De Privacidade vs Dados e vigilância a 7 de Julho de 2015 às 17:12
cidadãos responsáveis e conscientes da sua liberdade e dignidade
(5/7/2015)

Às vezes deparo-me com diferenças enormes entre o que considero normal e o que se faz (e eu própria fazia, e achava normal) em Portugal. ... uma autêntica lavagem ao cérebro e à sensibilidade. Por exemplo:

1. Já aqui falei sobre a minha zanga pelas perguntas que um banco português me faz, apenas porque quero tirar o meu nome de uma conta que pertence a outra pessoa.
Querem saber tudo: com quem estou casada, que é que cada um de nós faz, quanto ganhamos (com comprovativos), e muito mais.
Na Alemanha já abri e fechei várias contas bancárias sem precisar de mais do que mostrar o bilhete de identidade. E a Christina já abriu uma conta bancária sem sequer ter de ir ao banco - só teve de ir aos correios, para reconhecer a identidade ...
Ao ver as folhas que tenho de preencher, e as perguntas que me fazem, pergunto-me como é que os portugueses se sujeitam a isto.
Além da cusquice e do sigilo, é a questão do tempo. Ando a arrastar aqueles impressos há semanas porque não suporto a ideia de perder meia hora a DAR INFORMAÇÕES que NÃO QUERO DAR.
Pergunto-me:
quem dá a um banco o direito de me fazer essas perguntas, como se lhes estivesse a pedir um crédito de centenas de milhares de euros?
Como é que o banco se lembra sequer de me fazer essas perguntas para algo tão simples como tirar o meu nome de uma conta?
Por outro lado, se continua a pedir estes dados é sinal de que até agora toda a gente respondeu sem fazer alarde.
É o que mais me intriga: porque é que as pessoas se sujeitam a coisas destas?

2. Também já aqui falei do desamor dos alemães aos processos electrónicos, que não se deve a uma espécie de incompetência para a tecnologia, mas de serem AVESSOS a deixar um RASTRO de DADOS desnecessário.
Se pagarem em dinheiro, por exemplo, ninguém tem como saber o que compraram. O supermercado ao fundo da minha rua criou agora um cartão de CLIENTE ANÓNIMO.
Só mesmo isso: recebemos o cartão sem ter de preencher nada, e temos na mesma direito a ofertas especiais. A frase do cartaz de publicidade ao cartão é:
" NÃO TENHO NADA A ESCONDER, EXCEPTO OS MEUS DADOS ! "
Não é gente que teme por dever alguma coisa. É simplesmente dar VALOR à PRIVACIDADE. Este povo já conheceu as consequências de haver dados pessoais nas mãos de sistemas perversos.

3. Há tempos, ao sairmos do aeroporto, vimos que a fila para os táxis começava a dezenas de metros da porta onde estávamos. Tínhamos demasiada bagagem, e vontade nenhuma de ir até ao primeiro táxi da fila. O Joachim resolveu entrar no que estava à nossa frente. Os outros condutores iam protestar, mas ele disse:
"eu tenho o direito de escolher livremente o táxi no qual quero ir!"
Fiquei a olhar para ele com cara de "wow!".
Que espécie de socialização foi a dele, que lhe permite agora enfrentar com tanta segurança o lobby dos taxistas do aeroporto?!

Isso mesmo: que socialização ?

Recentemente, ao traduzir um texto sobre o sistema de ensino em Portugal, descobri que os ALUNOS portugueses têm um CARTÃO ELECTRÓNICO com o qual marcam a hora de entrada e de saída da escola, e que também serve para fazer pagamentos na cantina, no bar e na reprografia. E as escolas vão ter uma plataforma online para os pais terem acesso a todas as informações escolares sobre os filhos. A alemã que há em mim reage com surpresa e susto: o quê?! die totale Überwachung?!

Nem sei que me parece esta espécie de pulseira electrónica aplicada às novas gerações do meu povo. A escola e os pais podem controlar tudo o que fica registado no cartão: horários, consumos ("então compraste coca-cola em vez do leite chocolatado?!") (que diria a minha mãe dos lanches que eu não comi para poder comprar cromos do Sandokan? e foram-me tão importantes!) (ou que diria das vezes em que fui a pé em vez de ir de autocarro, para poder comprar cromos de outra porcaria qualquer : bendita liberdade de aprender a partir de disparates deste género).

Hoje em dia, os pais podem controlar cada vez mais todos os passos dos filhos, quer no computador quer na cidade. Podem controlar, e controlam. É isso que me assusta mais:
crianças que crescem achando NORMAL que os pais e a escola tenham um controlo total sobre a sua vida. Para além da invasão da privacidade ...


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