De Grécia pós-OKI e 'Ultimato-Resgate'!! a 9 de Setembro de 2015 às 16:34
Falhar?

1. Como é que Varoufakis, que reconhecidamente viu o que chama de primavera grega ser esmagada pelo euro-imperialismo, ainda consegue vir apelar à democratização desse projecto regressivo de uma quase moeda mundial? Enfim, depois da tragédia política, temos, infelizmente, a continuação de uma farsa intelectual no campo da prescrição política, que já conduziu ao que sabemos. Falhar pior?

2. A tragédia não terminou, claro. Tsipras, que podia ter sido um libertador, ao estilo do saudoso Néstor Kirchner, só para convocar um exemplo progressista mais recente, optou por se inscrever na desgraçada tradição que vai de Ramsay MacDonald a François Mitterrand, só para convocar dois exemplos social-democratas dos regressivos anos vinte/trinta e oitenta/noventa. Perdeu tudo, incluindo, a fazer fé nas tendências recentes, uma grande parte do partido e as eleições por si convocadas com suposta habilidade política.

3. No meio da tragédia, a única escolha que restava aos que permaneceram fieis ao espírito do oxi era criar um novo sujeito político num contexto muito difícil, de desmoralização e de desmobilização populares: Unidade Popular. Unidade Popular contra os memorandos gerados pelo euro realmente existente. Sejamos optimistas: um novo Syriza a prazo, já que as condições objectivas que o geraram aí estão, mas sem ilusões sobre euros bons e outras farsas trágicas. Tal esforço só pode ter o apoio de uma esquerda que por cá esteja disponível para aprender sempre. Falhar melhor?

(por João Rodrigues , 7.9.15, Ladrões de B.)
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...Mitterrand decidiu seguir a linha alternativa defendida por, entre outros, Jacques Delors. Preferiu a “política de rigor” (hoje “austeridade”) orçamental e subiu a taxa de juro para atrair capitais especulativos, segurando a taxa de câmbio, desse modo travando a inflação importada e, reverso da medalha, aumentando o desemprego.
Ou seja, optou pela livre circulação dos capitais e a recuperação da “credibilidade” da França nos mercados financeiros, desiludindo as classes populares que tinham festejado na Bastilha a sua vitória e deixando cair a estratégia de desenvolvimento industrial já iniciada.
A competitividade viria da “contenção salarial” em vez da desvalorização da moeda.
Esta guinada política foi então justificada pela necessidade de “fazer uma pausa e comprometer a França com o caminho da integração europeia”
para, mais tarde e numa escala superior, se acabar com a especulação através da criação de uma moeda única e da coordenação de outras políticas que levariam à convergência real das diferentes economias.
A conquista da confiança dos mercados ficou selada com a reprivatização dos bancos e a liberalização do sistema financeiro francês.

O drama de Tsipras, na noite do referendo que permitiu aos gregos recusar a chantagem e dizer NÃO aos Memorandos, foi estruturalmente semelhante ao de Mitterrand naquela noite de 1983.
A sua formação cultural e política foi, tal como a de Mitterrand, profundamente marcada pelo ideal do europeísmo,
pela confusão entre nacionalismo e soberania e por um entendimento da globalização que tolhe a iniciativa transformadora à escala nacional.
Tendo que escolher entre a ruptura com um projecto europeu que reconhece ser antidemocrático e prejudicial ao povo grego
e a manutenção da Grécia num espaço político supranacional, à espera de melhores dias,
Tsipras foi fiel aos valores do europeísmo que defendeu nas eleições para o Parlamento Europeu.

A votação do próximo dia 20 é apenas o começo de uma nova etapa na vida política grega. Tsipras bem pode dizer que não tinha alternativa.
Ser-lhe-á lembrado pelos ex-camaradas no Syriza que, em momentos cruciais, um dirigente político lidera.
Um líder não se sente obrigado a seguir a opinião pública dominante no momento.
Encurralado, fez bem ao propor um referendo (por más razões, porque esperava perder para obter um mandato de capitulação, mas o 'NÃO' ganhou)
e, depois, tinha a obrigação de ser consequente com o resultado, recusar a austeridade fazendo a pedagogia da saída do euro.
Mitterrand ficará lembrado por ter metido o socialismo na gaveta.
Tsipras será lembrado por ter dado o golpe de misericórdia no europeísmo de esquerda.

(O meu artigo no jornal i)- por J.Bateira, 4.9.15, Ladrões de B.)


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