Vírus Ébola : emergência de saúde pública internacional

O que é o Ébola?

O Ébola é um dos dois vírus pertencentes à família Filoviridae (o outro é o vírus Marburgo) e que tem por característica a ocorrência de febre hemorrágica. Os surtos surgem normalmente em aldeias remotas da África central e ocidental, junto a florestas tropicais. Neste momento, o vírus do Ébola existe no continente africano, mas já houve casos nas Filipinas e na China.

De acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS), a infeção pelo vírus Ébola pode assumir diversos sintomas: febre, dores musculares, dores de cabeça e de garganta, fraqueza e vómitos. No seu estágio inicial, pode ser difícil diferenciar o diagnóstico da doença, já que alguns dos sintomas iniciais são semelhantes aos da malária, febre tifóide e disenteria. A estes sucedem-se a insuficiência renal e hepática e as hemorragias internas e externas.

O período de incubação da doença varia entre os dois e os 21 dias e o grau de sobrevivência é muito baixo, variando entre os 10% e os 30% nos surtos verificados no continente africano.

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A OMS e o Centro para a Prevenção e Controlo de Doenças (CPCD) disponibilizam fichas sobre a doença. No site do CPCD é possível ainda consultar relatórios sobre os anos posteriores a 2000 em que se registaram surtos de Ébola, bem como uma cronologia onde são apresentados todos os surtos desde que a doença foi descoberta. É possível ainda acompanhar os relatórios publicados semanalmente sobre a evolução do atual surto.

O vírus do Ébola foi descoberto em 1976, depois de se registarem dois surtos da doença na cidade de Nzara, no Sudão, e em Yambuku, na República Democrática do Congo, junto ao rio Ébola, que deu nome à doença. Supõe-se que o vírus já exista há muito tempo noutras espécies — sendo conhecida a sua prevalência em várias espécies de macacos e morcegos, tendo apenas sido registada a sua migração para o homem na década de setenta.

Os surtos que fizeram mais vítimas mortais registaram-se na República Democrática do Congo, em 1976 (280 mortos), 1995 (250 mortos), 2002 (128 mortos) e 2007 (187 mortos), no Sudão (151 mortos), em 1976, e no Uganda em 2000 (224 mortos). De acordo com os dados da Organização Mundial de Saúde, desde que o vírus foi descoberto, já morreram 1548 pessoas (não contando com o número de mortos já resultante do atual surto).

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O vírus do Ébola é transmitido através do contacto direto com sangue, urina ou fluidos corporais de pessoas infetadas, como o suor ou saliva. No caso dos homens que sobrevivem à fase aguda da doença, esta pode ser transmitida através do sémen até sete semanas após a recuperação. Os rituais fúnebres das vítimas podem representar também um risco elevado, pelo contacto com o cadáver, o que é comum nas comunidades africanas.

Animais infetados também podem transmitir o vírus aos seres humanos, em particular os macacos e os morcegos da fruta, já que são espécies portadoras do vírus. A OMS recomenda que se evite o consumo da carne crua desses animais.

Nos hospitais e nos centros de saúde o risco de transmissão também é elevado, especialmente se não forem tomadas as devidas precauções como a utilização de máscaras, óculos de proteção, batas e luvas.

Existe, mas por enquanto apenas para chimpanzés. Em maio deste ano foi publicado um artigo na revista norte-americana Proceedings of the National Academy of Sciences, onde uma equipa de cientistas da Universidade de Cambridge, no Reino Unido, testou com sucesso em seis chimpanzés uma vacina que tinha sido desenvolvida primeiro para humanos, mas sem autorização para ser testada em pessoas.

A vacina fez com que os chimpanzés produzissem anticorpos contra o vírus Ébola. Esses anticorpos foram depois testados em ratinhos que tinham sido previamente infetados e verificou-se que os anticorpos evitaram a morte de 30% a 60% dos ratos.

Poderá estar disponível em 2015 um vacina preventiva contra o ébola, que deverá passar à fase de ensaios clínicos em setembro. De acordo com as declarações do diretor do Departamento de Vacinas e Imunização da Organização Mundial de Saúde à rádio francesa RFI, em setembro devem avançar os ensaios clínico da vacina que está a ser desenvolvida no laboratório britânico GSK, primeiro nos Estados Unidos e depois num país africano, uma vez que é em países do continente Africano que têm surgido casos.

Oficialmente, não. Mas um “tratamento milagroso” aplicado em dois doentes infetados pelo vírus Ébola veio trazer dar uma nova esperança à ciência. Kent Brantly, de 33 anos, e Nancy Writebol, de 59, dois missionários norte-americanos receberam um tratamento, nunca antes aplicado em seres humanos, e já saíram do hospital. Foi testado apenas em macacos e os resultados obtidos foram surpreendentes: dos oito animais testados, seis sobreviveram à infeção.

