De Alternativa ao Capitalismo ? a 15 de Julho de 2015 às 16:33
Sem alternativa à economia de mercado?
(-Maurício Castro , 15 /7/2015, Manifesto 74)

Assim de contundente foi o líder da alternativa eleitoral ao bipartidarismo espanhol vigorante, em declaraçons recentes ao The Wall Street Journal. Num ataque de sinceridade que deveríamos agradecer, Pablo Iglesias afirmou que “nom há umha verdadeira alternativa à economia de mercado”.
Umha sentença que dá continuidade a um pensamento constante nas diversas correntes de pensamento defensoras do sistema em vigor. Talvez a mais conhecida e divulgada tenha sido nas últimas décadas a do filósofo japonês Francis Fukuyama, pensador da direita neoliberal, no seu best seller do fim dos anos 80: “O fim da história”. Eram os tempos da queda do chamado campo socialista no leste da Europa. Lembram?

Porém, na verdade, a origem desse pensamento remonta nada menos que ao maior filósofo do pensamento burguês nascente, a cavalo entre os séculos XVIII e XIX: Georg Wilhelm Friedrich Hegel, que o formulou, inspirando-se na ascensom das ideias de progresso trazidas primeiro pola Revoluçom Francesa e depois pola extensom do império napoleónico frente ao esmorecimento do Antigo Regime. O genial filósofo idealista alemám afirmava que a monarquia liberal e democrática traria o equilíbrio final em que a civilizaçom mais avançada, a europeia e burguesa, atingiria o fim da história sob um Estado situado por cima das classes e representativo de todas elas.

Bebendo da inesgotável fonte hegeliana, mas também ultrapassando o seu idealismo, outro alemám, Karl Marx, conseguiu desmontar, com base no rigor analítico e na evidência histórica, essa tese do velho Hegel, situando o Estado burguês e o modo de produçom capitalista nos termos reais que lhes correspondem, como mais um entre os diferentes que já tenhem existido na história da humanidade, sempre ao serviço da classe dominante em cada modo de produçom.

Como as anteriores, a conceçom do mundo burguesa carateriza-se pola autoconsideraçom como a melhor, a definitiva e a única possível. Tal como no interior das sociedades escravistas ninguém tinha dúvidas sobre o seu caráter universal e eterno, também o feudalismo se caraterizou por idêntica autoconsideraçom, até um e outro serem ultrapassados polo desenvolvimento das suas contradiçons internas num desenrolar histórico das capacidades e necessidades humanas por cima dos espartilhos impostos polas relaçons sociais de cada época.

Umha versom espanhola e vulgarizada da mesma ideia de Hegel e Fukuyama foi também formulada, como sabemos, polo presidente Felipe González: “Vivemos no melhor dos mundos possíveis”, afirmou o principal artífice da incorporaçom do Estado espanhol a um neoliberalismo cujas conseqüências padecemos em toda a sua crueza.

Sintomaticamente, Pablo Iglesias, o líder carismático que está a encarreirar os indignados para o rego da institucionalidade pró-sistema, também afirma agora o seu compromisso com a conceçom do mundo burguesa-capitalista, que como todas as anteriores é considerada a única possível, universal e eterna, mesmo em plena crise terminal como a que vivemos.

A importáncia dessa afirmaçom nom está na curiosa equiparaçom com os dous antecedentes referidos: Fukuyama e González. O verdadeiramente relevante é o significado dessa leitura da realidade política sobre a qual operam Pablo Iglesias e o seu novo partido: o capitalismo é insuperável e, portanto, só cabem políticas compensatórias das suas intrínsecas desigualdades e injustiças. A redistribuiçom da riqueza, os subsídios aos setores excluídos e a “democratizaçom” de um sistema de exploraçom inevitável.

É essa, no fundo, umha aberta identificaçom com os restos do que historicamente foi a social-democracia. Um movimento que a inícios do século XX aspirou a um progresso linear que conduzisse ao socialismo através do desenvolvimento progressivo e mundial do próprio capitalismo. Que mais tarde deixou atrás o objetivo socialista para se conformar com umha razoável democratizaçom e distribuiçom da riqueza no centro capitalista, numha miragem que pareceu real durante as décadas de Estado de Bem-Estar a cujo fim agora assistimos.

