs-se acompanhar-me a pé até ao meu emprego. Na véspera tinha havido um debate televisivo entre os candidatos à presidência do Benfica, que ele vencera claramente, e queria falar sobre o assunto. Fomos então pela Rua Duque de Palmela fora, com ele a debitar as suas impressões da noite anterior. A certa altura, procurando ser simpático, eu disse-lhe:
- Tenho de lhe dar os parabéns pelo debate! Você, mesmo quando não tem razão, consegue ser convincente.
Ele olhou para mim espantado, e acabou por dizer:
– Arq.º Saraiva, está enganado! Eu tinha razão em tudo o que disse!
Percebi que não valia a pena contra-argumentar. O homem estava absolutamente convencido da sua verdade e nada o demoveria. Foi esta a ideia que me veio à cabeça no fim da entrevista com Sócrates na quarta-feira da semana passada. 
Sócrates e Vale e Azevedo são almas gémeas. Têm personalidades muito próximas. São ambos megalómanos, perseverantes, combativos e portadores de uma energia inesgotável, acham que não fizeram nada de errado mas levam instituições à falência, têm um enorme desplante, mentem com toda a convicção (porque parecem não saber distinguir entre a verdade e a mentira) e tudo aquilo em que se metem é nebuloso. 
No princípio da entrevista, Sócrates garantiu que não seria candidato a Belém. Lembrei-me de que, dois ou três meses antes de assumir a liderança do PS, ele me disse que ia abandonar a política. Perante a minha insistência, respondeu-me que era uma decisão inabalável, pois Guterres tinha saído muito mal do poder e ele não queria passar pelo mesmo. Isto, repito, passava-se poucos meses antes de ganhar a presidência do PS. Como poderemos saber o que ele fará dentro de três anos? Mas houve quem aceitasse essa garantia como boa…
Depois deste intróito, Sócrates atacou os que criticaram o seu regresso à TV, dizendo que o queriam calar, que pretendiam impedi-lo de se defender, que tal era antidemocrático e mostrava «o carácter dessa gente». Ele seria incapaz de fazer o mesmo a alguém. 
Neste ponto da entrevista, senti um sobressalto: mas, afinal, quem pressionou a TVI para afastar Manuela Moura Guedes? Quem manobrou para pôr José Manuel Fernandes fora do Público? E Mário Crespo fora da SIC? Quem enviou Rui Pedro Soares a Madrid para comprar a TVI, em nome da PT, com vista a mudar-lhe a orientação? Quem deu instruções a Armando Vara, então administrador do BCP, para fechar o SOL? 
Sócrates desencadeou uma ofensiva sem precedentes contra vários órgãos de comunicação social, e agora tem o desplante de se queixar de que não queriam deixá-lo falar? Ainda por cima, ele sabe perfeitamente que, em cima da sua secretária em Paris, há pedidos de entrevista de toda a imprensa portuguesa. Queriam amordaçá-lo? Não brinquemos com coisas sérias.
A entrevista prosseguiu com Sócrates a rebater os «embustes» de que foi vítima e a corrigir a «narrativa» que se escreveu a seu respeito. Garantiu que o Memorando que assinou com a troika não previa cortes do 13.º e 14.º meses, aumento do IVA, reduções dos salários e pensões, etc. Um dos entrevistadores, Paulo Ferreira lembrou que o Memorando não estabelecia medidas concretas «mas apenas metas». Sócrates fingiu, porém, que não ouviu. Continuou na sua. E para condicionar os entrevistadores, usou várias vezes um truque a que Chávez também recorria: acusou-os de repetirem as «mentiras da direita» a seu respeito.
Sócrates levava outro alvo na mira, o Presidente da República. Disse que Cavaco não tinha «autoridade moral» para lhe dar lições, e citou o caso das escutas. Afirmou que foi uma «invenção da Casa Civil do Presidente para derrubar o Governo». Não sei se foi uma invenção nem sei qual era a intenção. O que sei é que o caso foi aproveitado à exaustão pelo Governo de Sócrates e pelo Partido Socialista para atacar Cavaco. Se houve aproveitamento político do caso das escutas, foi do PS para atacar Cavaco e não o inverso. Aliás, ao contrário do que Sócrates também afirmou, a ‘personagem central’ do caso, Fernando Lima, não foi promovido mas sim destituído da chefia do gabinete de imprensa, e afastado do espaço público. 
Mas, no ataque a Cavaco, Sócrates não se ficou por aqui. Adiantou que o Presidente tinha uma atitude em relação ao seu Governo, e tem outra relativamente a este. Mas Sócrates estará bem informado do que se passa em Portugal? Onde estaria quando Cavaco pronunciou o célebre discurso de Ano Novo em que falou da «espiral recessiva»? Ou quando enviou o Orçamento para o TC com observações assassinas para o Governo de Passos Coelho sobre os cortes nas pensões? 
Será a ‘narrativa’ que está errada – ou Sócrates que quer escrever uma História que não existe? 
Porém – hélas! –, depois de negar todas as acusações que lhe têm sido feitas, esgrimindo números que ‘provam’ que ele nem governou nada mal, Sócrates reconheceu ter cometido um erro. Fez-se suspense. Ficámos todos à espera que ele fosse apontar uma medida mal pensada, algo que explicasse o facto de o país estar à beira da bancarrota quando ele saiu. Então, disse: 
– Sim, cometi um erro. Se voltasse atrás, não o tinha feito. O erro foi formar um Governo minoritário. Tive de enfrentar permanentemente um Parlamento hostil.
Afinal, o erro de Sócrates não foi bem um erro – foi um acto de coragem. Do qual ele acabou sendo a vítima. Um herói incompreendido. Quase um mártir.
Este tom perpassou por toda a entrevista. Sócrates nunca foi um carrasco – foi sempre uma vítima. Uma vítima da oposição, que chumbou o PEC IV. Uma vítima do Presidente da República, que conspirou contra ele. Uma vítima dos mercados, que agiram com ganância e foram responsáveis pelo aumento da dívida. Uma vítima ‘dessa gente’ que o queria agora calar. 
A meio da entrevista, tive uma sensação de déjà vu, de cansaço. Aquele era um filme já visto, num estilo conhecido. 
No fim do programa, porém, todos os canais se lançaram com louca excitação para escalpelizar as palavras de Sócrates, mobilizando para o efeito baterias de comentadores que proporcionaram uma verdadeira maratona que durou todo o serão. 
Mesmo assim, houve grandes momentos. Na SIC Notícias, Sousa Tavares começou a esboçar uma defesa de Sócrates, sendo energicamente rebatido por Gomes Ferreira, que explicou que inúmeros prejuízos, como os das empresas públicas, das empresas municipais ou da Madeira tinham sido atirados para baixo do tapete e não contabilizados. Por isso, as contas de Sócrates eram «uma mentira». 
Sousa Tavares ainda proporcionaria um momento hilariante ao dizer que, na era socrática, ninguém se tinha oposto às grandes obras públicas. Ricardo Costa emendou: 
– Miguel, a Manuela Ferreira Leite foi sempre contra! 
Mas Miguel não se lembrava. Não se lembrava de Manuela Ferreira Leite ter sido contra o TGV, contra o Aeroporto, etc., e até ter feito uma campanha eleitoral inteira a falar contra os grandes projectos, que – segundo ela – «iam lançar encargos brutais sobre as gerações futuras». Enfim, os defensores de Sócrates revelam em alguns temas uma memória tão boa como a do seu patrono. 
O momento mais extraordinário daquela noite guardei-o, porém, para o fim. A certa altura da entrevista, José Sócrates disse, mostrando que não tinha nada a esconder: 
– Nunca tive acções, nem dinheiro em offshores. Sempre tive a mesma conta bancária.
– Na Caixa Geral de Depósitos – anotou o jornalista Paulo Ferreira.
– Na Caixa Geral de Depósitos – confirmou Sócrates, humilde.
Ora aí, veio-me uma coisa à cabeça: ‘Mas eu vi uns cheques de Sócrates doutro banco. Estarei a fazer confusão?’. Fui confirmar. Não estava a fazer confusão: os cheques eram mesmo de outro banco, o Totta, tinham escarrapachado o nome completo do cliente – «José Sócrates Carvalho Pinto de Sousa» – e eram às centenas! Para que precisaria Sócrates de tantos cheques? Não faço a menor ideia. 
A verdade é que há demasiadas interrogações no percurso de José Sócrates. Foi a coincineração da Cova da Beira, os mamarrachos da Câmara da Guarda, o diploma da Universidade Independente, o Freeport, o Face Oculta, o Tagus Parque… A propósito: de nada disto se falou na entrevista.

 

Nota: Apeteceu-me colocar aqui este texto para memória futura. É que os portugueses costumam ser muito esquecidos. Não digo que é de comerem muito queijo, porque vivem tempos de «crise» e queijo é um luxo a que concerteza os «Zés» não se podem dar. E ainda porque também têm por hábito de considerarem que «uma mão lava a outra» e portanto fica «tudo bem». Posso ainda acrescentar que este Saraiva que escreve este artigo, não é dos articulistas que aprecio particularmente e que entendo perfeitamente o porquê do que escreve e de como o escreve. Penso até que este articulista se insere no tal grupo de portugueses que referi anteriormente - os dos «queijos» e das «mãos lavadas». Mas para mim isso não me impede de considerar este artigo do Sol com interesse e muito bem escrito.



Publicado por [FV] às 10:54 de 27.04.13 | link do post | comentar |

SÓCRATES E PASSOS, LAMENTÁVEIS E VELHOS

Estamos entalados entre dois casmurros e prensados entre o nosso, irresponsabilizado, desígnio e uma troika sem princípios sociais e a só olhar para os números.

Depois de Sócrates ter anuído, em entrevista à TVI, num entendimento pós eleitoral com o PSD, Passos Coelho veio publicamente afirmar que não está interessado nesse entendimento com Sócrates à frente do PS.

Passos Coelho, ao tomar tal atitude reactiva, vem demonstrar que se está borrifando para os soberanos (?) interesses do país e para o bem-estar dos portugueses. Demonstra que só o move pretender ser Primeiro-ministro e não os verdadeiros e necessários interesses do Estado, do país e de quem cá tem de viver. Muitos há que já vão fugindo.

Passos Coelho, ao dizer não a entendimento com o hipócrita e desonesto argumento de o não fazer com "quem meteu o país na crise", deveria ser coerente e não o fazer igualmente com os seus próprios companheiros de jornada dado que o descalabro consumista, despesista e desviador de recursos vem dos tempos de Cavaco Silva. Já esqueceu o que se passou com a construção do Centro Cultura de Belém?

Já olvidaram o chorrilho de apoios financeiros, mal desbaratados, para abate de navios, para deixar de produzir bens agrícolas, para dar cabo de quase todo o processo produtivo incluindo as escolas técnicas e outros?

"Tenho dito que o PSD está aberto a acordos com outros partidos depois das eleições, mas primeiro o país que diga que mudança quer. Aqueles que nos puseram na crise não têm condições para nos tirar", acrescentou o líder social-democrata.

A tomar tais palavras a rigor ninguém deveria votar no PS como também não no PSD que de resto e a olhar ao que a espasmos tem vindo a lume Deus nos livre que venha a ser governo. Como o PSD ao leme da governação seria mais um virar na senda neoliberal ou mesmo ultra-liberal que vem assolando esta velha Europa, coisa de que tanto EUA, Japão, Mercosul e outras regiões procuram fugir.

O líder do PSD frisou ainda que "o país precisa de conhecer a mudança, precisa de quem tenha crédito para gastar daqui para a frente". Tem razão, só que tal desiderato não será consigo nem com seus comparsas que, conforme já referido, nada de novidades aportam, nem com uma roupagem tão pouco enobrecida como foi a triste jogada da caça ao voto eleitoral das recentes eleições presidenciais.

Lamentável, simplesmente lamentável e velho.

Até o governador do Banco de Portugal, Carlos Costa, cuja autonomia parece mais consentânea com a função e diferente da forma de actuar do seu antecessor, veio afirmar, conforme aqui se pode ler, que a actual crise orçamental é "reveladora de uma persistente falha do regime financeiro da administração pública" e defendeu que "a inscrição na Constituição de uma regra sobre saldos orçamentais pode ajudar a criar um círculo virtuoso de qualidade institucional do ponto de vista da disciplina orçamental e do crescimento".

Perante o desgoverno, demonstrado pelos vários partidos, e incapacidades fiscalizadoras das respectivas comissões e da própria Assembleia da República, será o mimo que se pode exigir.

O homem afirma que é "reveladora de uma persistente falha..." portanto que não é recente ou seja é vinda de há largos anos, vem dos tempos de outros senhores que agora se pretendem "vender" ao povo com outras roupagens e por novos preços, naturalmente muito mais exigentes e mais caros.

O povo, por vezes parece, efectivamente, andar distraído mas, também, por vezes, acorda.



Publicado por Zé Pessoa às 00:05 de 28.04.11 | link do post | comentar | ver comentários (3) |

Administração danosa

Parece que Castanheira Neves, advogado de Coimbra, apresentou queixa-crime contra Sócrates pela prática de um crime de administração danosa, previsto e punido pelo art.º 235º do Código Penal.

A notícia foi veiculada em primeira mão pelo Campeão das Províncias, um "jornal" até agora desconhecido da generalidade dos portugueses e sediado em Coimbra. O método já foi utilizado antes: começa-se por "meter uma cunha" num órgão de comunicação social local e desconhecido e a notícia é difundida pelos media nacionais. Mas vamos então à notícia...

Ao ler a notícia, quem não conheça Castanheira Neves pode até ficar com a sensação de que se trata de um cidadão vulgar e normal que apenas pretende o bem do país ("sublinhando que a decisão 'nada tem de pessoal' contra José Sócrates - a quem, aliás, reconhece 'várias qualidades'"). Mas sucede que Castanheira Neves é filiado no PSD, já concorreu a presidente do partido e, actualmente, é o coordenador do Gabinete de Estudos do PSD para a Justiça. Mas nas peças divulgadas pelos media nada disto é referido. Porque será?

Este frete trata-se, no fundo, de uma simples manobra política. Castanheira Neves, enquanto advogado, sabe muito bem que não houve crime. O que pretende é a publicidade em torno da notícia, da queixa-crime apresentada contra o Diabo, aquele ser odiado por muitos, que tem de ser "rasteirado". E é no campo meramente político que devemos analisar esta "notícia", pois no campo jurídico é uma aberração. Porque se houve crime aqui, então muito mais gente teria que ser acusada, a começar por muitos colegas de partido (e certamente amigos) de Castanheira Neves. Ou foi apenas o governo de Sócrates que deu tolerância de ponto nas festividades (Carnaval, Páscoa, Natal, etc)?...

Poderia aqui escrever mais umas quantas coisas sobe esta aberração jurídica, mas limito-me à análise política, pois juridicamente havia muito mais a dizer. Mas, enquanto advogado, tenho deveres éticos e deontológicos (desde logo o dever de urbanidade e respeito pelos colegas de profissão) e não serei eu a desrespeitá-los.

Ricardo Sardo [Legalices]



Publicado por JL às 00:01 de 28.04.11 | link do post | comentar |

Dois passos atrás sem passos à frente...

As sondagens publicadas nos últimos dias dão conta que tudo está no fio da navalha, quer quanto à escolha do primeiro-ministro, quer quanto a maiorias parlamentares.

A seis semanas das eleições, ninguém arrisca dizer quem sairá vencedor do confronto eleitoral de 5 de Junho - se José Sócrates ou Passos Coelho. As sondagens publicadas nos últimos dias dão conta que tudo está no fio da navalha, quer quanto à escolha do primeiro- -ministro, quer quanto a maiorias parlamentares. Este quadro, a manter-se, indicia sérias dificuldades na formação de um governo sustentado por uma maioria parlamentar, com os perigos que daí advêm, particularmente quando paira no ar um cheiro a bancarrota. Mas não deixa de ser, também, um cenário arrasador para o PSD e, sobretudo, para o seu líder.

 Parece estranho que José Sócrates, com o desgaste natural de mais de seis anos no poder e no meio de uma profunda crise internacional, se mantenha em condições de ser eleito de novo primeiro-ministro. Mas é notória a desconfiança dos portugueses em relação às capacidades de Passos Coelho para o substituir. Sobretudo neste período de grandes dificuldades. Essa desconfiança começou no Verão passado, com a proposta de revisão constitucional. Passos Coelho mostrou que as suas "convicções" navegam à vista, ao sabor de sondagens. Meteu os pés pelas mãos, sem saber o que queria ou se o sabia não queria dizer.

Os dois exemplos mais significativos foram a "justa causa" nos despedimentos e o fim dos serviços de saúde "tendencialmente gratuitos". Mesmo se lhe assistisse razão na proposta inicial, as sucessivas alterações moldaram-lhe o perfil político. Contudo, foi a partir de 12 de Março que esse perfil se consolidou. O momento e os motivos do derrube do governo e as erráticas e contraditórias propostas avulso que tem apresentado ditaram a imagem de imaturidade política. A escolha de Fernando Nobre para Lisboa e o imbróglio da "oferta" da presidência da Assembleia da República foram a cereja em cima do bolo.

