De TVs e país indigente, de m...., alienado a 9 de Março de 2015 às 11:00
CITAÇÃO, 518

Vasco Pulido Valente, Folias do nosso tempo, hoje no Público. Sublinhados meus:

«Basta ligar a televisão para se perceber o estado de indigência intelectual e política a que chegou o país.
A informação, que já foi sofrivelmente sensata, embora parcial e sumária, tem hoje o critério editorial do antigo semanário O Crime e da imprensa cor-de-rosa e desportiva.

Para começar, os portugueses são presenteados com horas do que antigamente se chamava “casos crapulosos”:
a facada, o tiro, o roubo, a violência doméstica, histórias de tribunal, considerações de réus, de testemunhas, de advogados, de “populares”, da polícia e de um ou outro comentador de serviço.

Depois do “crapuloso” vem o “acidente” e a catástrofe:
desastres de avião e de automóvel, incêndios, tempestades de vento ou neve, inundações, tudo o que meta feridos, mortos, miséria e sangue.

Isto ocupa muito mais de metade do noticiário médio.
O resto consiste numa pseudo-reportagem desportiva, ou seja, no dia-a-dia do futebol. A televisão não perde um jogo ou um golo que possa interessar a meia dúzia de fanáticos de um clube qualquer. Segue os treinos.
Esclarece sobre o “plantel” da equipa A ou da equipa B, sobre os lesionados, sobre os castigados, sobre os “duvidosos”. Entrevista treinadores na véspera e no minuto seguinte aos “clássicos” e não-“clássicos” do campeonato. Jorge Jesus, por exemplo, é seguido com uma persistência e um zelo com que não se segue nenhum ministro, o primeiro-ministro ou o Presidente da República (agora tão retirado que o boato da sua prematura morte já corre pela província). E, através de tudo isto, Ronaldo, sempre Ronaldo, infinitamente Ronaldo.

O tempo que sobra (e o jornal da TVI, para só falar nele, dura uma hora e meia) vai para festas:
festas de cozinha, festas de vinho, festivais da alheira, do presunto e do chouriço,
de quando em quando as prodigiosas fabricações do chefe A ou do chefe B e, continuamente, o sabor e o aroma dos tradicionais produtos deste nosso querido Portugal (que não se vendem nos supermercados, nem nas mercearias de Lisboa).

Não admira que, neste banho cultural, a política tenha pouco a pouco adoptado a natureza da televisão.
Com um esforço sublime consegue concorrer, e colaborar, com os “valores” que regem os noticiários e não pára de nos dar novos motivos de interesse e estima:
a barafunda Sócrates, a barafunda BES, os mistérios dos vistos gold, o velho incumprimento fiscal de Passos Coelho, a prisão de um inspector da polícia, a mentira impenitente e descarada no parlamento e fora dele.
Portugal acaba com certeza por se transformar num “filme negro” (anos 40), sem Bogart, nem Bacall.
E nós, pachorrentamente, assistimos na nossa cadeira.»


Etiquetas: Estado da Nação, Televisão
(-por Eduardo Pitta, DaLiteratura, 8/3/2015)


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