Com aquela social-democracia convertida definitivamente em social-liberal, (i.e, neoliberal)...


De Contra NeoLiberal, "Podemos" ou ... a 15 de Julho de 2015 às 16:37
Sem alternativa à economia de mercado?
(-Maurício Castro , 15 /7/2015, Manifesto 74)

http://manifesto74.blogspot.pt/2015/07/sem-alternativa-economia-de-mercado-por.html#more
... ...
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...Com aquela social-democracia convertida definitivamente em social-liberal (i.e., neoliberal), as lideranças neo-reformistas do movimento indignado levantam o punho para reclamar o retorno a 2007, antes do rebentamento da atual crise. Eis o programa de Podemos e, no nosso país, das candidaturas cidadanistas que tam bons resultados obtivérom nas recentes eleiçons municipais.

Nom som relevantes as diversas doses de boa vontade ou oportunismo que podam alimentar essas iniciativas críticas de esquerda reformista. O relevante está na declaraçom de parte que agora Pablo Iglesias verbaliza com a sua frase: “nom há alternativa à economia de mercado”.

Podemos e o chamado cidadanismo, tal como o seu referente grego, Syriza, assumem a conceçom de vida burguesa e a impossibilidade material de quebrar a lógica mercantil-capitalista, hoje representada para nós, como galegos/as, polos poderes institucionalizados na Uniom Europeia, na NATO, na uniom monetária e no Estado espanhol.

Com essa limitaçom autoimposta, nada de substancialmente diferente à decadente barbárie capitalista poderá vir, como nunca véu, da mao de quem nom aspira a ser nada mais que a sua consciência crítica.

-------- *Autor Convidado
Maurício Castro, membro do Colectivo Editor do Diário Liberdade e militante da esquerda independentista galega


De Hegemonia ideológica vs Revolução democr a 15 de Julho de 2015 às 16:46
A conquista da hegemonia ideológica, condição para a revolução democrática

(-por João Vasconcelos-Costa, 27/5/2015 , http://no-moleskine.blogspot.pt/2015/05/a-conquista-da-hegemonia-ideologica.html )

(Comunicação ao “Congresso da Cidadania. Ruptura e Utopia para a Próxima Revolução Democrática”, Associação 25 de Abril, 2015)


O título deste congresso contém uma expressão pouco habitual: Revolução democrática. A expressão é ambígua. Pode ser, por exemplo, para Piketty, algo de indefinido, idealista, vagamente inspirado na mera vitória do Syriza. Por mim, tomo-a como rotura qualitativa com a situação vigente e não obrigatoriamente de acordo com as normas vigentes.

Entenda-se que, como sempre que se fala em revolução, não é obrigatório que se esteja a referir uma forma violenta de revolução. O que significa é uma mudança radical da filosofia, organização e funcionamento do sistema democrático.

Não é que não seja positiva uma reclamação mais simples de mais democracia, mas o necessário é uma alteração radical do contexto político, social e económico em que ela actua.

Embora a democracia não se esgote no Estado, ele é a sua expressão essencial. Em relação à reforma do Estado inserida na revolução democrática, certamente que haverá muitas propostas concretas no outro painel. Agora, preocupa-me mais o poder: quais as constrições a essa revolução, que ideias para as superar, que forças para lutar.

O capitalismo, nesta sua fase de afirmação hegemónica sob a forma de neoliberalismo, apropriou-se da democracia, reduzindo-a um jogo de espelhos em que a cidadania não tem significado real.

... ... ...

Em conclusão

Em muitos aspectos, e observando-se mudanças sociais muito aceleradas, não há ainda resposta precisa para essa tarefa. É um processo de reconstrução que se vai fazendo, necessariamente com desdogmatização do que nos tem sido imposto como pensamento único.

O que deixo são apenas algumas posições de princípio, mas tendo em conta que
1.num terreno ainda pouco desbravado e dominado por esquematismos, exige-se a articulação eficaz entre reflexão e debate teórico, e a validação pela acção política.
2.as ações de defesa dos interesses materiais e sociais dos trabalhadores, reformados e desempregados são inseparáveis da consciencialização e da acção para a revolução democrática.
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