 Mesmo para quem tem razões de queixa do governo e de José Sócrates - e razões de queixa sobejam - é incompreensível a rejeição do PEC IV, numa estranha sintonia com a extrema-esquerda, exactamente no momento em que o primeiro-ministro tinha alcançado um pré-acordo com os parceiros europeus, para uma saída "airosa" da degradada situação financeira e económica em que nos encontramos.

Essa incompreensão aumentou quando, dias depois, o líder do PSD, ao contrário do que sustentara antes, desenvolveu, em versão inglesa, a tese segundo a qual o PEC IV não ia "suficientemente longe" nas medidas de austeridade a adoptar.

Esta reviravolta levantou a interrogação sobre os verdadeiros motivos da rejeição do PEC IV. E quando começaram as recusas públicas de figuras cimeiras do PSD em aceitar o convite de Passos Coelho para integrar as listas de deputados, caso de Manuela Ferreira Leite, Marques Mendes, António Capucho ou Luís Filipe Menezes; ou as críticas implacáveis de José Pacheco Pereira ou Morais Sarmento, entre outros, percebeu-se que os motivos que estiveram na origem do derrube do governo podem estar mais relacionados com a instabilidade interna da sua liderança do que com a situação do país.

A acelerada degradação da situação financeira após a demissão do primeiro-ministro e o pedido de "ajuda externa", percebido como consequência da crise política, evidenciaram ainda mais quão inoportuna foi a abertura desta crise política.

Por tudo isto, não é estranho que José Sócrates esteja, ainda, neste momento, em condições de ser eleito, pela terceira vez consecutiva, primeiro-ministro.

Tomás Vasques [i]



Publicado por JL às 10:23 de 27.04.11 | link do post | comentar | ver comentários (1) |

O Grande Mentiroso

Nas semanas que se seguiram ao chumbo do PEC no Parlamento, vimos e ouvimos Passos Coelho e outros responsáveis do PSD jurarem perante o país que o governo não informara este partido do conteúdo das medidas que negociara em Bruxelas. Essa era a razão por que o PSD votara contra, apesar de essas medidas terem sido entretanto aceites e elogiadas pelos parceiros europeus e pelo BCE...

Sabe-se hoje, que isto não passou duma grande mentira. O próprio Passos Coelho se descaiu em directo, na entrevista a Judite de Sousa. Agora é Pacheco Pereira a dar uma ajuda para se perceber como a trama foi montada. O melhor é lerem a notícia do DN:

“No programa 'Quadratura do Círculo', Pacheco Pereira revelou que no dia em que José Sócrates estava a negociar em Bruxelas o PEC4, na cimeira de 11 de Março último, todos os deputados do PSD receberam um SMS em que se dizia: "Não façam nenhuma declaração até logo à noite sobre a cimeira europeia".

Alguns deputados, contou Pacheco Pereira, quiseram saber a razão de ser desta ordem e foi-lhes dito que era para "não prejudicar as negociações do Governo em Bruxelas e para que o PS não viesse a usar isso como arma".

"Recorde-se que tudo isto aconteceu um dia depois do primeiro-ministro, antes de partir para Bruxelas, ter telefonado ao líder do PSD, Passos Coelho, para que se deslocasse a S. Bento. Durante a reunião, José Sócrates apresentou ao chefe do maior partido da oposição o Programa de Estabilidade e Crescimento (PEC) 4 que haveria de levar, no dia seguinte, à cimeira europeia”.

O país é testemunha: desde há vários anos, não passa uma semana sem que os dirigentes do PSD chamem mentiroso ao primeiro-ministro José Sócrates.

Dia a dia, vai descobrindo quem o engana e mente sem pudor...

José Ferreira Marques [A Forma E O Conteúdo]



Publicado por JL às 00:03 de 17.04.11 | link do post | comentar |

A CULPA

Alvíssaras. Finalmente, uma boa notícia. Essa enguia permanentemente escorregadia chamada culpa foi apanhada pelas guelras. Isto se uma enguia tem guelras, o que me parece que não. Essa filha espúria da boa maneira de ser português chamada culpa ganhou lugar na sociedade. Essa filha de uma prostituta, cujo pai sempre esteve perdido na bruma da confusão, encontrou o dito com bilhete de identidade, retrato nos jornais e menção em todos os telejornais. Tem um nome sonante, bem português, filho querido da pátria do “ão”. Chama-se Oposição. Cessem as dúvidas, esqueçam-se os mil e um casos onde não foi encontrado o progenitor, passemos uma rodilha sobre a sujidade sem autor, que não há mais que procurar. Os mercados estão zangados connosco? A culpa é da Oposição. Os juros da dívida soberana crescem? A culpa é da Oposição. Vamos gastar um balúrdio a fazer umas eleições estúpidas e desnecessárias? A culpa é da Oposição. Os bancos têm dificuldade em encontrar financiamento? A culpa é da Oposição. A segurança Social tem o futuro comprometido? A culpa é da Oposição. As falências estão a aumentar a um ritmo assustador? A culpa é da Oposição. O desemprego cresce a ritmo exponencial? A culpa é da Oposição. Não se faz o Novo Aeroporto de Lisboa? A culpa é da Oposição. O TGV vai-se ficar pela raia? A culpa é da Oposição. As costas do Hulk – não o do Porto, o da banda desenhada – são anoréxicas quando comparadas com as costas da Oposição.

Mas há mais. A senhora Merkel perde eleições? A culpa é da Oposição. Portuguesa, não a dela. O Euro está em crise? A culpa é da Oposição. O Orçamento foi aprovado com a ajuda da Oposição? É evidente. A culpa é da Oposição. E os juros da dívida começaram a subir e os mercados a dizerem que Portugal ia pedir ajuda. O PEC1 foi aprovado com a ajuda da Oposição? É ainda mais evidente. A culpa é da Oposição. E os juros continuaram a subir e os mercados a dizerem que Portugal ia pedir ajuda. O PEC2 foi aprovado? Já entra pelos olhos dentro. A culpa é da Oposição. E os juros continuaram a subir e mais gente nos mercados continuou a insistir que Portugal ia pedir ajuda. O PEC3 foi aprovado com a ajuda da oposição? A evidência é uma certeza. A culpa é da Oposição. E os juros continuaram a subir e os mercados a dizerem que já só o FMI nos salva. O PEC4 não foi aprovado. A Oposição disse que não ia mais em cantigas. O Carmo desfez-se e a Trindade desapareceu. A culpa é da Oposição. E, mais, os juros só sobem e a ameaça de intervenção do FMI nos nossos negócios só existe por culpa da Oposição. E, para que não estem dúvidas, forma-se um coro. Com a senhora Merkel como solista, mas bem acompanhada por Sarkosis, Durões, Trichets e o inefável Silva, por vezes conhecido como Augusto, o Imperador. A culpa é da Oposição, entoam em coro.

Mas há mais. Para trás, perdida nas brumas do esquecimento, fiou uma montanha de factos. O crescimento brutal da despesa pública. O projecto megalómano do Novo Aeroporto de Lisboa. O sonho mirabolante do TGV. Os contratos sem concurso, como os do computador Magalhães. Os ordenados chorudos de assessores e consultores no momento de contratar. As indemnizações ainda mais chorudas a assessores e consultores no momento de despedir. O desperdício brutal dos recursos públicos. O governo sem rei nem roque do NOSSO dinheiro. Ainda bem que tudo isto ficou esquecido. Porque, se não o fora, a Oposição haveria de arcar com amis algumas vultuosas culpas.

Perdoe o meu Caro Leitor por sair fora da seriedade exigida a esta coluna. E o Director do Jornal por abusar do espaço em historietas. Mas tudo quanto ficou para trás faz-me lembrar aquela história do casal que vai jogar uma partida de golfe em pares. Começam com um buraco Par 4. Isto é, o normal é meter a bola no buraco em quatro tacadas. Sai o marido que, com uma pancada excepcional, coloca a bola a 200 metros, bem no meio do fairway. Segue-se a mulher. Com uma pancada desajeitada, põe a bola no meio das árvores. Depois de procurar a bola durante dez minutos, o homem encontra-a e bate-a com imenso cuidado, colocamdo-a no green, a meio metro do buraco. Para a mulher falhar, na quarta pancada, terminar o percurso. Com a bola a três metros do buraco, o homem lá consegue terminar. E comenta para a mulher:

- Vê lá se jogas com mais jeito. Fizemos uma pancada acima do par…

O que mereceu uma resposta lapidar da mulher:

- A culpa é tua! Das cinco pancadas, eu só dei duas!...

Trágico destino o nosso, português. Dizia há dias uma comentadora de uma rádio espanhola, quando José Sócrates, na Assembleia da República, abandonou com altivez os representantes do seu Povo:

- Que tristeza! Como é que um país tão belo pode ter tão maus políticos…

Uma falta de qualidade que se não entende. O político, antes de ser político, era uma pessoa "normal". Normalidade feita de virtudes e defeitos, naturalmente. Feita de verdades e mentiras, também. Mas, por outro lado, feita de razões e de emoções. Esperar-se-ia que o político trouxesse para a política o quadro normativo do seu comportamento anterior. E pode-se mesmo crer, honestamente e em muitos casos, ser esse o desejo e a esperança do político iniciante. Mas são ilusões de noviço. Chegado à política, ao político não se apresenta senão uma alternativa. Ou deixa para trás os seus ideais, as suas ilusões, as suas emoções, os seus sentimentos pessoais, a sua sinceridade, a sua honestidade, quase ia a dizer a sua humanidade, ou, na política, não passará da porta de entrada. Será inexoravelmente um derrotado. Será vencido pelos capazes de fingir, de mentir, de sobrepor à realidade a fantasia das palavras. A política, de socrática e eventual ciência ou arte de dirigir, de governar, a vida das sociedades, está transformada na ciência ou arte do uso da palavra. Política não é hoje senão retórica. E nessa retórica nos perdemos.

Enquanto a esperança de nos vermos sair do atoleiro em que a falta de qualidade política nos meteu, vamos assistindo a este triste espectáculo que nos toma por mentecaptos.

Por Magalhães Pinto


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Publicado por [FV] às 13:34 de 07.04.11 | link do post | comentar | ver comentários (2) |

Volta, Judite, estás perdoada...

…onde dois jornalistas entrevistavam o Primeiro-Ministro.

Vítor Gonçalves, autor do livro “A Agenda de Cavaco Silva”, veio de Washington- onde foi colocado após a vitória de Cavaco em 2006. É um jornalista com tarimba parlamentar, foi editor de política da RTP, aceitou recentemente o convite de Nuno Santos para director-adjunto de informação da RTP 1 e desempenhou bem o seu papel de entrevistador.

Já Sandra Sousa, uma moderadora fraquinha do “Corredor do Poder” revelou-se um desastre como entrevistadora. Não só interrompia constantemente o entrevistado, como atropelava Vítor Gonçalves que, diversas vezes, se viu obrigado a mandá-la calar-se. Pior ainda, revelou uma confrangedora falta de preparação que roçou a ignorância. Sócrates não perdeu a oportunidade para lho lembrar, saindo diversas vezes por cima, em questões delicadas. Deve ter terminado a entrevista corada de vergonha. Volta, Judite, estás perdoada...

A insistência dos entrevistadores em querer saber se Sócrates pensava pedir ajuda externa antes das eleições revela ignorância, ou necessidade de agradar a alguém. Alguns constitucionalistas e o próprio Paulo Rangel, já tinham esclarecido a incoerência de um pedido desses ser feito por um governo de gestão.

Foi notório o incómodo de Sócrates durante toda a entrevista. A situação é difícil, ele sabe-o e acredito, sinceramente, que tudo tentou para salvar o país do pedido de ajuda externa. Tentar assacar-lhe culpas pela recente subida das taxas de juro ou pelos cortes de rating e ilibar Passos Coelho da canalhice que fez ao país, parece-me má-fé. Tentar que Sócrates dissesse que Cavaco é o maior culpado desta crise, percebe-se, mas insistir depois de ele ter respondido afirmativamente à questão, com uma indirecta, foi perda de tempo.

O que o país precisa de saber é que a entrada do FMI será muito mais prejudicial para os portugueses, do que o PEC que a oposição rejeitou. Coisa que Passos Coelho não diz, nem os entrevistadores de serviço na S. Caetano quiseram perguntar. Pior… tentaram evitar que Sócrates explicasse algumas das medidas que foram exigidas à Grécia e Irlanda, para os portugueses ficarem a saber o que os espera.

A entrevista podia ter sido um bom momento para esclarecer os portugueses sobre os cenários alternativos que se vão colocar aos portugueses no dia 5 de Junho, mas definitivamente não era para isso que lá estavam os dois jornalistas…

Carlos Barbosa de Oliveira [crónicas do rochedo]



Publicado por JL às 15:30 de 05.04.11 | link do post | comentar | ver comentários (1) |

NINGUÉM O LEVOU A SÉRIO

Para quem tinha como um dado adquirido, que o homem era um mentiroso compulsivo, ficou com a criança nos braços.

Sócrates, é certo, nem sempre falou a verdade (como todo e qualquer cidadão que se preze) e muitas vezes se enganou (ao contrário de certa pessoa que um dia afirmou que “eu nunca me engano e raramente tenho duvidas”) enganando, também com isso, o povo, em nome de quem governava. Por isso, quase, ninguém o levou a sério quando afirmou que o chumbo do PEC IV, (o apresentado ou outro qualquer, como afirmou estar disposto a negociar) significaria a sua demissão de 1º Ministro.

O PS poderá sofrer com ele e muito, mas o país sofre com todos inclusive com a incoerência (atentas as suas próprias palavras) da posição de Aníbal Cavaco Silva que não conseguiu colocar acima de todas as quezílias e querelas partidárias e pessoais os “soberanos interesses de Portugal”. Damos uma imagem interna e internacionalmente que o país não necessitava nem merecia.

Agora aí está o resultado, tanto mais que o Presidente da Republica, também, não esteve à altura de ter sido capaz de ultrapassar as suas próprias “comezinhas” questiúnculas pessoais e ter exigido que, no âmbito da Assembleia da Republica, se tivesse encontrado uma saída para a crise, sabendo-se que tal inépcia nos atiraria para o lixo do mercado financeiro internacional e, até como sociedade.

O Presidente deveria ter sido capaz (não fora ter tido uma atitude em causa própria, pelo menos da fama, disso, não se livra por mais justificações que venha a argumentar) de, no próprio dia em que viu recusada a proposta do, famigerado, PEC IV, declarado publicamente que a sua exigência e que o país teria acolhido de bom grado era a de que os partidos no âmbito da Assembleia se entendessem na constituição de um governo alagado e capaz de responder aos desafios do momento.

 

P.S. (1)

A Islândia, que depois da crise da banca rota a que teve de fazer face (que tal como por cá teve contornos criminosos), levou o respectivo governo local a anunciar aumentos de impostos, cortes sociais, cortes salariais, forte agravamento da inflação, enfim a receita do costume imposta pelo FMI.

Só que o povo não gostou e não se limitou a lamuriar mas concentrou-se, ininterruptamente, em frente ao seu parlamento até obrigarem à queda de um governo conservador e foram às urnas votar, chumbando estrondosamente a política que era a de salvar bancos falidos e corruptos à custa de quem trabalha.

Das respectivas eleições saio uma coligação entre a Aliança Social-Democrata e o Movimento Esquerda Verde, chefiada por uma mulher, Johanna Sigurdardottir, a actual chefe do governo, foi equilibrando as finanças do país e saiu da recessão.

O povo, pela pressão e exercício de cidadania, impôs um estilo de governança diferente e os responsáveis internos pelas dívidas foram responsabilizados, abriu-se “caça” aos suspeitos de fraude e falsificação de documentos, que sacrificaram a Islândia e o próprio procurador-geral, fugitivo, já foi convencido a regressar ao país, a população sente que está a fazer-se justiça e a falar-se verdade.

A actual coligação islandesa criou uma assembleia de 25 cidadãos sem filiação partidária que foram eleitos entre 500 advogados, estudantes, jornalistas, agricultores, representantes sindicais, entre outros.

As contas de toda a estrutura dos Estado, seja local ou central, são tornadas públicas, bem como toda a area de negocios e contratos.

Esta genuína revolução pacífica está sendo omitida, quase completamente desaparecida dos órgãos de comunicação social e, os habituais comentadores de serviço, não lhe têm dado o merecido relevo. Ironias e estranhas coincidências a contrastarem com o atribuído às agências de rating e ao FMI.

P.S. (2)

O jornal “Público” noticiou, no dia 3 do corrente, que o líder do PCP disse esperar que as eleições legislativas permitam um governo patriótico de esquerda, e que o partido está disponível para fazer alianças com o BE, depois das eleições, desde que este clarifique os seus objectivos.

Uma verdadeira coligação à islandesa, só falta saber qual é o programa e se o PS (de Sócrates) também estará disponível para tal desafio.



Publicado por Zé Pessoa às 00:04 de 05.04.11 | link do post | comentar | ver comentários (338) |

Tempos (ainda mais) difíceis

O tempo que vivemos não é seguramente dos mais brilhantes da nossa História. Nem tanto pelas dificuldades, que são enormes mas não inéditas. As atitudes que vamos observando em quem tem responsabilidades é que nos fazem descrer da possibilidade de rapidamente unirmos esforços para vencer a crise.