O medicamento chama-se ZMapp e consiste numa solução de anticorpos. Estes foram obtidos da seguinte forma: o sistema imunitário de cobaias expostas a um vírus desenvolve anticorpos específicos contra ele. Os glóbulos brancos que os produzem (linfócitos) são isolados em laboratório e multiplicados por processos de cultura celular. Neste caso, foram separadas três linhas celulares (clones ou “famílias” de células) que produziram anticorpos específicos muito eficazes contra o Ébola. Estes três anticorpos, reunidos numa solução única, são a base deste “super medicamento”.

Apesar de Kent e Nancy terem recebido alta, ainda existem muitas dúvidas sobre o ZMapp, o fármaco que constitui agora uma esperança para a cura do surto do Ébola. E também sobre o que agora acontece aos que recuperaram. Aqui poderá encontrar algumas questões, levantadas pela CNN, que o Observador decidiu recuperar.

Enquanto não se encontra uma cura “oficial”, o tratamento limita-se à manutenção dos níveis de oxigénio no sangue, do controlo da pressão arterial e dos níveis de hidratação, seja através da ingestão de bebidas ricas em sódio e potássio, seja pela via intravenosa.

Ainda que não seja uma tarefa fácil, o diagnóstico precoce é fundamental para evitar a propagação da doença. Caso se suspeite de uma infeção pelo Ébola, o paciente deve informar as autoridades oficiais (no caso português, a linha Saúde 24) mas sem sair de casa. Este pormenor é muito importante para evitar a propagação do vírus. Depois, o doente será transportado para um hospital e mantido em isolamento.

Os especialistas aconselham que não se toque em nada que possa ter estado em contacto com um portador do vírus e que se lavem as mãos várias vezes ao dia. Na manipulação direta de objetos e doentes suspeitos é necessária a utilização luvas, bata, máscara e óculos de proteção.

Nos hospitais é imprescindível a esterilização do equipamento médico, nos casos em que o mesmo não é descartável. As superfícies devem ser desinfetadas regularmente. Caso um paciente morra, deve evitar-se ao máximo o contacto com o cadáver. Os agentes sanitários devem tomar as medidas de proteção adequadas.

O atual surto de Ébola é o pior de sempre. Começou no final de 2013 e já matou 1350 pessoas: 396 na Guiné Conacri, 374 na Serra Leoa, 576 na Libéria e 4 na Nigéria (dados de 21 de agosto do Centro para a Prevenção e Controlo de Doenças).

A Organização Mundial de Saúde declarou o surto uma “emergência de saúde pública internacional” e que uma “resposta coordenada é essencial para parar e fazer recuar a propagação mundial do Ébola”. A organização Médicos Sem Fronteiras, que tem várias equipas a trabalhar no terreno, também lançou um alerta: a epidemia de Ébola está totalmente fora de controlo na zona oeste de África e há o risco de a doença se conseguir espalhar para mais países.

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No Centro para a Prevenção e Controlo de Doenças (CPCD) é ainda possível acompanhar os relatóriospublicados semanalmente sobre a evolução do atual surto.

De acordo com a Organização Mundial de Saúde, as práticas culturais e as crenças tradicionais em alguns países africanos têm dificultado a aplicação de medidas preventivas no âmbito da saúde pública, contribuindo para a propagação da doença.

No início de julho realizou-se um encontro de emergência no Gana, organizado pela OMS e no qual participaram ministros de Saúde de 11 países da África ocidental. Todos os participantes na reunião acordaram que a estratégia a adotar passa pela melhoria das políticas de educação e não pelo encerramento das fronteiras dos países.



Publicado por Xa2 às 09:04 de 31.08.14 | link do post | comentar |

4 comentários:
De PATENTEs: interesse público vs privado. a 1 de Setembro de 2014 às 12:15
Treta da semana (passada): a patente.

A notícia de que o governo dos EUA tem “a patente do Ébola” tem feito furor nos sites conspiracionistas.
«Será esta a confirmação do que corre pela Internet sobre o vírus ser fabricado, plantado e cuidadosamente testado para o controlo da população mundial?» (1). Será?
A pergunta parece ser retórica, mas o artigo adianta que «a razão pela qual os EUA reclamam os corpos das vítimas de Ébola para que sejam transportados para território americano (alegadamente de forma voluntária) prende-se com a possibilidade de estas vítimas conterem propriedade intelectual americana.»
Aparentemente, os EUA não só querem matar uma boa parte da população mundial como também querem recolher todos os cadáveres. Verdadeiramente diabólico. Só falta venderem Soylent Green.

Há uma explicação alternativa, menos apelativa para os aficionados da conspiração.
A patente cobre vários aspectos do isolamento, purificação, sequenciação, replicação, detecção e transformação daquela estirpe do vírus, eventualmente com vista a produzir uma vacina (2).
Este trabalho exigiu muito investimento, pago pelos contribuintes nos EUA, não só pela tarefa em si mas também porque trabalhar com estes vírus requer mais cuidados do que um bico de Bunsen e uma bata branca.
Sendo a legislação das patentes o que é, a forma mais eficiente de impedir que uma empresa privada patenteie isto tudo é ser o CDC a patenteá-lo primeiro.
Caso contrário, teriam de demonstrar em tribunal terem sido os primeiros, um litígio demorado, dispendioso e sempre incerto.
Desta forma o governo dos EUA pode divulgar a informação e licenciar os procedimentos e o uso das estirpes depositadas no CDC sem correr o risco de um privado ficar com o monopólio.

