UMA LUTA DE GALOS

1. Como garantidamente não votarei nas próximas primárias do Partido Socialista, dispenso-me da missão (quase impossível) que é a de encontrar as diferenças programáticas entre os dois candidatos. É que, apesar das notórias distâncias no "estilo" e na "forma", no conteúdo, por muitas voltas que se dê, o programa do Partido Socialista resume-se a generalidades e a uma proposição (contrária, aliás, à da canção da nossa cultura pop): "vamos desfazer tudo aquilo que foi feito".   

Voltemos ao início:

Outubro de 2012, António José Seguro garante: "Quando merecer a confiança dos portugueses para governar Portugal tomarei a decisão de propor que o dia 5 de Outubro, o dia da república, volte a ser feriado nacional".

Junho de 2013, António José Seguro afirma, "Discordo da lei de reorganização das freguesias e vou mudar a lei."

Fevereiro de 2014, António José Seguro promete: "Quando o PS for Governo, todos os tribunais que o actual Executivo encerrou serão reabertos".

Abril de 2014, António José Seguro assume o compromisso de, caso seja primeiro-ministro, "criar condições" para acabar com os sem-abrigo do país numa legislatura.

Maio 2014, António José Seguro promete revogar "a TSU dos pensionistas" e "devolver as reformas e as pensões que são devidas aos reformados e pensionistas"

Maio de 2014, António José Seguro garante que não aumentará carga fiscal quando estiver no Governo.

Julho 2014, António Costa defende que é necessário "estabilizar de uma vez por todas as pensões já formadas acabando com os cortes" e promete que irá "travar a austeridade".

Julho de 2014, António Costa promete aumento do salário mínimo nacional superior à proposta das duas centrais sindicais.

Julho de 2014, o secretário geral do Partido Socialista garante que não mudará uma vírgula à legislação laboral, se chegar à chefia de um governo.

Julho 2014, António José seguro promete: "Um governo por mim liderado [...] reporá o corte das pensões e nas reformas que foi feito[...]. Não desistiremos de repor as pensões e as reformas, tal como foram definidas antes dos cortes aplicados por este Governo".

Julho de 2014, António Costa afirma que é necessário implementar um plano de recuperação económica e social que consiste em "travar a austeridade para dar confiança"

Efectivamente, "nada é tão admidável em política quanto uma memória curta" (John Galbraith), e nisso este Partido Socialista dá cartas.

2. Chega a ser caricato que o maior partido da oposição organize uma "corrida para primeiros-ministros" com propostas que não chegam a ser dignas de líderes do mais pequeno partido da oposição. Este PS só tem uma forma de estar na política: "estar do contra". Contra a abolição dos feriados, contra o encerramento de tribunais, contra a austeridade, contra a reorganização das freguesias, contra os cortes nas pensões, contra a nova legislação laboral, contra a contribuição extraordinária de solidariedade. Esqueceu-se, pois, de dizer se está a favor de alguma coisa e, já agora, de quê. Porque fazer política pelo boicote não custa nada e  é até popular. O desafio está em encontrar a alternativa.

Durante todo o processo de ajustamento o PS mais não fez do que contestar as inevitáveis medidas difíceis - algumas, para mais, impostas pelo Memorando de Entendimento por si negociado - e prometer reverte-las à primeira oportunidade. Mas ficou em silêncio quanto a essa alternativa. E assim permanece.

Claro que agora, instado por uma disputa eleitoral, António José Seguro apresenta um pretenso programa a que decidiu chamar "Contrato de Confiança com os Portugueses". Mas é mais do mesmo. 80 propostas entre generalidades e promessas do tipo "Não despedir funcionários públicos" ou "Renegociar a Dívida Pública por forma a promover a extensão de maturidades e a revisão dos custos de financiamento" ou mesmo "Recusar o plafonamento das contribuições para a Segurança Social." Do lado de António Costa o projecto - a avaliar pelo nome - vem carregado de ambição. A agenda é "para uma década", mas o conteúdo não enche, afinal, uma meia dúzia de  de páginas.

3. Quando do que se trata é de fazer política, podem escolher-se essencialmente dois caminhos: a) propor e implementar políticas públicas geradoras de progresso e de inclusão, alinhadas com as expectativas dos cidadãos; ou b) orientar a acção política para responder aos imperativos da agenda imediata e de curto alcance, as mais das vezes sustentada em ilusões e num equilíbrio delicado entre aquilo que os cidadãos querem ouvir e as responsabilidades do passado. Para infortúnio do PS, dos socialistas e dos portugueses em geral, durante os últimos três anos o principal partido da oposição trilhou o caminho mais fácil: respondeu aos imperativos de agenda e procurou (sem sucesso) não tropeçar no passado.