Vejamos: tudo começou em 2009 com a vitória do PS e de Sócrates sem maioria absoluta. Toda a Oposição viu aí a primeira oportunidade de vergar o primeiro-ministro, e a verdade é que alguma arrogância dos tempos da maioria absoluta terá contribuído para um sentimento muito generalizado de que faltava humildade ao primeiro-ministro. O próprio Cavaco Silva - e com ele muitos barões do PSD - viram aí a ocasião de retribuir o sufoco em que tinham vivido nos últimos anos, estando ainda fresco na memória a forma como Manuela Ferreira Leite tinha sido sucessivamente cilindrada.

Cavaco Silva deveria ter nessa altura iniciado a sua tarefa de conciliador, de agregador, deveria ter tentado que se formasse uma maioria que garantisse vida longa ao Governo. Não o fez. Sócrates disse-se aberto a alianças, mas não foi nem convincente nem disponível para abdicar de algumas das suas propostas. Teve o que se sabe. A Oposição, em alianças negativas, foi destruindo diplomas, impondo políticas. Ainda agora, o Governo acabado de se demitir, as alianças negativas mataram a avaliação dos professores e revogaram medidas do Executivo para os medicamentos. Mas o Governo foi, como se costuma dizer, passando entre os pingos de chuva, sabendo que dificilmente seria destronado por aliança do PSD com a Esquerda do PCP e do Bloco. Veio a crise. Com ela, o bom senso de Passos Coelho, entretanto chegado à liderança do PSD. Um PEC e mais outro e mais outro. Até que, depois do violento discurso de posse de Cavaco Silva e perante o desdém de Sócrates que agiu como se não precisasse de apoio parlamentar nem devesse informar o presidente, o PSD cortou o apoio e lá vamos nós para eleições, provavelmente no momento menos adequado. Aqui ao lado, os espanhóis vão no quinto PEC, num crescendo de austeridade.

Vamos para eleições no preciso momento em que as agências de rating vão tornando o crédito a Portugal cada vez mais oneroso. Sócrates apostou tudo na rejeição do FMI. Apostou em que a Europa se chegaria à frente antes que o FMI fosse necessário. Mas a Europa foi esticando a corda e quando parecia que talvez pudesse dar razão a Sócrates, a Finlândia - um dos elos fortes da solução europeia - vai inesperadamente para eleições. As contas do primeiro-ministro caem pela base. Erro de cálculo, claríssimo.

Agora, com Governo de gestão, Sócrates diz que não pode chamar o FMI - até aqui o Governo não queria - Passos Coelho diz que sim e Cavaco diz que sim também, acrescentando - pela primeira vez - que as agências de rating exageram na pressão que fazem. Mas já exageram há muito. Interessou pouco dizê-lo noutras alturas, como certamente também já poucos ouviram, perante a correcção do défice - a Europa dizer que Portugal não mentiu nas contas, porque já todos entraram na fase das acusações.

Não é preciso dizer quem é o mexilhão desta história. Mas é preciso dizer que com os três principais protagonistas portugueses acontece só isto: Cavaco não gosta de Sócrates e ainda não confia (ou melhor, ainda desconfia) em Passos Coelho. Sócrates tem para com Cavaco sentimentos recíprocos aos do presidente para com ele e com Passos disputa o mesmo lugar, o que desde logo os afasta. Entre Passos e Cavaco há um fosso geracional, há um passado de separação, restando o respeito devido a uma linha comum e, acima de tudo, a oportunidade política. É pouco. Entre os três não haverá muito a fazer. Da cena política, restam dois dirigentes de Esquerda: um, fiel ao seu eleitorado e fazendo um caminho previsível mas certeiro na defesa dos seus; o outro, menos previsível, mas em sentido único, o sentido do protesto, nunca o sentido do contributo para que algo se construa. Resta, mais à direita, Paulo Portas, por ora na expectativa de saber se o PSD vai precisar dos seus votos ou não, mas coerentemente pronto para agravar a factura por cada dia que passa sem o PSD se aproximar.

E é assim que, a um mês e pouco das eleições estamos como em 2009, à parte uma situação económica sem paralelo: ou um partido, ou uma coligação tem maioria absoluta ou amargaremos ainda mais a nossa sorte. Os líderes em presença serão incapazes de aproximações e o presidente continua sem margem para intervir. Ou alguém dá um passo durante a campanha eleitoral ou o pior está para vir.

José Leite Pereira [Jornal de Notícias]



Publicado por JL às 13:58 de 04.04.11 | link do post | comentar | ver comentários (1) |

O que não é o PSD

Facto 1: A fazer fé nas sondagens, e caso se realizassem hoje eleições legislativas, a maioria dos portugueses daria a vitória ao PSD, sem contudo lhe entregar uma maioria absoluta para governar o País.

Facto 2: A fazer fé nas sondagens, a maioria (agora sim absoluta) dos portugueses não acredita que o Governo seja capaz de cumprir as metas orçamentais a que se propôs. Que é como quem diz, a maioria dos portugueses não confia minimamente no Governo.

Facto 3: A fazer fé nas sondagens, uma esmagadora maioria dos portugueses (63%) defende que o PSD deve evitar provocar eleições antecipadas.

Confuso? Eu também. Especulemos pois sobre esta bizarria.

Cenário 1: Os portugueses ensandeceram de vez e querem ver no Governo um partido em que não confiam em absoluto sem primeiro tirar de lá um outro em que não confiam de todo. Uma espécie de arranjinho político desenhado por M. C. Escher. É a tese do "enlouquecimento global".

Cenário 2: Os portugueses estão verdadeiramente fartos de políticos, politólogos, sondagens e eleições, desistiram de ter opinião, divertem-se a responder o que primeiro lhes passa na mona e vão à sua vidinha que está muito difícil. É a tese do "seja lá o que Deus quiser" ou, na versão mais laicamente correta, "o último a sair que apague a luz".

Cenário 3: Os portugueses estão com o Eng.º Sócrates pelos cabelos (fartos dos seus "truques", no dizer mais requintado de Alexandre Soares dos Santos), sabem que o homem os conduzirá fatalmente à desgraça, mas não fazem a mínima ideia do que seja esse tal de PSD. É a tese do "estamos à beira do precipício mas ainda não percebemos se a alternativa não será um passo em frente".

Entre as três hipóteses, confesso, mon coeur balance. Mas como sou um homem prático facilmente entendo que pouco ou nada há a fazer se os portugueses tiverem coletivamente ensandecido ou se tiverem desistido desta pátria improvável. O que nos deixa com o Cenário 3. E mesmo relativamente a esse, não vale a pena perder muito tempo nem muitas energias. Ninguém, no seu inteiro juízo, se vai pôr agora a exigir ao Dr. Passos Coelho que nos explique o que é o PSD. Há desafios que todos reconhecemos ser impossíveis e parece cristalinamente óbvio que não existirão dois militantes com a mesma resposta para tão esfíngica pergunta. Felizmente a forma de sair deste intrincado paradoxo - e começa a ser urgente desatar este nó - é estupidamente simples: bastará que o Dr. Passos nos diga o que não é o PSD. Ou, melhor ainda, quem não é o PSD.

Sossegue o País, Dr. Passos. Diga-nos mais claramente ainda (porque é verdade que já o sugeriu) que o seu governo não será o comboio fantasma de apparatchicks que todos imaginam. Diga-nos que não nos vai obrigar a mudar de governo para que tudo fique na mesma. Diga-nos que percebe, tão bem como nós percebemos, que muitos dos seus entusiasmados apoiantes de hoje foram os indefetíveis de Sócrates até anteontem. Diga-nos que não vai ficar refém dos mesmos interesses económicos e financeiros que sustentaram o delírio socialista. Diga-nos com firmeza e coragem o que não é, nem nunca será. Vai ver que é o que basta para fazer desequilibrar a balança.

Pedro Norton [Visão]



Publicado por JL às 18:05 de 22.03.11 | link do post | comentar | ver comentários (1) |

FIZ UMA APOSTA

Sócrates cai / Sócrates não cai

Fiz, com um meu amigo, uma aposta de um jantar para quatro e, neste caso, não há empates ou ganha ele e perco eu, ou será ele a perder e eu quem ganhará. Dois dos quatro ganham sempre, qualquer que sejam o resultado da aposta e o pagante da mesma. É o que resulta de ser testemunha.

O motivo da dita refrega é, simultaneamente, simples e complicado. O meu amigo apostou em como Sócrates não chega até ao fim do ano como Primeiro-ministro, eu arrisquei o inverso.

Não hajam duvidas que tenho, quase, tudo contra mim, mas, arrisco e como diz o Mourinho “não atiro a toalha ao chão logo nas primeiras dificuldades”.

Tenho contra mim, a continuada incapacidade e muita incompetência por parte da maioria dos governantes terem, reiteradamente, falta de rigor nas contas e muita displicência na redução de gastos supérfluos e de aplicação discriminada de más políticas na (quase sempre aos mesmos) dos sacrifícios para reduzir o deficit. Veja-se o sequito de ministros e assessores nas deslocações inaugurativas ou anunciadoras de obras, é só esbanjar erário público;

Tenho contra mim, o facto dos governos recorrerem, sistematicamente, às mesmas “manigâncias” orçamentais de rebuscar onde podem e, por vezes, onde não deveriam poder, verbas de fundos de pensões alheias como quem varre para debaixo do tapete e empurra para o futuro responsabilidades não assumidas no presente. O arrecadar de fundos de pensões de empresas e sectores de actividade (PT, CGD, banca...) é não resolver os problemas actuais e agrava-los no médio prazo;

Tenho contra mim, o eventual acelerar da carteira de privatizações em tempos de crise, em tempos que só os combustíveis e poucos mais produtos vêm o preço aumentado. A venda de quaisquer bens publicos, nas presentes circunstâncias e em tempos de retracção económica, será sempre um mau negócio para o Estado;

Tenho contra mim, a má vontade dos especuladores financeiros e dos credores internacionais a cobrar juros, da divida soberana, escandalosamente usurários;

Tenho contra mim, a opinião pública e publicada, assim como o descontentamento dos cidadãos e eleitores, sem saberem para onde se virar e em quem possam confiar;

Tenho contra mim, os baronetes que gravitam em torno do PSD, tendo como barão-mor o D. Ângelo de Correia a exigirem rápidas eleições antecipadas, tal é a cede de apanhar empresas e sectores de actividade ainda em controlo do Estado, numa anunciada carteira de privatizações;

Apenas tenho (e é muito) a meu favor (será mesmo a meu favor?) o facto da crise ser, efectivamente, muito grave associada a circunstancia da não existência de políticos e de políticas com credibilidade e alternativa aceitáveis;

Tenho a meu favor, a convicção de que, nas actuais e presentes circunstâncias, quer os lideres como o próprio partido oposicionista e da habitual alternância na aplicação de idênticas e mais graves políticas não quererem queimar as luvas nas fogueiras que agora se encontram ateadas. Das outras três forças partidárias, dignas desse substantivo, o que lhes restará são as feiras, as moções de rua e as moções de censura/ternura na Assembleia da República.

O chato de tudo isto é ter de esperar até ao fim do ano para comer o tal jantar.

Ele há coisas...



Publicado por Zé Pessoa às 00:03 de 14.03.11 | link do post | comentar | ver comentários (2) |

É precisa uma pedrada no charco

...

Está, pois, na hora, de obrigar cada um a assumir as suas responsabilidades. Não vale a pena conversar com o PSD, porque o PSD não existe. Existe Passos Coelho, que quer qualquer coisa que evite a descida de Rui Rio à capital, e cujo principal exercício político é disfarçar. Disfarçar as políticas que quer tentar, resumidas no “salve-se quem puder”. Existe Rui Rio e os que querem um PSD “credível” para tomar conta da intendência, mas que ainda não acabaram de ultimar o plano de assalto ao palácio de inverno. E existe o chefe da oposição, que reside oficialmente em Belém.

Assim sendo, Sócrates, como PM e SG do PS, deve ir a Belém e dizer a Cavaco Silva: “o senhor Presidente acha que os portugueses não podem fazer mais sacrifícios; os seus aliados nas instituições europeias passam os dias a exigir-me que peça mais sacrifícios aos portugueses; os seus aliados nos partidos portugueses concordam consigo que isto vai lá sem mais sacrifícios – e eu não estou a ver como; o senhor Presidente teve a sua manifestação da maioria silenciosa, que ajudou a convocar no seu discurso de tomada de posse, na sua habitual abrangência política alimentada pela crítica sem alternativa, porque a alternativa é onde a porca torce o rabo; portanto, senhor Presidente, eu vou-me embora, o PS vai para a oposição, que já se esforçou o suficiente, e o senhor Presidente assuma as consequências do seu activismo e arranje uma solução”.

É preciso saber sair a tempo. Sócrates não quer deixar a sua obra por mãos alheias, compreendo – mas o julgamento de Sócrates não terá lugar agora, mas daqui a dez anos, quando as estatísticas mostrarem o que mudou radicalmente por consequência da sua governação. E o grande sobressalto de que o país precisa é ser confrontado com as responsabilidades próprias dos cobardes que falam para não serem entendidos. O chefe de orquestra, que está em Belém, que trate do concerto. Única objecção razoável: o país não suporta uma crise política. A minha resposta: crise ou mudança, como lhe queiram chamar, terá sempre de acontecer antes de o país voltar a entrar nos eixos; assim sendo, que não tarde. O país precisa de uma pedrada no charco do faz de conta. Sócrates pode ser o autor de mais esse serviço ao país, habituado como está a fazer os lances decisivos.

Ler o artigo na íntegra

Porfírio Silva [Machina Speculatrix]



Publicado por JL às 22:58 de 13.03.11 | link do post | comentar | ver comentários (4) |

SÓCRATES CAI, SÓCRATES NÃO CAI

Entre nós, cá dentro, muitos são aqueles que prognosticam a queda do governo antes do fim da legislatura, incluindo o próprio socialista João Proença, da UGT, que diz não irá além de Junho.

Eu, pelo que estou a constatar, tal “trambolhão” não será assim, tão certo, a avaliar pelas mãos estendidas que chegam do exterior, dirigidas a tão ilustre crente no futuro, ser iluminado para todos os compatriotas defender. Já tinha chegado o “amigo” chileno e veio, agora, cheio de entusiasmo, o não menos “amigo” chinês.

Cair ou não cair? Tudo depende dos socialistas, considerando as mais diversas circunstancias. Dos socialistas que estão no governo, dos que estão nas autarquias, dos que estão nas empresas (sobretudo dos administradores), dos que estão nos sindicatos e dos militantes em geral. Todos esses socialistas, cada um de modo próprio e segundo o respectivo grau de responsabilidade, podem contribuir para que a boa gestão dos recursos publicos seja conseguida. Claro que o exemplo terá de surgir do topo, dos que têm maior grau de responsabilidade, o que, em abono da verdade se diga, não tem sucedido.

Os militantes socialistas terão de ser mais actuantes e mais exigentes para consigo próprios e para com os seus camaradas em exercício de cargos publicos, políticos e gestionários.

Os sindicalistas socialistas terão de se deixar de olhar, apenas e só, para o umbigo sindical e passarem, também, mais activa e frequentemente, a “dar a cara” aos diferentes níveis da estrutura interna do partido.

Os gestores socialistas (empresas, autarquias, políticos) terão de ser, e parecer, mais sérios, mais coerentes, na gestão da “res pública”, usando, mais eficaz e justamente, os recursos de que dispõem e só esses, provenientes dos impostos, agindo com rigor e parcimónia nos gastos.

O rigor legislativo, a eficácia dos mecanismos e de todo o sistema de regulação da economia, terão de ser melhorados bem como a eficiência da “máquina” fiscal, sobretudo, no que respeita à movimentação de mercadorias, capitais e serviços, quer internamente como no que reporta a comércio externo.

Terá de ser reduzido, drasticamente, o mercado paralelo e a, concomitante, fuga aos impostos.

Naturalmente que PSD ou qualquer outra das forças politicas, com assento na Assembleia da Republica, só se atreverão a apresentar qualquer moção de censura ao governo se este cair na desgraça de dar motivos para esse desiderato.

A queda de Sócrates só acontecerá se o seu governo e o partido que o apoia persistirem em não agirem solidariamente entre si e permanecerem as escandalosas derrapagens associadas a asneiras politico-financeiras alienantes da responsabilidade que quem destrói incentivos à poupança e desbarata dinheiro capturado no mercado externo.



Publicado por Zé Pessoa às 00:13 de 15.11.10 | link do post | comentar | ver comentários (5) |

Porquê? (entre a passividade e a arrogância)

O governo é o mesmo! O problema é da MENTERIOLOGIA!