A legislação das patentes está tão mal feita que uma boa parte das patentes submetidas visa apenas impedir que outros patenteiem o mesmo (3).

A conspiração real aqui, que não é nada secreta, é o esforço dos detentores de “propriedade intelectual” para comprar aos políticos leis cada vez mais abrangentes.
Não é tão bombástica quanto as “revelações” fictícias destes sites mas devia preocupar-nos mais.
A possibilidade de patentear cada vez mais coisas, incluindo algoritmos, organismos e sequências genéticas, está a drenar imensos recursos à economia e a dificultar a inovação (4), com consequências graves quando se trata de terapias ou vacinas (5).

A patente devia ser um acordo, para benefício mútuo, celebrado entre a sociedade e o inventor.
Um exemplo histórico disto foi o monopólio que Henrique VI concedeu em 1449 a João de Utynam. Em troca de ensinar a sua técnica de fabrico de vidro aos artesãos ingleses, o inventor ficou com o direito exclusivo de explorar comercialmente esse processo no Reino Unido durante vinte anos (6).
Conceder protecção em troca da revelação de um potencial segredo industrial é a justificação fundamental das patentes, que exigem uma descrição detalhada e pública da invenção protegida.
No entanto, ao conceder patentes sobre coisas como a sequência de um vírus, um algoritmo ou o gesto de deslizar o dedo para activar o telemóvel (7), o sistema que agora temos afastou-se muito do seu propósito original.

Um Estado ter de conceder a si próprio um monopólio legal sobre investigação paga com fundos públicos para evitar que se torne exclusiva de alguma empresa privada demonstra claramente que o sistema de patentes se tornou uma aberração.
É este problema que devíamos atacar. Quer nas PATENTES quer no COPYRIGHT, fomo-nos gradualmente afastando da ideia do monopólio concedido para beneficiar a sociedade.
Por exemplo, conceder uma patente em troca da revelação de um processo que de outra forma ficaria secreto ou o direito exclusivo de imprimir em papel uma obra que sem esse monopólio ninguém iria imprimir e distribuir.
Em vez disso, prevalece agora a premissa de que as ideias são propriedade de alguém – autor ou gestor – e que são os direitos de propriedade que justificam os monopólios mesmo à custa dos direitos de terceiros.

Esta patente sobre a sequência, transformação e diagnóstico do vírus não confirma o «que corre pela Internet sobre o vírus ser fabricado, plantado e cuidadosamente testado para o controlo da população mundial».

Mas o sistema que permite patentear ..


De Sistema de Patentes e de Copyright a 1 de Setembro de 2014 às 12:19

http://ktreta.blogspot.pt/2014/08/treta-da-semana-passada-patente.html#comment-form
...
...

Mas o sistema que permite patentear estas coisas está a violar os direitos de muita gente e a causar mortes de outra forma evitáveis.

1- Portugal Mundial, Porque o governo americano é detentor da patente do Ébola?(via Facebook)
2- Google, Human ebola virus species and compositions and methods thereof
3- Wikipedia, Defensive Patent Aggregation
4- Por exemplo, «Last year [2011], for the first time, spending by Apple and Google on patent lawsuits and unusually big-dollar patent purchases exceeded spending on research and development of new products, according to public filings.», New York Times, The Patent, Used as a Sword 5- Por exemplo, MERS watch, Dutch Patent Grab Blocks MERS Vaccine Research
6- IP & Science, The History of Patents
7- USPTO, Unlocking a device by performing gestures on an unlock image

(-por Ludwig Krippahl, 2014/8/17)
---------
antoniolmcarvalho18/08/14, 23:23

Sempre me pareceu bastante interessante que nos EUA para patentear algo seja suficiente uma descrição genérica que diz que alguém se propõe a fazer algo, ainda que não descreva como o conseguir. Parece ser essa a história de inventores famosos como Morse, Edison e muitos outros.

Por outro lado, é curioso como esses registos de patentes genéricas dão origem a lutas titânicas entre esses registos e outros por exemplo na Europa. Todos os casos que mencionei são também disso bons exemplos.

Acho que é bastante interessante o que já tem ocorrido com outros casos de patentes farmacêuticas, como no caso do SIDA, como vários países a simplesmente passarem por cima desses direitos e a fazerem com que os direitos das populações ficassem acima das patentes.

A questão pode ser colocada em duas lutas: 1) se os políticos dos países têm coragem suficiente para tal decisão e 2) depois de essa decisão tomada, como convencer as farmacêuticas a fornecerem esses mesmos países.

Como adenda, descobri esta notícia já com uns anitos. Mas é ainda assim bastante actual: Companhias farmacêuticas retiram queixa no caso dos genéricos de combate à sida na África do Sul


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