Se é praticamente consensual que António Costa conduziu de forma algo "exótica" o seu processo de candidatura a líder do Partido Socialista, a verdade é que o país estaria à espera que este "challenger" recuperasse algum crédito no exercício da na acção política da oposição, a exemplo de antigos secretários gerais como Jorge Sampaio ou António Guterres (independentemente dos resultados práticos das respectivas lideranças). Mas o tempo veio mostrar que não é disso - de nada disso - que se trata nas primárias do PS. António Costa e António José Seguro pensam no eleitor e não no cidadão. Escolhem a boa notícia, quando os portugueses querem ouvir a verdade. Ambicionam o "soundbyte" em "prime time", em vez da profundidade das ideias. Ocupam o tempo com intrigas  áulicas, quando o país aguarda por perceber a visão estratégica do partido para o crescimento e para o emprego. Porque não basta dizer que se tem uma e depois apelar a jargões e a generalidades inconsequentes.

As primárias do PS não são - como nos quiseram fazer crer - umas verdadeiras primárias. Daquelas ao estilo americano, em que dois líderes se apresentam com dois projectos. As primárias do PS não são um duelo de candidatos a primeiro-ministro. As primárias do PS são, afinal, uma luta de galos!

Por: [Expresso]
Nota: Uma luta de galos? De galarós, digo eu!


Publicado por [FV] às 16:37 de 04.08.14 | link do post | comentar |

3 comentários:
De barões P'S': continuar no poder. a 3 de Setembro de 2014 às 16:55
As honoráveis múmias


Uma epifania tecnológica conduziu-me ao baú dos "modem" e coisas afins onde recuperei uma pen com um lá dentro. Um pouco como o dr. Costa fez no PS ao "pequeno-almoçar" com algum jazigo de família que ressuscitou propositadamente para o apoiar.
Uns querem um PS mais "forte", outros, como o eterno Almeida Santos, agradecem hipocritamente o "combate" de Seguro e dão o homem praticamente como qualquer coisa "arrumada".
Sampaio saiu do recato de bom senso onde estava muito adequadamente enfiado, ao arrepio do frenesim radical do dr. Soares, para se juntar aos jarrões.
As coisas valem o que valem. No caso, cada uma daquelas luminárias vale o solitário voto dela nas "primárias" do PS.
Mas, como dizia o outro, há método nisto.
Estas pessoas fazem parte de um conjunto que vagueia pelos partidos do "arco" e pelos interesses do mesmo "arco" que há mais de três décadas se imagina "dono disto tudo", passe a ironia.

O que eles estão a dizer a Costa é muito simples:
"tens de nos pôr a todos, vivos, mortos e mortos-vivos, lá outra vez custe o que custar".
Que importa que tenham estado nos almocinhos da Trindade há menos de um ano - ao lado do secretário-geral a quem agora nem sequer se dão ao trabalho de espetar a faca nas costas:
é mesmo pela frente, via instagram - para recolocar Costa na Câmara de Lisboa.

Que importa que Costa não traga nada de novo ao PS e ao país a não ser um acervo pobrezinho de lugares-comuns e um ódio pessoal, antigo e pequenino, a Seguro.
Estas honoráveis múmias, na realidade, têm horror ao vazio que, na tonta cabeça deles, é representado pelos três anos de, pelo menos, alguma decência de Seguro.
Querem o passado deles de volta. Pode ser que tenham uma surpresa.


tags: partido socialista, política, regime

João Gonçalves , http://portugaldospequeninos.blogs.sapo.pt/ , 2/9/2014


De Apoios e Tretas de candidatos PS... a 28 de Agosto de 2014 às 15:23
Do velho ciclo

Também li a moção de António José Seguro. A minha opinião, por muito que me esforce, não é imparcial - é um texto cheio de lugares-comuns, páginas de palavras que não querem dizer rigorosamente nada. Apela aos piores instintos populistas com as palavras em bold - compromisso, luta contra a corrupção, código de ética, responsabilidade, solidariedade, modernidade, cumprir Portugal, etc.

Vale a pena ler. Ninguém se deve demitir de perceber quais as soluções que quem se apresenta a votos sugere. E quais as ideias, ou a falta delas, dos que se propõem ser líderes.

-----------------
comentário de ACÁCIO LIMA a 16 de Agosto de 2014:

O post "Do velho ciclo" , do meu ponto de vista, é "delico - doce" e poupa a debilidade intelectual do texto de Seguro.

Este, trata o eleitorado como se tratam as "criancinhas".

As medidas que advoga estão desajustadas das graves situações que vivemos.