De um sol radioso passou-se às nuvens carregadas e às chuvas torrenciais, é o que se poderá apelidar a situação que medeia entre o comportamento de José Socrates, há dois meses (a 28 de Agosto declarava: Nestes seis meses o crescimento da economia que se verificou em Portugal foi o dobro daquilo que o Governo previu logo no início do ano … e o facto do PIB do primeiro semestre ser superior à média europeia e encarar o que resta do ano com optimismo, assegurando que estamos na direcção certa, que mostram que a economia portuguesa está a recuperar.) a propósito do crescimento económico, de algumas décimas, ocorrido no país e as medidas agora, por si próprio, anunciadas.

Os bancos e governo, associados às empresas de ranking internacional, com os apoios das diversas instituições europeias e não só, são os primeiros e quase exclusivos responsáveis pela situação de elevado despesismo consumista (palavras suas) das famílias e dos governos, assim como das concomitantes elevadas taxas de juros a suportar pelos respectivos empréstimos obtidos na banca cuja factura agora impõem, como já é habitual, aos mais fragilizados, àqueles que, na prática, menos contribuíram para essa situação.

Quem foi responsável pela desvalorização e desaparecimento dos tradicionais certificados de Aforro que até o mais recôndito cidadão de aldeia tinha por hábito aforrar?



Publicado por Zé Pessoa às 00:02 de 01.10.10 | link do post | comentar | ver comentários (9) |

Sócrates Mentiu?

Um tal Micael Pereira veio hoje provar no Expresso que Sócrates mentiu.

Isto porque um gajo lá da magistratura revelou que às 0 horas e 56 minutos do dia 25 de Junho de 2009 foi escutado e gravado um telefonema entre um telefone registado como pertencente ao gabinete de Sócrates e um tal Paulo Penedos.

O telefonema foi gravado umas sete ou oito horas depois de Sócrates falar na AR e dizer que desconhecia o negócio PT/Televisão Espanhola. No telemóvel do gabinete estaria a falar um tal João Vasconcelos que negou ao Expresso ter alguma vez tido qualquer conversa acerca da televisão hispânica em Portugal e mal conhecer o Paulo Penedos.

Tratou-se da primeira escuta do caso PT/Prisa com alguém de S. Bento, da equipa de assessores e adjuntos do primeiro-ministro e foi interceptado pela PJ muitas horas depois de o assunto ter sido discutido na Assembleia da República e um a dois dias depois de ser revelado nos jornais.

Assim, o Pereira do Expresso quis insinuar que o DEPOIS pode ser o ANTES se houver conveniência política nisso.

No telefonema é dito que Granadeiro se portou bem e que não terá dito em público que falou com Sócrates um dia antes.

Mais uma vez, vemos que a “mentira” de Sócrates pode ser de um dia antes e essas 24 horas são de uma importância fantástica relativamente a um assunto com mais de um ano de existência.

Não sabemos ao certo se Granadeiro esteve em S. Bento; dizem que esteve. Também não sabemos se falou acerca da televisão espanhola em Portugal, mas tal como nos revela todo o relatório escrito pelo Inquisidor Pidesco Semedo, o melhor que se arranjou foram aquelas vinte e quatro horas ou nem tanto e não ficou demonstrado o principal, isto é, que Sócrates tinha conhecimento do negócio desde o início e que até teria vindo dele a ideia de a PT comprar a estação espanhola de televisão em Portugal, conhecida por TVI.

Nada ficou provado, mas cada um consola-se com o que tem e o Pereira do Expresso até quer que o depois confirme o antes.

Curiosamente, todos os opositores dizem que o objectivo do negócio era correr com o casal Moniz da televisão espanhola, mas ninguém diz que o mesmo casal saiu, sem que se saiba como e porquê e sem que a PT tivesse investido um cêntimo na televisão espanhola.

O que eu disse em posts anteriores sobre este assunto foi um raciocínio ou uma especulação sem a obrigatoriedade de ser a verdade.


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Publicado por DD às 16:10 de 19.06.10 | link do post | comentar | ver comentários (1) |

Sócrates não Mentiu e não Precisou de Intervir na TV Espanhola em Portugal

A Comissão de Inquérito respeitante ao negócio PT/TV Espanhola em Portugal chegou à conclusão que Sócrates mentiu no dia 25 de Junho porque nos dias 23 ou 24 de Junho tinha conhecimento do negócio por ter havido uma comunicação a 23 da PT à CMVM e no dia 24 o assunto veio nos jornais.

Esta conclusão é de estúpidos para estúpidos. Coloquialmente, uma pessoa pode dizer que não sabia de um dado assunto que decorreu durante muitos meses por ter tido conhecimento do mesmo um dia antes.

De resto o PIDE/INQUISIDOR Semedo disse isso nos seus seis pontos quando escreve que Sócrates sabia por que o assunto foi manchete em dois jornais no dia anterior e porque a PT comunicou à CMVM um dia antes.

 A questão política nunca se pôs em saber algo um ou dois dias antes, mas em um ano antes e em saber se o próprio PM esteve na origem da tentativa de negócio para alterar a linha editorial da Televisão Espanhola em Portugal. Isso, a Comissão não prova e agarra-se com burrice extrema à questão de um ou dois dias quando o próprio Sócrates disse que soube do que vinha nos jornais no dia 24 ou 23 e ao referir o seu desconhecimento era obviamente antes dessa data, o que é entendível para qualquer pessoa medianamente inteligente.

A Comissão não provou que Sócrates esteve na origem de um negócio que não foi feito e parece ter sido negociado durante muitos meses sem nunca ter chegado ao Conselho de Administração da PT.

Curiosamente, a Comissão não se debruçou sobre esta realidade singela, a de que a linha editorial da Televisão espanhola em Portugal foi alterada com a saída do casal Guedes sem que a PT tenha gasto um cêntimo ou alguma entidade portuguesa tenha adquirido uma só acção da televisão espanhola.

Toda a gente sabe que o Governo Sócrates nada fez para que a linha editorial seja alterada, mas foi precisamente o nada fazer que levou ao fim do jornal de sexta-feira que tinha como objectivo o derrube de Sócrates por via de uma acusação anónima que a justiça não conseguiu provar em seis anos de investigação, mas que o casal Guedes queria que fosse verdadeira. A carta anónima, soube-se depois, foi escrita por um ex-chefe de gabinete de Santana Lopes, o que explica tudo.

O referido “nada fazer” levou os espanhóis a pensarem bem quando os seus serviços secretos souberam da instalação de terroristas bascos em Portugal para fabricar poderosas bombas como se veio a descobrir depois em Óbidos.

Os espanhóis tiveram de raciocinar: se temos em Portugal uma televisão espanhola que pretende derrubar o partido no poder como é que vamos obter o apoio do governo desse partido naquilo que para nós é da máxima importância, o combate ao terrorismo. E pensaram mais: podemos nós praticar o terrorismo televisivo na nossa televisão em Portugal e levar os portugueses a impedirem o terrorismo bombista da ETA?

É óbvio que a partir de uma data muito anterior a Junho deixou de ter interesse a falsa “conspiração” para levar a PT a adquirir a televisão espanhola em Portugal e, estando a Prisa em dificuldades financeiras, o governo Zapatero pôde dizer algo aos responsáveis pela televisão espanhola em Portugal, sem que Sócrates ou alguém do governo tivessem dito seja o que for ou tomado qualquer medida.

Recordemos que a dada altura, o então Ministro da Administração Interna disse não acreditar nas bombas da ETA em Portugal.

Nota: O caso Freeport, que esteve na origem da tentativa de derrube de Sócrates por parte da televisão espanhola em Portugal mancomunada com o PSD, mostrou que para o Procurador-Geral da República há procuradores de primeira, segunda e terceira classe. Assim, os delegados do procurador de Montijo são de segunda ou terceira classe porque não tinham provado algo contra Sócrates e daí o PGR ter chamado o processo a Lisboa, portanto, aos procuradores de primeira classe, pouco antes das eleições, levantando uma imensa celeuma pública e acusações contra Sócrates que, entretanto, vieram a revelar-se destituídas de fundamento de prova, mas que tiveram o efeito de provocar uma fraude eleitoral através das mentiras contra Sócrates.

Teimosamente, os procuradores de primeira classe não querem reconhecer que devem ser de terceira classe e mantêm o processo em aberto à espera que milhares de cartas rogatórias enviadas a todos os offshores venham a ter uma resposta positiva no sentido de ter sido enviado alguma verba a um tal José Sócrates, apesar de as perícias feitas à escrita global da Freeport nada terem revelado e foram feitas perícias por ordem da empresa Carlyle que adquiriu a Freeport e encontrou desvios de dinheiros por parte do anterior administrador que foi levado a tribunal e condenado. No decurso do processo foram feitas mais perícias e nenhuma revelou algum suborno para José Sócrates ou alguma entidade portuguesa.

Depois do caso da menina Maddie, o Freeport é outro que deixa de rastos a Justiça portuguesa e recordemos ainda o tipo que confessou ter assassinado uma freira e foi ilibado em tribunal. Obviamente, o gajo não era militante do PS.

O juiz ou procurador que enviou um despacho à Comissão em que tomou uma posição facciosamente parcial desrespeitou a Constituição que não permite a intervença de magistrados directamente na política e mostrou a sua total falta de imparcialidade, portanto, de competência e honestidade para exercer a profissão de magistrado. 


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Publicado por DD às 22:49 de 11.06.10 | link do post | comentar | ver comentários (4) |

Corrupção, carrossel jornalístico e auto-flagelação

Plano maquiavélico de pressuposto domínio de órgãos de comunicação social, faces ocultas à mistura com mal salvaguardadas escutas que se deveriam manter em segredo de justiça enquanto decorrem os respectivos processos judiciais, tudo teve, tem e continuará a ter origem em, presumíveis, actos de corrupção envolvendo tantos interesses particulares como colectivos e de financiamento dos partidos.

Certamente que, José Sócrates, pelo facto de ser líder do PS e também Primeiro-ministro de Portugal, não é louco nem, tão pouco, suicida, mesmo que só politicamente.

Contudo, é já tempo, dado que a, tão apregoada, democracia portuguesa já leva mais de 30 anos de vida, de os partidos políticos, eminentemente os pertencentes ao arco da governação, e muito particularmente o PS de debaterem internamente as vantagens e conveniências de separar o protagonista que assuma funções de Secretário-geral das do indigitado nas funções de Primeiro-ministro. A confusão de tarefas e responsabilidades adstritas a uma e a outra das funções acabam, inevitavelmente, por prejudicar ambas e por arrastamento a governabilidade do país.

As mais recentes circunstâncias e factos em torno de notícias, verdadeiras ou apócrifas, que envolvem a pessoa de José Sócrates são bastante demonstrativas dos malefícios provocados quer ao partido quer á função de primeiro responsável pela governação do país e concumitantemente da própria economia e estabilidade tanto públicas como privadas.

Pouco adiantará clamar inocência, bradar que são cometidos crimes, gritar pelo respeito do segredo de justiça se no meio de tudo isto ninguém está inocente, todos cometeram irregularidades, os tribunais não são respeitados nem são concluídos, atempadamente, os mais simples processos-crime. A justiça, simplesmente, não existe.

Vivemos uma política jornalística panfletária e de carrossel que nada aprofunda nem contribui para a resolução de qualquer situação de injustiça social ou corrupção, apenas coloca lixo sobre lixo num processo de auto-destruição e de aniquilamento da sociedade portuguesa.

O caso do “plano para dominar a comunicação social” deriva das escutas, estas resultaram do processo “Face Oculta” e este foi determinado para combater, segundo divulgação oportuna, situações de corrupção. Este dias, mais recentes, deixou de se falar de corrupção, da elevada taxa de desemprego, da pesada divida externa, do excesso de pobreza e excluídos e de tudo o mais que deveria ser preocupação de governantes de políticos, dos tribunais e dos órgãos de comunicação social.

Vivemos um processo de auto-flagelação colectiva.



Publicado por Zé Pessoa às 00:15 de 17.02.10 | link do post | comentar | ver comentários (5) |

O pé de fora

As candidaturas presidenciais ganhadoras são as que, partindo de um determinado espaço político, conseguem alargá-lo.

Quando Mário Soares diz que Alegre está com um pé dentro e outro fora do PS tem, de facto, razão, mas está também a reconhecer o potencial eleitoral da recandidatura alegrista.

O problema é que o pé que Alegre tem fora do PS - e em muitos dias é esse o "pé-director" -, ao mesmo tempo que tem ajudado a tornar a sua candidatura presidencial uma quase inevitabilidade, está a amarrar Sócrates a uma estratégia que não lhe convém.

Há uns dias, Alegre proclamava que não estava refém de ninguém. É verdade, até porque são hoje Sócrates e o PS que estão reféns de Alegre: as lições de 2005 impedem uma candidatura alternativa à do poeta (que só fraccionaria o PS), mas Alegre Presidente ameaça o projecto político que Sócrates tem tido para o PS.

Se a cooperação estratégica entre Cavaco e Sócrates é uma miragem de um passado longínquo, entre Sócrates e Alegre é uma utopia distante.

É inevitável que, dentro de um ano, José Sócrates e Manuel Alegre estejam nos braços um do outro, enquanto proclamam a partilha dos valores da esquerda democrática.

Acontece que, politicamente, não há convergência estratégica possível entre os dois. E, como se não bastasse, Alegre candidato oficial do PS não terá o potencial eleitoral de Alegre candidato com o "pé fora" do PS.

Nisto, as presidenciais servirão para revelar o bloqueio estratégico que existe à esquerda.

[Arquivo, Pedro Adão e Silva]



Publicado por JL às 16:31 de 12.12.09 | link do post | comentar |

Sombrio Saraiva

Aconteceu qualquer coisa ao Saraiva do Sol. Apercebi-me disso, quando numa das minhas peregrinações televisivas deparei com o inefável Crespo a conversar gravemente com um juiz, sobre umas tantas perguntas que alguém teria feito ao desusado arquitecto Saraiva.

A coisa terá sido grave. Não consegui saber o que foi. Busquei no sítio do Sol, na esperança de compreender. Em vão. Ainda agora, estou para saber quem realmente lhe perguntou o quê.

Em compensação, deparei, no referido sítio, com um texto ferocíssimo do azougado arquitecto contra Sócrates. Não me espantou a veemência dos ataques, já que é natural e nada tem de espantosa, vinda de quem vem.

Mas espantou-me o seu contorcionismo intelectual, que mistura factos com insinuações, hipóteses com evidências, numa caldeirada que, verdadeiramente, não é mais do que um arremesso de lama a um político de quem o arquitecto não gosta. É um dos textos intelectualmente mais desonestos que alguma vez me foi dado ler.

Por exemplo, sublinha a implicação de Sócrates no processo “ Face Oculta”, quando a única coisa que se sabe, sobre uma qualquer conexão do Primeiro-Ministro com o processo, é o facto de ele ter sido escutado por tabela, através de um dos arguidos, tendo sido público que nas escutas não transpirara nada que tivesse, fosse o que fosse, a ver com esse processo. Portanto, a implicação de Sócrates no “Face Oculta” é uma simples invenção insultuosa. Depois, meteu Sócrates, que não foi sequer constituído arguido em qualquer processo, no mesmo saco de Isaltino, que já foi condenado num julgamento, em primeira instância.

Por fim, sugere que o conteúdo das escutas ilegais, difundido ilegal e ilegitimamente, devia levar à demissão do primeiro-ministro, pelo modo como ele se refere não sei bem a quê nem a quem.

Fazendo-se passar por tonto, o arquitecto espanta-se pelo facto de que tantos notáveis socialistas, que ele generosamente carimba de honestos, defendam Sócrates, sugerindo ainda que são essas opiniões favoráveis a única coisa que, verdadeiramente, o segura como chefe de governo.

Ou seja, o imaginativo arquitecto começa por inventar uma desqualificação insultuosa para Sócrates, para, em seguida, retirar das suas próprias invenções insultuosas a drástica consequência política de uma possível demissão do governo.

[O Grande Zoo, Rui Namorado]



Publicado por JL às 00:01 de 12.12.09 | link do post | comentar | ver comentários (1) |

O regresso do assessor

Cavaco Silva não deixou cair Fernando Lima. Deu-lhe apenas cerca de dois meses de descanso por causa das eleições e do escândalo. Passado o burburinho, falhada a estratégia da "asfixia democrática", o assessor volta ao activo como se nada se tivesse passado. Como se não tivesse sido o protagonista de uma maquinação político-jornalística inédita em Portugal, na importância e no descaro.

Num outro País, democraticamente maduro, isto seria impossível.

Por cá, acima da opinião pública, se é que ela existe, e às vezes sinceramente duvido, está a vontade do Presidente da República.

A responsabilidade política, tão reclamada para outros servidores do Estado, e noutros sectores, não é coisa de Belém. Aí todos os cidadãos são livres de ter e explicitar a sua opinião - até de imaginar teorias conspirativas e passá-las para os jornais. Tudo isso é legítimo e pode ser pago com o dinheiro dos contribuintes.

Nunca tive dúvidas, no tal processo das escutas, de que Fernando Lima não dera um único passo à revelia de Cavaco. No campo da lealdade e devoção ao PR, o assessor não cometeu um erro em 20 anos de serviço.

Desta vez, a única coisa que se revelou errada foi a escolha do mensageiro. Tivesse isso resultado bem e não teria havido qualquer problema. A insídia teria feito caminho e evitaria aquela medíocre comunicação de Cavaco Silva que fica para os anais da pequena história política nacional.

Como as coisas correram da forma que é conhecida, este regresso de Lima, após dois meses "adormecido", significa confiança e apoio, mas também igualmente que Cavaco Silva continua a esticar a corda com José Sócrates. Não há um português que não saiba que os dois homens se detestam. Mas se alguém andasse desatento bastaria esta segunda nomeação do assessor que pretendeu levar ao País a convicção de que o gabinete do primeiro-ministro andava a espiar a Presidência da República...

Neste momento sabemos o que Cavaco, que não pode falar de escutas, pensa de Sócrates. Só nos falta saber o que Sócrates, que não pode falar de corrupção, pensa de Cavaco.

[Diário de Notícias, João Marcelino]



Publicado por JL às 00:03 de 30.11.09 | link do post | comentar |

Criminosos na prisão não são escutados

Um dos criminosos assassino do caso “Noite Branca” do Porto, ordenou por telemóvel, a partir da prisão em que estava, o sequestro e espancamento do comerciante de automóveis que é uma das principais testemunhas do processo em causa. Os criminosos associados ao caso da “Noite Branca” deixaram o comerciante abandonado quase despido numa estrada. Se tivesse havido escuta, o crime podia ter sido impedido, a vítima avisada previamente e até protegida pelas autoridades. Mas, como não se trata de um caso político, não interessou às autoridades judiciais proteger a vida seja de quem for e cumprir as suas obrigações legais.

Aparentemente, juízes e procuradores não ordenam escutas aos criminosos que ilegalmente detêm telemóveis na prisão.

Mas, escutam o Primeiro-Ministro e pretendem, ilegalmente, tirar conclusões da sua espionagem política que transmitiram algo do seu conteúdo ilegalmente para o exterior.


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Publicado por DD às 00:00 de 27.11.09 | link do post | comentar | ver comentários (3) |

O destino das escutas

O Conselho Superior de Magistratura informou que o juiz de instrução criminal de Aveiro António Costa Gomes comunicou que é falsa a notícia veiculada pela Comunicação Social no passado fim-de-semana, segundo a qual aquele juiz se teria recusado a cumprir a decisão do presidente do Supremo Tribunal de Justiça (STJ) no âmbito do chamado processo "Face Oculta".

Quer isto dizer que, neste momento, as escutas que o presidente do Supremo mandou destruir podem já estar destruídas. E quer isto dizer também que o leitor deve esquecer tudo quanto leu e ouviu desde o fim-de-semana sobre as consequências de o juiz de Aveiro se ter recusado a destruir as escutas. E subindo um degrau mais, quer isto ainda dizer que muitos agentes da Justiça que comentaram tal recusa perderam boa oportunidade de ficar calados, ainda que possam agora dizer que se pronunciaram em tese. Pois.

Acima de tudo, há em tudo isto, muitas coisas a lamentar. A primeira delas é que possa ter passado pela cabeça de alguém, seja ele quem for, colher frutos promovendo fugas de informação para os jornais. Não é novo, mas é sempre preocupante. A segunda lamentação a fazer tem a ver com a Justiça: o procurador deveria, a partir das primeiras fugas, ter chamado a si algumas explicações sobre o processo. Essas explicações não travariam, certamente, as fugas de informação, mas esclareceriam a opinião pública. Claro que seria preciso que o procurador tivesse a seu lado alguém capaz de se exprimir em português corrente, pois a linguagem que o procurador usou nos seus dois comunicados é inacessível mesmo a alguns conhecedores do Direito e gera ela própria alguns equívocos.

Num momento em que a única certeza sobre a "Face Oculta" reside em saber-se que o que foi escutado a Sócrates não é relevante nem para o procurador nem para o presidente do Supremo, não faltam vozes, algumas bem insuspeitas, a incentivar os jornalistas à publicação dessas escutas, se as obtiverem. Pois bem: se formos adeptos da justiça popular e não acreditarmos no Estado de Direito e nas suas hierarquias, o que se deve fazer é publicar as escutas em que Sócrates foi acidentalmente apanhado - não é ele o arguido - e que já foram consideradas pelo procurador e pelo presidente do Supremo como nulas. Publicá-las é dizer ao povo que seja o juiz. Onde está o superior interesse público de uma coisas dessas? O conteúdo das escutas, se alguém as obtiver, só pode ser relevante se por elas se aferir que quer o procurador quer o presidente do Supremo protegeram Sócrates da prática de um crime e aí, além de um criminoso, passaríamos a ter três. Alguém acredita? Sejamos claros: a publicação das escutas só interessa a quem interessar a politização das escutas, a quem quiser que se conheçam os pormenores picantes de uma conversa privada para desacreditar politicamente os intervenientes. Que alguns políticos caiam nessa tentação é triste. Que agentes da Justiça o sugiram é mesmo muito preocupante.

[Jornal de Notícias, José Leite Pereira]



Publicado por JL às 00:01 de 26.11.09 | link do post | comentar |

O refém

Durante meses, José Sócrates foi escutado e tudo o que conversou com Armando Vara está agora nas mãos de uma dúzia ou duas de portugueses. São agentes da PJ, procuradores, juízes e jornalistas. São pessoas de quem o primeiro-ministro está refém. Ele sabe, como sabemos todos, que a qualquer momento partes das conversas que manteve podem tornar-se públicas. E tanto faz que as escutas tenham sido ilegais, no que a ele diz respeito, como existir um segredo de justiça para respeitar.

Os avisos estão dados, com umas pingas que caíram no CM e no Sol. Há quem tenha o relato de todas as conversas e esteja disponível para o passar aos jornalistas, fazendo valer a justiça da rua, onde a dos tribunais parece não poder julgar.

Imaginemos até que nada do que faz partes dessas conversas acabará por se tornar público. Continuarão a existir uma dúzia ou duas de pessoas que sabem, de trás para a frente, o que disse Sócrates sobre a TVI, o presidente da República, os seus adversários políticos e tudo o mais que lhe ocorresse dizer numa conversa com um amigo. No segredo da amizade, o que tiver dito de pouco vale, mas nos corredores do poder pode ser insustentável.

Mas o pior até já está feito. O que Sócrates tiver dito está gravado e não pode ser desmentido, mas o que possa significar o que disse não terá defesa possível se a lei determinar que as escutas são nulas e, portanto, o Supremo der ordem para as destruir.

O primeiro-ministro está também refém do tipo de comunicação que fizerem os agentes da Justiça. E o que se tem visto até agora é demasiado confrangedor.

Verdade ou mentira, o que a Procuradoria e o Supremo têm passado para a opinião pública é a ideia de que pode haver matéria com relevância criminal. É absolutamente necessário esperar pelos esclarecimentos do senhor procurador. Uma palavra sua pode ser suficiente para crucificar politicamente o primeiro-ministro mais citado em polémicas de que há memória.

Bem diz o presidente do Supremo que é preciso mudar o modo como se faz a investigação em Portugal, pensando talvez em retirar alguma da autonomia ao Ministério Público. Mas o país precisa também que se mude muita coisa no modo como se julga em Portugal e no modo como as polícias de investigação queimam na praça pública quem não conseguem levar a tribunal por falta de provas.

Desta vez, sabemos que as polícias tiveram todos os meios possíveis e imaginários para investigar esta teia, não deveria ser perdoável que o processo ruísse por azelhice jurídica de quem tem que fazer tudo dentro da lei para condenar nos tribunais quem for culpado. Só que, às vezes, até parece que os investigadores só querem construir casos nos jornais. É mais fácil e pode ser feito a coberto do anonimato que se vende como investigação jornalística.

Convinha que as montanhas não continuassem a parir ratos. Se assim for é preciso deixar de generalizar sobre a culpa da classe política no fenómeno da corrupção e começar a responsabilizar as polícias e o Ministério Público pela incompetência demonstrada nestes casos, que valem novelas na comunicação social, mas não servem para condenar ninguém nos tribunais.

[Jornal de Notícias, Paulo Baldaia]



Publicado por JL às 00:01 de 19.11.09 | link do post | comentar |

Estou farto de defender José Sócrates"

"Estou farto de defender José Sócrates", escreveu o Pedro Marques Lopes - e como eu o compreendo!

É certo que, ao contrário do Pedro, eu considero o Sócrates o melhor primeiro-ministro que o país tem desde há muito tempo, talvez o melhor de sempre.

Mas a minha identificação com as políticas dos seus governos é parcial. Divirjo deles em muitas questões fundamentais, desde logo em relação a grande parte das suas políticas económicas, o que não é dizer pouco.

Desagradam-me a patente improvisação na definição de linhas estratégicas, a incompetência na coordenação de projectos de algum fôlego e a insistência em estendais de medidas sem nexo e de escasso ou nulo alcance. Indispõe-me, acima de tudo, uma certa atitude saloia perante tudo o que parece moderno e tecnologicamente avançado.

Acima de tudo, porém, distancio-me do modo como o PS faz política. Vejo - como toda a gente vê - a promoção pública de arrivistas medíocres cuja única recomendação é o cartão do partido. E apercebo-me - como toda a gente se apercebe - dos bandos de amigos sem ideal que circulam entre a política, os negócios e os media.

Tudo isso é verdade. Mas não é menos verdade que o cadáver putrefacto insepulto que é o actual PSD se encarrega de empestar tudo e todos à sua volta, esforçando-se por levar consigo para o túmulo o regime e a democracia liberal.

Aquilo a que por este dias estamos a assistir é à deterioração paulatina do nosso viver colectivo - e já não só do sistema político - friamente desejada e planeada por alguns que se ocupam de envenenar as consciências e destruir qualquer réstia de idealismo que ainda possa sobrar no país.

De modo que a prioridade de qualquer pessoa sensata tem que ser cerrar fileiras em torno dos princípios essenciais do Estado de direito e resignar-se a deixar para segundo plano divergências relativas a questões que a mim me interessam bem mais.

Por isso, eu digo como o Pedro: "Estou muito mais farto de gente que despreza valores e princípios fundamentais duma democracia. Gente que não percebe que isto nada tem a ver com luta política. Gente que gasta o tempo todo com intrigalhadas de vão de escada e se esquece de criticar políticas e apresentar alternativas."

Ao contrário dele, porém, não creio que estejamos "condenados a viver ad aeternum sob o poder socialista". Estamos, apenas e só, condenados à apagada e vil tristeza que, afinal, para tanto trampolineiro, parece ser a suprema ambição de vida.

[Jugular, João Pinto e Castro]



Publicado por JL às 00:02 de 16.11.09 | link do post | comentar |

Os dois grandes responsáveis

Já não bastava mais uma polémica com o primeiro-ministro. Não era suficiente termos um Presidente da República fragilizado. Também era necessário que a sociedade portuguesa se confrontasse agora com as divergências públicas entre o presidente do Supremo Tribunal de Justiça e o procurador-geral sobre as certidões do "Face Oculta"!

Tudo isto parece uma tragédia de fim de regime, de consequências imprevisíveis.

Além do mais, no terreno, os administradores da justiça estão notoriamente empenhados em devassar, de novo, os processos que deveriam defender e investigar de forma recta e sem mácula.

É preciso que o País se habitue a investigar e castigar os poderosos, sim senhor, mas é absolutamente imprescindível que o faça num quadro europeu, de Estado de direito, em que toda a gente seja considerada séria até ao momento em que, de facto, deixa de o ser.

Não é isso que acontece e ontem foi um dia curioso neste sentido.

No preciso momento em que José Sócrates viu a respeitada e insuspeita polícia inglesa arquivar o processo Freeport (que produziu por cá as consequências de todos conhecidas), abriu-se já uma nova frente a partir de escutas entre o primeiro-ministro e o seu amigo Armando Vara.

Não sabemos de que factos falamos. Não sabemos se as conversas são criminalmente relevantes. Não sabemos, sequer, da respectiva legalidade. Mas a realidade está à vista de todos: crescem as notícias, florescem os comentários, impõe-se uma comunicação doentia em que não faltam sequer os poucos escrúpulos de grupos de jornalistas ávidos de acertar contas com o passado.

[Diário de Notícias, João Marcelino]


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Publicado por JL às 00:01 de 15.11.09 | link do post | comentar | ver comentários (1) |

Escutas e legalidade

1. O Primeiro-Ministro foi escutado sem respeito pelas leis vigentes. Das oposições não se ergueu uma voz a insurgir-se contra isso.

Pelo contrário, delas saíram vozes pedindo-lhe explicações pelo conteúdo de conversas que foram tornadas públicas, não só ao arrepio do segredo de justiça, mas também sem sequer terem sido legalmente escutadas.

Com isso, talvez o Primeiro-Ministro veja a sua imagem desgastada e talvez fique com vontade de deixar a cena política à voracidade dos mabecos. Mas as oposições vão ficando mais pequenas, mais inebriadas pelo perfume rasteiro da baixa política, mais consonantes com a vozearia justicialista em que tantas vezes ecoa o lado negro da natureza humana.

Até parece que lhes interessa mais atingir colateralmente o Primeiro-Ministro, do que ver os eventuais culpados e possíveis criminosos realmente castigados.

2. Interrogo-me: se em vez de terem escutado ilegalmente o Primeiro-Ministro tivessem escutado ilegalmente o Presidente da República, as mesmas vozes teriam exigido a este último o que pretendem agora exigir àquele?

[O Grande Zoo, Rui Namorado]


MARCADORES: ,

Publicado por JL às 00:04 de 13.11.09 | link do post | comentar | ver comentários (8) |

A justiça está sob suspeita

As escutas telefónicas a Armando Vara apanharam José Sócrates pelo caminho e sentaram a justiça no banco dos réus

A área mais difícil do jornalismo não é a economia nem a ciência: é a justiça, em que nada parece matemático ou científico. O modelo em que assenta o sistema jurídico português é ainda mais obscuro e complicado: é uma ciência oculta, um buraco negro feito de ecos e silêncios, ajustes de contas e incompetências. Ninguém o entende verdadeiramente, ninguém sabe bem o que se passa lá dentro, apesar de não faltarem especialistas reputados, muitas pessoas sérias e de o assunto ser tão delicado como uma operação ao coração. Quem tem o azar de cair nas mãos de um mau jornalista, de um mau juiz (ou magistrado do Ministério Público), ou ainda de um mau médico, pode ficar com a reputação ou a vida destruídas em poucas linhas, em duas palavras ou em breves segundos na sala de operações.

A história que envolve a escuta da conversa entre o primeiro-ministro e Armando Vara é apenas mais um sinal do vírus que está a envenenar o país. O primeiro-ministro foi ouvido a dizer umas estranhas frases ao amigo Armando Vara, administrador do BCP. Como primeiro-ministro que é - e sendo verdadeiras as frases escolhidas para divulgação - deveria ter sido mais prudente e poupado a nação a conversas daquele calibre.

Porquê? Primeiro, por ser o líder do governo, o que envolve responsabilidades e deveres especiais; depois, por ser o interlocutor quem é - o reincidente e poderoso Armando Vara; finalmente, porque Portugal é o país que inventou a via verde das escutas. Que grande invenção lusitana: escuta-se a torto a direito. Em vez de serem conduzidas com a paciência da pesca à linha - com respeito pelo frágil ecossistema de direitos, liberdades e garantias -, as investigações são feitas por arrastão: atira-se a malha fina e tudo o que vem à rede é peixe. Às vezes é peixe graúdo, outras vezes é peixe sem importância, e esse raramente chega às páginas dos jornais, apesar de a destruição ser igualmente fatal.

Sabe-se muito pouco das escutas feitas a Vara que apanharam pelo caminho José Sócrates. Sabe-se agora que o procurador-geral da República terá deixado o caso em pousio deliberadamente ou por incompetência de alguém. Sabe-se que o Supremo Tribunal de Justiça é o único órgão com capacidade para avaliar as escutas feitas (por acaso) ao primeiro-ministro. Sabe-se também que Procuradoria e Supremo não colaboram; competem, atropelam-se e fazem política baixa - em vez de juntos, cada um com a sua responsabilidade, procurarem fazer justiça.

Não é fácil fazer justiça, é difícil; os erros acontecem, o crime é cada vez mais sofisticado e os interesses são poderosos. Dito isto, é inadmissível o estado a que as coisas chegaram. A falta de confiança no sistema e nas pessoas que o representam entranhou-se de tal forma que nenhum dos protagonistas parece ter salvação.

Não é verdade. A bem ou mal este caso tem de ser esclarecido. Para já, o presidente do Supremo Tribunal de Justiça e o procurador-geral da República têm de explicar publicamente o que fizeram, com datas, factos e actos formais. Agora são eles que estão sentados no banco dos réus. Se as escutas ao primeiro-ministro são nulas - falharam os prazos? -, que se saiba o motivo e se tirem as consequências.

Quanto a Sócrates, até prova em contrário, ele é inocente, apesar de não haver memória de um primeiro-ministro tão exposto e fragilizado. No meio de tanta confusão, não lhe deve sobrar muito tempo para pensar no país.

[ i , André Macedo]



Publicado por JL às 00:02 de 13.11.09 | link do post | comentar |

O labirinto das escutas

A fazer fé no que é divulgado na imprensa, afinal, quem foi escutado não foi o Presidente da República, mas sim o Primeiro-Ministro.