Contrasta com o programa de António Costa, muito mais urdido e elencando o que é decisivo.

Costa centra-se em dois pontos base:

- no combate ao desvio direitista vigente no atual Partido Socialista.

- na refundação do Partido Socialista, fazendo face às mutações havidas nos últimos quinze anos.

Bom Dia.
Bom Fim de Semana.

Cordiais, Afáveis e Amistosas
Saudações Democráticas e Socialistas

ACÁCIO LIMA


De Golpadas eleições internas PS e ... a 28 de Agosto de 2014 às 14:54
Depois da golpada, a teoria da golpada.

Em comunicado a candidatura de Marcos Perestrello, através do Diretor de Campanha, procura teorizar sobre o que se está a passar no processo eleitoral da FAUL sem conseguir superar a situação anormal que se vive e sem esclarecer o seguinte:
1. Ao longo dos últimos anos, quantas vezes na FAUL a vontade política se sobrepôs aos Estatutos e Regulamentos? No número de membros do Secretariado da Federação, na presença de pelo menos um membro de um órgão executivo no órgão jurisdicional da Federação, na superação do número máximo de delegados definido pela Comissão Política da Federação ou na propositura de uma lista para a COC só com apoiantes de uma das candidaturas, sob proposta de quem não tem competência estatutária para tal. Ao vale tudo dos últimos dois anos, sucede-se agora o vale tudo no atual processo eleitoral da FAUL;
2. Fazem-se reuniões da Comissão Política da Federação sem a distribuição da documentação a ser discutida e votada; reúne-se a COC sem Ordem de Trabalhos e sem atas das reuniões e segredam-se aos mais próximos soluções para resolver os problemas processuais que surgem.
3. Numa situação sem precedentes nem paralelo em nenhuma outra federação da dimensão da FAUL, altera-se o rácio de delegados de 25 militantes - 1 delegado para 7/8 militantes -1 delegado. Algo que projectado no plano nacional faria com que um Congresso Nacional tivesse cerca de 11.000 delegados.
4. Não se permite que o representante desta candidatura tenha direito a voto mas para a imprensa diz-se que esteve de acordo com as deliberações;
5. Insiste-se numa desresponsabilização das responsabilidades próprias da atual maioria na FAUL para o plano nacional como se fosse este o responsável pelo buraco financeiro de 1 milhão e duzentos mil euros que constam das contas da FAUL, como se fosse este o responsável por uma gestão da relação com as secções em função das proximidades políticas ou como se tivesse sido por imposição superior que a FAUL concretizou fusões de secções sem ter em conta a vontade dos militantes e das estruturas.
6. Insiste-se em confundir o escrutínio normal numa organização democrática com ataques pessoais ou campanhas negativa.
6.1. numa organização democrática ninguém está acima do escrutínio e da transparência, nem os cargos são ocupados por direito divino, são-no de forma transitória, em espírito de missão e nos limites da lei e da Ética Republicana.

6.2. o dinheiro das secções não é para alimentar uma estrutura federativa que vive acima das suas possibilidades, sem intervenção política relevante para as pessoas e para os territórios no plano supramunicipal e metropolitano;

O Camarada António Galamba tem um percurso político de 25 anos de militância em que sempre assumiu as suas responsabilidades, com coragem, com coerência e com trabalho político concreto para os cidadãos do território da FAUL como Governador Civil de Lisboa, que os militantes conhecem.

O que prejudica o PS é alterar as regras em função das conveniências como acontece com o rácio dos delegados para tentar impedir a apresentação de listas alternativas.

O que prejudica o PS é a falta de cultura democrática e o nervosismo de alguns perante o aparecimento de alternativas ao actual marasmo político.

O que prejudica o PS é haver militantes com medo de participar e de dar a cara porque o ambiente político existente é o de penalizar quem não está com alguns dos poderes instituídos na FAUL.

O que prejudica o PS é uma FAUL ausente dos temas políticos importantes para os cidadãos dos 11 municípios, que não faz Política para as Pessoas. É esse o desafio a 5 de Setembro, continuar tudo na mesma ou MUDAR.

MUDAR para arrumar a casa, normalizar a relação da FAUL com os militantes e com as Secções, com verdade, transparência, rigor e proximidade.

MUDAR para colocar a FAUL a falar dos temas que importam para as pessoas e para os territórios. Uma FAUL que seja moderadora, mobilizadora e relevante politicamente.

Está nas mãos e no voto livre e secreto dos militantes escolher:
Continuar tudo na mesma ou MUDAR.

Saudações Socialistas,
O Director de Campanha

Miguel Teixeira

antoniogalamba.FAUL2014@gmail.com


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