Por tabela é certo, e não porque a escuta lhe fosse primariamente dirigida.

Mas o que objectivamente se pode constatar é que quem autorizou e promoveu uma escuta que atingiu o Primeiro-Ministro, sem que sobre ele impendesse suspeita de nada, não foi capaz de garantir a confidencialidade de um telefonema, cujo conteúdo estava protegido pelo segredo de justiça. E, se a imprensa não estiver a inventar, foram divulgados desses telefonemas, matérias que nada têm a ver com o caso que deu origem às escutas.

Se pensarmos que no mundo em que vivemos, sem terem desaparecido os golpes de Estado clássicos feitos na linguagem fria das armas, se vai afirmando o perfil de novos métodos golpistas, destinados a fazerem com doçura o que os velhos golpes de Estado fariam com brutalidade, é legítimo reflectir sobre o potencial golpista deste tipo de práticas.

É possível que se esteja perante a simples continuação de uma rotina perversa que, apesar da sua frequência crescente, mais não vise do que um sensacionalismo doentio, gerado na voragem da competição desesperada entre níveis de leitura e audiência. Mas seria estulto descartar-se por completo a hipótese de estarmos perante um episódio ou um ensaio que, no fundo, mais ou menos assumidamente, representa uma recusa de aceitação dos resultados eleitorais e a preparação de uma tentativa de os contornar.

É certo que uma fuga de informação que quebre, em si mesma, uma confidencialidade legalmente protegida, por si só, está muito longe de poder ser vista como um golpe de Estado. No entanto, se no futuro se constituir um novo paradigma de golpe de Estado, tecido de uma multiplicidade de procedimentos subtis e suavemente não assumidos como tais, que se conjugue num resultado final almejado, certamente que entre eles se contarão procedimentos deste tipo.

A notícia mais relevante não está, pois, no conteúdo de uma escuta de um telefonema que alguém fez a este primeiro-ministro, mas sim na revelação de que em Portugal uma escuta, legalmente promovida pelas entidades competentes por uma razão que não envolve o primeiro-ministro, pode ser difundida publicamente com toda a naturalidade e toda a impunidade. Ou seja, qualquer alto responsável do Estado democrático, legitimamente investido no exercício das suas funções, pode ver divulgado na praça pública o teor de quaisquer conversas telefónicas que sejam tidas com ele.

[O Grande Zoo, Rui Namorado]



Publicado por JL às 00:03 de 09.11.09 | link do post | comentar | ver comentários (5) |

Um novo Governo para uma nova legislatura

O novo Governo foi apresentado ao Presidente da República, na sexta-feira passada, sem que nada transpirasse para os meios de comunicação social. Um segredo bem guardado - o que é raro em Portugal - que evitou especulações.

É um Governo bem diferente do anterior, ao contrário do que dizem, com mudanças judiciosas e muito significativas. Com oito "repetentes", dois dos quais mudaram de pasta: Vieira da Silva (que passou para a Economia, Inovação e Desenvolvimento) e Augusto Santos Silva (para a Defesa Nacional). E oito novos ministros, um dos quais, Jorge Lacão, passa de secretário de Estado da Presidência do Conselho de Ministros para ministro dos Assuntos Parlamentares, com uma enorme experiência política, de Governo e de oposição.

É um Governo minoritário, como se sabe, mas equilibrado, que procura evitar conflitos do passado, sem ceder, espero, no essencial, e disposto a criar um relacionamento mais dialogante com as oposições, os sindicatos e as corporações de interesses. Nesse aspecto, a nomeação da sindicalista Helena André, com uma grande experiência internacional e da OIT, para ministra do Trabalho e da Solidariedade Social, é uma escolha particularmente feliz.

O núcleo duro do Governo, com dois ministros de Estado: Luís Amado (Negócios Estrangeiros), Teixeira dos Santos (Finanças) e o ministro da Presidência, Pedro Silva Pereira, dá garantias de estabilidade de uma certa continuidade política criativa, a par de uma ampla experiência, quer no plano internacional quer no plano interno, o que é muito importante na actual situação de crise. Há ainda quatro veteranos do Governo e do Parlamento: Augusto Santos Silva (que, como disse, transita para a Defesa Nacional), Alberto Martins (na Justiça), Rui Pereira (na Administração Interna) e Mariano Gago (Ciência, Tecnologia e Ensino Superior) que são próximos e experimentados colaboradores do primeiro-ministro, de longa data.

Há ainda oito caras novas - e algumas inesperadas - no Governo. Resultam de escolhas pessoais do primeiro-ministro e, creio, dada a experiência que hoje possui, que terá tido razões fundamentadas para as ter designado. Entre elas, Isabel Alçada, que tem uma enorme experiência das questões de ensino, uma obra literária infantil, considerável e reconhecida, e uma cultura excepcional, assume talvez a pasta mais delicada, problemática e difícil. Mas há outras pastas - igualmente problemáticas - de grande importância e responsabilidade: a das Obras Públicas, Transportes e Comunicações; a da Agricultura e Desenvolvimento Rural; a do Ambiente e, sobretudo, o Ordenamento do Território; e, finalmente, a Cultura que, espero, o novo Orçamento possa dotar (como está prometido) de mais meios financeiros…

Resta-me desejar ao novo Governo os melhores votos de sucesso. Bem precisos são, dada a situação de crise global aguda que Portugal atravessa, como o resto da Europa e do mundo. E, repito, está longe de ter sido vencida.

Apesar de se tratar de um Governo minoritário, que corajosamente se assume como tal, não penso que seja um Governo de curta duração. Pelo contrário. Tem condições de calendário para durar toda a legislatura, a menos que surjam grandes acidentes de percurso, imprevisíveis. Dada a obrigatoriedade de eleições presidenciais, a um ano e poucos meses de vista, as fundas divisões da oposição, principalmente, a crise política de liderança que atravessa o PSD, o maior partido da oposição.

As oposições de direita e de esquerda não se entendem, minimamente, umas com as outras, para se atreverem a deitar o Governo abaixo, numa fase tão complexa e difícil de crise. Seria para elas, suicidário. O eleitorado pronunciou-se inequivocamente, tanto nas eleições legislativas como nas autárquicas, e, espero, agora, que os partidos respeitem a sua vontade. Se alguns o não fizerem - e são precisos dois ou mais para que isso aconteça - seriam gravemente penalizados. Com a agravante de não terem definido uma alternativa programática concertada e com credibilidade para propor ao País…

Vão, portanto, ser mais vivos - e interessantes - os debates no Parlamento. Seguramente. Espera-se isso, também, da nova composição da Assembleia, que tem muitas caras novas e jovens. A reeleição do presidente da Assembleia, Jaime Gama, com uma maioria tão expressiva, foi um excelente sinal de bom-senso. Depois de um período eleitoral tão longo, cortado por polémicas tão agressivas e personalizadas (o que em democracia é sempre uma má coisa), a febre desceu e o bom-senso - esperemos - irá regressar, como é próprio da maturidade democrática de uma democracia consolidada, como a nossa.

A comunicação social que temos - e que está em crise grave, como no resto do mundo - também, seguramente, vai cair em si e perceber que a intriga pela intriga, o fait-divers, desmentido no dia seguinte, a busca do sensacionalismo a qualquer preço, os ataques pessoais e as insinuações sem fundamento, a irresponsabilidade de tantos comentadores e a parcialidade das escolhas, não fazem vender mais jornais nem ter mais audiências. Antes pelo contrário. Desacreditam os meios de comunicação social, que é o pior que lhes pode acontecer, numa fase de tão grande incerteza. O que paga, realmente, é a ponderação das notícias dadas, a isenção dos órgãos de comunicação, a qualidade dos jornalistas, que respeitem a deontologia profissional estrita e a elevação do nível cultural e cívico dos noticiários e dos debates.

Contudo, donde podem surgir maiores dificuldades para o novo Governo, nesta nova legislatura, não é dos partidos, do Parlamento, nem da comunicação social. É - e isso não é de estranhar - do aperto da crise que vivemos, do desemprego, das desigualdades, da situação social em crise e das corporações que têm interesses sectoriais a defender e, algumas vezes, o fazem sem ter em conta o interesse geral ou nacional. Os parceiros sociais (sindicatos, associações patronais ou outras e as ordens profissionais), bem como as associações que facilmente se criam e estruturam, numa democracia participativa, para explorar e pseudodefender, certos sectores com dificuldades específicas, têm de ponderar as críticas e as formas utilizadas de contestação. Para não se desacreditarem também. Por outro lado, o Governo deve estabelecer canais discretos de diálogo, para que a informação circule e o eventual descontentamento lhe chegue em tempo oportuno.

José Sócrates é, a meu ver, o melhor primeiro-ministro que Portugal poderia ter, na actual situação. O mais competente, o mais determinado e corajoso, o mais conhecedor das realidades que temos à nossa frente para vencer. Provou-o nos debates e nas campanhas. Os eleitores, apesar dos motivos de queixa, tantas vezes invocados, não se enganaram ao votar no PS. Aprendeu muito nestes anos de Governo e, principalmente, nos últimos anos de crise aguda. É hoje um homem diferente, mais moderado e contido. Mas o pior está ainda para vir. Não tenhamos ilusões. Esperemos que haja bom-senso e decoro, que terminem os ataques pessoais e as insinuações sem provas, que só serviram para vitimizar o primeiro-ministro e tentar desacreditar a democracia, o nosso principal bem. Sócrates merece ser ajudado. Digo-o com isenção, por ser a expressão do que penso, desinteressadamente, e tendo em vista o melhor para Portugal.

[Diário de Notícias, Mário Soares]



Publicado por JL às 20:02 de 27.10.09 | link do post | comentar | ver comentários (2) |

Uma linha ténue

Há quatro anos e meio, no discurso de tomada de posse, José Sócrates deu o tom para o que seria a identidade política do seu governo.

As "férias judiciais" e a "liberalização das farmácias" serviram como amostra do reformismo sem temor a corporações. Resultados à parte - que esse é outro tema -, a primeira impressão foi mesmo uma oportunidade para criar uma imagem. Ontem, ainda que de modo bem diferente, Sócrates deu também o tom do que será a identidade do novo executivo.

Depois de ter apresentado um elenco ministerial que pouco dizia sobre a identidade política do governo, restava saber se este executivo seria mais próximo da imagem do governo minoritário de Cavaco Silva ou do primeiro governo de António Guterres. Se dúvidas restassem, ontem ficou claro: esta não vai ser uma maioria de diálogo, como aconteceu com Guterres, mas sim um governo que vai tentar desviar o epicentro da decisão política para fora do parlamento, à imagem do que aconteceu entre 1985 e 87 com Cavaco Silva.

Foi, na verdade, um discurso com um nível de concretização inferior ao da primeira tomada de posse. Mas foi também um discurso em que Sócrates fez uma interpretação dos resultados eleitorais que serve para definir o que será a linha política do governo. O primeiro-ministro foi claro quando afirmou que "o voto dos portugueses foi um voto de confiança numa governação reformista", tendo mesmo acrescentado que "este facto encerra uma importante lição política para o presente mas também para o futuro: a lição de que é possível fazer reformas e promover mudanças, mesmo que exigentes, contando com o apoio dos cidadãos eleitores".

Para bom entendedor, as palavras são claras: o que foi a votos foi a identidade do governo definida há quatro anos e meio e o reformismo contra os interesses corporativos saiu vencedor. Para as oposições, a mensagem é também inequívoca: o caminho passará por prosseguir uma agenda reformista e o ónus da instabilidade política recairá sobre elas, nomeadamente se forem criadas coligações negativas. Em maioria absoluta, as oposições podem ser "irresponsáveis"; num contexto de maioria relativa serão naturalmente responsabilizadas pela instabilidade.

A linha apontada é de combate político. Mas é também uma linha em que a diferença entre sucesso e falhanço é muito ténue. Ora uma coisa é certa, o sucesso da estratégia depende de um elenco governativo politicamente robusto, capaz de resistir à exposição parlamentar e de alargar a base de apoio do governo para além da Assembleia da República. Ouvido o discurso de ontem, só podem por isso aumentar as perplexidades sobre a equipa ministerial que tomou posse. Pode haver surpresas, mas, em teoria, não é possível ter um governo de combate político com tão poucos políticos.

[Arquivo, Pedro Adão e Silva]



Publicado por JL às 19:56 de 27.10.09 | link do post | comentar |

Caras novas no mesmo Governo

O Governo apresentado por José Sócrates a Cavaco Silva é um acto de coragem política e a confirmação de que para o primeiro-ministro a regra será "antes quebrar que torcer". Metade são caras novas, mas o núcleo político é o mesmo. Sócrates sabe que, no Parlamento, a Oposição vai querer governar sem assumir responsabilidades e não é político para aceitar a afronta.

O tempo das grandes reformas ficou para trás, o confronto com as corporações perdeu terreno, sem maioria absoluta viveremos um tempo de grande actividade parlamentar, com o líder do PS atento ao cerco que lhe tentarão montar através de coligações negativas. Mais cedo do que se pensa poderá haver uma moção de confiança a ser votada no Parlamento.

A contabilidade - oito novas caras, sete que mantêm a pasta, dois que ficam mas mudam de lugar - está feita, mas não serve para mostrar que jogo quer jogar o primeiro-ministro. E não condicionam minimamente a estratégia que cada um dos partidos da Oposição já terá determinado.

Augusto Santos Silva na Defesa surpreende, mas tem todas as condições para fazer melhor do que dele esperam. Se a política é a gestão das expectativas, então Santos Silva é o que parte mais bem posicionado, porque é o que tem as expectativas mais baixas. Mas é preciso não esquecer que ele é um político muito experiente, um homem muito mais cordato do que a imagem que de si próprio transmitiu quando esteve no furacão do debate político.

Vieira da Silva na Economia é a melhor das soluções possíveis e a manutenção de Teixeira dos Santos um sinal claro de que a saúde das contas públicas voltará a ser prioridade, assim que a crise se vá embora.

Há muitas incógnitas. Será capaz Isabel Alçada de fazer no Ensino o que Ana Jorge foi capaz de fazer na Saúde? O novo ministro da Agricultura conseguirá entregar aos agricultores as ajudas de Bruxelas que o anterior guardou na gaveta? Alberto Martins será capaz de fazer melhor na Justiça do que fez num dos governos de António Guterres com a Reforma do Estado? Jorge Lacão vê os Assuntos Parlamentares como um combate ou um espaço de negociação? Nas Obras Públicas muda o ministro, mas mantém-se exactamente a mesma política? Haverá mesmo mais dinheiro para a Cultura?

A sorte deste Governo e o tempo que durará estará por certo muito dependente da habilidade política para impedir que a Oposição governe a partir do Parlamento, mas o destino dos socialistas e dos partidos da Oposição será traçado em eleições e aí o que mais conta é o estado em que estiver a economia.

A Oposição não quer agora saber da sorte do Executivo, mas podemos chegar a um tempo em que a coligação negativa se transforme numa coligação positiva e em que sejam os partidos da Oposição a fazer tudo para que o Governo não caia. Basta que a crise parta e se comecem a ver sinais claros de retoma.

[Jornal de Notícias, Paulo Baldaia]



Publicado por JL às 00:03 de 25.10.09 | link do post | comentar |

Governo de obras

José Sócrates tem uma aposta-chave: obras públicas. Aqui procurou ministros que pensam como ele. Em tudo o resto escolheu pacificadores - sem maioria, parece inteligente.

José Sócrates já tem governo - e com ele o país. Numa frase? Um governo feito à imagem das ideias que o primeiro-ministro defende. Dito de outra forma: os ministros escolhidos acreditam convictamente nas ideias do seu chefe. Isso é bom? Na ausência de maioria absoluta, Sócrates não podia correr o risco de criar uma equipa que não pensasse como ele - isso seria dar trunfos à oposição. Assim, é preciso lembrar os desafios do país, recordar as ideias de Sócrates, e então avaliar a robustez do novo governo e dos novos ministros. E sublinhar - as oposições terão muito trabalho pela frente.

Primeiro, fazer crescer a economia: José Sócrates prometeu Portugal a crescer. Não escondeu nunca que o seu caminho para lá chegar era um investimento em massa naquilo que apelidou de obras públicas estruturantes: não é birra política, Sócrates defende que estas obras podem mesmo puxar pela economia e devolver o crescimento a Portugal. O seu novo ministro das Obras Públicas, o economista António Mendonça, acredita neste caminho. Tanto que dinamizou um dos manifestos que defendem as virtudes das obras públicas. Escrevia o novo ministro: "Lisboa e Madrid deverão ficar ligadas por TGV. O TGV é hoje um caso de sucesso em toda a Europa, onde se verificaram surpreendentes externalidades." Com Vieira da Silva (na Economia) forma uma dupla feroz - Vieira da Silva é competente, muito trabalhador e absolutamente fiel do ponto de vista político. A oposição terá de batalhar muito contra estes dois crentes - e todos os partidos se juntaram contra esta estratégia!

Segundo, controlar os impostos: o primeiro-ministro assegurou que não aumentaria impostos. Sabe que não é fácil. Portugal tem um défice estimado de 6,9% este ano. Ou seja, gasta quase mais 7% do que gera. Para pagar contas, o dinheiro chega dos impostos ou de uma economia robusta. Teixeira dos Santos tem experiência para aguentar as pressões de Bruxelas e ginástica política para lidar com o país. E acredita, como Sócrates, na ideia de que o mais importante é resgatar a economia à crise - e não controlar o défice. Mais um assunto-chave nas mãos de um "velho aliado" político. Muito trabalho, mais uma vez, para as oposições!

Finalmente, a política. Quase tudo se vai jogar no Parlamento e na legislação a aprovar. Jorge Lacão nos Assuntos Parlamentares (ele que votou em Alegre nas eleições internas do PS) assegura essa simpatia com a esquerda parlamentar. E a experiência da gestão de sensibilidades. Silva Pereira, claro, fica onde estava (Presidência do Conselho de Ministros). É daí que saem todos os diplomas e decisões - e Silva Pereira pensa como Sócrates. É igual a ele. Juntando-lhe a nova estrela João Tiago Silveira (como secretário de Estado), Sócrates consegue que a voz do governo seja isso mesmo: nova e representando uma geração que não estava na política. Parece um governo fraco, mas a prudência das declarações dos outros partidos revela o que se percebe: é um governo feroz!

[ i , Martim Avillez Figueiredo]



Publicado por JL às 00:02 de 25.10.09 | link do post | comentar |

O novo Governo de José Sócrates

 

Ministro da Presidência: Pedro da Silva Pereira

Ministro dos Assuntos Parlamentares: Jorge Lacão

Ministro dos Negócios Estrangeiros: Luís Amado

Ministro do Estado e das Finanças: Teixeira dos Santos

Ministro da Defesa Nacional: Augusto Santos Silva

Ministro da Administração Interna: Rui Pereira

Ministro da Justiça: Alberto Martins

Ministro da Economia, Inovação e Desenvolvimento: José Vieira da Silva

Ministro da Agricultura, do Desenvolvimento Rural e Pescas: António Manuel Serrano

Ministro das Obras Públicas, Transportes e Comunicações: António Augusto Mendonça

Ministro da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior: Mariano Gago

Ministro do Ambiente e Ordenamento do Território: Dulce Fidalgo Pássaro

Ministro do Trabalho e Solidariedade Social: Maria Helena Santos André

Ministro da Educação: Isabel Alçada

Ministro da Saúde: Ana Jorge

Ministro da Cultura: Maria Ferreira Canavilhas



Publicado por JL às 20:37 de 22.10.09 | link do post | comentar | ver comentários (2) |

Cavaco, prisioneiro de Sócrates

A política tem destas coisas, o mesmo Cavaco Silva que parece ter dado rédea solta aos seus assessores para conspirarem contra Sócrates, com o objectivo claro de levar Manuela Ferreira Leite a São Bento, vê-se agora orçado a andar com Sócrates ao colo se quer ter esperança de vir a ser reeleito Presidente da República. Quando Sócrates tinha a maioria absoluta mas ficou vulnerável face à crise financeira Cavaco optou por lhe tirar o tapete, agora que Sócrates não conta com uma maioria absoluta Cavaco vê-se obrigado a protegê-lo.

O que irá pela cabeça de um Fernando Lima que há poucos meses promoveu falsas acusações com o objectivo de destruir Sócrates e agora vê Cavaco pedir aos partidos que deixem passar o programa de governo e o orçamento?

A diferença no comportamento de Cavaco Silva explica-se pelo calendário eleitoral, antes Cavaco tinha uma estratégia em função as legislativas, agora actua em função das eleições presidenciais. Este é o prior dos cenários para Cavaco Silva, parte com a imagem de um político que não tem perfil nem está à altura das exigências do cargo de Presidente da República, é forçado a apoiar o partido que não queria ver no governo, não vai conseguir gerir o processo de mudança na liderança do PSD e nem este nem o PS lhe vão agradecer o que tem feito.

Cavaco vai usar o protagonismo que a ausência de uma maioria absoluta lhe proporciona para assumir o papel de garante da estabilidade o que não deixa de ser irónico, quando essa estabilidade estava assegurada pela existência de uma maioria absoluta foi ele e os seus assessores que assumiram a função de desestabilizar. Só que este apoio ao PS fá-lo perder a confiança da direita e é pouco provável que lhe traga simpatias à esquerda.

Se quiser os votos da direita Cavaco terá de desagradar ao PS mas isso levaria a uma grave crise política e, muito provavelmente, a uma derrota nas presidenciais. Se quiser os votos à esquerda Cavaco terá de desagradar à direita mas isso pode levar à implosão de um PSD que precisa de se livrar dos cavaquistas para reencontrar a sua identidade, mas que depois de mais de duas décadas a servir de eucaliptal cavaquista perdeu o seu espaço político.

O mesmo Cavaco que sonhou ver-se livre de Sócrates é agora prisioneiro do líder do PS, a sua reeleição vai depender da estabilidade política e da recuperação da economia. Por outras palavras, se Cavaco quer ser reeleito terá de ajudar Sócrates a recuperar a governar bem e a manter-se no governo e, muito provavelmente, a recuperar a maioria absoluta.

Cavaco apostou e perdeu, não só perdeu como ficou com grandes dívidas de jogo de qu Sócrates é o grande credor. O PSD vai aprender uma dura lição, Cavaco Silva é um político que apenas se serviu dele para satisfazer as suas ambições pessoais e fará tudo o que for necessário para sobreviver, incluindo ajudar à destruição do partido que o deu à luz na vida política. [O Jumento]



Publicado por JL às 00:05 de 22.10.09 | link do post | comentar |

Caldo entornado

O Presidente da República decidiu abrir uma guerra com o PS dois dias depois deste partido ter ganho as eleições. Não foi nada bonito e sobretudo não foi uma boa ideia. Mostra, aliás, como Cavaco Silva tem dificuldade em lidar com contrariedades e, face a elas, perde a noção do seu papel e do interesse geral. A comunicação formal que fez ao país foi um exercício algo patético, repleto de pequenos detalhes incongruentes e argumentos sem sentido. Falou-se da casa do Algarve e de emails, matéria sobre a qual Cavaco Silva mostrou um elevado desconhecimento prático. Não foi uma intervenção digna de um Presidente da República.

Para além disso, um Presidente não tem interpretações pessoais. Estas, a existirem e a serem declaradas perante uma televisão, tornam-se factos políticos. A referida comunicação resumiu-se por isso à revelação de uma clara hostilidade face ao PS e naturalmente ao actual e futuro primeiro-ministro. O que, trocado por miúdos, significa que a cooperação estratégica terminou aqui.

Sendo certo que muita gente ficou profundamente irritada com a vitória de José Sócrates e não de Manuela Ferreira Leite, seria de esperar que o Presidente fosse o primeiro a aceitar o resultado das eleições. Depois de uma campanha feita de casos, na sua maioria provocados pelo PSD e seus acólitos e ampliados pelo Bloco, cabia a Cavaco Silva acalmar os ânimos e dar início a um novo ciclo político já de si bastante complicado. Ao participar activamente na continuidade da agitação o Presidente prejudica objectivamente a capacidade do país em se refazer da crise e avançar com o seu processo de modernização. Não lhe fica bem.

Tanto mais que nada de substancial se passou. Exceptuando o excessivo e doentio ódio a Sócrates por parte de vários sectores muito conservadores, à direita e à esquerda, o jogo de intrigas faz parte de uma sociedade aberta e mediatizada. É preciso saber conviver com o clima de rumores e má-língua. A liberdade tem os seus aspectos negativos, mas tem muitas mais qualidades e não é portanto negociável. Contudo, os actos ficam a marcar quem os desencadeia. Cavaco Silva, com base no diz que disse e em peripécias de banda desenhada, revelou não ser factor de apaziguamento da sociedade portuguesa. Realidade que não poderá deixar de contar em próxima candidatura. Ao queixar-se de que o PS o quis encostar ao PSD o Presidente acaba ele mesmo por reduzir o seu campo de acção política e partidária. Deixando desse modo de ser o Presidente de todos os portugueses para passar a ser o Presidente da direita. Nessa medida, para além de outras considerações, e dado o resultado destas eleições que deu uma clara maioria de esquerda, torna-se difícil entender o que vai na cabeça dos seus estrategas quanto a uma eventual reeleição. Tal como as coisas estão, e prevendo que ainda vão piorar no futuro próximo, ela é cada vez mais improvável.

Mas o futuro de Cavaco Silva é de somenos importância face ao futuro do país. O programa de reformas modernizadoras tem de continuar mesmo se uma parte significativa do eleitorado prefere estagnar ou mesmo recuar. É, aliás, dos livros que a evolução das sociedades se faz quase sempre com a vontade e determinação de alguns face à indiferença ou oposição dos outros. Nestes próximos anos por cá também será assim.

Dito isto julgo que o PS, e sobretudo José Sócrates, não se devem atemorizar com as dificuldades e, pelo contrário, prosseguir com uma linha de rumo que tem beneficiado os portugueses no seu conjunto. As reformas no ensino, a modernização tecnológica e empresarial, as ligações às redes europeias, continuam a ser essenciais para que Portugal possa garantir melhores condições de vida para todos e ganhar civilização e competitividade global. Não podendo a partir de agora esperar a colaboração do Presidente, o PS sabe que pode contar com os sectores mais dinâmicos da sociedade portuguesa. É para aí que se deve virar sem hesitações.

[Jornal de Negócios, Leonel Moura]



Publicado por JL às 09:34 de 03.10.09 | link do post | comentar |

Quem se lixa é sempre o mexilhão...

Cavaco Silva só terá percebido que o silêncio sobre o caso das escutas estava a beneficiar o PSD, quando MFL e Paulo Rangel tentaram aproveitar-se das suas declarações de sexta-feira para lançar ataques patéticos ao PS e a Sócrates. Com a lhaneza que lhe é habitual, MFL repisou a tecla da asfixia democrática. Como se estivesse a tomar chá num grupo de amigas, pegou no cardápio das difamações e desatou a lançar suspeitas. Não querendo ficar isolada, chamou Paulo Rangel e disse-lhe para comparar Sócrates a Chavez. Em MFL já nada me espanta…

Quanto a Cavaco, o seu silêncio é preocupante. Se um PR não consegue perceber o que todos os portugueses perceberam, o que poderemos esperar dele no futuro?

Não suspiro aliviado com a demissão de Fernando Lima, porque ela não encerra o caso. Como disse Paulo Portas, a demissão é clarificadora mas, em minha opinião, fica por esclarecer a responsabilidade do PR neste caso.

Os portugueses têm o direito de conhecer todos os contornos deste caso escabroso. Exibir em praça pública um culpado, entregando-o ao julgamento do povo, pode ser-lhe favorável neste momento mas, mais tarde ou mais cedo, não deixará de ser emulado. Cavaco resistirá, no máximo, até 2011, e ficará na História como o primeiro PR que não foi reeleito. Por muito que alguns dos seus admiradores se esforcem na tentativa de branquear a actuação de Cavaco, chamando à liça casos que não podem ser comparados, o futuro do actual PR está traçado.

Só Fernando Lima poderá salvar Cavaco. Assumindo que agiu por iniciativa própria e sem conhecimento do PR. Mas apenas lhe salvará a Honra, não o futuro político. [Delito de Opinião, Carlos Barbosa de Oliveira]



Publicado por JL às 00:07 de 23.09.09 | link do post | comentar | ver comentários (3) |

Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades

Onde estão os tempos em que todos clamavam por reformas estruturais? E em que todos criticavam o diálogo? Hoje ouvimos a líder de um dos mais importantes partidos do regime, o PSD, a afirmar que Portugal não precisa de reformas. E a dizer que a nova avaliação dos professores será concretizada em diálogo com eles.

Quase cinco anos a fazer o que todos os economistas e políticos pediam foi o suficiente para perceber… porque não se tinham feito antes as tão exigidas reforma estruturais. Quase cinco anos a mudar estruturas contra a vontade das corporações foi o suficiente para… apelar ao diálogo, atitude tão criticada a António Guterres.

À saída do último debate entre líderes partidários, Manuela Ferreira Leite afirmou que o país não precisava de um governo maioritário, entre outras coisas, porque não precisa de leis que passem pelo Parlamento nem de reformas, mas de uma outra política.

A opinião de Manuela Ferreira Leite não é única. É espantoso como, em cerca de dois anos, se tenha passado de um apelo desesperado e do elogio à coragem do actual governo, por fazer as reformas estruturais diagnosticadas como urgentes pela esmagadora maioria dos líderes de opinião, de economistas a políticos, para uma espécie de "já chega de reformas", já não são necessárias mais reformas.

O que se passou nestes últimos anos de era Sócrates é um extraordinário exemplo das dificuldades - e riscos - que se enfrentam na mudança de qualquer estrutura. Por isso as reestruturações são em regra adiadas quer nos países como nas empresas. O maior risco é a intervenção mexer, sem querer, num qualquer pilar que se revela determinante para mudar a opinião de toda a organização.

Durante décadas, praticamente desde que Aníbal Cavaco Silva deixou o Governo em 1995, clamou-se pela urgência de realizar mudanças estruturais na educação, saúde, justiça, segurança social, administração pública… Mudanças fundamentais para Portugal voltar a crescer acima da média comunitária, acabada que estava a possibilidade de aumentar o produto para níveis visivelmente mais elevados apenas pela construção de estradas.

Durante o Governo de José Sócrates, bem ou mal, foi isso que se fez. Os diagnósticos estavam feitos e as medidas elencadas, como também se disse várias vezes na era de Guterres e até na rápida passagem de Durão Barroso pelo Executivo. Era preciso meter mão à obra.

A obra iniciou-se com José Sócrates. Os resultados, todos o sabem com seriedade, nunca se poderiam ver no imediato. E fosse qual fosse o Governo, sabia que corria sérios riscos - muita gente ia perder benefícios.

O actual Governo teve essa coragem. Correu riscos. Nalgumas áreas as mudanças correram muito bem - como a simplificação administrativa e das carreiras na função pública - outras correram muito mal - como a justiça. Outras vão ter, assim parece, um elevadíssimo custo eleitoral - como na Educação.

Foram e são essas mudanças que permitem hoje dizer a Manuela Ferreira Leite e a muitos líderes de opinião que o país não precisa de reformas. Ou que explicam por que estamos todos fartos de reformas estruturais. Queremos agora alguma calma. Mas todos, com seriedade temos de reconhecer, que essas reformas eram necessárias. E que ainda há muito para fazer.

José Sócrates pode acabar por ser uma vítima das suas reformas - e obviamente também da sua atitude. Os tempos mudam e mudam também as vontades e os quereres. Já ninguém quer reformas, mesmo sendo necessária. E o diálogo volta a estar na moda. [Jornal de Negócios, Helena Garrido]



Publicado por JL às 00:05 de 17.09.09 | link do post | comentar | ver comentários (1) |

Um casal desavindo

Estou convencido de que os debates eleitorais entre candidatos pouco aquecem ou arrefecem, mas o espectáculo de dois indivíduos à caça de votos em grande plano tem virtualidades para dar algum ânimo ao habitual tédio televisivo. Vi apenas, numa pachorrenta noite de sábado sem futebol, aquele em que um homem satisfeito consigo mesmo discutia com uma mulher zangada. Pareceu-me uma cena da vida conjugal, cada um culpando o outro da ruptura da união de facto e do mau comportamento da prolífica descendência de problemas que ambos e os respectivos partidos geraram e deixaram ao país e andam hoje por aí à solta, entregues a si mesmos, e senti-me desconfortavelmente na pele de um consultor sentimental. Como sempre, houve de tudo: recriminações recíprocas, ressentimento, vitimização. Até caneladas por baixo da mesa, como aquela da "credibilidade académica" dela e a sua aljubarrótica constatação, com a suspensão do "Jornal Nacional" da TVI no horizonte, de que "Portugal não é uma província de Espanha". A partilha de bens e de responsabilidades parentais de um casal desavindo nunca é coisa bonita de ver. [Jornal de Notícias, Manuel António Pina]



Publicado por JL às 00:07 de 16.09.09 | link do post | comentar |

O debate

A doutora Manuela não gosta que se manifestem contra ela. E sugeriu a Sócrates que avisasse os "seus amigos" da fronteira que acabassem com manifestações que a hostilizam. Sócrates mostrou surpresa. Eu também fiquei surpreendido. Depois de se vangloriar com as manifestações dos professores, e depois da indignação por causa da decisão da administração da TVI, a doutora Manuela adverte: contra ela outro galo cantaria. MFL chegou a dizer que era Sócrates que estava a ser julgado. Para ela, o que aconteceu ali foi um julgamento. Vaga e arrogante. Sempre foi. Ainda nos lembramos da ministra da Educação que conseguiu juntar professores e alunos contra as suas políticas. E quanto às Finanças... que exemplos aponta? E depois ainda há a impertinência com as pessoas de outras geografias; já cá se sabia que não morre de amores por gente de Cabo verde e da Ucrânia. Hoje soubemos que os espanhóis também não são flores do seu canteiro. Um governante tem de ter os pés no Mundo. MFL não quer saber disso para nada. Uma candidata a primeira-ministra que se contradiz a cada minuto. Eu gostava muito que MFL nunca formasse governo. Dito isto... acho que Sócrates ganhou o debate. Mesmo com o desgaste pegado à pele. A inabilidade da doutora Manuela ficou provada. [BlogOperatório, José Teófilo Duarte]



Publicado por JL às 00:03 de 13.09.09 | link do post | comentar |

Debates

E a cereja? Faltou a José Sócrates dizer aos portugueses que não admite fazer uma coligação governamental com o Bloco de Esquerda para que tivesse feito o pleno na sua indiscutível vitória no debate entre os dois líderes partidários.

Sócrates não pode de modo enfático desmascarar a esquerda radical, populista e trauliteira representada pelo BE sem que daí retire a consequência mais óbvia, qual seja a da impossibilidade de arranjos pós eleitorais com aquela força política.

O debate entre os dois representava para José Sócrates um exercício difícil qual fosse o de se demarcar do BE sem descapitalizar votos à esquerda, conseguindo, por junto, abrir espaço ao voto da classe média, por natureza central, moderado e útil. Conseguiu fazer este exercício, não apenas pela contra argumentação que utilizou para se defender das habituais rasteiras políticas utilizadas por Louçã - em regra alicerçadas em casos que marcam a diferenciação entre os poucos ricos e os muitos pobres - mas acima de tudo pelo ataque que levava bem preparado quanto à inadequação da política de nacionalizações e quanto ao atentado ao bolso da classe média por via das deduções fiscais propostas no programa do BE. Este documento atravessou todo o debate, esteve em cima da mesa, foi por Sócrates escalpelizado nos itens que mais lhe interessavam para que todos percebessem o significado do que ali está escrito e o embuste que representa o discurso político do BE.

Faltou-lhe colocar a cereja em cima do bolo. Em vez disso, optou pelo tacticismo e nessa medida não foi esclarecedor. Julgo que teria ganho mais em expressar de forma linear e inequívoca a impossibilidade de convergência com uma força política absolutamente antagónica à sua própria concepção económica, política e até social do país.

Boleia inconveniente. Até se admite que Alberto João Jardim diga que leva quem entender no carro oficial do Presidente do Governo Regional da Maneira, mas custa entender que Manuela Ferreira Leite se permita escolher a pior oportunidade para se meter nesse carro. Não estou a dizer isto em função da utilização do carro e do que a isso se possa apontar de errado. É um ‘fait divers' de campanha transformado em facto relevante, sem significado que o justifique. O que não percebo é como é que se pretende fazer a conjugação do discurso da asfixia democrática precisamente naquele local e ao lado de tão especial protagonista. Não há diferentes tons de asfixia democrática. Não é uma coisa matizável. E por isso é tão má e tão condenável, exista ela no continente, nas ilhas, no Governo da Nação ou nas Autarquias. Porque, não nos equivoquemos! Com um Estado hiper-dimensionado e um enorme número de pessoas dele dependentes, em termos de emprego e de composição do orçamento familiar, não será difícil encontrar constrangimentos a nível de liberdades de escolha ou de expressão. Agora o que não se pode pretender é que um discurso desta natureza possa apenas ter um alvo. Para que o discurso fosse coerente e eficaz haveria que o alargar, falando em termos de sistema e não apenas na circunstância decorrente do exercício do poder por parte deste ou daquele partido. Ganharia muito mais a democracia se, quando se lhe apontam os seus podres, se fizesse de modo que abarcasse as situações que os demonstram em vez de afunilar a mensagem a benefício de um ganho político de mera circunstância. [Diário Económico, Rita Marques Guedes]



Publicado por JL às 00:03 de 12.09.09 | link do post | comentar | ver comentários (1) |

Louçã vs Sócrates



Publicado por JL às 00:01 de 09.09.09 | link do post | comentar | ver comentários (1) |

Vitória de Sócrates

No debate entre Sócrates e Louçã é evidente que o Primeiro-Ministro saiu nitidamente vencedor e levou, sem dúvidas, Louçã às cordas ou, mesmo ao tapete.

Sócrates na qualidade de chefe do governo há 4,5 anos seria acusado de ser o “causador” de todos os males do País e deste Mundo, a começar pela crise, mas conseguiu com o programa bem estudado do BE levar Louçã à defesa e mostrar que este pretende acabar com as deduções ao IRS com despesas de saúde, educação, etc. Louçã não foi convincente na alternativa de tornar tudo absolutamente gratuito, porque a ser assim nunca mais se falaria de deduções fiscais. Os contribuintes não teriam facturas para juntar ao IRS e então nem seria preciso falar em deduções fiscais.

Ao falar nas nacionalizações, Louçã não foi capaz de explicar como as faria e com que dinheiro. É certo que as empresas como a PT, EDP, Águas Livres, Galp, etc. ganham dinheiro e muito porque são bem geridas e têm um grande espírito de iniciativa.

Diga-se, contudo, em abono da verdade que Louçã foi honesto na área do desemprego ao referir a existência de uma crise mundial. Não acusou directamente Sócrates de ser o culpado do desemprego e do próprio “crash” de Nova Iorque, mas disse que agora há mais desempregados que no início do governo.

Estes debates são muito curtos, as questões são debatidas em poucos minutos para ambas as partes, pelo que não é examinar o desemprego as exportações e a economia em geral em tão pouco tempo, mas ficaram algumas frases chaves como as nacionalizações e as deduções fiscais para um e outro lado.

Curiosamente, nos comentários feitos ao debate entre Ferraz da Costa e o fiscalista Saldanha Sanches, este mostrou não saber que as deduções à colecta do IRS para saúde e educação são limitadas a um certo montante que até nem é exageradamente alto. Saldanha Sanches fala numa eventual dedução 100.000 euros que não é verdadeira, é muito menor, parece-me que de poucos milhares de euros.

Por sua vez, Ferraz da Costa desconhece que as nas nacionalizações de 1975, os capitais estrangeiros ficaram de fora e havia muito pouco nos grandes grupos portugueses. O que foi nacionalizado indevidamente foram os capitais pertencentes aos trabalhadores através das então existentes Caixas de Previdência e que nunca foram ressarcidos dos valores perdidos para o Estado.



Publicado por DD às 23:01 de 08.09.09 | link do post | comentar | ver comentários (2) |

A estupidez não tem limites

O Jornal Nacional da TVI não gostava de José Sócrates e o afecto era retribuído. A vantagem é que quem frequentava aquela hora já sabia ao que ia: não era possível ter um olhar neutro, até porque o que era oferecido não era um produto jornalístico, assente em factos e no contraditório. Mas essa é outra história, que tinha, aliás, a vantagem de ser clara. A três semanas de eleições, a decisão de pôr fim ao regresso anunciado de Manuela Moura Guedes aos ecrãs é uma decisão notável, que não se percebe a quem convém. Comercialmente não faz sentido que a Media Capital abdique de um programa líder de audiências e politicamente Sócrates sai prejudicado pela percepção de que afinal há "asfixia democrática". Mas, convenhamos, uma televisão privada é uma empresa, em que também há relações hierárquicas. Ora o que poderá uma administração fazer quando uma funcionária se entretém a conceder declarações à imprensa que colocam manifestamente em causa a autonomia das decisões da administração? Pois foi isso que fez Moura Guedes ao dizer, textualmente, que "só se fosse alguém muito estúpido" é que a tirava do ar. Entre fingir que não ouviram ou agir em conformidade face a uma chantagem, a administração agiu. É, no mínimo, estúpido e inoportuno. [Arquivo, Pedro Adão e Silva]



Publicado por JL às 00:03 de 06.09.09 | link do post | comentar | ver comentários (1) |

José Sócrates, que futuro?

Estou cada vez mais longe da política, tout court, como diria o outro.

Há poucos políticos cuja prestação me entusiasme. José Sócrates é um desses eleitos. Não só tem carisma e perfil de político empenhado, como tem de estadista.

Gostei de vê-lo, na entrevista realizada por Judite de Sousa. Pareceu-me sereno e autêntico.

Será, no entanto, um homem só. Não acredito que no PS o amem.

Em política, os amigos são aqueles a quem deixamos comer do nosso tacho, para que em outra ocasião possamos comer do alheio.

Não há lugar para cavaleiros-andantes.

Não digo que não haja políticos sérios e honestos, gente que se empenha em realizar um projecto ou prosseguir um ideal.

Mas ao nível superior da política, a filhadaputice é grande.

José Sócrates ou consegue um bom desempenho eleitoral ou será cilindrado por aqueles que lhe mordem a sombra dentro do PS.

Os defensores de uma política de consensos são aqueles que adoram fingir que se anda sem sair do mesmo sítio.

Com uma chapelada aqui, outra ali, tudo se consegue. Para eles, claro.

O país, porém, avançará a passo de caracol.

O primeiro-ministro criou muitas inimizades ao nível do funcionalismo e de uma classe média que percebe mal o que lhe está a acontecer.

Vai-lhe ser difícil obter o voto desses eleitores.

Por isso, não vejo como a posição de José Sócrates poderá sair reforçada, em 27 de Setembro próximo, se não obtiver uma maioria absoluta ou uma forte maioria relativa, o que de todo parece hoje improvável.

Talvez possa dar uma cambalhota unindo-se ao PSD; ou à esquerda champanhe & caviar; ou à brigada do reumático comunista (tudo é possível).

Porém, governos minoritários ou com apoios sectoriais para determinadas políticas, dificilmente completarão a legislatura.

A nossa História recente tem disso inúmeros exemplos.

O país real (desculpem o chavão) será quem mais sofrerá com uma política de consensos, toma-lá-dá-cá, porque em trinta e cinco anos de democracia nunca se chegou a consensos para realizar políticas estruturais nos vários sectores da nossa sociedade.

Sem uma posição forte no governo, José Sócrates será sempre um alvo fácil nas mãos dos históricos, Alegre & C.ª.

Hão-de querer vingar-se da forma sobranceira como ele sempre os tratou enquanto secretário-geral do partido.

Oxalá me engane.

[O voo das palavras, António Garcia Barreto]



Publicado por JL às 00:10 de 03.09.09 | link do post | comentar | ver comentários (6) |

Cosmética

«A presidente do PSD, Manuela Ferreira Leite, acusou o primeiro-ministro e secretário-geral do PS, José Sócrates, de ter estado a representar durante a entrevista de terça-feira à RTP e de nem consigo próprio falar verdade.

Eu não sei quais foram as pessoas que acreditaram que o engenheiro Sócrates não estava a representar. Acho que foi um número de representação. E eu acho que aquilo que falta efectivamente é falar verdade às pessoas. Provavelmente o engenheiro Sócrates, neste momento, não fala verdade nem com ele próprio, porque provavelmente senão não teria dito isso que disse.", disse a presidente do PSD.»

 

A dra. Ferreira Leite anda com problemas graves na cabeça, que lhe afecta o “lapsus verbis”.

Deduzo que o mal está na cosmética, concretamente na laca que usa.

Porque não se aconselha com a outra Manuela?



Publicado por JL às 00:04 de 03.09.09 | link do post | comentar | ver comentários (3) |

As contradições do Portas

No debate desta noite, Paulo Portas marcou logo de início a contradição absoluta dos seus argumentos.

Começou por defender a descida dos impostos, sem especificar, com a ideia de que menos impostos implica um desenvolvimento económico e, logo, mais receitas nos impostos baixos. É evidente que no limite extremo não deixa de ser verdade, isto é, com IRC, IRS e IVA próximos do zero ou, pelo menos, a menos de metade. Mas, as descidas possíveis de alguns pontos percentuais não implicam o aparecimento de um maior poder de compra dirigido a produtos nacionais, tanto mais que muitos impostos incidem nos lucros ou rendimentos das pessoas, os quais tendem a baixar em períodos de crise. Hoje verifica-se em todo o Mundo uma quebra no comércio internacional da ordem dos 25% relativamente ao ano anterior.

Depois, Portas orientou todo o debate para as tradicionais insuficiências, exigindo mais apoios às PME, mais apoios sociais, mais segurança policial, enfim, mais tudo, logo mais e mais despesa. Criticou a falta de subsídio de desemprego para os jovens que quase não trabalharam, etc. e quando há despesa social esta é criticada como é o caso do Rendimento Mínimo que, segundo Portas, é algo de mau. Claro, se não existisse, Sócrates seria criticado por não apoiar os mais pobres e, nestes, as famílias mais numerosas.

Tivemos a experiência do governo Durão Barroso que prometeu um choque fiscal em termos de descida de impostos e subiu logo o IVA e outros impostos, nada tendo descido. E não o fez por maldade ou falta de vontade, mas, sim devido à total impossibilidade de agir de outro modo, pelo menos, a curto ou médio prazo.

A estratégia do Portas e toda a oposição é atacar o governo actual pelo que fez e pelo que não fez sem apresentar um verdadeiro projecto alternativo, a não ser nesse aspecto vago de querer descer os impostos e as receitas da Segurança Social à direita e aumentar os impostos dos chamados ricos à esquerda. Em ambos os casos, é possível mexer numas coisinhas, mas sem que daí venha qualquer solução milagrosa para o País, principalmente em termos de crise.

Sócrates teve a ocasião de dizer que já tinha apoiado este ano mais de 40 mil PMEs quando o Governo Durão Barroso/Santana só apoiou umas 2 mil pequenas e médias empresas.

Enfim, Paulo Portas não apresentou qualquer solução para crise e quase se limitou a criticar o Governo, fingindo que não há nem houve um vastíssimo conjunto de programas que melhoraram a Administração e a relação do cidadão com o Estado e, além disso, houve a introdução do complemento social para idosos, dos apoios aos jovens alunos, do complemento ao subsídio de desemprego, de programas de formação nas empresas para evitar o despedimento ou lay of, etc.

Hoje, temos menos Estado em tudo o que se refere a documentação; desde o cartão do cidadão, passaporte, certidões, cadernetas prediais, registos prediais, etc.

O Portas voltou a defender a escolha livre da escola com a possibilidade de o estado pagar as escolas privadas. Era o que mais faltava nas zonas em que há escolas do Estado que são praticamente todas no País.



Publicado por DD às 23:35 de 02.09.09 | link do post | comentar | ver comentários (3) |

Finalmente faz-se luz

A luz, finalmente a luz. Para os que não tinham ainda vislumbrado grandes diferenças entre o PS de José Sócrates e o PSD de Manuela Ferreira (incluo-me no rol), este fim-de-semana foi elucidativo. Fez-se luz. As diferenças existem. E são importantes, desde logo porque tocam nos valores, essa coisa esquecida mas decisiva no andamento de qualquer sociedade. Verdade que um e outro tinham já dado sinais de se encontrarem em diferentes escalas valorativas. Sucede que eram ainda ténues as distinções. Para felicidade de todos, passaram a ser mais evidentes. Sê-lo-ão ainda mais no decorrer da campanha eleitoral, disso não tenhamos dúvidas.

Confesso que quando, há uns tempos, a líder do PSD disse em público que o casamento tinha a procriação como primeiro objectivo, levei isso à conta de alguma ingenuidade política e de algum excesso de zelo. Enganei-me, novamente. Manuela Ferreira Leite estava a falar, pela primeira vez, do conservadorismo que comanda a sua maneira de ver e de viver a vida. Esta frase, proferida no domingo pela líder social-democrata, diz tudo: diluíram-se "pilares da sociedade como a família e o casamento, para impor a vontade da lei, onde deveria prevalecer a vontade individual. Houve uma erosão dos valores cívicos e éticos, conduzindo ao pessimismo e à suspeição". Culpa de quem? Do Governo, claro.

Pode pensar-se que, posicionando-se intransigentemente ao lado da família e do casamento, Ferreira Leite tenta encostar Paulo Portas à parede, roubando-lhe espaço de manobra numa área tradicionalmente de Direita. Ou que Sócrates deseja piscar o olho ao eleitorado mais jovem e citadino (aquele que sustenta o Bloco de Esquerda), quando quer resolver problemas como a união de facto, o divórcio, a despenalização das drogas ou mesmo a morte medicamente assistida. Essas são as contas de mercearia. Acima delas está a "mundivisão" (para usar a expressão de Sócrates) perfilhada pelos dois principais partidos portugueses. E essa é, pela primeira vez em muitos anos, nitidamente dispare. O que é excelente.

Creio que Sócrates parte à frente neste debate. Não porque a razão lhe assista sem controvérsia, mas apenas porque as circunstâncias o ajudam. Os portugueses não são hoje diferentes de outros povos que, para citar Lipovetski, decidiram escolher "novos valores que visam permitir o livre desenvolvimento da personalidade íntima, legitimar a fruição, modular as instituições de acordo com as aspirações dos indivíduos". Quer dizer: buscando o mínimo de austeridade e o máximo de desejo, não abandonámos a importância da família ou do casamento. Mas já não os vemos com a lente conservadora que pode obrigar a tomar decisões que minam a liberdade individual.

A discussão é boa. Aguardemos que continue. [Jornal de Notícias, Paulo Ferreira]



Publicado por JL às 00:03 de 02.09.09 | link do post | comentar |

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